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OBJETIVANDO O NOSSO OLHAR

PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO

No começo foi uma benção que, tipo, a conclusão foi muito rápida

[na construção]. Aí depois quando veio a segunda etapa, já foi aquele

negócio mais [lento] (Moradora SP02R em entrevista 10 de set de 2019, grifo nosso).

Em cima do que conversaram com o dono foi feita a planta, na UFRN, e se pensava e chamava o dono: “Olha, a gente pensou em fazer sua casa assim, você aceita?”, a pessoa: “não, não aceito, não” ou “eu aceito, mas eu quero que modifique isso”. E aí foi tudo levando

tempo, entendeu? Só que quando a bendita reforma chegou, atropelou tudo e aí já não era esse papo, esse projeto. [...] Mas,

assim, no início do projeto foi tudo a mil maravilhas, era tudo bonito, tudo perfeito! (Silvana Rodrigues, ACQMV, em entrevista 29 de

jul de 2019, grifo nosso).

A interpretação das falas acima nos indica uma divergência entre o momento inicial de implementação do Programa, com construção das novas UHs e desenvolvimento dos projetos para as unidades existentes, e as etapas finais de execução das melhorias, presentes na oposição “No começo x Segunda etapa”. Na fala da Moradora SP02R, verificamos a diferença entre a agilidade nas obras de construção e reforma, executadas mediante licitações e construtoras diferentes. As origens dessa discrepância são diversas, mas essa queixa evoca o interesse comum dos órgãos gestores e empreiteiras em projetos uniformizados, viabilizando a lógica da produção em massa. A saber da existência de um projeto-padrão para as novas UHs e a necessidade de elaborar novas propostas para as casas existentes, podemos inferir a preferência do setor construtivo em se responsabilizar pelo que lhe parece mais vantajoso, fato esse comprovado pelo desinteresse das demais empresas inscritas na licitação após a desistência da ganhadora.

Outro ponto possível de explorarmos, diz respeito à perspectiva de tempo nos momentos prévios em comparação aos de obras. Silvana Rodrigues evidencia o contraponto entre o tempo que levou para o desenvolvimento das propostas de melhorias e sua execução pela construtora, a partir da relação “Levar tempo x Atropelar tudo”. Cabe a nós ressaltar que o princípio norteador na elaboração desse Programa vinculava-se ao interesse em envolver e ouvir a população, estimulando sua participação efetiva e construindo de modo colaborativo seus projetos, a fim de oferecer a obra mais próxima de seu habitar. Para isso, é imprescindível a previsão de um período mais longo nas etapas de aproximação e estudos com seus moradores,

fato esse expressivo na proposição de programas participativos. A continuidade desse enfoque remetia a um planejamento de obras que possibilitasse o controle e acompanhamento pela própria comunidade, sendo informados não só das etapas realizadas, mas também da transparência nos gastos e justificativa de medidas adotadas. Contudo, verificamos uma ruptura nesse processo, acarretando em uma alteração de postura pela sua gestão, como verificamos nas falas seguintes:

Eles concluíram todas as construções para depois ser as reformas. Eu sei que veio os estudantes da UFRN para fazer as plantas das casas, né? Mas teve casa que não saiu de acordo com o que era na

planta, de acordo com o que os estudantes fizeram, porque a empresa

estava fazendo do jeito que queria: tirava porta de um canto e botava em outro, fazia do jeito que queria, a empresa (Carla Gabriela da

Silva, ACQMV, em entrevista 15 de out de 2019, grifo nosso).

Então quando colocaram um novo secretário e nós voltamos no outro ano, nós tivemos que refazer todas as oficinas, toda essa caracterização que já havia sido feita. [...] Nós fomos ficando como memória, mas sem nenhum apoio mais e muito menos a equipe local. [...] A gente saiu quando eles botaram essa empresa para fazer, que já não era aquela ideia de considerar [o morador]. [...] Na hora em que essa gestão perdeu, o integrado se desfez (Dulce Bentes,

GEHAU/DARQ/UFRN com administração da FUNPEC, em entrevista 01 de out de 2019, grifo nosso).

Como bem pontua a atual dirigente da ACQMV, Carla Gabriela da Silva, a etapa de construção de moradias foi totalmente concluída, ao passo que a de melhorias apresentou problemas. Essa diferença entre a forma de condução das distintas frentes de execução (construção x melhoria) representa, para nós, o interesse maior das construtoras em obras de construção – vide um projeto padrão – do que melhorias – a qual necessita de diálogo com os moradores. O entrave na fase das melhorias, por sua vez, consiste na mudança de cenário na gestão. A professora Dulce Bentes enfatiza a desestruturação do amparo institucional local, marcando esse novo momento a partir da saída do antigo secretário, Homero Grec. Com isso, a participação integrada das equipes da SEHAB, SEMAS, GEHAU/UFRN e SEMOP, envolvidas no começo da intervenção, foi fortemente fragilizada e, consequentemente, o Programa como um todo, já que dependia de uma colaboração multidisciplinar.

Além disso, o acompanhamento das obras das melhorias, por razões burocráticas, direcionou-se à SEMOP, enquanto que a empresa contratada para a execução das obras foi escolhida perante processo licitatório comum, sem considerar a peculiaridade do projeto em questão. Desse modo, passou-se a “desconsiderar o

morador” ou, como expressou anteriormente Silvana Rodrigues, “mudou-se o papo” de sempre recorrer à opinião dos habitantes. A postura do Poder Público, representado pelas instâncias mencionadas, volta, assim, ao seu papel já conhecido, interferindo na relação de credibilidade construída com os quilombolas. Somamos a isso a desconsideração dos resultados obtidos após um ano de estudos e serviços prestados pela parceria SEHAB/GEHAU/SEMAS, de acordo com entrevista da professora Dulce Bentes e o descumprimento das melhorias pontuadas nos projetos desenvolvidos por essas equipes, o que vimos como um desrespeito e desvalorização da sua atuação e expectativas dos moradores. É nesse interim que o Programa de Urbanização Integrada começa a se perder, afastando-se progressivamente, embora as tentativas dos servidores da SEHAB em retornar com a etapa de melhorias a partir de metodologias participativas que, segundo Vinicius Albino, previa-se, pelo andamento do processo, ser apropriada e satisfatória para os resultados esperados. QUALIDADE DAS OBRAS

A casa é toda feita no radier, não tem rachadura, agora essa da reforma... As casas que foram feitas da construção “dá de dez à

zero” na reforma (Morador SP01CF em entrevista 11 de out de 2019, grifo nosso).

A construção, como eu ‘tou’ te falando, foi per-fei-ta. A empresa que ganhou, uma empresa totalmente ética, primeiramente, material de

primeira - não foi material de terceira, foi de primeira, né? A mão de

obra, se na comunidade tivesse, eles aproveitavam a mão de obra

da própria comunidade, não foi gente de fora, não. Já a reforma, veio

gente de fora, eles já vieram com a equipe deles, não pagava o povo.

(Silvana Rodrigues, ACQMV, em entrevista 29 jul de 2019, grifo nosso).

Ao nos determos à avaliação quanto à qualidade das obras, percebemos que a diferença entre as construções e melhorias não se restringe ao tempo de execução, mas também à qualidade do que foi ofertado, perante a comparação “dá de dez à zero”, apresentada por SP01CF. Salientamos que esse morador retrata tanto os habitantes que receberam às novas UHs, ao representar seu pai falecido, quanto aos de melhorias33, por tê-la recebido em sua casa. Na sua entrevista, ao se referir a casa

construída, elogia a qualidade dos materiais e a ausência de problemas estruturais,

33 Nesse caso, embora o Programa propusesse apenas melhorias técnicas e estruturais –

correspondendo aos projetos desenvolvidos pelo GEHAU -, a construtora realizou, na casa de SP01CF, reforma e ampliação, aumentando dois cômodos em sua residência.

reclamando apenas da dimensão da cozinha, que “não cabe nem uma fileira de armário”, e da varanda. Com o falecimento de seu pai, alugou a casa para um dos seus primos, filho de SF01R, já que o mesmo não tem condições de construir uma nova habitação para sua família. Nesse cenário, percebemos o moldar de um novo modo de morar em Moita Verde, mantendo-se, entretanto, a intenção e o desejo em permanecer no território de origem. Já em relação à reforma, como vemos em Prancha 01, o morador não conteve as queixas, sobretudo na ausência de melhorias na parte já existente. SF01CR foi um dos moradores que não estava cadastrado nas melhorias previstas nas etapas iniciais, sendo inserido após a saída do GEHAU/UFRN. Ele ainda relata que, embora acordado com a construtora a substituição do madeiramento da parte existente (atuais quartos 01 e 02) e o reboco da alvenaria, nada foi feito, sendo efetivada apenas a ampliação já com “cozinha americana” – solicitado pelos moradores. O mesmo relata SP01R (ver Prancha 02) que, embora a obra tenha sido coerente com o projeto, não houve a compra de portas e janelas dos quartos, além de tentarem inserir peças sanitárias de casas demolidas.

A empresa contratada para as novas UHs, entretanto, correspondeu às expectativas dos moradores, conforme quadro-síntese “Qualidade das habitações” em Apêndice F, ao ofertar um diferencial na qualidade das construções e utilizar a mão-de-obra local. Já a empresa de melhorias, atuou de modo ilícito ao reutilizar materiais das casas demolidas e não cumprir com o acordado com os moradores e a equipe técnica do GEHAU/UFRN e da SEHAB. De acordo com o engenheiro Flávio Teixeira, servidor da SEMOP (ver entrevista completa em Apêndice H), a construtora não estava preparada para gerenciar esse tipo de contrato. Diante desse cenário, a ACQMV apresentou suas queixas à Prefeitura, solicitando mudança de empresa, entretanto, a mesma desistiu da obra após a nona obra realizada de um total estimado de 113 habitações. Flávio Teixeira ainda relata que as demais empresas inscritas no processo de licitação, ao serem convocadas, se recusaram a assumir o projeto.

Isto posto, inferimos a necessidade de inserir nos termos de referência para os processos de licitação de construtoras, em projetos como esse, de critérios e usos de técnicas que propiciem a continuação da participação da comunidade. Dessa forma, buscar-se-ia garantir a consonância entre o que fora desenvolvido e o que realmente viria a ser efetivado, não só em aspectos construtivos, mas sobretudo nas suas ressonâncias nos moradores, na relação de confiança e credibilidade com o corpo técnico e o retorno às suas expectativas.