A interculturalidade nas escolas portuguesas do 1.º Ciclo
1. Os primeiros passos da educação intercultural em Portugal
1.1. Necessidade de uma educação intercultural
De acordo com Ana Paula Cordeiro (1997:167-170), cuja reflexão inicial seguimos aqui de perto, um dos factores mais intimamente ligado ao recente avanço da educação intercultural em Portugal tem sido o aumento da natureza multicultural da sociedade portuguesa, resultante das várias vagas de imigração que têm vindo a ocorrer desde os anos 70.
Refira-se que a posição geográfica de Portugal sempre foi favorável ao estabelecimento e à interacção de diferentes pessoas e culturas. Contudo, apesar do facto de a população a residir em Portugal ter vindo a revelar uma natureza multi-étnica, a heterogeneidade cultural da população só se tornou significativa em Portugal nas últimas décadas. Vários acontecimentos, tanto a
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nível nacional como internacional, criaram uma nova dinâmica no que diz respeito aos movimentos migratórios para Portugal. Estes tiveram profundas repercussões a nível da estrutura demográfica.
Entre tais acontecimentos está a crise económica que se vive actualmente a nível mundial, que tem vindo a afectar fortemente a economia europeia e a causar a ruptura de muitas organizações industriais. Este facto trouxe consigo alterações em termos de oportunidades de emprego, que estavam até então disponíveis essencialmente nos países da Europa do Norte, para passar a haver também novas oportunidades nos países do Sul, criando- -se desta forma novos percursos e novos fluxos migratórios. Tal situação tornou-se também evidente em Portugal, tradicionalmente mais conhecido como país de emigração e que passou, por sua vez, a receber os novos movimentos migratórios.
No caso português, podemos afirmar que a mudança de regime em Portugal (1974) e o consequente processo de descolonização tiveram um papel crucial no processo de intensificação da heterogeneidade cultural da população a residir em Portugal, que se caracterizava já por alguns traços de uma sociedade multicultural, com vários grupos étnicos em presença, entre os quais se podem destacar os ciganos e os africanos.
O aumento do número de cidadãos estrangeiros em Portugal, desde o início dos anos 80, usufruindo do estatuto de imigrante, de exilado ou de refugiado contribuiu definitivamente para marcar a natureza heterogénea da nossa sociedade. Referimo-nos a indivíduos com origens culturais e geográficas muito diversas, vindos de situações sociais e económicas extremamente dissimilares.
Entre os cidadãos estrangeiros com autorização para viver em Portugal, os nacionais de nações africanas onde se fala o português como língua oficial, como Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, têm uma maior proeminência. A este grupo devemos ainda acrescentar o caso das pessoas oriundas de Timor-Leste e de Macau.
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A luta pelo poder que gerou uma guerra civil em muitos países africanos independentes e as dificuldades sentidas relacionadas com o estado de subdesenvolvimento social e económico fez também com que milhares de pessoas abandonassem os seus países de origem. Dadas as afinidades culturais e linguísticas, muitos procuraram estabilidade e condições básicas de sobrevivência no poder ex-colonial.
Contudo, entre os estrangeiros legalmente a viver em Portugal, os europeus revelam também um elevado perfil. As razões subjacentes à sua presença parecem estar relacionadas com a situação social e económica resultante da consolidação da democracia portuguesa que atraiu novos investimentos estrangeiros, nomeadamente na área do turismo, comércio, agricultura e serviços.
Do número total de estrangeiros originários da Europa comunitária, os cidadãos vindos da Grã-Bretanha e Espanha parecem estar em maior percentagem. O fluxo de imigrantes vindos de França, Itália e Alemanha é também importante, revelando aumentos significativos.
Os brasileiros têm igualmente uma considerável representação numérica. O crescimento observado nesta actual rede migratória está ligado, entre outras razões, com a existência de afinidades culturais e linguísticas. Além disso, temos também a instabilidade social, económica e política que se vive no Brasil.
A nova composição geopolítica da Europa contribuiu, do mesmo modo, para a vinda de estrangeiros para Portugal. O país tornou-se, como muitos outros, num anfitrião para cidadãos da Europa de Leste que deixaram os novos estados independentes dessa região devido a problemas e dificuldades vividas após a queda dos antigos regimes políticos.
Olhando para os números que estão disponíveis para caracterizar esta nova realidade, torna-se evidente a evolução do número de estrangeiros residentes em Portugal, que se traduz num crescimento contínuo desde 1980 até aos últimos anos. Trata-se de uma evolução subestimada dado, em particular, a existência de um número considerável de autorizações de
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permanência e indeterminado número de imigrantes ilegais, ou seja, efectivamente residentes, mas sem autorização administrativa de residência.
De acordo com os dados dos Censos realizados, o número de estrangeiros residentes em Portugal passou de 127.370, em 1991, para 232.695, em 2001, registando, nesse período, um crescimento de cerca de 83% (variação média anual de 6.2%) e contribuindo em 22% para o acréscimo do volume populacional observado em Portugal na década de 90. As estimativas sobre o número de imigrantes efectivamente residentes em Portugal são diversas. As mais actualizadas apontam para cerca de meio milhão, correspondentes a não mais de 5% da população residente. O peso da população estrangeira residente em Portugal continua, no entanto, a ser reduzido, quando comparado com o registado noutros países europeus.
Estima-se que, dos estrangeiros a residir em Portugal presentemente, cerca de 55% tenham origem em países da CPLP, 28% em países da União Europeia e 11% em países da América do Sul. Ainda que a imigração proveniente de países asiáticos e de países europeus não comunitários tenha crescido de forma expressiva, o seu peso no total da população estrangeira legalmente residente em Portugal aproxima-se, respectivamente, de 5 e de 4%. A distribuição regional deixa revelar a maior concentração na área Metropolitana de Lisboa e nos maiores centros urbanos do litoral. É nos distritos de Lisboa (52%), Faro (14%) e de Setúbal (11%) que reside a grande maioria da população estrangeira.
Perante estes dados, torna-se inquestionável que é necessário olhar para a realidade portuguesa como um exemplo de sociedade inter/multicultural, o que exige, no campo específico que aqui nos interessa – a educação – um olhar atento sobre as formas como interpretar e intervir nessa realidade.
Note-se também que se tem vindo a verificar um aumento da consciência por parte quer do estado quer dos cidadãos, de que é necessário assumir os novos contextos sociais e procurar as melhores formas de ultrapassar as inevitáveis situações de desigualdade, a vários níveis, inclusive no campo educativo, que estas novas configurações trazem. E assim se torna
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plenamente justificada a necessidade e a urgência da implementação de uma educação intercultural.