PUC-SP
Henrique Meira de Castro
Medo e relações de poder: uma contribuição para a Psicologia
da Educação
PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM
EDUCAÇÃO: PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Henrique Meira de Castro
Medo e relações de poder: uma contribuição para a Psicologia
da Educação
PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM
EDUCAÇÃO: PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO
SÃO PAULO
2012
AGRADECIMENTOS
Esta é aquela seção que lembramos e esquecemos um monte de pessoas importantes. Muitas vezes lembramos diversas pessoas que nos ajudaram nesse processo, normalmente as protagonistas, companheiras ou mais próximas. Que muitas vezes estão hierarquicamente acima ou igual a nós. E infelizmente muitas vezes é difícil lembrar os que não exercem protagonismos ou não são próximos, mas que são fundamentais.
De quem lembrei gostaria de poder agradecer,
À Laís, minha companheira e amiga, por todo o amor e carinho. Comigo durante todo o processo foi quem mais participou desse texto, compartilhando minhas angústias, dificuldades e felicidades. Além de ser sempre a primeira incentivadora, crítica, leitora e corretora;
Aos meus pais, Joaquim e Ana Maria, que sempre apoiam e respeitam meus caminhos, mesmo que, muitas vezes não concordando com minhas opiniões ou decisões. Obrigado pelo apoio e carinho;
Aos meus irmãos, Denise e Renato, pelos cuidados e apoios desde sempre. Agradecimentos que são estendidos para William (e pelas eternas conversas sobre ciência) e Camila;
Ao Mateus e Maria por nos lembrar sempre da importância de sorrir;
À Mitsuko pelas (des)orientações, paciência, confiança e apoio. Principalmente na reta final quando entreguei tudo em cima da hora... Valeu Mimi!!
À Maria do Carmo pelo que aprendi em aulas, grupos e conversas. E pela grande ajuda e contribuição no Exame de Qualificação;
Ao Sandro pelas contribuições no Exame de Qualificação e por ser um dos primeiros interlocutores deste trabalho no mestrado;
Ao Netto pelos mais diversos motivos nesses últimos anos e por ser, também, um dos interlocutores;
Metonímia e Mimesis), Movimento Estudantil e Comandos de Greve da Unesp Bauru. Período no qual provavelmente mais, e melhor, aprendi a entender e enfrentar nossas correntes;
Aos professores Nilma, Osvaldo, Angelo, Ari, Tuim, Ju Pasqualini, Marisa e Áurea da Unesp Bauru que foram fundamentais em minha formação profissional, científica, ética e política;
A tod@s do Núcleo de Estudos em Psicologia Social e Educação: Contribuições do Marxismo – NEPPEM e dos núcleos Bauru e Cuesta da Associação Brasileira de Psicologia Social – ABRAPSO, em especial à Sueli Terezinha.
Ao Tuga e Kester pelos primeiros acolhimentos científicos na universidade e,
Ao Amauri por me acolher em seu laboratório e ensinar o valor da ciência e da pesquisa científica. Ao Caio e a todo o povo meio esquisito daquele laboratório!
Ao Rafael, parceiro de graduação que me convidou para estudar a “Cultura do Medo” no primeiro ano de graduação e, posteriormente me confiou a continuação deste trabalho;
As tod@s professores do PED que contribuíram com minha formação. Obrigado Ia, Cláudia e Sérgio;
Ao Edson que sempre ajuda e quebra os galhos dentro do PED;
A todos os professores (formais ou não) que já tive desde os 2 anos;
Aos amigos da Unesp e aos amigos de Botucatu. São tantos e tão diversos que seria desonesto citar alguns e possivelmente esquecer de outros;
A todos que algum dia me permitiram a diversão de ter uma banda! Valeu Janja, Pinky, D’Angelo, Guerrini, Dani, Jônatas, Boca, Rafinha, Cowboy, Papito, Beakman, Kiko, Danilo, Eric, Testa, Lebrão e Murilinho
A todos que algum dia sentaram comigo na mesa do bar e papearam por horas sobre absolutamente qualquer assunto, que foram sempre fundamentais!
- É de medo que todos nós nos perdemos! E aqueles que mandam em nós, tiram proveito do nosso medo e nos atemorizam mais ainda. A mãe suplicou gemendo: - Não fique zangado! Como não ter medo! Passei a vida toda no terror, tenho a alma coberta de medo! (Máximo Gorki –“A Mãe”)
CASTRO, Henrique Meira de. Medo e relações de poder: uma contribuição para a Psicologia da Educação. Dissertação de mestrado, Educação: Psicologia da Educação, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2012.
A presente dissertação sobre medo e relações de poder é pesquisa bibliográfica e reflexão teórica sobre como o medo pode ser utilizado como instrumento de controle social. Toda a reflexão sobre medo e seu possível uso como instrumento de controle social é feita a partir da síntese que Vigotski faz em seus estudos sobre a teoria das emoções, na qual a emoção e, por conseguinte, o medo não são uma simples força natural e instintiva de sobrevivência, mas também, uma função psicológica superior que se constitui na mediação entre indivíduo e sociedade, portanto complexa, em transformação e síntese de múltiplas determinações. Após traçar uma breve história dos medos que afligiram, e continuam a afligir, o gênero humano, são apresentadas diversas situações nas quais o medo é utilizado como uma das formas de poder nas relações, desde textos bíblicos e lendas indígenas à veiculação massiva de notícias amedrontadoras do século XXI, passando pelas relações de poder dentro das famílias, escolas e no mundo do trabalho. A partir disso, discute possíveis consequências dessa cultura do medo como, uma expansão de conflitos armados, higienismo social, aumento de doenças relacionadas a esses fenômenos, a perpetuação das formas disciplinares na educação e como alguns setores da sociedade lucram com esses medos. Faz uma reflexão sobre como podemos superar essas relações e se isso é possível numa sociedade de classes.
ABSTRACT
CASTRO, Henrique Meira de. Fear and relations of power: a contribution to
educational psychology.Master’s degree dissertation. PUC-SP. São Paulo, 2012. This work on fear and relations of power is a bibliographical research and a theoretical approach to how fear can be used as an instrument of social control. All the reflection about fear and its possible uses as an instrument of social control is made from the synthesis of Vygotsky in his studies on the theory of emotions. For him, emotion, and therefore, fear is not a simple natural and instinctive survival strength, but also a higher psychological function that constitutes itself on a mediation between person and society, thus a complex synthesis of multiple determinations. After a very brief history of the fears that have plagued, and continues to plague, the human race, some situations in which fear is used as one of
the forms of power in relationships are presented, from biblical scriptures and
indigenous legends to the 21th century establishment of massive frightening news announcements, through the relations of power within families, schools and the labor’s world. Also, we discuss the possible consequences of this culture of fear as an expansion of armed conflicts, social hygienism, as well as the increase in related diseases to that phenomenon, the perpetuation of disciplinary forms of education and how some sectors of society profits from these fears. Finally, a reflection on how we can overcome these relationships, and if this is possible within a class society.
CASTRO, Henrique Meira de. El miedo y las relaciones de poder: Una contribuición a la psicología de la educación. Disertación de maestría. PUC-SP, São Paulo, 2012. Esta disertación sobre el miedo y las relaciones de poder es una investigación bibliográfica y una reflexión teórica sobre cómo el miedo puede ser utilizado como un instrumento de control social. Toda la reflexión sobre el miedo y su posible uso como instrumento de control social se realiza a partir de la síntesis que hace Vygotski en sus estudios sobre la teoría de las emociones, en el que la emoción, y por lo tanto, el miedo no son una mera fuerza natural e instintiva de supervivencia, sino también una función psicológica superiora que consiste en la mediación entre el individuo y la sociedad, en constante transformación y síntesis de múltiples determinaciones. Después de trazar una breve historia de los temores que han afectados, y siguen afectando, a la especie humana, se presentan diversas situaciones en las que el miedo es usado como una forma de poder en las relaciones, de los textos bíblicos y leyendas a la masiva divulgación de noticias aterradoras del siglo XXI, y también, en las relaciones de poder dentro de las familias, las escuelas y en el mundo del trabajo. A partir de esto, discute las posibles consecuencias de esta cultura del miedo como una expansión de los conflictos armados, de higienismo social, de el aumento de las enfermedades relacionadas con estos fenómenos, la perpetuación de la formas disciplinario de educación y cómo algunos sectores de la sociedade ganan com estos temores. Hace una reflexión sobre cómo podemos superar estas relaciones y si esto es posible en una sociedad de clases.
SUMÁRIO
1. APRESENTAÇÃO ... 05
2. O GÊNERO HUMANO E A LONGA HISTÓRIA DE SEUS MEDOS ... 11
2.1. O medo na história do ocidente ... 15
3. SOBRE EMOÇÃO E MEDO ... 19
3.1. Sobre emoção ... 20
3.2. Teoria das emoções em Vigotski ... 23
3.2.1. Primeiras definições ... 26
3.2.2. Definições posteriores ... 30
3.2.3. Uma teoria Vigotskiana das emoções ... 36
3.3. Sobre medo ... 39
4. O MEDO COMO INSTRUMENTO DE PODER ... 43
4.1. A cultura do medo ... 49
4.2. Nesse mundo de medo ... 53
5. É POSSÍVEL SUPERAR A CULTURA DO MEDO? ... 56
5.1. Sociedade de classes ... 60
5.2. Superando essa condição ... 66
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 70
Vivemos um momento em que o modo de produção capitalista está definitivamente instalado nas universidades. Um modo de produção de velocidade intensa e tensa, diariamente intensificada e tensificada. Universidades são
gerenciadas como fábricas, – e financiadas por bancos, indústrias químicas,
petroquímicas, farmacêuticas, automobilísticas, cosméticas, que nada tem a ver com
o interesse do desenvolvimento da ciência ou da realidade social brasileira –
professores são contratados como auleiros sem espaços e condições adequadas para desenvolvimento sequer das aulas, quanto mais de extensões e pesquisas cientificas.
A produção científica no Brasil vem sendo guiada por uma mentalidade de produção a qualquer custo. Números e estatísticas mascaram a realidade de uma produção científica pobre, efêmera, descolada da realidade. Prazos curtos e metas
altíssimas1 são traçadas para todos dentro da academia.
As discussões dentro das comunidades científicas são mínimas. Os congressos e encontros científicos se tornaram fábricas de certificados, para encher de linhas de currículos Lattes, na garantia de se conseguir ou manter uma bolsa de estudos ou um emprego.
O que temos que ler e onde temos que escrever é previamente determinado por arbitrárias avaliações que pontuam revistas, livros e publicações. É como Brecht escreveu em seu poema:
1 Recomendo a leitura do manifesto “Por um movimento
Slow Science” de Joël Candau, que segue a linha de outros manifestos como o Slow Food (em contraposição à Fast Food) e reivindica que as políticas de produção de Ciência e Tecnologia sejam repensadas e que a pressa e a quantidade possam dar espaço à calma e qualidade. O manifesto foi traduzido e
publicado no número 16 da revista “O olha da história” da UFBA e no número 49 – janeiro
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.
“Privatizado”
Bertold Brecht
É nesse caos que esta pesquisa se faz presente. E completamente dentro destas especificações se encontra seu autor.
O tema abordado, o medo e seus possíveis usos como instrumento de poder, se fez presente durante todo o percurso da pesquisa. Medo de não conseguir uma bolsa de estudos (já que não teve durante os primeiros oito meses de curso), medo de não conseguir terminar o texto a tempo, medo de não fazer um trabalho bom e adequado para a defesa. Medo de cair em uma rotina acadêmica e esquecer a importância de estar atento à realidade a sua volta e não ter tempo para participar de nenhuma organização política e social por ter que cuidar da própria vida.
No meio desse turbilhão de preocupações, também sofri muito com a atividade de escrever, tão pouco treinada e exigida na graduação e tão importante no mestrado.
Houve diversos momentos de “branco” e de “travadas”, especialmente
durante as leituras e escrita do capítulo sobre emoções, durante o qual pude, ironicamente, com mais entendimento teórico, vivenciar momentos emocionalmente difíceis.
O tempo todo algumas questões balizavam a confecção deste mestrado, para quê e para quem estava fazendo esse trabalho?
que essa atividade está produzindo. (MARTÍN-BARÓ, 1996, p. 22)
* *
O presente estudo sobre o medo teve início muito antes do meu ingresso no mestrado. Comecei a investigar o tema no primeiro ano de graduação em psicologia da Unesp Bauru, no ano de 2004, quando junto de um colega fiz um trabalho intitulado “A apropriação do medo como forma de manutenção do poder vigente”
para a disciplina de Antropologia. No ano seguinte, na disciplina de Metodologia Científica, continuamos o estudo com um projeto de pesquisa de título “Cultura do
Medo: O surgimento da figura de autoridade”. E ao longo da graduação continuei a
estudar o tema, sempre com um enfoque diferente, de acordo com a matriz do pensamento psicológico que ia tomando conhecimento no curso: psicologia comportamental, psicanálise e psicobiologia.
No entanto em nenhuma delas sentia firmeza de ser aquilo que gostaria de estudar e somente no terceiro ano de graduação, quando comecei a estudar a psicologia sócio-histórica na disciplina de Psicologia Social e a psicologia histórico-cultural na Psicologia da Educação é que vislumbrei um caminho que gostaria de trilhar.
pude me aproximar do marxismo e de perspectivas mais críticas da psicologia, sobretudo da psicologia de Vigotski e Leontiev.
Com um crescente interesse e estudo da psicologia soviética e, consequentemente, do marxismo, passei a entender melhor a realidade da universidade pública e do movimento estudantil, no qual militava, e comecei a perceber de forma bastante clara os usos do medo nas relações de poder que vinha, até então, estudando teoricamente.
Como representante estudantil em órgãos colegiados e centro acadêmico, pude perceber que existia um grande número de estudantes interessados em participar das atividades e movimentos políticos, mas não o faziam com medo de possíveis perseguições por parte de professores e diretores da universidade. Em semelhante situação estava o movimento sindical dos servidores, afinal eram comuns represálias, processos administrativos, sindicâncias, demissões, reuniões a portas fechadas com ameaças de punições, entre tantas possíveis formas de tentativas de controle.
Essa situação objetiva me fez pensar e refletir em todas as relações que, até então, estava inserido e comecei a perceber que aquelas não eram as primeiras formas de controle pelo medo a que havia sido submetido. Só percebia, até aquele momento, os usos do medo em grandes escalas de poder, como nas situações de guerras e conflitos de política governamental. Mas percebi que não era assim distante, que era possível que em todas as relações entre diferentes interesses e indivíduos, o medo estivesse como elemento constituinte.
uma loja porque “o moço estava olhando”, ou ficar em silêncio na aula porque podia “parar na sala da diretora”. Pude perceber que em certas situações não aprendi o que era o certo a ser feito, mas o que não podia fazer porque alguém estava ali, pronto, para aplicar a devida punição.
De volta à universidade retomei meu projeto e decidi estudar esse complicado tema. Não tinha claro o objetivo, nem o caminho, mas queria entender como se dava esse controle pelo medo que causava nos indivíduos um congelamento do enfrentamento, restrições do agir, uma possível heteronomia causada pelo medo da punição. Era um tema de tão poucos debates e tão poucas discussões. Seria, também, por medo?
Infelizmente, por dificuldades de avançar com a pesquisa na graduação (estando nos últimos anos de graduação, as atividades de aula e estágios tomavam a maior parte do horário e o resto do tempo era dedicado ao Movimento Estudantil), ela foi adiada para uma pós-graduação.
Ao finalizar a graduação com a perspectiva de me tornar professor universitário e pesquisador, decidi cursar um mestrado e por indicações quase unânimes de meus professores e colegas, vim para a PUC-SP e para o PED ser orientado pela professora Mitsuko (indicação também quase unânime).
Desde o início com uma excelente relação com a orientadora começamos a discutir caminhos de como poderíamos desenvolver a pesquisa. Ao longo dos primeiros três semestres muitos caminhos foram traçados e tentados, mas pouco avancei.
interesse em trazer as contribuições da Psicologia Soviética para esta produção, por entender e respeitar a complexidade da obra e não querer fazer uma leitura “pela
metade” e comprometer meu trabalho. Mas o caminho sugerido no exame de qualificação foi de encarar esse desafio.
Frente a isso, considero que este trabalho tenha um valor científico e político maior do que existiria sem ela, mesmo com uma maior possibilidade de dificuldades de interpretação e análise da teoria ou de problemas relacionados a ela.
No entanto, o trabalho foi realizado sabendo dessas limitações, sabendo que a teoria de Vigotski não foi aprofundada e discutida em todas suas possibilidades. O trabalho realizado é o trabalho possível dentro das limitações técnicas, científicas e pessoais do autor, mas que se propôs a levantar e, dentro das possibilidades, continuar a discussão, por entender que é um tema bastante debatido em algumas ciências sociais, mas pouco estudado dentro da Psicologia.
O trabalho também não é extenso, por uma limitação do autor, que apesar de grande revisão bibliográfica, não conseguiu trazer de forma efetiva a contribuição de tudo o que foi lido. Em outros momentos, no entanto, não achou necessário alongar uma discussão que considerasse adequada.
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas, cantaremos o medo da morte e o medo do depois da morte, depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
“Congresso Internacional do Medo”
Carlos Drummond de Andrade
O gênero humano foi, e ainda é, atormentado por medos ao longo de toda sua existência. Desde os primeiros registros da história humana somos capazes de identificar situações de medo e ações que visavam a proteção contra os perigos da vida natural e, posteriormente, da vida social. Nesses registros podemos perceber explicações míticas e histórias, muitas vezes assustadoras, em culturas que tentavam compreender o mundo a sua volta. Essas explicações eram utilizadas para interpretar e narrar os acontecimentos cotidianos e, também, para transmitir certos ensinamentos.
Mundukuru, descendente indígena brasileiro, conta que índios do que viria a
ser o Brasil se utilizavam do medo quando criavam “uma série de narrativas para
mostrar os perigos que nos rodeiam em nossa vida de florestas, de montanha ou de cerrado e também para lembrar às crianças a importância de estarem atentas aos
desafios que a natureza nos impõe” (MUNDUKURU, 2010, p.7). Função parecida
com as máscaras confeccionadas por primitivas tribos africanas que eram usadas para traduzir, se defender e espalhar o medo (DELUMEAU, 1989). Tais máscaras e histórias simultaneamente camuflam e exprimem o que Delumeau, pelas palavras de Kochnitzky, descreveu:
homem. (DELUMEAU, 1989, p. 21)
Na Grécia Helênica medo, temor, terror, pavor e pânico não eram simplesmente emoções e sentimentos humanos, eram deuses, semideuses e
demônios. Como Pã, deus dos pastores e dos rebanhos, que deu origem à palavra
pânico. Seu corpo era parte humano e parte bode, possuía cascos, chifres e o corpo coberto de pelos. Tinha uma aparência tão assustadora que sua própria mãe, a ninfa
Dríope, ficou apavorada e o abandonou. Contam as histórias que “seus
aparecimentos súbitos provocavam um pânico que se derramava pela natureza e impregnava todos os seres, ao pressentirem a presença de uma divindade que
perturba o espírito e enlouquece os sentidos” (BRANDÃO, 1991, p.222).
Os demônios Phobos - palavra derivada do verbo grego phébesthai, que
significa fugir espavoridamente e que é a origem da nossa palavra fobia - era a
personificação do Medo e do Terror e seu irmão Deîmos, o Pavor, eram os cruéis e
sanguinários filhos de Ares, deus da guerra e da violência e apareciam sempre ao lado de seu pai nas guerras e em derramamentos de sangue (BRANDÃO, 1991). Em Esparta, sacrifícios eram oferecidos a Phobos antes das guerras, e os romanos decidiram, sob ordens de Tulo Hostílio, consagrar dois santuários a Pallor - origem
da palavra palidez no idioma português - e Pavor, correspondências romanas a
Deimos e Phobos (DELUMEAU, 1989). Assim também fez Alexandre Magno antes da batalha de Arbelos, oferecendo a Phobos um sacrifício solene; esperava que, agradando ao deus do medo, seus soldados, durante o combate, não fugissem
apavorados (A religião e o medo, 2005)2.
Em nossos dias, muitas religiões ainda trazem figuras representativas do medo, como, por exemplo, as representações demoníacas do cristianismo, apropriada de deuses de crenças pagãs, em oposição à graça divina (A religião e o medo, 2005). Mas, além disso, na vida cotidiana, seja no passado ou na atualidade, podemos citar alguns exemplos do infinito número de identificações da realidade com o medo, como o mar, a noite, a fome, os saqueadores, as doenças, as possibilidades de holocaustos ecológicos e nucleares, o desconhecido, o outro e a morte.
O maior medo é o medo da morte, selecionado naturalmente como um dos mecanismos responsáveis por nossa existência e permanência como espécie, dele decorrem suas variações. Medo de quase morrer, medo do que ocasiona morte, medo da dor, de enfermidades, do sofrimento moral, da solidão, da carência etc. Mas, temendo a morte, ansiamos por maneiras de prolongar a vida. Personificamos a morte para melhor poder encará-la e confrontá-la. Em nosso temor da morte criamos um estado para nos proteger de algumas de suas armas, corroborando uma das teses de Hobbes (1651/1997), na qual o medo da morte, na guerra de todos os homens contra todos os homens, é o principal motivo para a existência do Estado.
Entretanto, jamais alguém presenciou a “Dona Morte no final do túnel”, mas
muitos tiveram de lidar com um diagnóstico de doença terminal ou foram engolidos por uma gigante onda em alto-mar. Em sua história, a humanidade sofreu os mais
diversos medos, uma longa e duradoura exposição que pôde “criar um estado de
desorientação e de inadaptação, uma cegueira afetiva, uma proliferação perigosa do imaginário, desencadear um mecanismo involutivo com a instalação de um clima
2.1. O MEDO NA HISTÓRIA DO OCIDENTE
Um dos estudos clássicos e mais citados sobre a história do medo é o livro ‘História do medo no ocidente (1300-1800)”, escrito por Jean Delumeau, que será utilizado como base para esta revisão.
Delumeau começa seu livro comprovando a tese do medo como natural e inerente aos seres humanos e aos animais, mas ressalta que, dentre estes, o homem é o único que sabe que vai morrer e cita Vercors para uma definição da amedrontada natureza humana, “os homens usam amuletos, os animais não os
usam” (DELUMEAU, 1989, p. 19), mas não confunde o fato com covardia; para o
autor, o medo não tem nada a ver com covardia ou coragem, apesar da literatura e
do conhecimento medieval e renascentista – e muitas teorias modernas – os terem
colocado como dois lados de uma mesma moeda. Explica que esta comparação servia como instrumento de manutenção social, justificando a existência do nobre cavaleiro sem medo que zelava pelas massas de camponeses covardes, uma vez que “o medo é a prova de um nascimento baixo” (ENEIDA, IV, 13, apud
DELUMEAU, 1989, p. 14).
O autor define dois tipos de medo ao longo do período estudado, os medos permanentes e os medos cíclicos. Os medos permanentes eram mais naturais e amplamente sentidos por todas as classes sociais, na medida em que as afetavam
todas. Eram medos “ligados ao mesmo tempo a um certo nível técnico e ao
instrumental mental que lhe correspondia: medo do mar, das estrelas, dos presságios, dos fantasmas, etc.” (DELUMEAU, 1989, p. 31). Os medos cíclicos
afetar apenas os mais pobres, como no caso da penúria diante de uma colheita ruim, de um inverno muito rigoroso ou da guerra.
Mas uma coisa era certa, o medo era onipresente, fosse em terra, fosse em mar. Mar sempre revolto, com tempestades e gigantescas ondas contadas por Homero, Virgílio e Camões. Medo do novo, medo do desconhecido, medo do outro, do estrangeiro, que nos é diferente (DUBY, 1999).
Ao longo dos séculos estudados, o autor apresenta uma longa lista dos temores sofridos pelas populações do ocidente. Medo do amanhã, medo do escuro, da noite e do sol não nascer novamente. Medo da fome, da falta de pão e de uma colheita ruim. Medo do inverno e do frio. Medo da peste e das doenças. Medo da violência, do roubo, do saque, das invasões. Dos soldados de exércitos oficiais e de soldados mercenários. Medo do Estado, da burocracia e dos altos impostos. Medo dos mendigos e vadios. Medo das revoltas, revoluções e da subversão. Medo dos demônios e de seus agentes, do anticristo e da heresia. Medo do fim do mundo, do apocalipse, juízo final e da eterna danação. Medo da reforma, da contrarreforma e das outras religiões. Medo das bruxas e também da inquisição.
A constituição de Esparta era fundada sobre ele [o medo],
sistematizando a organização dos “iguais” em casta militar.
Mobilizados permanentemente, aguerridos desde a infância, viviam sob a constante ameaça de uma revolta dos hilotas. A fim de os paralisar pelo medo, Esparta precisou modificar-se ela cada vez mais
radicalmente. As medidas “aloplásticas” iniciais dirigidas contra os
hilotas logo acarretaram medidas “autoplásticas” ainda mais rigorosas “que transformaram Esparta em um campo fortificado”.
Mais tarde, a Inquisição foi semelhantemente motivada e mantida pelo medo desse inimigo sem cessar renascente: a heresia que parecia perseguir incansavelmente a Igreja. Em nosso tempo, o fascismo e o nazismo beneficiaram-se dos alarmes dos possuidores de rendas e dos pequenos burgueses que temiam as perturbações sociais, a ruína da moeda e o comunismo. As tensões raciais na África do Sul e nos Estados Unidos, a mentalidade obsidional que
reina em Israel, o “equilíbrio do terror” mantido pelas superpotências,
O autor resume, demonstrando que, em uma longa sequência de “traumatismo coletivo, o Ocidente venceu a angústia ‘nomeando’, isto é,
identificando, ou até ‘fabricando’ medos particulares” (DELUMEAU, 1989, p. 26),
medos fabricados que podem ser considerados responsáveis por terem gerado, e ainda gerarem, milhares de mortos em todo o mundo. Dos grandes conflitos armados entre nações, passando por internas guerras civis até o extermínio higienista de minorias.
Medo, tão presente em nossas vidas, que foi e é estudado nas mais diversas áreas das ciências, seja como emoção, sentimento, paixão da alma, instinto de sobrevivência, traumas e recalques etc., e também retratado nas mais diversas manifestações artísticas, como na pintura, literatura, teatro, música, cinema, assim como em diversas outras manifestações da cultura humana. No entanto, muitas vezes, quando apenas considerado como natural e necessário, sua manifestação pode passar despercebida em outras situações que não estas.
Utilizando o materialismo histórico e dialético como fundamentação teórica do presente estudo sobre o medo, tentar-se-á superar visões naturalistas que tratam o medo apenas como uma emoção necessária para a sobrevivência e visões medicalizantes e culpabilizadoras, que colocam o medo como uma emoção ruim, devendo ser evitado, confundindo-o e igualando-o com doenças ou transtornos psicológicos, tratando-os como culpas e fraquezas dos indivíduos, culpabilizando-os sem uma análise aprofundada das condições sócio-históricas em que se vive.
Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre O meu sorriso é por consolação
Porque sei conter para ninguém ver O pranto do meu coração
“Quem me vê sorrindo”
Cartola e Carlos Castro
3.1. SOBRE EMOÇÃO
Discutir e definir emoção é um trabalho extenso e controverso, começando pelo próprio termo utilizado. Desde o início das indagações sobre as reações humanas a determinados estímulos já foram utilizados, entre outras, emoção, sentimento, afeto, paixão, sendo que estas já ocorreram em nossas almas, espíritos, coração, sangue, fluídos, intestinos e cérebros. Portanto, discutir o tema não é fácil.
Para uma introdução ao tema será feita uma breve revisão das teorias e definições de emoção de Platão às ciências modernas como a biologia, medicina e psicologia produzida por Abbagnano. Em seu dicionário de filosofia, Abbagnano
(1998, p. 311) define emoção como “qualquer estado, movimento ou condição que
provoque no animal ou no homem a percepção do valor (alcance ou importância)
que determinada situação tem para sua vida, suas necessidades, seus interesses”.
Ou seja, como reações imediatas de homens e animais a situações favoráveis ou desfavoráveis que os colocam em estado de alerta para enfrentar uma determinada situação com os meios que possuem.
valor que o fato ou a situação a que se refere a afeição tem para a vida ou para as necessidades do animal” (Abbagnano, 1998, p. 311). Para os estoicos, as emoções eram juízos errados, opiniões vazias e desprovidas de sentido e os sábios, por viverem segundo a razão, estariam imunes a elas, denotando uma clara oposição entre razão e emoção.
Já no âmbito da filosofia moderna, Hobbes colocou as emoções como uma das quatro faculdades humanas fundamentais, junto à força física, experiência e
razão. As emoções eram “princípios invisíveis do movimento do corpo humano”
(HOBBES, apud ABBAGNANO, 1998, p. 313), que precedem ações visíveis e que
costumam ser chamados de tendências, como desejos, apetites ou aversões. Descartes considerava as emoções como modificações passivas na alma, criadas pelos movimentos das forças mecânicas e espíritos vitais que agem em nosso corpo por meio da glândula pineal, sede das emoções; concordava com os estoicos na medida em que dizia que a força da alma consistia em vencer as emoções.
Kant colocou os sentimentos como categoria autônoma e mediadora entre a razão e a vontade. Fazia uma distinção das emoções do ponto de vista moral e biológico. Biologicamente as emoções alegria e tristeza estão ligadas ao prazer e à dor e “estas têm a função de impelir o sujeito a permanecer na condição em que
está ou a deixá-la. A alegria excessiva e a tristeza extrema, [...] são emoções que
ameaçam a existência” (ABBAGNANO, 1998, p. 315). Já do ponto de vista moral
concordava com os estoicos, considerando as emoções como doenças da alma, “é
Na segunda metade do século XIX, as emoções tornam-se objeto de estudo das emergentes ciências naturais. Darwin parte da definição proposta por Spencer, para quem todas as experiências vividas dividem-se em duas classes: sensações e emoções. As sensações, simples, seriam produzidas por estímulos periféricos e as emoções, complexas, por estímulos centrais e ambas funcionariam como mecanismos de adaptação ou de resposta a estímulos exercidos sobre o corpo.
Darwin (2000), em seu livro A expressão das emoções no homem e nos
animais de 1872, afirmou o caráter inato e universal, herdado de nossos ancestrais, das expressões das emoções. Considerava também que muitas expressões eram iguais para toda a espécie humana, demonstrando assim sua força e importância para nossa espécie. Essa teoria foi reafirmada e contestada teoricamente por
diversos autores3, até os experimentos de campo de Ekman (2011), que
mostraram fortes indícios da expressão inata de felicidade, raiva, aversão, tristeza, medo e surpresa, ainda que estes dois últimos fossem confundidos entre si em algumas situações experimentais.
Com a teoria de Darwin, todas as explicações metafísicas foram deixadas de lado. As emoções, finalmente, foram colocadas no corpo, como mecanismos do corpo, o que abriu caminho para novas investigações e criou novas polêmicas como, por exemplo, onde estão e onde agem as emoções em nossos corpos.
Para entender melhor essas novas investigações, serão apresentados alguns estudos de Vigotski sobre as emoções. Esta não será uma análise de sua obra, tampouco sua apresentação visa apresentar toda a obra do autor sobre o
emoções e o medo, por meio de uma perspectiva marxista de psicologia, para posteriores análises do tema no decorrer deste trabalho.
3.2. TEORIA DAS EMOÇÕES EM VIGOTSKI
Lev Semionovitch Vigotski4 nasceu em novembro de 1896 em Orsha, na
Bielorrússia; mais tarde mudou-se para Gomel, também na Bielorrúsia, até se transferir para Moscou onde se formou em Direito na Universidade de Moscou. De acordo com Puziréi e Guippenréiter (1989), Vigotski foi conhecido por ter um amplo interesse por estudos humanísticos, como crítica teatral, história, economia política,
crítica e análise literária, que refletiu em seu trabalho de conclusão de curso “A
tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca” na Universidade Popular Shaniavski.
A produção de Vigotski deve ser lida e analisada com muito cuidado e consideração para que possamos ter uma melhor compreensão de sua obra. Apesar de uma morte prematura aos 37 anos, vítima de uma tuberculose que o acompanhara desde 1926, Vigotski teve uma vasta produção em variados temas, de análises literárias, passando pela psicologia da arte, defectologia, pedologia e educação e análise da crise da psicologia até a criação de uma psicologia erigida sobre os preceitos do materialismo histórico e dialético, que ficou conhecida posteriormente como psicologia histórico-cultural.
4 Lev Semionovitch Vigotski teve ao longo dos anos a transliteração de seu nome grafada de diversas formas, de acordo com as diferentes traduções e edições. Neste trabalho
adotaremos a grafia “Vigotski”; no entanto, em citações será mantida a grafia original das
Leontiev e eu ficamos encantados quando se tornou possível incluí-lo
em nosso grupo de trabalho, que chamávamos de ‘troika’. Com
Vigotskii como líder reconhecido, empreendemos uma revisão crítica da história e da situação da psicologia na Rússia e no resto do mundo, mais abrangente, de estudar os processos psicológicos humanos. (LURIA, 2001, p. 22)
Também é importante citar o impacto da revolução bolchevique em sua produção, já que Vigotski pôde ver toda etapa final do processo revolucionário socialista na Rússia. Tinha nove anos quando do primeiro ensaio revolucionário em 1905 e vinte e um anos de idade quando se formou em Direito, no ano da revolução, em 1917.
Vigotski foi um grande estudioso da obra de Karl Marx, de acordo com Luria, “Vigotskii era também o maior teórico do marxismo entre nós” (LURIA, 2001, p. 25),
e por essa compreensão trouxe o método marxista – “o historicismo e o
sistematicismo, a unidade da teoria e a prática, com o papel determinante desta
última, a primazia da existência em relação a sua imagem psíquica” (IAROCHEVSKI,
GURGUENIDZE, 2004, p. 513)5 – para sua produção científica e se propôs a criar
uma psicologia para uma nova sociedade, que tinha acabado de derrubar o czar e a burguesia do poder. Vigotski escreveu nos anos que se seguiram à revolução, uma “época de transformação do velho mundo, de radical reestruturação das ideias sobre
a personalidade humana e sobre as perspectivas de desenvolvimento social”
(IAROCHEVSKI, GURGUENIDZE, 2004, p. 515). Portanto, sua obra deve ser analisada como o próprio Vigotski gostaria:
Nossa ciência – escrevia Vigotski – não podia nem pode se desenvolver na velha sociedade. Ser donos da verdade sobre a pessoa humana e da própria pessoa é impossível enquanto a
sociedade. (IAROCHEVSKI, GURGUENIDZE, 2004, p. 513)
Esse movimento de construção de uma nova psicologia para uma nova sociedade, baseada em um novo modo de produção, acompanhava um movimento muito mais amplo, de enorme efervescência científica e cultural, que era a construção de toda uma nova sociedade. Lênin (2005), em discurso no congresso da União das Juventudes Comunistas, de 1920, afirmava que a revolução tinha, até então, somente destruído as bases da exploração da velha vida capitalista e retirado do poder os antigos exploradores e que a sociedade comunista deveria ser
construída, todo dia, pelos próximos quinze ou vinte anos; assim, afirmava que “[...]
em cada aldeia, à medida que se desenvolver a emulação comunista, à medida que a juventude demonstrar que sabe unir seu trabalho, à medida que isso ocorrer, estará assegurado o êxito da construção comunista” (LÊNIN, 2005, p. 28).
Assim como em toda sua obra, os escritos de Vigotski sobre emoções passaram por muitas mudanças ao longo de sua carreira. Na década de 1920, chegando na área da psicologia e, ainda, muito influenciado pela reflexologia que dominava a psicologia soviética da época, Vigotski produziu seus primeiros textos que tratavam das emoções. Algumas ideias foram apresentadas em seu livro
Psicologia da Arte, de 1925, e no capítulo: Educação no comportamento emocional,
em seu livro Psicologia Pedagógica, de 19246.
Nos anos posteriores, Vigotski partiu para uma fase experimental, que serviu como base para seus estudos posteriores e foi muito importante para a radical mudança epistemológica em sua obra. Analisando as produções existentes na
psicologia até então e buscando produzir uma psicologia para o novo homem, Vigotski ampliou seus estudos sobre a teoria das emoções agregando muitos estudos teóricos, experimentais e clínicos de diversas áreas como a psicologia, neurologia, fisiologia, filosofia, antropologia, teatro, que resultaram em diversas
publicações sobre o tema e culminando em seu livro Teoría de las emociones:
Estudio histórico-psicológico7, escrito entre os anos de 1931 e 1933.
Essas produções serão brevemente apresentadas na sequência, enunciando algumas das principais ideias apresentadas pelo autor.
3.2.1. PRIMEIRAS DEFINIÇÕES
Em seu texto A educação no comportamento emocional, de 1924, Vigotski
afirmava que a teoria das emoções e sentimentos era o tema com menor elaboração na psicologia e justificava isto com o fato de ser um dos mais difíceis aspectos do comportamento a se estudar, descrever e classificar. E que, no entanto, apesar das dificuldades, a velha psicologia conseguira deixar alguns bons pontos de vista sobre a natureza das reações emocionais.
Um desses pontos de vista foram os estudos de James8 e Lange9,
pesquisadores que de forma independente chegaram a conclusões semelhantes, respectivamente nos anos de 1884 e 1885, fato que chamou a atenção de Vigotski,
7 Esse livro é a publicação de um manuscrito inacabado, escrito entre os anos de 1931 e 1933. Diferentes partes desse manuscrito foram publicadas com diversos títulos. Recomenda-se, também, o confronto dessa edição espanhola com a edição em inglês, publicada no Volume 6 das Obras Escolhidas, intitulada The teaching about emotions, que contém as notas originais de rodapé, não presentes no livro da edição espanhola.
amadurecem em determinadas épocas à semelhança dos frutos que caem simultaneamente em diferentes hortas” (VIGOTSKY, 2010, p. 5. tradução nossa).
Seus estudos, que ficaram conhecidos como teoria organicista ou “Teoria James
-Lange”, tiveram muita repercussão e influência nas ciências da época e perduraram como base do estudo das emoções por muitas décadas.
Essa teoria afirmava que o senso comum e a psicologia existente distinguiam três momentos dos sentimentos:
O primeiro – A – é a percepção de algum objeto ou acontecimento ou uma noção dele (o encontro com um bandido, a lembrança da morte de uma pessoa querida, etc); B – um sentimento provocado por essa percepção (medo, tristeza); C – expressões corporais desse sentimento (tremor, lágrimas). (VIGOTSKI, 2004, pp. 127-128)
E as expressões corporais que acompanham o sentimento eram de três tipos:
O primeiro é o grupo dos movimentos mímicos e pantomímicos, das contrações especiais dos músculos, principalmente dos olhos, da boca, das maçãs do rosto, das mãos. É uma classe de reações-emoções motoras. O segundo grupo é formados pelas reações somáticas, ou seja, pelas mudanças de atividade de alguns órgãos relacionados com as mais importantes funções vitais do organismo: a respiração, os batimentos cardíacos e a circulação sanguínea. O terceiro grupo é formado pelas reações secretórias, por essas ou aquelas secreções de ordem externa e interna: lágrimas, suor, salivação, secreção interna das glândulas sexuais, etc. É desses três grupos que se forma a habitual expressão corporal de qualquer sentimento. (VIGOTSKI, 2004, p. 128. grifos nossos)
Pelas teorias da época, o fluxo das emoções acontecia na sequência ABC
(percepção – sentimento – expressão); no entanto, James propõe que o correto
Costuma-se dizer: choramos porque estamos amargurados, batemos porque estamos irritados, trememos porque estamos com medo. Seria mais correto dizer: estamos amargurados porque choramos; estamos irritados porque batemos; estamos assustados porque trememos. (JAMES, apud VIGOTSKI, 2004, p. 129)
Para comprovar sua tese, James propõe que ao nos levantarmos de manhã assumamos expressões de melancolia, que falemos com voz deprimida, suspiremos com mais frequência, andemos curvados e que, ao anoitecer, seremos tomados de uma grande tristeza. Ou, de forma inversa, que combatendo as expressões corporais faremos desaparecer as emoções.
Um psicólogo conta que sempre que tinha acesso de raiva esticava a mão e abria os dedos. Isso paralisava invariavelmente a raiva porque é impossível ter raiva com a mão aberta já que raiva significa punhos cerrados e lábios crispados. (VIGOTSKI, 2004, p. 130)
Vigotski afirma, então, concordando com James, que a emoção é um “sistema
de reações relacionado de modo reflexo a esses ou aqueles estímulos” (VIGOTSKI,
2004, p. 131). Todo esse sistema demonstrava o caráter subjetivo dos sentimentos (momento B), uma vez que após a percepção (A) e a expressão (C), o corpo exerce uma percepção de segunda ordem, uma nova representação da primeira percepção. O que o indivíduo realmente experimenta (B) e o que outro indivíduo é capaz de observar (C) são dois processos diferentes.
selvagem, e que são muito mais nítidas em crianças do que nos adultos.
Não concordando com a teoria da extinção das emoções, Vigotski apresenta a ideia de que as emoções ajudam a diversificar e complexificar o comportamento,
Um comportamento emocionalmente colorido adquire um caráter inteiramente diverso do comportamento insípido. As mesmas palavras, porém pronunciadas com sentimento, agem sobre nós de modo diferente daquelas pronunciadas sem vida. (VIGOTSKI, 2004, p. 135)
Para Vigotski, todas as emoções são um chamado à ação ou uma renúncia a ela; dessa forma, as emoções servem como ajuda na organização interna do comportamento, preparando o corpo por meio de suas reações de excitação, estimulação ou inibição. O centro de todas essas emoções, concordando com Lange, é o coração,
Se lembrarmos que a respiração e o sangue determinam o desenrolar de absolutamente todos os processos, em todos os órgãos e tecidos, compreenderemos por que as reações do coração podem exercer o papel de organizadores internos do comportamento. (VIGOTSKI, 2004, pp. 139-140)
Nesse período de sua produção, Vigotski, concordando com a teoria de James e Lange, formulou orientações para a educação dos sentimentos como, por exemplo, que as emoções devem ser trabalhadas no processo educativo, que uma educação que prioriza a lógica e a intelectualidade, em detrimento das emoções, esteriliza e insensibiliza emocionalmente os indivíduos, transformando-os em pequenos burgueses que levam uma vida ‘sem cor’, sem emoções e sentimentos.
tempo recebeu a denominação de sentimento pequeno-burguês. (VIGOTSKI, 2004, pp. 143-144)
Portanto, os professores não devem fazer com que os alunos apenas pensem e assimilem o conteúdo, mas que também os sintam, pois quanto maior a vinculação emocional com o conteúdo, melhor a retenção na memória sobre ele.
Nenhuma pregação moral educa tanto quanto uma dor viva, um sentimento vivo, e neste sentido o aparelho das emoções é uma espécie de instrumento especialmente adaptado e delicado através do qual é mais fácil influenciar o comportamento (VIGOTSKI, 2004, p. 143).
Vigotski afirmava que os indivíduos deveriam dominar suas emoções, dominando suas expressões, e que esse processo não era de repressão das emoções, mas de uma subordinação orientada a um fim.
3.2.2. DEFINIÇÕES POSTERIORES
Após um intervalo de cinco anos, quando o estudo sobre as emoções foi colocado em um segundo plano, Vigotski voltou a tratar do assunto quando já tinha uma nova elaboração sobre psicologia, que fica nítida em seus escritos sobre emoções, principalmente em relação à teoria de James e Lange, a qual passou a negar contundentemente.
“que era totalmente alheio aos demais capítulos da psicologia” (VIGOTSKI, 1998, p.
79). – não ocorria em outros na teoria das emoções, inclusive em psicologias
introspectivas e espiritualistas, e afirma que essa tradição vinha como resultado da força das explicações de Charles Darwin, que retirou os sentimentos do interior da alma humana ao explicar que emoções e sentimentos eram parte da evolução das espécies.
Seguindo essa trilha, a psicologia inglesa, de forte tradição religiosa, utilizou essa explicação para provar que “as paixões terrenas do homem, suas inclinações
egoístas, suas emoções, relacionadas com as preocupações concernentes ao seu próprio corpo são, na verdade, de origem animal” (VIGOTSKI, 1998, p. 80). Decorre
desse período a Teoria dos Rudimentos de Spencer10 e Ribot11 que afirmavam que a
expressão das emoções nos homens são restos rudimentares das expressões
animais. As emoções, afirma Ribot, seriam ‘ciganos de nossa psique’, uma ‘tribo
agonizante’ que estava em uma curva evolutiva descendente, caminhando para a extinção, “a gloriosa história da morte de todo um setor da vida psíquica”
(VIGOTSKI, 1998, p. 82).
Na sequência, Vigotski apresenta a teoria de James e Lange, já sem concordar com ela, mas reconhecendo a importância da teoria ao mostrar que
tentaram encontrar a fonte das emoções no próprio organismo humano – para
James os órgãos internos como o estômago e coração e para Lange o sistema vasomotor – para poder derrubar a ideia de progressiva extinção das emoções.
10 Herbert Spencer (1820-1903). Filósofo e sociólogo inglês. Considerado como um dos fundadores do positivsmo.
Por conta dessas afirmações e do sistema reflexo de emoções que James e Lange haviam proposto foram acusados de formularem uma teoria materialista reduzida aos reflexos.
Crítica refutada pelo próprio James que alegou não ser um materialista e que, apesar de sua teoria apontar o corpo como sede das emoções, dividiu as emoções em duas categorias, as inferiores, de valor fisiológico, como ira, desespero, fúria, que foram herdadas dos animais, e as emoções superiores, mais sutis e espirituais, como o sentimento religioso, o amor, a sensação estética, que não podem ser
explicadas da mesma forma. Dessa forma, afirma Vigotski (1998, p. 84), “James
procura dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”.
O verdadeiro valor da teoria de James e Lange residiu, segundo Vigotski, no
fato que ela, retirou o caráter de ‘tribo agonizante’ do psiquismo, e também abriu
caminho para uma série de investigações empíricas e clínicas sobre as emoções. Ao comparar o que James disse sobre isso com o que sabemos agora, pode-se ver realmente o enorme e frutífero caminho que James e Lange abriram para as pesquisas empíricas. Nisso consiste seu extraordinário mérito histórico. (VIGOTSKI, 1998, p. 88)
Um desses experimentadores foi Cannon12, aluno de James, que iniciou seus
experimentos para poder comprovar a teoria organicista, mas acabou por refutá-las. Em experimentos com cães, gatos e outros mamíferos observou mudanças humorais profundas, relacionadas com glândulas de secreção interna, sendo que tais mudanças afetavam profundamente todo o sistema visceral. Tal descoberta parecia corroborar a ideia de James de que as emoções aconteciam nas vísceras, mas Cannon descreveu diversas emoções, muito diferentes e até contrárias entre si
uma conexão simples e direta entre emoção e sua expressão corporal.
Cannon nega, baseando-se em seus dados experimentais, a conexão simples existente entre a emoção e sua expressão corporal: mostra que esta não é específica da natureza psíquica das emoções; o eletrocardiograma, as mudanças humorais e viscerais, a análise química, a análise de sangue dos animais não permitem estabelecer se o animal experimenta terror ou está furioso; em emoções diametralmente opostas do ponto de vista psicológico, as mudanças corporais são iguais. (VIGOTSKI, 1998, p. 89)
Dando um passo à frente em seus estudos, Cannon realizou uma série de experimentos nos quais cirurgicamente retirava o sistema nervoso simpático de gatos, que continuaram a exibir as mesmas expressões corporais de emoções, mesmo que, agora, sem a capacidade de qualquer reação de caráter fisiológico. Assim, Cannon demonstrou a presença de estados emocionais sem a sua correspondente reação vegetativa. Na tentativa de uma demonstração experimentalmente positiva, Cannon aplicou, em humanos, injeções com substâncias capazes de produzir fortes mudanças orgânicas análogas às observadas em fortes emoções. Nesses experimentos ocorreram as variações de açúcar no sangue, variações de frequências respiratórias e cardiovasculares, mas que não suscitaram nenhum estado emocional nos indivíduos.
Nas condições do laboratório, diz Cannon, a gata que carece de sintomas fisiológicos de emoções se comporta da mesma maneira que a que os apresente. Mas isso só acontece nas circunstâncias de um laboratório experimental, onde a questão se limita a mudanças isoladas; numa situação natural, uma gata que carecesse desses sintomas morreria antes de uma que não carecesse deles. Se a gata tivesse medo e, além disso, tivesse de fugir, é claro que o animal cujos processos viscerais não organizaram, não mobilizaram o organismo para a fuga morreria antes do outro. (VIGOTSKI, 1998, p. 93)
Esses estudos mostraram um novo deslocamento do entendimento das
emoções, agora da periferia do corpo para o centro, “o papel das emoções na
psique humana é outro; isolam-se cada vez mais do reino dos instintos e se deslocam para um plano totalmente novo” (VIGOTSKI, 1998, p. 94). Os processos
emocionais não mais estavam em órgãos vegetativos, nem à parte da psique, mas eram constituídos por um processo que fosse capaz de regular todos estes, um mecanismo cerebral.
Vigotski ainda se mostrava metodologicamente cauteloso em refutar de vez a teoria de James e Lange e procurou nos estudos clínicos novos dados que pudessem dar fim à polêmica. Assim como imaginara James, que havia dito em suas primeiras publicações que se algum dia alguém poderia confirmar ou refutar sua teoria, com certeza seriam os estudos clínicos que o fariam, por serem os únicos capazes de possuírem os dados necessários (VIGOTSKY, 2010).
Baseado em relatos e estudos clínicos de Head13, Dana14, Wilson15 e outros,
Vigotski apresentou casos de lesões cerebrais, de patologias e de outros problemas neurológicos de indivíduos que sentiam e expressavam de forma muito mais intensa emoções em apenas um lado do corpo; casos de pacientes que tinham ausência de
13 Henry Head (1861-1940). Fisiologia e neurologista inglês.
14 Charles Dana (1852-1935). Médico e neurologista estadunidense.
e pacientes felizes que choravam, até casos de tetraplegia que nada afetava a vivência emocional dos indivíduos, apesar destes não terem nenhuma reação corporal. Todos esses estudos puderam definitivamente deslocar as emoções para o cérebro, conferindo um lugar de destaque das emoções na vida psíquica dos indivíduos. Colocou, assim, um ponto final em toda a refutação da teoria organicista das emoções.
Ainda dentro dos estudos clínicos, Vigotski confere mérito para Freud16, por
ter conferido uma dinâmica de desenvolvimento das emoções.
As emoções não foram sempre o que são agora, que em diversos momentos, nas etapas precoces do desenvolvimento infantil, foram distintas das do homem adulto. Demonstrou que não são “um estado dentro de outro” e que só podem ser compreendidas no contexto de
toda a dinâmica da vida humana. (VIGOTSKI, 1998, p. 96)
Trazendo-as ainda mais para o centro da vida psíquica, Adler17 confere às
emoções o estatuto de ser um dos determinantes na formação do caráter, deixando cada vez mais para trás a ideia de “tribo agonizante” para fazer parte dos processos
de organização e formação da estrutura psicológica fundamental da personalidade. Outra importante contribuição para os estudos de Vigotski foram as análises
de Claparède18, que confrontaram interpretações naturalistas que consideravam as
emoções apenas como mecanismos biologicamente úteis e que não conseguiam responder por que algumas emoções eram fontes de perturbação, como quando estamos preocupados com algo e não conseguimos pensar de forma organizada ou
16 Sigmund Freud (1856-1939). Médico austríaco, fundador da psicanálise.
17 Alfred Adler (1870-1937). Médio austríaco, seguidor de Freud, que abandonou a psicanálise e fundou a psicologia do desenvolvimento individual.
controlar os próprios atos. Na busca dessa resposta, Claparède inverte a pergunta, questionando:
Se o significado funcional mais importante das emoções se reduz a sua utilidade biológica, como explicar que o mundo das emoções humanas, que se diversificam cada vez mais a cada novo passo dado pelo homem no seu desenvolvimento histórico, produz não só alterações na vida psíquica a que se refere Freud, mas toda a diversidade de conteúdo da vida psíquica do homem (que se manifesta pelo menos na arte)? Por que cada passo do desenvolvimento humano provoca a atuação desses processos
“biológicos”, por que as vivências intelectuais do homem se refletem em forma de fortes sensações emocionais, por que, finalmente, diz Claparède, cada guinada importante no destino da criança e do homem está tão impregnada de elementos emocionais? (VIGOTSKI, 1998, p. 101)
A resposta está em processos que Claparède chama de sentimentos, que surgem quando as reações biológicas não dão conta da realidade. Emoções e sentimentos são, portanto, processos distintos quanto a sua natureza psicológica.
Com a devida importância, também devem ser considerados os
apontamentos de Lewin19, que experimentalmente mostrou a dinâmica de reações
emocionais, mostrando como um estado emocional pode se transformar em outro, como uma emoção não resolvida pode continuar existindo ocultamente. Sua ideia principal era a de que as emoções não poderiam aparecer isoladas na vida psíquica, pois todas elas são resultados de uma estrutura concreta do processo psíquico, resultando das mais diversas e possíveis situações de nossa vida.
3.2.3. UMA TEORIA VIGOTSKIANA DAS EMOÇÕES
uma vez que o autor nunca chegou de fato a propor uma teoria das emoções. Suas contribuições ficaram distribuídas em suas obras na medida em que fazia sua leitura
crítica, como indica Toassa (2009, p. 29): em “sua análise das psicologias
particulares das emoções [...] o autor aponta-lhes os problemas, e, ainda que de
modo esparso, tece considerações para sua superação”. No entanto, é possível tirar
algumas conclusões que podem ajudar na discussão sobre o medo proposta neste trabalho.
As investigações de Vigotski deixam claro o deslocamento do centro das
emoções em nossa vida. As emoções agora não mais eram ‘princípios invisíveis do
movimento’ da alma, nem mais resquícios da evolução. O que fora paixão do
espírito tornou-se reação visceral e, então, finalmente repousou no sistema nervoso central do organismo humano. Além disso, as emoções passaram para o primeiro plano da psique humana, não mais consideradas como uma tribo agonizante do psiquismo, sendo incorporadas à estrutura dos demais processos psíquicos.
De acordo com Toassa (2009), a partir de 1932 o autor define as emoções como uma função psicológica superior, que transita da “imediatidade das condutas
herdadas à regulação externa própria das relações sociais e dos meios culturais (a princípio, externos) e, posteriormente, a regulação interna e intencional pela própria consciência” (TOASSA, 2009, p. 287). Considerava a emoção como função que topograficamente opera no organismo como um todo, e no sistema nervoso em particular, com propriedades energéticas impulsivas que impelem o corpo à ação, tem papel ativo nos processos de atividade, consciência e personalidade, com
diferentes qualidades vivenciais (intenso, vago, intelectual, angustiante), com uma esfera cultural fundadora e, finalmente, de regulação voluntária em seu mais alto nível de desenvolvimento.
As emoções frequentemente são postas como qualidade de outros processos psicológicos, servindo de adjetivo como em expressões: pensamento emocional, atitude emocional, significado emocional etc. Temos cada dimensão de nossa vida atravessada por uma esfera afetiva, no princípio em formas instintivamente programadas para a satisfação de necessidades urgentes, mas que se modificam logo nos primeiros momentos de aprendizagem do bebê. Desenvolvendo-se na relação com os outros e na apropriação da cultura, poderão operar na realidade.
Em todas as acepções, Vigotski vai contra a ideia de simples utilidade biológica das emoções, afirmando que nem sempre elas produzem a melhor adaptação, muitas vezes causam sofrimento quando em relações sociais adoecidas. Além disso, são diferentes entre as pessoas. Dois indivíduos terão, certamente, vivências emocionais diferentes em relação a um mesmo objeto.
O autor também demonstrou em seus estudos experimentais que as emoções incluíam-se nas diversas funções psicológicas envolvidas nos processos de tomadas de decisão e escolha.
Pode-se concluir, a partir de uma perspectiva materialista histórica e dialética, que a emoção desenvolve-se na mediação entre indivíduo e sociedade, sendo, portanto, uma função psicológica culturalizada, demonstrando que o indivíduo pode ter domínio de todas as suas emoções.
teórica que talvez, por esse exato motivo, não seja compartilhada pelo paradigma dominante da ciência, que reflete o paradigma dominante da sociedade, que nada mais é que a ideologia da classe dominante.
É compreensível que a ideologia antidemocrática da desigualdade considere a biologia a sua ciência fundamental: somente através da justificação de uma desigualdade biologicamente insuperável entre os homens é que essa ideologia pode atribuir-se uma aparência racional. É certo que esta fundamentação biológica não tem caráter científico, sendo antes um mito, como se constata claramente já em
Nietzsche: a sua ‘raça de senhores’ tem fundamentação romântica e
moral. A biologia, aqui, não passa de um ornamento místico. (LUKÁCS, 2009, pp. 33-34)
3.3. SOBRE MEDO
O medo é uma complexa emoção humana, e assim como ela é de difícil definição e nomeação. O que hoje amplamente chamamos de medo é uma emoção que já teve e continua tendo muitos nomes. Já foram deuses e demônios com Pã, Phobos e Pavor e hoje seus sinônimos como temor, terror, pânico, aparecem presentes, em maior ou menor grau, em diferentes transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, estresse, fobias e, de acordo com Mira y López (1988), também aparecem camuflados na timidez, escrupulosidade, pessimismo e ceticismo.
Na tentativa de uma definição dos termos, Darwin (2000, p. 271) apresenta uma gradação temporal e de intensidade, que se inicia com o espanto e vai se desenvolvendo para medo, terror e finalmente pânico, o mais alto grau do medo.
Quando com medo, o homem fica paralisado, sem respiração, o coração acelera violentamente, mas sem conseguir funcionar melhor do que habitualmente, o que pode ser visto na pele que se torna pálida. A sudorese aumenta, os pelos se eriçam e os músculos tremem. Em decorrência de todas essas alterações, a respiração, que havia sido paralisada, retorna acelerada, a boca fica seca. Com o tremor dos músculos, em especial dos lábios e com a secura da boca a voz se torna rouca.
Se o medo continua a aumentar, se torna “a agonia do terror” (DARWIN, 2000, p. 272) e os resultados são como os do medo, mas também com resultados diversos. O coração que há pouco disparara pode falhar. Os olhos podem saltar ou girar de um lado para o outro incessantemente, as pupilas dilatam-se e o tremor muscular pode transformar-se em convulsão. No pânico, o mais alto grau do medo, “um horrível grito de terror é ouvido” (DARWIN, 2000, p. 273), enormes gotas de suor escorrem, a capacidade mental se esgota, os músculos relaxam e os intestinos e esfíncteres são afetados.
Tantas expressões de diferentes sistemas são o resultado de uma longa história filogênica, na qual o homem sofreu para escapar de inimigos e perigos, fosse lutando ou fugindo, mas o autor também traz um componente fisiológico que explica que muitas das expressões são “consequência direta da perturbação ou
interrupção da transmissão de força nervosa do sistema cerebrospinal para as várias partes do corpo, por ter sido a mente tão imensamente afetada” (DARWIN, 2000, p. 288).
sangue daqueles órgãos cuja atividade não apresenta no momento uma necessidade e uma importância vital de primeiro grau para o organismo e um afluxo do sangue àqueles órgãos aos quais cabe a palavra decisiva nesse momento. [...] e lança toda a força de sua alimentação aos seguimentos combativos, aqueles que salvam imediatamente do perigo. (VIGOTSKI, 2004, p. 133)
O medo é, portanto, uma “forma solidificada que surgiu do instinto de
autopreservação em sua forma defensiva” (VIGOTSKI, 2004, p. 133), é a mobilização de todas as forças do organismo para a fuga do perigo. Ou seja, a
emoção medo e todas suas reações fisiológicas são uma fuga inibida21,
corroborando a etimologia da palavra grega para o medo, que significa fugir.
É pelo exato motivo do medo ser uma emoção tão antiga, de tão forte reação fisiológica e selecionada pela evolução como forma de preservação da vida e da espécie que se torna, então, de grande valor nas tentativas de ser usado como instrumento de poder.
Vigotski, escrevendo sobre a educação dos sentimentos, afirmava que “o
mecanismo educativo consiste em certa organização do meio. Assim, a educação dos sentimentos sempre é essencialmente uma reeducação desses sentimentos,
ou seja, uma mudança no sentido da reação emocional inata” (VIGOTSKI, 2004, p.
142).
Partindo dessa possibilidade de educar os sentimentos e de criar situações e ambientes propícios para o desenvolvimento de certas emoções é que podemos afirmar que o medo pode ser utilizado como instrumento de controle, desde que condições adequadas sejam criadas:
É possível que, digamos, haja um vínculo entre o sentimento de medo e um estímulo dissociado do estímulo incondicionado de medo na experiência mas que na experiência, da criança esteja vinculado a
um sentimento de dor, desprazer, etc. Isso é o bastante para criar a chamada reação preventiva. [...] Se você quer que a criança nutra medo por alguma coisa, ligue a manifestação dessa coisa à dor ou ao sofrimento para o organismo que a devida dor surge por si mesma. (VIGOTSKI, 2004, p. 142-143)
Considerando as descrições fisiológicas decorrentes do medo apresentadas não é de se espantar que essas expressões venham se transformando em patologias cada vez mais sérias e profundas. Para Delumeau, essas reações são “em si uma reação utilitária de legítima defesa, mas que o indivíduo, sobretudo sob
o efeito das agressões repetidas de nossa época, nem sempre emprega com discernimento” (DELUMEAU, 1989, p. 23, grifos nossos).