4. O MEDO COMO INSTRUMENTO DE PODER
4.2. Nesse mundo de medo
No século XVI, não se entra facilmente à noite em Augsburgo. Montaigne, que visita a cidade em 1580, maravilha-se diante da “porta falsa” que, graças a dois guardas, controla os viajantes que chegam depois do pôr-do-sol. Estes vão de encontro em primeiro lugar a uma poterna de ferro que o primeiro guarda, cujo quarto está situado a mais de cem passos dali, abre de seu alojamento graças a uma corrente de ferro que, “por um caminho muito longo e cheio de curvas”, puxa uma peça também de ferro. Passado esse obstáculo, a porta volta a fechar-se bruscamente. O visitante transpõe em seguida uma ponte coberta situada por cima de um fosso da cidade e chega a uma pequena praça onde declina sua identidade e indica o endereço onde ficará alojado em Augsburgo. O guarda, com um toque de sineta, adverte então um companheiro, que aciona uma mola situada numa galeria próxima ao seu quarto. Essa mola abre em primeiro lugar uma barreira – sempre de ferro – e depois, por intermédio de uma grande roda, comanda a ponte levadiça “sem que nada se possa perceber de todos esses movimentos: pois são conduzidos pelos pesos do muro e das portas, e subitamente tudo isso volta a fechar-se com grande ruído”. Para além da ponte levadiça abre-se uma grande porta, “muito espessa, que é de madeira e reforçada com várias grandes lâminas de ferro”. Através dela o estrangeiro tem acesso a uma sala onde se vê encerrado, só,
28 Ver trabalhos de Margarida Barreto, José Roberto Heloani e Terezinha Martins de Santos Souza sobre assédio Moral
e sem luz. Mas uma outra porta semelhante à precedente permite-lhe entrar numa segunda sala onde, desta vez, “há luz” e lá descobre um vaso de bronze que pende de uma corrente. Ele aí deposita o dinheiro de sua passagem. O (segundo) porteiro puxa a corrente, recolhe o vaso, verifica a soma depositada pelo visitante. Se não está de acordo com a tarifa fixada, ele o deixará “de molho até o dia seguinte”. Mas, se fica satisfeito, “abre-lhe da mesma maneira mais uma grossa porta semelhante às outras, que se fecha logo que passa, e ei-lo na cidade”. Detalhe importante que completa esse dispositivo ao mesmo tempo pesado e engenhoso: sob as salas e as portas existe “um grande porão para alojar” quinhentos homens de armas com seus cavalos, no caso de qualquer eventualidade. Se for necessário, são enviados para a guerra “sem a chancela do povo da cidade” (DELUMEAU, 1989, pp. 11-12).
O excerto de Montaigne mostra a proteção de uma cidade do século XVI, em que guardadas as devidas proporções de tecnologia e tempo são muito próximas da realidade dos condomínios das atuais cidades. Grandes portarias com diversos seguranças espalhados, portões duplos ou triplos para a entrada de carros, vigilância eletrônica por todos os lados, necessidade de se identificar e identificar seu destino, muitas vezes acompanhada da necessidade da apresentação de documentos. E tal qual o relato, em caso de qualquer eventualidade, o uso de força armada é enviada “sem a chancela do povo da cidade”.
Ao falar do medo, outros dois fenômenos são suscitados, a segurança e a falta dela. Ao tratarmos do tema dentro de uma sociedade capitalista, na qual tudo se torna mercadoria, o medo se tornou responsável pela movimentação de uma grande indústria de trilhões de dólares que em nome da segurança não é questionada.
Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Porque motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo
A indústria da segurança, em nossos dias, fatura muito com os medos, seja em contratação de força de trabalho para segurança pessoal ou na intensa produção industrial de instrumentos de vigilância: alarmes, cercas elétricas, circuitos internos de filmagem, armamento não-letal, monitoramento via satélite, blindagem de carros e residências, entre tantos outros. De acordo com dados de Bergamasco (2012), na cidade de São Paulo, desde 2008, mais de 5000 carros são blindados por ano, entre 2006 e 2010 o faturamento do setor de segurança eletrônica saltou de R$256 milhões para R$420 milhões, um aumento de 64%. Em 2011, 6122 policiais militares foram formados pelo estudo, cerca de 3500 a mais que no ano anterior, além disso a polícia equipou todas suas 3500 viaturas com tablets e GPS, e outros 1200 aparelhos foram distribuídos para o efetivo a pé e de moto.
Mas, sem dúvida, a mais lucrativa e de mais incessante produção, dentre estas, é a indústria bélica, sustentada por uma proclamada necessidade de defesa – e ataque – contra os inimigos, como afirma o escritor Mia Couto (2011), “para fabricar armas é preciso fabricar inimigos, para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas.”29 Afirmação que é confirmada por João Verdi Carvalho Leite,
presidente da Avibrás, maior fabricante de equipamentos militares da América Latina, “o mundo está ficando mais perigoso e isso traz perspectivas interessantes” (BARBOSA, 2001).
De acordo com dados apresentados por Gianini (2011), no caso da guerra contra o terror, os Estados Unidos da América passaram de US$12 bilhões gastos
29 Citação de conferência não publicada do escritor moçambicano Mia Couto no Estoril Conferences 2011, Estoril - Portugal. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=jACccaTogxE>.
em 2002, para US$191 bilhões em 2011. A Universidade Brown (CHACRA, 2011) estima que em 10 anos os Estados Unidos tenham gastado algo em torno de US$4 trilhões nas guerras contra o Afeganistão e Iraque. Nessas guerras, que resultaram em mais de 225.000 mortos, incluindo 140.000 civis, as forças americanas dispararam, em média, 250.000 tiros para cada combatente inimigo morto.
Outra vencedora dessa sociedade adoecida pelo medo é a indústria farmacêutica; ano após ano, a produção e o faturamento de medicamentos crescem, o consumo de antidepressivos, ansiolíticos, calmantes e estimulantes vem aumentando assustadoramente em todos os segmentos sociais. Também são alarmantes os dados estatísticos apresentados sobre as doenças. Em uma análise das publicações do Washington Post, New York Times e USA Today em 1996, o jornalista Bob Garfield descobriu que na população dos Estados Unidos 59 milhões sofriam de doenças cardíacas, 53 milhões de enxaqueca, 25 milhões com osteoporose, 16 milhões com obesidade e 3 milhões com câncer. Em doenças mais obscuras, existem 10 milhões com disfunção da articulação temporomandibular e 2 milhões com distúrbios cerebrais; somando tudo, o jornalista observou que em uma população de 266 milhões de habitantes, 543 milhões estavam gravemente doentes, e concluiu “Ou estamos condenados como sociedade, ou alguém está chutando alto” (GARFIELD apud GLASSNER, 2003, p. 20).
O crescente medo é também corresponsável pelo surgimento de novas justificativas para tirar de circulação – por meio de prisões, internações compulsórias ou extermínio – os ‘não desejáveis’, ‘os perigosos’, sejam estes o jovem negro de periferia, seja o morador de rua ou o viciado em crack, esquecido – ou higienicamente retirado – nas ruas das cidades e no campo. Uma tática parecida com o ‘argumento da espada enfiada no ventre’ (DUBY, 1999, p. 63), que São Luís
[...] é preciso convertê-los ou, então, destruí-los” (DUBY, 1999, p. 63).
Na necessidade de se encarcerar e perseguir pessoas são necessárias mudanças legais que retirem cada vez mais a privacidade e os direitos individuais em nome da segurança. Como a promulgação em tempo recorde da lei do “Ato Patriótico” 30, nos Estados Unidos da América, que permite espionagem de
telefonemas e e-mails e detenção - sem mandado e julgamento - por tempo indeterminado de estrangeiros considerados perigosos, abrindo brechas legais para diversas violações dos direitos humanos, incluindo torturas.
Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. [...] Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. (COUTO, 2011)
São tantos os perigos, as vigilâncias e as punições que a população, assustada e muitas vezes adoecida, vai se tornando progressivamente mais passiva, mais conformada. Reduzindo sua vida ao cotidiano de seu trabalho alienado, diminuindo sua autonomia e suas possibilidades de humanização, sem possibilidades (e sem desejo) de tentar mudar a realidade a sua volta.
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm
30 A lei Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstructing Terrorism ACT of 2001 - USA PATRIOT ACT conhecida por “Ato Patriótico” foi apresentada na câmara “House of the Representatives” no dia 23 de outubro de 2001 e aprovada no dia 24 de outubro por 357 votos favoráveis contra 66 contrários. No dia seguinte, 25 de outubro, a lei foi aprovada na câmara “Senate” por 98 votos a 1. E finalmente assinada pelo, então presidente, George W. Bush no dia 26 de outubro de 2001, 45 dias depois dos ataques. Em entrevistas, para o documentário Fahrenheit 9/11 (2004) do cineasta Michael Moore, vários parlamentares alegaram que tiveram de votar sem terem tido tempo de ler a lei.
medo da fome, têm medo da comida. Os motoristas têm medo de caminhas e os pedestres têm medo de ser atropelados. A democracia tem medo de lembrar e a linguagem tem medo de dizer. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. É o tempo do medo. (GALEANO, 2009, p. 83)
Parece, então, clara a relação entre medo e poder, e que esse uso social do medo leva, analogamente, a uma paralisia social, fazendo com que indivíduos, grupos tenham reduzidas possibilidades de agirem no mundo.
Partindo da premissa que a atividade é a categoria fundante do psiquismo humano, esses indivíduos e grupos teriam suas atividades restritas às imposições do cotidiano do trabalho alienado da sociedade capitalista, portanto não exercendo toda sua potênciade humanização.