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Paternalismo e políticas públicas materno-infantis

Em alguns países, como é o caso do Brasil da Era Vargas, as políticas pú-blicas foram francamente paternalistas, especialmente as políticas de gênero, embora muitos dos valores originais do maternalismo estivessem presentes na sua formulação. O conceito de paternalismo pode ser útil para entendermos como se constituem as relações entre o Estado e a sociedade não só para a Era Vargas, mas para a nossa época, este começo do século XXI, afinal, o vocabu-lário político continua recorrendo às metáforas paternalistas porque elas são entendidas e continuam tendo ressonância.

Quando a esta concepção paternal de poder se acrescenta uma ideologia política que reforça uma imagem moral e pessoal do poder político funda-mentada na pessoa do líder e, por outro lado, se estabelece que o espelho das relações políticas deve ser o bom ordenamento da família patriarcal, tem-se as condições suficientes para o exercício paternalista do poder político.

Os discursos políticos da Era Vargas reforçaram de várias maneiras - pela propaganda política, pela presença mais eficaz e visível do Estado, pe-los mecanismos ideológicos da personalização do poder em Getúlio Vargas - que o Brasil do Estado Novo seria governado como uma família (FERREIRA, 1997; LEVINE, 2001; MARTINS, 2008). A organização das políticas públicas materno-infantis no Brasil resultou do reformismo social dos médicos e das pessoas ligadas à filantropia, como também das ideias maternalistas das mu-lheres feministas e não feministas que tiveram uma intensa participação na defesa dos direitos das mulheres no contexto da Constituinte de 1934. Contu-do, com o recuo da ordem política para um modelo centralizaContu-do, autoritário e personalizado de poder como ocorreu a partir de 1937 com a instituição do Estado Novo, as ideias maternalistas foram esvaziadas de seu conteúdo mais igualitário e tomaram uma nova feição, paternalista e autoritária.

Esta reorganização do maternalismo se deu no Brasil seguindo mode-los muito semelhantes àqueles que se organizaram em países como a Itália, a França, a Espanha e Portugal (BOCK & THANE, 1996). Considero este um modelo paternalista das políticas maternalistas. Do maternalismo manteve-se somente a valorização moral da maternidade reforçando a diferença entre homens e mulheres, mas sem a igualdade. Neste modelo a autoridade paterna

foi reforçada de cima para baixo, sobrepondo-se politicamente ao ideário mais igualitário do maternalismo. As políticas paternalistas se sustentaram no mo-delo conjugal da autoridade paterna, na família constituída pelo casamento in-dissolúvel e pelo ideal natalista de famílias numerosas. Vejamos mais de perto este paternalismo à brasileira.

Ao olharmos com atenção para a elaboração da Constituição de 1934 e a de 1937 vemos como estes valores paternalistas foram objetivados na for-ma da lei, sustentando os prografor-mas e as instituições voltadas para atender as necessidades das mulheres-mães e das crianças a partir de uma noção de de-pendência e não de direitos. A família foi colocada sob a proteção especial do Estado nos dois textos constitucionais e ao Estado cabia compensar financei-ramente as famílias numerosas, bem como colaborar para que os pais dessem educação aos filhos - de maneira direta ou através de subsídios. Também era atribuição do Estado, segundo os textos constitucionais, o cuidado da infância e da juventude, tornando obrigatório em todo o território nacional o amparo à maternidade e à infância.

Pode-se dizer que estas atribuições do Estado e mesmo sua interven-ção mais direta sobre a família e a autoridade paterna seguiram de perto as políticas mais centralizadoras e personalistas de alguns países europeus, par-ticularmente a Itália fascista. No Brasil tais políticas foram acentuadamente paternalistas não só porque se fundamentavam num ideário político mais cen-tralizador e autoritário, mas igualmente porque fizeram parte da propaganda política do regime personalista de Vargas que sublinhava a indissociação entre seu papel de presidente da república e de pai protetor da grande família que era a nação brasileira.

Outro aspecto deste modelo paternalista das políticas públicas materno-infantis refere-se à definição das mulheres. A legislação trabalhista as reconhe-cia como trabalhadoras assalariadas, mas os discursos políticos reforçavam o ideal de dependência das mulheres. Isto é bastante evidente na formulação da política familiar do Estado Novo. Todos os argumentos técnicos, sociais e po-líticos se fundamentavam na premissa de que um mal temporário não deveria se tornar uma regra. Se as mulheres-mães estavam no mercado de trabalho como assalariadas e precisavam ser protegidas na sua especificidade, era dever do Estado e da sociedade corrigir este desvio favorecendo os homens trabalha-dores não só com salários suficientes para manter a família, mas se necessário por meio da criação de condições econômicas como os abonos familiares a fim de evitar que as mulheres saíssem de casa e deixassem a família ao desamparo e

o marido numa situação humilhante de não poder cumprir com o seu papel de provedor. A eficácia deste discurso pode ser observada numa documentação produzida por homens e mulheres comuns que ao escrever cartas para Getúlio Vargas acionaram o modelo paternalista como estratégia de comunicação com o poder para conseguir o que pediam, ou mesmo como adesão à política pa-ternalista e à ideologia do regime. Em outro momento tratamos destas cartas atentando para os limites analíticos de uma qualificação paternalista das rela-ções entre os poderosos e as pessoas comuns (MARTINS, 2008). Procuramos agora, todavia, sustentar a utilidade do conceito de paternalismo para analisar a formulação das políticas públicas de forte conotação de gênero e para tanto vamos recolocar analiticamente as cartas escritas por mulheres que escreve-ram para Vargas na condição de mães, tendo em vista a maneira como elas recorreram ao vocabulário e ao imaginário político paternalista nesta busca pela comunicação com o poder.

Há diferentes tipos de cartas escritas por mulheres no conjunto das correspondências enviadas para Getúlio Vargas, em especial no período entre 1937 e 1942. As cartas que vamos brevemente apresentar aqui foram aquelas escritas por mulheres pobres que passavam por algum tipo de dificuldade para cuidar de suas famílias, desde a falta de recursos para dar educação para os filhos, até a mais acentuada penúria. Se compararmos com as cartas escritas por homens que se dirigiam a Vargas também na condição de pais de família veremos que a principal diferença está na estrutura narrativa. Dificilmente os homens demonstravam desespero, embora muitos deles descrevessem em de-talhes suas extremas dificuldades, narrando histórias de desemprego, fome, a morte dos filhos pequenos e a desesperança.

As cartas escritas por mulheres são mais suplicantes e recorrem com mais frequência às metáforas religiosas e paternas. Demonstram também ter consci-ência de que ao escrever transpunham limites. Primeiro porque se fossem obe-decer à hierarquia familiar quem deveria escrever era o chefe da família, o mari-do; segundo porque expunham suas histórias pessoais a ninguém menos que o homem mais poderoso do país e, por fim, porque transpunham limites culturais ao tomar a palavra escrita para narrar suas histórias marcadas pela pobreza.

Uma primeira questão que aparece na narrativa ao escreverem para Vargas é a forma como se dirigem a ele. O poder político de Vargas não anula seus atributos morais, sempre exaltados pelas missivistas. Ele é homem de co-ração bondoso, generoso, caridoso, justo, patriótico e de coragem. Nas cartas as missivistas fazem questão de sublinhar que ele não era mais um homem

poderoso, mas que o exercício do seu poder era acrescido e diferenciado por suas qualidades morais que o aproximavam das pessoas comuns como elas.

Conscientes da imensa distância que as separava daquele homem pode-roso, elas expressam subalternidade e extrema deferência na maioria das car-tas, como também o fazem alguns homens missivistas. Elas se dirigem a Var-gas como “paupérrimas servas”, “filhas”, “criadas”. Destes lugares elas pedem auxílio, socorro, esmola, indulgência e algumas o fazem “beijando as mãos deste segundo pai”2. A diferença em relação aos homens que recorrem a estas mesmas fórmulas de subalternidade é que eles o fazem quando se encontram em situação desesperadora. Defendemos a hipótese de que as mulheres que escreveram estas cartas a Vargas recorrem com mais frequência a estas fór-mulas porque culturalmente se esperava que as mulheres demonstrassem pela linguagem corporal e escrita a humildade, a honestidade e a sujeição. Neste sentido, ao escreverem para Vargas recorriam a um habitus da sujeição e da su-balternidade que as qualificava como mulheres, habilitando-as frente ao poder para receberem o que pediam. Neste sentido podemos pensar o paternalismo não só como um poder que se exerce de cima para baixo e que transforma os sujeitos em receptáculos passivos da benevolência, mas também numa lingua-gem que pode ser usada pelos subalternos nas estratégias que inventam para se comunicar com os poderosos e obter o que almejam.

Por fim, outro elemento comum nas narrativas das cartas escritas pelas mulheres é a forma como elas se apresentam nas suas demandas. Todas são mães preocupadas com o futuro e com a sobrevivência dos seus filhos. O que as habilita moralmente para tomar o tempo do presidente é esta responsabili-dade moral pelos filhos. Os maridos aparecem pontualmente nas cartas, seja para deles reclamarem, seja para justificar sua incapacidade momentânea para serem os provedores. São os filhos que constituem o argumento principal da mulher que escreve porque é mãe.

Tomar a decisão de escrever uma carta para o presidente contando his-tórias de vida marcadas pela pobreza, violência, pelo abandono, pela fome e na maioria das vezes pela morte dos filhos certamente não era uma decisão fácil, especialmente porque as missivistas eram mulheres pobres e sem muita fami-liaridade com a cultura escrita. Mas ao fazê-lo recorreram ao que conheciam:

saber colocar-se numa posição de humildade e respeito ao se dirigir ao poder;

2 Estas expressões são citações de diferentes cartas que se encontram no Arquivo Nacional. Presidência da Re-pública. Série 17 - Ministérios. Foram lidas no total 786 cartas, mas para este texto selecionamos 11 cartas.

saber como pedir, ou seja, contar uma história na qual justificassem sua de-manda por ajuda e proteção. Parafraseando Natalie Z. Davis (2001), estas cartas são formas narrativas que revelam a habilidade de transformar o vivido em uma história que deve necessariamente comover o homem poderoso em favor dos seus interesses próprios. Indo um pouco mais além, são apropriações do pater-nalismo, reconhecendo, mesmo que momentaneamente, a eficácia da ideologia do regime político em favor dos interesses das mulheres- mães que se dirigiam a Vargas a partir do imaginário do poder: ele como o pai dos pobres e elas como mães de crianças pobres que se colocavam sob a proteção paternal de Vargas.

Concluindo, podemos dizer que se configura no Brasil a partir de 1937 uma política de proteção à família e à maternidade na qual vemos bem delimi-tadas duas categorias de beneficiários do Estado: os sujeitos ativos dos bene-fícios de um Estado provedor ou dispensador dos direitos dos homens traba-lhadores, aqueles com a carteira assinada, com férias e décimo terceiro salário;

e os sujeitos passivos dos benefícios, as esposas e mães dos filhos do homem trabalhador. Nesta categorização hierárquica paternalista outra questão se co-loca de maneira muito diferente do que previa o maternalismo. As mulheres são definidas somente pela sua condição de dependentes - seja do marido, seja do Estado - e não como cidadãs. Podemos pensar, então, até que ponto as po-líticas públicas para a maternidade foram realmente voltadas para atender as mulheres. Nesta concepção paternalista do poder do Estado as mulheres não são os alvos das políticas públicas. Elas são instrumentos para se alcançar as crianças e como na construção ideológica de um regime político paternalista mães e crianças têm um lugar fixo, um lugar moral que é a família tutelada pelo pai, o Estado e seus agentes (médicos, enfermeiras, assistentes sociais, funcionários públicos) que recorreram às imagens moralizadoras da família e da maternidade a fim de alcançar seus objetivos normalizadores.

A tutela paternalista das políticas públicas materno-infantis contribuiu decisivamente para a construção de uma definição de feminilidade fundada na dependência. As leis e os programas de assistência visavam à manutenção de uma ordem hierárquica de gênero cujo fundamento era a família e a pedagogia materna. As mães deviam não só ser mães, mas boas mães, capazes de cuidar dos seus, daqueles que temporariamente eram delas dependentes. Diferente-mente do ideário maternalista mais igualitarista o paternalismo do Estado su-blinhou a dependência e a tutela das mulheres mães, indivíduos merecedores da proteção e talvez até mesmo da piedade, mas não de direitos. Seus direitos na verdade não eram seus, eram de seus maridos e de seus filhos.

Nem minotauro, nem maternal, o Estado paternalista brasileiro refor-çou uma concepção naturalista e limitada da maternidade indiferente aos con-ceitos modernos de autonomia, autodeterminação e de cidadania. Uma mater-nidade dependente.

Referências

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