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OBJETIVANDO O NOSSO OLHAR

NECESSIDADE DE COMPLEMENTAÇÃO

Eu, sinceramente, acho que foi um serviço mal feito. Até o sanitário

eu tive que comprar, porque eles não ‘tinha’ dinheiro. [...] Meu

banheiro foi uma negação, o piso escorregava mais do que sabão, aí

eu troquei. [...] Não botaram as barras que precisava por causa

desse meu problema da perna. Eu tive AVC e todo mundo disse que era pra botar as barras por causa desse meu problema, não botaram

(Moradora SF02R em entrevista 02 de set de 2019, grifo nosso).

Só que eles fazem uma casinha muito pequena, né não? Porque, olhe, aqui é cinco pessoas. O meu menino dormia na sala, aí teve que

aumentar para fazer o quarto dele. [...] De repente aqui cresceu,

porque meu marido trabalha com negócio de salgado, aí era muito

pequeno, tem que ser grande [a cozinha], porque tem o fogão

industrial e esse daí é ‘deu’ cozinhar, o outro é industrial, né? Para assar os negócios. Uma mesa dessa não cabia. Depois ele cresceu

mais, porque é o trabalho dele, tem que utilizar. Esse freezer não

cabia (Moradora SP01C em entrevista 05 de set de 2019, grifo nosso). A única coisa dessa casa popular que a gente ficou muito a desejar, mas era um modelo a nível nacional que se dizia, era a questão do

banheiro que era para a sala [...]. O banheiro, quando a gente entra,

na porta que a gente entra já dá de frente para o banheiro, e aí os dois quartos ‘fica’ ao lado, a cozinha também é muito pequena, mas quem aceitou sabia (Silvana Rodrigues, ACQMV, em entrevista 29 de

jul de 2019 grifo nosso).

Para além da dualidade entre a empresa de construção e a de melhoria, constatamos que ambas não atingiram o habitar e as expectativas dos moradores. Embora cientes das limitações do projeto das novas UHs e do limite orçamentário para as reformas, percebemos que o resultado das moradas não correspondia às reais demandas da maioria das famílias. No caso da moradora SF02R, houve a indicação de construção, prevista no projeto inicial34, de um banheiro adaptado para pessoa com

deficiência física, em decorrência de uma limitação em sua perna direita. Contudo, não só implantaram um piso derrapante, como também não instalaram as barras de suporte, como visto na Prancha 03 em que visualizamos o banheiro com o novo piso adquirido pela moradora e reparos nas tubulações hidráulicas decorrentes de vazamento.

34 O único caso de melhoria com ampliação nos projetos elaborados pelo GEHAU/SEHAB, de acordo

com os requisitos apresentados pela Caixa, corresponde aos banheiros, já que parte das habitações não os continham.

As falhas das reformas que exigiram reparos e/ou complementação custeados pelos próprios moradores foram inúmeras, das quais ainda destacamos o caso do morador SF01R que, embora previsto, no projeto do GEHAU/SEHAB, orçamento suficiente para a substituição de todo o sistema elétrico de sua casa, a construtora alegou não haver recursos para tanto, devendo o proprietário assumir parte dos gastos (Prancha 04). Além disso, o aumento do pé direito da casa não foi realizado, trocando-se apenas o madeiramento que ainda resultou em rachaduras (vide Figura 36.a). SF01R refez os reparos e elevou as alvenarias (áreas em tijolo aparente), entretanto, devido à ausência de orientações técnicas, deixou a fiação exposta e entrelaçada (Figura 36.b), acarretando em risco eminente de curto-circuito.

Figura 36 - a. Marca de rachadura proveniente das obras de melhorias; b. Elevação do pé direito e fiação exposta oriunda de reforma feita pelo morador.

a. b.

Já em relação às novas UHs, observamos constante as reclamações referentes ao tamanho da cozinha e localização do banheiro. Conforme modelo apresentado no item 1.3, a área da cozinha é de 3,63m² e a porta do banheiro está localizada em frente à entrada da casa. Fatores como necessidade de armários, espaço de trabalho, instalação de eletrodomésticos e apoio às atividades de cultivo foram elencados no primeiro quesito, enquanto que privacidade e fluxo interno, ao segundo. Além desses, pontuaram também a quantidade insuficiente de quartos e ausência de uma área de serviço coberta. De um modo ou de outro, podemos concluir que, ao adotar uma planta padrão e generalista, não seria possível refletir os anseios de uma comunidade específica. Diante desse cenário, a moradora SP01C ampliou a casa original (37,78m²) em 40,58m², resultando em uma área duas vezes maior que a inicial (81,93m²). Esse valor, embora bastante superior ao projeto implementado, condiz com a realidade local, já que, perante os estudos do GEHAU-SEHAB, a dimensão padrão das moradias de Moita Verde é de 49,43m², havendo ainda uma grande quantidade acima de 100m² (Prancha 05).

Do relato de SP02C, inferimos ainda a importância dada ao ambiente cozinha que passou de 3,63m² para 23,13m² - quase oito vezes maior à dimensão inicial. A justificativa apresentada condiz com a principal fonte de renda da família: a fabricação e venda de salgados. Essa constatação evidencia a importância em se considerar o real programa de necessidades para a elaboração de uma habitação de interesse social, sabendo tratar-se de usuários com baixas condições financeiras. Para além do amparo à renda familiar, percebemos que o espaço da cozinha e áreas de serviços são comumente utilizados pelos moradores, acessando, na maioria das vezes, suas casas através deles e servindo de espaço, também, para o recebimento de visitas.

Ainda a respeito da reforma de SP01C, vimos que o projeto da UHs não estava coerente com as possibilidades de ampliação, já que as moradias se localizam enfileiradas, conforme apresentado no item 2.1, tornando impraticável o aumento pelas suas laterais, sendo possível apenas para os fundos do terreno. Na situação de SP01C, ao ampliar sua cozinha, enclausurou seu banheiro, deixando-o sem área de ventilação e iluminação (ver Prancha 05). Com isso, vemos o importante papel dos profissionais da construção civil a serviço de comunidades de interesse social, em vista da permanente demanda de adaptação de moradias por questões de trabalho, necessidades físicas ou sistema de coabitação.

Outra modificação executada em UHs recebida está na casa de Silvana Rodrigues. Na reforma que realizou, foram acrescidos 20,06m², incluindo um quarto, cozinha e um espaço para estabelecimento comercial – a bodega. Sem a orientação técnica, verificamos a ausência de janela para iluminação e ventilação no Quarto 03 (em Prancha 06). Insatisfeita com o resultado de sua obra, ainda aponta: má conformação da sala atual, a qual não possui espaço para compor sua sala com televisão, ausência de um banheiro adaptado para o seu pai, necessidade de um quarto de estudo e um closet. Os anseios da moradora, assim, não foram alcançados nem com a nova UH, nem com a reforma que a própria realizou, partindo de recursos pessoais e sem a devida orientação técnica. Seus desejos, contudo, foram modificados com a experiência de morar em uma casa do Conjunto, incluindo closet e quarto de estudos no seu novo programa de necessidades.

Por fim, é importante frisar que houve um consentimento em relação às fachadas das casas construídas, ouvindo em conversas informais que eram “bonitinhas” e, segundo nossa percepção, bastante semelhante ao encontrado nos sítios de Moita Verde, como podemos perceber no Apêndice E com as casas de SP01R e demais construídas, seguindo o modelo porta-janela com varanda frontal e caimento de duas águas laterais. Além disso, a implantação das novas moradas nos sítios foi coerente com a lógica espacial local, de acordo com as indicações dos próprios moradores.

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