• Nenhum resultado encontrado

Natureza e Objetivos da Auditoria Financeira

CAPÍTULO I – A AUDITORIA E O AUDITOR

1.2. Natureza e Objetivos da Auditoria Financeira

A American Accounting Association (AAA, 1973) refere que a auditoria financeira é um processo que objetivamente obtém e avalia a evidência sobre a atividade económica e os acontecimentos de uma empresa, para averiguar o grau de correspondência entre estas informações e os critérios estabelecidos na sua execução. Concisamente, a auditoria financeira tem como objeto promover segurança sobre a qualidade das mensagens contabilísticas emitidas pelas empresas.

Segundo Flint (1988) a função da auditoria financeira tem evoluído em resposta a uma sentida necessidade de indivíduos ou grupos na sociedade que procuram informação ou garantia acerca da conduta ou atitude de outros nos quais eles têm um interesse legítimo e reconhecido. Ideia partilhada por Boynton, Johnson e Kell, (2002) que a relaciona com o início das atividades económicas desenvolvidas pelo homem:

“Auditoria começa em época tão remota quanto à contabilidade. Sempre que o avanço

da civilização tinha implicado que a propriedade de um homem fosse confiada, em maior ou menor extensão, a outra, a desejabilidade da necessidade de verificação da

fidelidade do último, tornou-se clara”.

Nos primórdios da auditoria financeira, a mesma não era encarada como uma função pública, tal como é entendida hoje em dia. Era entendida como um negócio privado entre as partes interessadas: o auditor que realizava uma revisão às demonstrações financeiras com vista à deteção de erros e fraudes e a entidade que contratava o serviço, necessitando de um especialista independente que intervinha e operava sobre a maneira como era conduzida a gestão.

No entanto, a finalidade original de que o auditor tinha como objetivo a deteção de erros e fraudes, foi completamente ultrapassada, e a função do auditor é atualmente de emitir uma opinião sobre a fiabilidade das demonstrações financeiras que devem ser elaboradas segundo os princípios de contabilidade geralmente aceites, responsabilidade exclusiva da direção da empresa (Costa & Alves, 2005). Em Portugal, esta responsabilização por parte da direção da empresa foi igualmente referenciada no POC7

16

(1989), sendo que atualmente o Sistema de Normalização Contabilística (SNC)8 no seu ponto 3.1. (Características da Informação Financeira – Objetivos) salienta o seguinte: “a responsabilidade pela preparação da informação financeira e pela sua

apresentação é primordialmente das administrações”.

Neste sentido, Flint (1988) argumenta que a auditoria financeira existe porque grupos ou indivíduos interessados são incapazes por várias razões obter eles próprios a informação ou a garantia desejada. Deste modo, a função da auditoria financeira pode ser observada como um meio de controlo social porque serve como mecanismo para monitorizar a conduta e a performance.

Neste âmbito, Marques de Almeida (JTE9, 1998) refere que “a função essencial de um

trabalho de auditoria é permitir que o auditor esteja em condições de informar adequadamente sobre o grau de credibilidade da informação financeira refletida nas demonstrações financeiras”. Ainda segundo o mesmo autor, três objetivos secundários

da auditoria podem ser identificados:

Detetar erros e fraudes – apesar do trabalho do auditor ser avaliar a credibilidade

das demonstrações financeiras, deve o auditor no seu planeamento detetar eventuais erros ou fraudes;

Informações sobre o controlo interno – como uma das tarefas do auditor é

avaliar o controlo interno da empresa, deverá sempre que necessário, fazer no seu relatório eventuais reparos no que concerne a eventuais melhorias;

Assessoria económico-financeira – o auditor, ao avaliar a credibilidade,

fiabilidade e razoabilidade das demonstrações financeiras da empresa, fica com um conhecimento global da empresa, nomeadamente a nível patrimonial, financeiro e económico.

8

SNC – O Diário da República 1ª série, nº 133, de 13 de Julho de 2009, no seu Decreto-lei nº 158/2009 de 13 de Julho aprova o Sistema de Normalização Contabilística e revoga o POC (Decreto-lei nº 410/1989 de 21 de Novembro).

17

Autores como Abdel-Qader, (2002)ePorter, Simon e Hatherly (2005) são unânimes em afirmar que o objetivo de uma auditoria financeira tem sido sempre dinâmico e não estático. Brown (1962) afirma que o objetivo e as técnicas de auditoria financeira têm mudado durante os 400 anos de existência reconhecida para acompanhar as necessárias mudanças e expectativas da sociedade.

Assim sendo, e em virtude do aumento da dimensão e complexidade das operações efetuadas nos mercados financeiros, a função atual do auditor pode ser encarada segundo diferentes perspetivas: económica, social e legal.

 Económica: a auditoria financeira tem um carácter económico, uma vez que ao ser um serviço realizado por uma entidade privada, deve ter como objetivo a maximização da rendibilidade originada do exercício da sua atividade. Na opinião de Marques de Almeida (2001) a “auditoria transforma a informação financeira

num bem público, acessível ao público em geral, requerendo, por isso, um padrão mínimo de qualidade em ordem à proteção do público consumidor. O papel económico do auditor, num mercado regulamentado, é o de purificador da informação financeira”.

 Social: A auditoria financeira aparece para satisfazer necessidades da iniciativa privada, tendo, entre outras finalidades básicas, a de controlar de alguma maneira os administradores das empresas por mandato dos proprietários das mesmas. A crescente diversidade dos utilizadores da informação financeira fez alterar este panorama tripartido administrador-auditor-proprietário da empresa, ampliando consideravelmente o número de interessados no conhecimento dos dados das empresas. Deste modo, a auditoria financeira passou também a assumir uma dimensão social desconhecida na sua origem. Considerando-se mesmo que a função social do trabalho do auditor não deve limitar-se à simples comprovação e verificação dos registos contabilísticos. A avaliação externa da eficiência da organização, isto é, a análise estratégica da empresa, é reclamada pelas correntes mais abrangentes da auditoria, ao proporem o desenvolvimento do trabalho de auditoria à compreensão da análise da situação estratégica em que se encontra a empresa, Vinten (1991).

18

Neste sentido Ruíz Blanco (1997) afirma que os auditores tomaram consciência do interesse mostrado pelo público em geral e a Lei da Auditoria assumiu “a tendência a

reconhecer a responsabilidade social do auditor (...) tendo em conta a maior participação da sociedade na atividade económica”. Em Portugal a responsabilidade

social parece de igual modo, estar a assumir uma posição de destaque nas organizações com a Lei n.º 141/85 de 14 de Novembro, alterada pelo Decreto-lei n.º 9/92 de 22 de Janeiro, que estabelece que as empresas que, no final do ano civil, tenham pelo menos 100 trabalhadores devem elaborar, até 31 de Março do ano seguinte, o respetivo balanço social.

Legal: A perspetiva legal da auditoria financeira surge como consequência da

função social, já anteriormente abordada ou da repercussão do bom ou mau funcionamento que as empresas têm na sociedade. Como resultado desta situação, os governos sentiram necessidade de criar mecanismos que garantissem um certo grau de segurança, postos em prática por profissionais independentes. Em Portugal, é competência dos Revisores Oficiais de Contas, a fiscalização da gestão com vista ao cumprimento das disposições legais e estatutárias das empresas, sem ir contra as competências atribuídas por lei aos seus órgãos e aos membros destes. A auditoria financeira é assim vista na maioria das vezes, como resultado de uma obrigação legal. Como salientado pelo número 2 do artigo 44º do Decreto-lei n.º 224/2008, de 20 de Novembro10, estabelece que,

“a certificação legal das contas exprime a opinião do Revisor Oficial de Contas de que as demonstrações financeiras apresentam, ou não, de forma verdadeira e apropriada, a posição financeira da empresa ou de uma outra entidade, bem como os resultados das suas operações e os fluxos de caixa, relativamente à data e ao período a que as mesmas se referem”.

10

Decreto-lei que introduz no Estatuto da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas, aprovado pelo Decreto-lei nº487/99 de 16 de Novembro as alterações que decorrem da transposição para a ordem jurídica interna da Diretiva nº 2006/43/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 17 de Maio, relativamente à revisão legal de contas anuais e consolidadas.

19

As sociedades legalmente sujeitas à revisão de contas são as sociedades anónimas e as sociedades por quotas que, durante dois anos consecutivos, ultrapassem dois dos três limites do art.º 262 do CSC.11

Daí podermos concluir que a função social, económica e legal da auditoria financeira deve responder às necessidades de os seus utilizadores disporem de uma comprovação independente da informação divulgada pela empresa que os gestores terão elaborado e que está devidamente evidenciada nas contas anuais, como é ilustrado na figura seguinte:

Figura 1 – A Função Da Auditoria

Fonte: Adaptado de Orta Pérez, Manuel «Una propuesta de marco conceptual de la auditoria de cuentas

anuales», 1996, p. 83

11

nº 2 do art.º 262 (Fiscalização): “As sociedades que não tiverem conselho fiscal devem designar um revisor oficial de contas desde que, durante dois anos consecutivos, sejam ultrapassados dois dos três seguintes limites:

a) Total do balanço: 1.500.000 euros

b)Total das vendas líquidas e outros proveitos: 3.000.000 euros e c) Número de trabalhadores empregados em média durante o exercício: 50

Fiabilidade/Re levância Contas anuais Contas anuais auditadas Função social e económica Sociedade Leis e Normas Empresa Auditoria Objetivo

20

Também Knechel (2001) aponta como objetivo da auditoria financeira:

 Avaliar se as demonstrações financeiras foram elaboradas de acordo com os Princípios Contabilísticos Geralmente Aceites;

 Avaliar a possibilidade de existência de demonstrações financeiras fraudulentas;  Avaliar a probabilidade da empresa continuar em atividade;

 Avaliar o potencial da organização para manter a sua posição competitiva no mercado.

De igual modo, também Geada (2005) salienta que “a atual importância do Auditor é

facilmente avaliada quando comparada com o crescimento em dimensão e complexidade das grandes empresas, cujos títulos de dívida e capital constituem uma parte muito significativa das poupanças investidas da economia. Os mercados de capitais simplesmente não poderiam operar sem a confiança impressa pelo trabalho desenvolvido pelos auditores.” As mudanças nas necessidades e expectativas da

sociedade são altamente influenciadas pelos fatores contextuais da envolvente económica, política e sociológica em determinado momento.

Ao longo do tempo, vários foram os organismos e associações internacionais em matéria de contabilidade e auditoria que se têm pronunciado sobre os objetivos da auditoria financeira, nomeadamente:

Para a Union Europénnee des Experts Comptables, Economiques et Financiers (UEC) (cit. in Costa, 2007) “ o objetivo de uma auditoria às demonstrações

financeiras consiste em expressar uma opinião relativamente a se tais demonstrações financeiras apresentam ou não uma imagem verdadeira e apropriada (“a true and fair view”) da situação dos negócios da empresa à data do balanço e dos seus resultados do ano financeiro, tendo em consideração a lei e os costumes do país onde a empresa se encontra registada”.

21

Para a IFAC12, organismo internacional encarregado da elaboração das Normas Internacionais de Auditoria (NIA) (cit. in Costa, 2007), “o objetivo de uma auditoria às demonstrações financeiras é o de permitir que o auditor expresse uma opinião sobre se as demonstrações financeiras estão preparadas, em todos os aspetos materiais, de acordo com a estrutura conceptual de relato financeiro aplicável13”.

Segundo a norma de auditoria norte americana SAS14 nº1 (Responsibilities and

Functions of the Independent Auditor) o principal objetivo de uma auditoria é avaliar se

as demonstrações financeiras expressam, de forma verdadeira e apropriada, em todos os aspetos materialmente relevantes, a posição financeira da empresa e o resultado das suas operações, de acordo com os princípios contabilísticos geralmente aceites e depois do auditor ter efetuado uma auditoria de acordo com as normas de auditoria geralmente aceites. Fazendo um resumo do que foi referido anteriormente, podemos sintetizar os principais objetivos da auditoria do seguinte modo:

 Garantia da informação financeira

O estabelecimento de uma obrigação de auditar as demonstrações financeiras terá como principal argumento a transparência das demonstrações financeiras que devem apresentar aos gestores do negócio como instrumento transmissor de informação aos investidores sobre a situação financeira da empresa.

 Divulgação dos resultados no relatório de auditoria financeira

As empresas desenvolvem um volume de atividades sobre as quais proveem uma ampla variedade de informação aos indivíduos com direitos legítimos na atividade das empresas, o qual vai determinar a forma de como estes tomam conhecimento das

12 IFAC – International Federation of Accountants. 13

ISA 200 – Objective and General Principles Governing an Audit of Financial Statements. Em vigor desde 15 de Dezembro de 2005.

22

referidas atividades, influenciam a perceção de como os fenómenos empresariais se formam e assim determinam as ações ou decisões que estes tomarão.

Uma vez que a atividade das empresas influência de forma evidente a conduta dos agentes económicos surge a necessidade de analisar em que medida é revelada a atividade da empresa, ou seja, a divulgação de um amplo volume de informação, resultar credível e confiável.

Como é óbvio, a grande relevância da função supervisora da auditoria financeira, aumenta á medida que aumenta a importância da informação contida nos relatórios anuais.