Em 1885 a feminista francesa Hubertine Auclert escreveu defendendo a necessidade de uma nova forma de organização do poder político que se espelhasse nas qualidades naturais e morais da maternidade. Ela compartilha-va com muitas outras mulheres, feministas e não feministas, a ideia de que a maternidade não era um assunto restrito à vida particular e privada das mu-lheres e das famílias. Gerar e cuidar da vida tinha um significado muito mais profundo e envolvia responsabilidades que não podiam ser atribuídas exclusi-vamente às mães ou às famílias. A maternidade, segundo o pensamento refor-mista e feminista de finais do século XIX, deveria ser apoiada e protegida pelo Estado. Desta maneira Hubertine Auclert apontava para o que ela considerava serem as duas opções políticas dos Estados europeus: um Estado minotauro, que consumia seus cidadãos no ritual canibalístico das guerras e do descaso com a vida, numa explícita referência às péssimas condições de vida das classes trabalhadoras, ao abandono, ao pauperismo, à insegurança geral da existência, especialmente dos idosos, das crianças de das mulheres. A segunda opção é a configuração de um Estado maternal, ou seja, um ordenamento político da sociedade no qual as mulheres fossem efetivamente cidadãs no gozo dos seus direitos políticos e sociais a partir do reconhecimento da diferença feminina assegurada pela maternidade.
Um Estado maternal deveria valorizar e proteger a diferença feminina da maternidade ao mesmo tempo em que estenderia para toda a sociedade os valores associados ao cuidar, regulamentando a vida social através de leis pro-tetoras das mulheres-mães e das crianças, da saúde, da educação e da assistên-cia aos pobres e necessitados. Desta forma, um Estado maternal devia garantir a igualdade através da amplitude da cidadania (sufrágio universal e direitos civis para as mulheres) ao mesmo tempo em que preservaria a diferença de gênero protegendo e valorizando a maternidade.
Estas ideias constituem o que as historiadoras feministas denominaram de maternalismo, ou seja, um termo que abarca (a) a qualidade e os valores morais positivos referentes à maternidade como a reprodução, os cuidados e a proteção da vida; (b) uma percepção política de tais valores, bem como a compreensão de que a maternidade estava associada à dominação das mulhe-res numa sociedade patriarcal e que tal situação seria transformada através da ação política das mulheres; (c) uma firme e valorizada noção de diferença sexual que não devia ser limitadora, mas que garantisse o lugar social e moral
das mulheres numa ordem social mais justa e humanitária (KOVEN & MI-CHEL, 1990; PEDERSEN, 1990; BOCK & THANE, 1996).
Ao analisarmos as legislações sociais produzidas entre o final do século XIX e início do XX observamos que os primeiros trabalhadores das fábricas, ateliês e oficinas a contar com a proteção especial do Estado foram as mulheres e as crianças. Esta atenção diferenciada foi resultado de um conjunto de pressões políticas, mas cabe ressaltar que as análises sobre o welfare state minimizaram ou simplesmente ignoraram a influência do gênero na formulação das políticas de bem-estar que iniciaram no final do século XIX. Isto se deve ao tipo de abor-dagem realizada pelos especialistas que enfocaram a questão pela perspectiva da força de trabalho, vista como masculina, embora fosse grande a participação feminina na mão de obra, e pela economia política, salientando principalmente a intervenção do Estado na economia e a questão dos gastos públicos1.
As análises históricas do Estado do Bem Estar enfocaram somente as relações políticas a partir das organizações formais e oficiais como partidos, sindicatos, associações patronais, o poder legislativo e o quadro burocrático estatal. Contudo, análises mais recentes vêm mostrando como outras instân-cias de ação política desempenharam papel fundamental no desenvolvimento tanto do pensamento quanto do Estado do Bem Estar (KOVEN & MICHEL, 1990). O ativismo político e social das mulheres europeias e norte-americanas do final do século XIX, bem como as organizações assistenciais e filantrópicas, exerceram forte pressão na opinião pública e junto aos parlamentares em favor da infância e da maternidade. Como salientam Koven e Michel, não se pode compreender o desenvolvimento das políticas públicas de bem-estar social sem entender este movimento político que foi o maternalismo; sem levar em conta que havia interesses não apenas humanitários por parte do Estado em proteger a maternidade e a infância.
Análises levando em consideração o impacto do gênero na formula-ção do pensamento do bem-estar e no desenvolvimento de políticas públicas começaram a ser realizadas por historiadoras e sociólogas feministas na dé-cada de 1980. As críticas às teorias da modernização - que viam no Estado do Bem Estar apenas uma resposta às crises do liberalismo e do capitalismo - e aos historiadores sociais - que enfocaram apenas padrões políticos conven-cionais de ação - estão na origem da formulação de outras explicações por
1 Sobre as diferentes abordagens do welfare state ver EVANS, Peter B.; RUESCHEMEYER, Dietrich;
SKOCPOL, Theda (eds.). Bringing the State back in. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.
parte das acadêmicas feministas dos dois lados do Atlântico para entender o desenvolvimento do Estado entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Embora não se possa falar de uma teoria feminista do wel-fare state, pois as interpretações são muito diversificadas, da mesma forma que o arsenal conceitual, o que há em comum entre estes trabalhos é uma orientação teórica e metodológica em se repensar o Estado a partir de uma ampliação do conceito de política e a utilização do gênero como categoria de análise articulada a outras categorias como classe e raça. Foi a partir dessa nova orientação teórica que conceitos mais tradicionais na teoria feminista como patriarcado, por exemplo, foram repensados, bem como novos concei-tos começaram a ser utilizados, como o maternalismo.
Entender como historicamente o maternalismo foi formulado enquan-to valor moral e serviu de referência para a formulação de políticas públicas nos leva para o contexto das tensões sociais do capitalismo industrial no sé-culo XIX. A construção ideológica que opôs o mundo do trabalho assalariado ao mundo da casa e da família nasceu sob o signo das diferenças de gênero.
Nesta construção discursiva da oposição complementar de gênero as noções de necessidade e de dependência ganharam outros significados, como bem analisaram Nancy Fraser e Linda Gordon (1994). Tanto nos discursos patro-nais, religiosos e oficiais, quanto nos discursos dos trabalhadores organizados, a independência era um valor associado à ação no mundo e ao alargamento da noção de direitos que vinha ocorrendo no interior da cultura política desde o contexto revolucionário do final do século XVIII. As necessidades dos tra-balhadores - víveres, moradia, educação, saúde, assistência social - passaram a ser associadas no interior daqueles discursos à independência que somente o trabalho assalariado poderia prover. Desta forma, mesmo para aqueles tra-balhadores organizados e conscientes dos mecanismos de exploração sob o capital se fortaleceu uma identidade social e de gênero em torno da imagem do homem provedor capaz de proteger sua família e de atender às suas neces-sidades (HALL, 1986; STEEDMAN, 1994).
O estabelecimento da seguridade social, do salário familiar, dos chamados direitos dos trabalhadores garantidos pela legislação trabalhista compõe uma das faces mais conhecidas e estudadas do Estado e das sociedades de Bem Estar, que é a redistribuição e a garantia dos direitos através da intervenção do Estado.
No entanto, a elaboração deste modelo de redistribuição numa ordem social ca-pitalista profundamente associada ao mundo do trabalho assalariado gerou ima-gens em negativo do homem trabalhador (FRASER & GORDON, 1994). Estas
imagens são as do pauperismo, ou seja, de todos aqueles indivíduos que viviam à margem do mundo do trabalho, como os mendigos, desempregados, incapa-citados e os vagabundos; os dominados (nativos, africanos, orientais, ou seja, os outros da sociedade branca ocidental); e a dona de casa. De acordo com Fraser e Gordon para criar a independência do trabalhador assalariado e seu valor moral foi necessário criar a dependência econômica das mulheres.
No plano discursivo tais imagens de ordem, de suficiência e de poder paterno foram compartilhadas pelas elites e pelos trabalhadores. No plano das existências cotidianas das pessoas comuns duramente afetadas pelos desequilí-brios e crises do capitalismo as coisas não eram tão ordenadas assim. São muitos os registros do crescente pauperismo e das tensões sociais em diferentes cidades europeias e dos Estados Unidos ao longo do século XIX. A caridade cristã e a filantropia humanitarista procuravam aliviar as mazelas associadas ao paupe-rismo visitando os pobres, conhecendo as suas necessidades e atendendo em parte as necessidades mais urgentes. Relatos presentes na documentação privada de homens e mulheres, bem como os tocantes retratos realistas da literatura de cunho social produzida no século XIX, dão mostras de que o homem trabalha-dor nem sempre estava presente ou então não conseguia exercer este papel tão esperado para que a ordem social e de gênero fosse garantida.
É neste contexto oitocentista que as ideias maternalistas são enunciadas tanto pelas feministas quanto por aquelas mulheres que, querendo manter dis-tância das feministas, dedicavam-se à filantropia. Apesar das diferenças políti-cas, ambos os grupos de mulheres sabiam que os termos da equação necessi-dade, independência e masculinidade não eram necessariamente compatíveis e que as mulheres mães e seus filhos estavam mais vulneráveis à pobreza e aos seus efeitos, caindo nas agruras das necessidades não satisfeitas. A defesa da maternidade e da infância foi o ponto de partida para as mulheres ativistas re-colocarem a questão politicamente sensível da dependência das mulheres e das crianças numa ordem social e de gênero na qual o poder dos maridos e pais era inquestionável, inclusive para algumas delas próprias.
Mulheres como a feminista Hubertine Auclert compartilhavam um novo ideal no cenário liberal do final do século XIX: a intervenção do Estado em assuntos que até então eram considerados restritos aos indivíduos, à fa-mília ou na impossibilidade destes, à caridade e à filantropia. Inspiradas pelo ideário igualitário dos direitos civis e políticos para homens e mulheres, ao mesmo tempo em que sublinhavam as diferenças naturais e morais entre os se-xos, as mulheres reformistas defendiam a intervenção do Estado para proteger,
amparar e assistir as mulheres mães e seus filhos a fim de suprir as necessida-des que a temporária dependência agravava. Portanto, como bem demonstrou Virginia Sapiro (1986), as mulheres não só estão na origem da formulação das políticas públicas, como também foram as suas beneficiárias ou dependentes.
Contudo, no processo de organização dos Estados de Bem Estar social a opção apresentada por Hubertine Auclert não se configurou historicamente.
Se observarmos as diferentes configurações do Estado de Bem Estar na Europa e no continente americano vamos notar que ele não foi nem minotauro, nem maternal. Certamente que as leis e as práticas intervencionistas conduzidas pe-los Estados ainda no final do século XIX tiveram como objetivo a proteção das mães e das crianças, mas raras foram as situações nas quais esta ação política teve como resultado um empoderamento das mulheres ou então um enfren-tamento político das desigualdades de gênero como desejavam as feministas e algumas reformistas sociais.
Se observarmos com atenção as políticas de gênero dos Estados de Bem Estar veremos como a ideia de dependência das mulheres foi equacionada à valorização e à proteção de uma concepção bastante tradicional e conservadora da maternidade. Boa parte da legislação produzida nos países europeus e mais tarde nos países americanos regulava as condições de trabalho das mulheres grávidas e daquelas que ainda amamentavam como as licenças para o parto, o estabelecimento das condições de trabalho (horário de trabalho e a questão da salubridade), os abonos maternais e familiares e, em alguns países, a obriga-toriedade de creches nos locais de trabalho. Também foram organizados ser-viços de atendimento médico-hospitalar, assistência social para mães solteiras ou viúvas com filhos pequenos e a distribuição de alimentos. Estes benefícios foram defendidos pelas feministas e reformistas sociais, mas na organização das políticas públicas as outras demandas maternalistas pelos direitos civis e políticos das mulheres foram negligenciadas, secundarizadas ou nem sequer cogitadas, pelo menos até logo após a Segunda Guerra Mundial.
E isto se deve ao fato de que tais políticas foram políticas de gênero.
Historiadoras que estudam estas políticas e sua relação com a maternidade mostram como na formulação das políticas de Bem Estar o gênero foi uma categoria fundamental com diferentes significados e desdobramentos dificil-mente generalizáveis (GORDON, 1994; BOCK & THANE, 1996; NASH, 1996;
NARI, 2004). No entanto, apesar das diferenças históricas das políticas de Bem Estar para a maternidade e a infância talvez possamos estabelecer uma carac-terística comum a elas: na maior parte dos países ocidentais as mulheres foram
percebidas e definidas como indivíduos dependentes e, portanto, alvo da tutela ou da proteção de um poder benevolente cujo objetivo era corrigir dispari-dades e propiciar as condições mínimas que nem a sociedade, nem a família conseguiram suprir a fim de que as mulheres pudessem exercer plenamente o seu papel ou a sua função materna. Apesar dos notáveis e incansáveis esforços das feministas e das mulheres que participaram inclusive profissionalmente da elaboração das políticas públicas para colocar em prática os ideais materna-listas do equacionamento da igualdade e da diferença, prevaleceram as visões essencialistas e naturalizantes do gênero, bem como uma concepção de poder na qual as mulheres foram vistas como receptáculos passivos de concessões e da proteção do poder do Estado e da benemerência privada.
Conforme já exposto, a política de gênero dos Estados de Bem Estar se sustentava no ideal do trabalhador provedor da sua família. Quando uma
“anomalia” ou uma realidade incontornável como a mulher assalariada coloca-va demandas que exigiam uma ação intervencionista no mercado de trabalho, o Estado a definia somente a partir da maternidade ou da fragilidade de uma natureza feminina que requeria a proteção benevolente, fosse do patrão ou de um Estado paternal. Daí a necessidade de se enfrentar um tema extremamente espinhoso, que foi a questão da autoridade paterna e a necessidade de uma regulamentação do mercado de trabalho que garantisse um salário para que o homem trabalhador fosse capaz de manter a sua família (esposa e os filhos).
Desta forma a ordem familiar e o poder masculino não sofreriam nenhum abalo ou desequilíbrio.
Apesar da influência notável do ideário maternalista na origem das polí-ticas públicas materno-infantis a articulação entre necessidades e dependência feminina foi predominante não só na construção de uma definição de benefi-ciária ou assistida, mas também na elaboração de programas e ações públicas que foram pensadas e desenvolvidas a partir de uma concepção paternalista de poder que reproduziu institucional e politicamente a noção de dependência feminina de um poder benevolente e protetor masculino, só que incorporado pelo Estado e conduzido pelos burocratas e funcionários públicos.
Este qualificativo paternalista do poder do Estado nos leva a uma reflexão, mesmo que breve, sobre gênero e política. Retomando a clássica teoria políti-ca liberal enunciada por John Locke ainda no século XVII encontramos uma bem estabelecida justificativa para a separação entre o pátrio poder e o poder político. Nesta interpretação que posteriormente fundamentou as constitui-ções políticas dos países democráticos ocidentais era importante estabelecer
as diferenças entre os dois tipos de poder a fim de retirar do terreno da política qualquer referência providencialista ou personalista. Mesmo que o pátrio poder tivesse uma origem natural ele não era ilimitado, pois o poder do pai e da mãe não era absoluto e sua jurisdição ia até o momento que os filhos alcançassem a idade do uso da razão. O poder político era resultado do consentimento da maioria dos indivíduos que o instituíram para gozar da sua liberdade sob a lei soberana, sendo, portanto, uma ação racional, impessoal e cuja finalidade era a preservação da propriedade, da liberdade e a garantia do bem comum. Dessa forma, ambos tinham origens e finalidades muito diferentes e o mais importante era definir que o poder político não dependia em nada do poder paterno e muito menos nada compartilhava com ele nas suas finalidades e jurisdições.
Ao escrever o Segundo Tratado sobre o Governo Civil John Locke enfren-tou uma bem consolidada tradição do pensamento político que fora reforçada no contexto do fortalecimento das monarquias modernas. Este pensamento sustentava que o poder dos reis era não só justo e soberano, mas igualmente moral, tendo em vista que por sua natureza se exercia com a mesma finalidade do poder paterno, ou seja, cuidar benevolamente, mas com autoridade, de seus súditos-filhos. Esta extrapolação do poder paterno para o poder político foi bastante recorrente na justificativa moral da soberania monárquica, migrando para outras formas de relação de poder nas democracias, como nas relações entre patrões e empregados e entre o Estado e os cidadãos.
Este qualificativo moral de um poder que se exerce a partir de uma rela-ção supostamente natural originária da paternidade sustentou e ainda sustenta diferentes práticas e relações sociais e políticas. Seu fundamento moral na na-tureza e no bem justifica as mais diferentes hierarquias (classe, raça, religiosa, geracional, profissional, política e de gênero) afinal aquele que exerce o poder de forma paternal visa tão somente atender às necessidades de seus subordi-nados ou protegidos. O poder é, na sua definição paternalista, bom e protetor e parte do princípio da enunciação da autoridade, pois somente o dispensador da proteção e dos cuidados detém o conhecimento do que são as necessidades e dos meios efetivos para supri-las. Encontramos nesta formulação paternalista do poder a conjunção das condições que estão presentes nas políticas de gênero de que estamos tratando: necessidades, dependência e incluímos também o lugar do sujeito que necessita e que é dependente deste poder benévolo e superior.
Muito já se escreveu sobre o paternalismo no âmbito da filosofia moral, das ciências políticas e da história social, geralmente de um ponto de vista crí-tico ao autoritarismo que preside este tipo de instituição do poder polícrí-tico ou
no interior de outras relações sociais (GARCÍA, 2005). As análises, no entanto, carecem de uma perspectiva analítica que entendemos ser fundamental para compreender o paternalismo, suas transformações e sobrevivência tanto do ponto de vista institucional e social, quanto do ponto de vista simbólico.
O gênero é o discurso que organiza esta concepção do poder. Por que o poder é paternal? O que enuncia este qualificativo? Qual a sua qualidade, qual a sua especificidade para ter legitimidade? É nos quadros de um pensamento binário no qual o gênero é uma forma de dar sentido ao mundo das coisas, dos sujeitos e das suas relações que encontramos as justificativas para o pa-ternalismo. Numa longa tradição filosófica o poder é identificado a uma força agregadora, racional e produtiva que não é extensiva a todos os seres humanos, mas somente àqueles que têm capacidades naturais para exercê-lo. O poder, assim, foi identificado desde os primeiros textos que o definiram como um atributo dos homens, como uma qualidade masculina. O mesmo discurso na-turalizador formulado a partir de um processo histórico e cultural de exclusão e dominação das mulheres estabeleceu que o elo social tem uma origem igual-mente natural na família e no poder dos maridos e pais, mais fortes e racionais, capazes de saber o que é melhor para seus dependentes, a esposa, os filhos, os escravos e todos aqueles que vivessem sob a sua tutela protetora. O pater-nalismo tem, portanto, uma justificativa original no gênero, nesta diferença construída culturalmente a partir do sexo, criadora de outras diferenças. É o discurso do gênero que estabelece igualmente a dicotomia entre os potentes e os impotentes, bem como o que cabe a cada um no interior das relações entre si estabelecidas. Cabe ao mais potente não só o poder natural sobre os mais fracos, como enunciou Aristóteles e tantos filósofos depois dele, mas também
O gênero é o discurso que organiza esta concepção do poder. Por que o poder é paternal? O que enuncia este qualificativo? Qual a sua qualidade, qual a sua especificidade para ter legitimidade? É nos quadros de um pensamento binário no qual o gênero é uma forma de dar sentido ao mundo das coisas, dos sujeitos e das suas relações que encontramos as justificativas para o pa-ternalismo. Numa longa tradição filosófica o poder é identificado a uma força agregadora, racional e produtiva que não é extensiva a todos os seres humanos, mas somente àqueles que têm capacidades naturais para exercê-lo. O poder, assim, foi identificado desde os primeiros textos que o definiram como um atributo dos homens, como uma qualidade masculina. O mesmo discurso na-turalizador formulado a partir de um processo histórico e cultural de exclusão e dominação das mulheres estabeleceu que o elo social tem uma origem igual-mente natural na família e no poder dos maridos e pais, mais fortes e racionais, capazes de saber o que é melhor para seus dependentes, a esposa, os filhos, os escravos e todos aqueles que vivessem sob a sua tutela protetora. O pater-nalismo tem, portanto, uma justificativa original no gênero, nesta diferença construída culturalmente a partir do sexo, criadora de outras diferenças. É o discurso do gênero que estabelece igualmente a dicotomia entre os potentes e os impotentes, bem como o que cabe a cada um no interior das relações entre si estabelecidas. Cabe ao mais potente não só o poder natural sobre os mais fracos, como enunciou Aristóteles e tantos filósofos depois dele, mas também