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2 A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E A REFORMA DO ESTADO CAPITALISTA: OS IMPACTOS NA POLÍTICA DE EDUCAÇÃO PÚBLICA DO

2.2 O Estado no neoliberalismo: a retomada da matriz liberal

Num momento de hegemonia da política keynesiana e do Estado de bem- estar social na Europa Ocidental e do Leste e na União Soviética, e de desenvolvimentismo e populismo51 nos países latino-americanos, um grupo de intelectuais europeus e norte- americanos na esteira das formulações liberais de Hayek deram origem a doutrina neoliberal. Essas idéias legitimaram as mudanças políticas e econômicas do capitalismo internacional ocorridas na segunda metade da década de 1970. Simultaneamente, o quadro de declínio ideológico no movimento socialista, reformista e revolucionário, se acentuou com a crise da União Soviética inserindo-se num espaço mais amplo de hegemonia neoliberal sobre contestação da social-democracia nos países centrais e ainda em desenvolvimento nos países periféricos. Segundo Boito (1999, p.117),

Com o campo imperialista mais coeso, graças à inexistência de enfrentamentos bélicos entre os Estados centrais, com a União Soviética em processo de desagregação e o movimento socialista em crise, as burguesias imperialistas viram-se em condições mais favoráveis para implantar a política de supressão dos direitos sociais nos seus países e para obrigar uma marcha à ré no desenvolvimento do capitalismo na periferia. As instituições políticas e econômicas internacionais, como o FMI, o Banco Mundial e, mais recentemente, a OMC passaram, então, a ter um papel mais ativo como instrumento de tutela dos países centrais sobre os governos dos países periféricos.

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Armando Boito (1999), reporta-se à política do Estado populista originada da revolução de 1930 para diferenciar a característica daquele reformismo estatal. No conjunto dos governos desenvolvimentistas houve um choque de interesses com o poder econômico e político agrário e industrial. Em meio à estas contradições, o estabelecimento de direitos sociais mínimos foi graças à esta política populista.

O modelo da reforma, inicialmente, de perspectiva socialista foi gradualmente se restringindo às possibilidades de democratização social do capitalismo. Apesar de sua hegemonia nos países centrais perdeu seu vigor nas últimas décadas. Conforme argumenta Santos (2001), o princípio do Estado, novamente, sofreu transformações:

(...) de modo geral pode afirmar-se que o Estado parece estar a perder o estatuto de unidade privilegiado de análise e de prática social. Esta perda relativa de protagonismo do Estado nos países centrais tem tido um papel determinante nas políticas sociais. Desregulação, privatização, mercado interno do Estado, com participação nos custos, mercadorização, cidadania activa, ressurgimento da comunidade são algumas das denominações do variado conjunto de políticas estatais com o objectivo de reduzir a responsabilidade do Estado na produção de bem-estar social (SANTOS, 2001, p.155).

Esta reformulação teórica do liberalismo clássico criticou severamente o Estado de Bem Estar Social abrindo-se campo fértil para a retomada das leis do livre mercado. Friedrich von Hayek e Milton Friedman foram os dois grandes interlocutores dessa reformulação. Conforme Hayek (apud Anderson, 1995, p.79) “(...) o Estado de bem- estar destruía a liberdade dos cidadãos e a vitalidade da concorrência, da qual dependia a prosperidade de todos”. Nesta ótica, o aumento dos gastos sociais pelo Estado, devido ao poder excessivo dos sindicatos e movimentos operários, era o que determinava a crise econômica e ameaçava as bases de acumulação capitalista. Esses gastos deveriam ser interrompidos estruturando uma nova forma de Estado que permitisse a prosperidade e harmonia social pela livre concorrência. Ou seja,

O neoliberalismo nada mais é do que a nova estratégia do capital para recuperar sua capacidade de acumulação, consecutiva à diminuição relativa da produtividade que conduziu ao esgotamento do modelo keynesiano e às novas possibilidades de que ele passa a dispor para recolonizar as economias periféricas (HOUTART, 2001, p.91).

A crise do regime de acumulação fordista consolidado no pós-guerra incide sobre o compromisso social-democrata que, conforme Santos (1997a), consiste na crise da dimensão política dos sujeitos sociais, dado o processo lento de desradicalização das lutas sociais“(...) o compromisso social-democrático, já de si assente numa concepção restrita (liberal) do político, acabou, apesar das aparências em sentido contrário, por reduzir ainda

mais o campo político” (SANTOS, 1997a, p.249). Consiste na crise do Estado nacional perante a globalização da economia capitalista e das instituições financeiras que constituem sua base econômica. É característica dessa crise o retrocesso nas políticas sociais que assumiu, entre outras formas, o corte orçamentário de programas sociais, a privatização de setores estratégicos como saúde, educação, habitação, transportes e outros, a transferência de serviços sociais mediante convênios com o Estado. Conforme indica Santos (1997a, p.255),

(...) no período do capitalismo liberal, não foi necessário privatizar o setor social do Estado, apenas foi necessário não deixar que ele emergisse; diferente porque, no período do capitalismo desorganizado, o predomínio do princípio do mercado tem uma forte dimensão ideológica que ajuda a legitimar a relativa retirada do Estado da prestação da providência social, ao mesmo tempo que oculta o fortalecimento, aparentemente contraditório, da intervenção do Estado na área econômica – a proteção e viabilização de empresas, os incentivos fiscais, o proteccionismo, ou a cobertura de situações de falência técnica muitas vezes engendradas por meio fraudulentos, em suma, o Estado-Providência das empresas`. Por último, o predomínio do princípio do mercado é agora diferente porque, ao contrário do que sucedeu no período do capitalismo liberal, faz apelo ao princípio da comunidade e as idéias que ele envolve, como, por exemplo, as de participação, solidariedade e autogoverno, para obter a sua cumplicidade ideológica na legitimação da transferência dos serviços da providência social estatal para o sector privado não lucrativo.

Com efeito, este é um período de revigoramento e reorganização do capitalismo, ainda que Santos (2001) utilize o termo “capitalismo desorganizado”. A deterioração do modo de regulação fordista nos países centrais e a crise do Estado- providência caracterizaram a égide do princípio do mercado, hegemonicamente mais organizado do que em períodos anteriores.

Goran Therborn (1999), a partir de seu estudo sobre as teorias do Estado52,

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Goran Therborn (1999) define o período entre 1965 e 1985 como o de grande expansão das teorias sobre o Estado, em virtude do próprio crescimento do aparato estatal, principalmente nos países de capitalismo avançado como algumas nações européias, Estados Unidos e Japão. Grande parte do orçamento público nestes países fora destinado ao conjunto dos serviços sociais. Das correntes que se destacaram neste período, o autor identifica a corrente marxista, a estatista (inspirada no clássico Max Weber) e uma terceira que é uma expansão na decisão pública. A corrente marxista abordou três elementos centrais que envolvem o Estado: 1. O Estado capitalista propriamente dito; 2. A relação do Estado com a lógica da economia e acumulação capitalista; 3. A questão da democracia liberal (seus limites) e do reformismo estatal. A abordagem estatista preocupou-se com o funcionamento do Estado como agente de organização e autonomia política. Por sua vez, o enfoque da decisão pública preocupou-se com a tomada de decisões, isto é, o poder político na esfera da democracia liberal. Para o autor, tais teorias encontram-se hoje praticamente marginalizadas, periféricas. A primeira, a marxista, porque perdeu certo grau de atualidade com o enfraquecimento das perspectivas e práticas revolucionárias que foram o sustento de análises interpretativas de Marx. O enfoque estatista, por sua vez, na medida em que concebe o Estado como um conjunto de instituições e não mais uma organização

indica três dimensões analíticas na atual conjuntura, a saber:

1. a respeito da organização estatal o autor evidencia os processos de mercantilização das políticas sociais e a desburocratização do Estado. Reconhece que, do ponto de vista da organização do Estado capitalista ocorreu um período de modernização estatal orientado pelo neoliberalismo;

2. quanto à representação política, observa uma crescente abertura democrática ainda que sob hegemonia burguesa. Esse processo ganha um papel estratégico no controle dos meios de comunicação e nos canais da economia neoliberal assegurando a representação política dentro do Estado democrático. Essas tendências fortaleceram a dimensão capitalista do Estado na medida em que garantiam sua (quase) isenção nas atividades econômicas;

3. no campo político o autor afirma a emergência de um liberalismo pós- democrático. Evidencia-se, neste aspecto, a tentativa de enfraquecer o poder sindical no setor público, a captação de recursos com a venda de empresas e instituições estatais e a geração de uma nova clientela de gerentes, administradores a acionistas com o processo de privatização. De fato, destaca-se a perda progressiva do caráter público do Estado e de sua capacidade fiscal perante a hegemonia capitalista na direção da maximização dos lucros no interior de serviços essenciais básicos.

Ressalta-se o entendimento de Therborn (1999) sobre a importância do Estado-nação frente aos processos de globalização. Evidencia como exemplo concreto desta tendência países como a França, Alemanha e Itália que devido à influência de instituições específicas nacionais enfrentam as tendências globais na dinâmica do capitalismo contemporâneo. Para o autor, a mudança do perfil de Estado no movimento histórico do capitalismo deve-se não a ordem natural (metafísica), mas ao conjunto e processos de lutas sociais, inclusive de guerras mundiais, que resultaram até aqui num Estado superior ao que lhe procedeu. Isto também se atribui ao reconhecimento e garantia institucional de direitos sociais como o respeito às diferenças étnicas, raciais e de gênero, ainda que nos limites das relações capitalistas.

distinta, com relações negociadas sem muita distinção de delimitação da esfera estatal e não estatal. Esta tendência faz com que diminua a especificidade do Estado como agente e como organização. O enfoque da decisão pública obteve um tensionamento na medida em que os burocratas perderam de vista a ampliação de seus pressupostos e passaram a competir a administração mais eficiente da era neoliberal no tocante a corte e ajustes fiscais do Estado.