2 A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E A REFORMA DO ESTADO CAPITALISTA: OS IMPACTOS NA POLÍTICA DE EDUCAÇÃO PÚBLICA DO
2.1 O “compromisso” fordista e a crise do Welfare State
Alguns elementos da tese de ampliação do Estado, indicados por Gramsci, podem ser encontrados, sobretudo, na segunda metade do século XX. A contínua expansão dos direitos políticos e sociais e a ampliação da participação popular, através da socialização da política, apontaram em certa medida para a superação o caráter restrito do Estado.
Segundo Santos (2001), da transição do capitalismo liberal para o organizado é que os problemas decorrentes da industrialização ganham maior visibilidade como a pobreza generalizada, a prostituição, a criminalidade, o alcoolismo, o analfabetismo, as doenças epidêmicas, o desemprego, as greves, etc. Há um crescente domínio do modo de produção capitalista nas relações econômicas e em todos os aspectos da vida social. Entram em cena política os sindicatos e os partidos operários e, no antagonismo político estabelecido com as organizações e instituições burguesas, provocam uma distinção gradativa na relação entre Estado e sociedade civil. O autor destaca dois aspectos: 1. a necessidade de uma gestão econômica pública a partir de uma intervenção do Estado, sobretudo, na regulação do mercado. Neste aspecto, observa-se a:
(...) crescente disponibilidade do Estado capitalista para proteger os interesses empresariais, desde a construção de infra-estruturas e da socialização dos custos de industrialização à criação de sistemas educativos concebidos para satisfazer as necessidades das grandes empresas no que respeita à habilitação e especialização da mão-de-obra, a políticas de pleno emprego e a fundos para investigação e desenvolvimento (SANTOS, 2001, p.147).
2. a politização de algumas dimensões da questão social fruto, principalmente, da expansão do processo político, do direito de voto dos trabalhadores e pela emergência dos partidos operários.
Este modelo de Estado de bem-estar no contexto do capitalismo organizado caracterizou um tipo particular do Estado capitalista conforme apontou Boito (1999), pois
diante de sua dinâmica o capitalismo não garante condições políticas e econômicas efetivas para a realização dos direitos sociais ideologicamente reivindicados. A concretização e expansão das conquistas dependeram mais das forças em luta e das condições históricas que foram herdadas. Desta forma, pode-se afirmar que houve um triunfo do reformismo sobre a revolução, uma mudança da perspectiva socialista para a perspectiva da social- democracia, na medida em que questões sociais e políticas evidenciadas no Welfare State atenuaram algumas desigualdades do capitalismo e, em contrapartida, aprofundaram as contradições do sistema.
O Estado de bem-estar é um tipo particular de política social do Estado burguês. Ora, é utópico pretender implantar a igualdade socioeconômica sob o capitalismo. Os direitos sociais podem ser universalistas e igualitaristas no plano da ideologia, mas o conteúdo, a regulamentação e o usufruto efetivo de tais direitos comportam, ainda que com variações de país para país, importantes desigualdades. O grau e o tipo dessa desigualdade dependem da natureza e da composição da frente de classes que assegurou a implantação e expansão de tais direitos. A questão é que o Estado de bem-estar atenuou amplamente a desigualdade de rendas e de condições de vida, mas, ao mesmo tempo, conservou, em graus variados, inúmeras desigualdades. (BOITO, 1999, p. 220-221)
Essa perspectiva pode ser evidenciada a partir do conjunto de transformações ocorridas no decorrer de 1945-73, denominada de fordista-keynesiana. Em certa medida, o Welfare State representou o alargamento das fronteiras do Estado em que o liberalismo conservador evoluiu para o que podemos chamar de “liberal-corporativismo”: os interesses representados na arena política não são mais os dos indivíduos singulares, e sim o de corporação particulares mais ou menos abrangentes” (COUTINHO, 1989, p.52).
As novas formas de organização dos trabalhadores dão a tônica do pensamento político do século XIX - o liberalismo democrático. O enfoque da liberdade baseada na propriedade – característica do liberalismo elitista do século anterior – sofreu alterações em virtude das contradições produzidas no interior das relações sociais e de produção, dos antagonismos evidentes entre o quadro social e econômico que fora estabelecido e os princípios liberais difundidos.
A economia keynesiana seguiu a tendência liberal democrata. Com efeito, conflitou com a economia clássica na medida em que exigiu o revisionismo econômico a fim de controlar as forças de mercado e regular as distorções. De qualquer forma, buscou a
conciliação do liberalismo com a democracia fomentando um compromisso de classes já que atendeu algumas demandas sociais emergentes do modo de produção capitalista ampliando serviços sociais pelo Estado. Concretamente, as novas reformulações do liberalismo foram necessárias com vistas a recuperar a hegemonia do capitalismo.
Por que há uma nova temática no liberalismo do século XIX? Porque este é um novo momento de luta da burguesia, não mais contra o Antigo Regime, mas contra a novíssima força política que emerge com o proletariado. Por que no século XX, especialmente entre as décadas de 30 e 50 há uma nova fala liberal? Porque há uma forte rearticulação da burguesia – cuja face extrema é o facismo – diante da ameaça de internacionalização da luta proletária. (...) a burguesia vivifica o liberalismo nos momentos em que ela carece de alguma saída apaziguadora (...) ou para conter uma grave crise econômica social e deter a erupção social, o liberalismo reaparece para exercer várias funções: propor o modelo de Estado (sociedade política) que cabe ser instalado (antes que se proponha transformações a nível da sociedade civil); propor os parâmetros da democracia, para configurar o Estado “em crise” como Estado anti-democrático, autoritário, ditatorial e correlatos (WARDE, 1984, p.12 e 16).
Para David Harvey (1994)49 o período fordista-keynesiano manifestou como funções do Estado o esforço de controlar ciclos econômicos com uma combinação apropriada de políticas fiscais e monetárias no período pós-guerra.
Essas políticas eram dirigidas para áreas de investimento público - em setores como o transporte, os equipamentos públicos etc. – vitais para o crescimento da produção e do consumo de massa e que também garantiam um emprego relativamente pleno. Os governos também buscavam fornecer um forte complemento ao salário social com gastos de seguridade social, assistência médica, educação, habitação, etc. Além disso, o poder estatal era exercido direta ou indiretamente sobre os acordos salariais e os direitos dos trabalhadores na produção (HARVEY, 1994, p.129).
As formas de intervencionismo estatal variaram de acordo com cada país,
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David Harvey (1994), no seu trabalho intitulado Condição pós-moderna, analisa que as transformações políticas e econômicas do capitalismo do final do século XX produziram modificações no modo de produção (processos de trabalho), no campo geopolítico, configurando novas relações econômicas e de poder no sistema mundial, novos hábitos de consumo e novos poderes e práticas do Estado. O capitalismo pela sua característica altamente dinâmica e instável recorre a um modo de regulamentação que assegure seu funcionamento e sua estabilidade pelo menos por algum período. A hipótese de Harvey é de uma transição do regime de acumulação e de regulamentação sócio-política.
seja no padrão de gastos públicos, seja na organização dos sistemas de bem-estar social ou no grau de envolvimento ativo do Estado. Para a compreensão das diferentes reproduções do fordismo em cada Estado-nação é importante resgatar alguns fatores que determinaram a hegemonia econômica e política norte-americana:
O acordo de Bretton Woods, de 1944, transformou o dólar na moeda reserva mundial e vinculou com firmeza o desenvolvimento econômico do mundo à política fiscal e monetária norte-americana. A América agia como banqueiro do mundo em troca de uma abertura dos mercados de capital e de mercadorias ao poder das grandes corporações. Sob essa proteção, o fordismo se disseminou desigualmente, à medida que cada Estado procurava seu próprio modo de administração das relações de trabalho, da política monetária e fiscal, das estratégias de bem-estar e de investimento público, limitados internamente apenas pela situação das relações de classe, externamente, somente pela sua posição hierárquica na economia mundial e pela taxa de câmbio fixada com base no dólar (HARVEY, 1994, p. 131-132).
A economia capitalista e sua política de orientação liberal produziram no seu interior sérias tensões sociais e, por extensão, movimentos de resistência por parte das classes subalternas. Para amortecer o crescente descontentamento popular o Estado era convocado à,
(...) garantir alguma espécie de salário social adequado para todos e engajar-se em políticas redistributivas ou ações legais que remediassem ativamente as desigualdades, combatessem o relativo empobrecimento e a exclusão das minorias. A legitimação do poder do estado dependia cada vez mais da capacidade de levar os benefícios do fordismo a todos e de encontrar meios de oferecer assistência médica, habitação e serviços educacionais adequados em larga escala, mas de modo humano e atencioso (HARVEY, 1994, p.133).
Conforme indica Antunes (1999), tratou-se exclusivamente, de uma estratégia burguesa com vistas a delimitar o campo da luta de classes na medida em que os elementos que constituíram o Welfare State colocaram para a classe trabalhadora a possibilidade de abandono de um projeto societário. Implementam-se ganhos sociais para os trabalhadores dos países centrais em troca da retirada da luta pelo socialismo. Este ‘avanço social’ para os países desenvolvidos sustentou-se com a enorme exploração do trabalho nos países do Terceiro Mundo excluídos do compromisso social-democrata. Nesta perspectiva, a abertura dos espaços e organismos de representação institucional e política, mais que um salto democrático acabou por converter-se em uma engrenagem no processo
de reprodução capitalista. Assim, as relações que se estabeleciam nas esferas do compromisso fordista
tinham como elementos firmadores ou de intermediação os sindicatos e partidos políticos, como mediadores organizacionais e institucionais que se colocavam como representantes oficiais dos trabalhadores e do patronato, sendo o Estado elemento aparentemente ‘arbitral’, mas que de fato zelava pelos interesses gerais do capital, cuidando da sua implementação e aceitação pelas entidades representantes do capital e do trabalho (ANTUNES, 1999, p. 38).
O compromisso fordista e a política keynesiana, progressivamente, subordinaram a dimensão emancipatória do movimento operário social-democrata integrando-os a ordem do Estado de bem-estar como condição imediata para as demandas materiais de reprodução social. Esse processo conduziu a uma idéia de fetichismo do Estado, isto é, um poder estatal de caráter coletivo, arbitral e exterior na relação de antagonismo entre capital e trabalho.
Esse processo significou, para segmentos importantes do proletariado europeu “um acréscimo da dependência tanto prática quanto ideológica, em relação ao Estado, sob a forma do famoso ‘Estado-providência’. Dentro da moldura do fordismo, com efeito, esse Estado representa, para o proletariado, a garantia de ‘seguridade social’, com sua qualidade de gestor geral da relação salarial (...) Tudo isso fez com que se desenvolvesse um fetichismo de Estado, bem como de seus ideais democráticos (inclusive no que eles têm de ilusório), aos quais o Estado- providência deu conteúdo concreto (ao garantir de algum modo o direito ao trabalho, à moradia, à saúde, à educação e à formação profissional, ao lazer etc) (ANTUNES, 1999, p. 40).
A estratégia do modelo social-democrata no segmento majoritário do movimento operário era de conquista do poder do Estado, ainda que nos seus limites, de modo a reduzir o peso destas contradições. Ao transformar a negociação em finalidade exclusiva de sua prática nos termos deste compromisso os organismos sindicais e políticos geraram tendências de fragmentação entre base e cúpula dos movimentos operários favorecendo sua burocratização e o corporativismo no conjunto da classe trabalhadora.
Entretanto, tal tendência não foi homogênea no interior das representações do movimento operário. De um lado, o eixo de ação política dos trabalhadores reservava a exigência das condições e garantias do Estado para as conquistas resultantes do compromisso fordista acentuando a melhoria dos salários, das condições de trabalho e de
seguridade social. De outro, um eixo inverso, de integração, organismos sindicais e políticos constituíram-se em estruturas mediadoras do domínio do capital sobre o trabalho na medida em que canalizavam os conflitos e propunham saídas apaziguadoras, portanto, reguladoras o suficiente para conter o transbordamento das contradições de classes.
Desse modo, o ciclo de expansão e afirmação do Welfare State apresentou sinais de crise também pelo ressurgimento de ações ofensivas do mundo do trabalho que ultrapassaram aqueles limites postos pela regulação fordista no campo da luta de classes. A emergência de novos sujeitos sociais50 foi o que impulsionou o transbordamento do conflito de classes. Exemplo foi o caso dos movimentos pelo controle social da produção que expressavam uma revolta do operário-massa contra os métodos tayloristas e fordistas de produção, no final dos anos 1960.
O taylorismo/fordismo realizava uma expropriação intensificada do operário-massa, destituindo-o de qualquer participação na organização do processo de trabalho, que se resumia a uma atividade repetitiva e desprovida de sentido. Ao mesmo tempo, o operário-massa era frequentemente chamado a corrigir as deformações e enganos cometidos pela ‘gerência científica’ e pelos quadros administrativos (ANTUNES, 1999, p.41).
Esse processo foi suportável até a primeira geração a qual se dispôs a pagar o preço pelas vantagens do fordismo. Já a segunda se rebelou contra seus métodos e técnicas de trabalho bem como com os limites do compromisso fordista assumidos pela geração anterior. De fato, a contradição: o fordismo provocou a emergência em escala ampliada de um novo proletariado que foi base social para a expansão do compromisso social-democrático, mas, ao mesmo tempo, foi o principal motivo para seu esgotamento.
Realizava-se, então, uma interação entre elementos constitutivos da crise capitalista, que impossibilitavam a permanência do ciclo expansionista do capital, vigente desde o pós-guerra: além do esgotamento econômico do ciclo de acumulação (manifestação contingente da crise estrutural do capital), as lutas de classes ocorridas ao final dos anos 60 e início dos anos 70 solapavam pela base o domínio do capital e afloravam as possibilidades de uma hegemonia (ou uma contra-hegemonia) oriunda do mundo do trabalho. A confluência e as múltiplas determinações de reciprocidade entre esses dois elementos centrais (o estancamento econômico e a intensificação das lutas de classes) tiveram, portanto,
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Ricardo Antunes (1999) denominou de operário-massa a parcela hegemônica do proletariado da era taylorista/fordista que atuava no universo concentrado no espaço produtivo.
papel central na crise dos fins dos anos 60 e início dos 70 (ANTUNES, 1999, p.42).
As contradições emergentes ameaçaram a hegemonia americana. Inclusive a própria influencia de movimentos nacionalistas burgueses que mobilizaram alguns insatisfeitos do Terceiro Mundo com o não cumprimento da promessa de modernização. Ao contrário do que se esperava o domínio capitalista promoveu a destruição de culturas locais ocasionando uma crise do Estado-nação. Ainda assim, o núcleo essencial do fordismo manteve-se até 1973 quando a recessão abalou esse quadro para novas transformações.