3. IMPARCIALIDADE NA VOZ DO BRASIL: PROPOSTA DE AVALIAÇÃO
3.2 A imparcialidade como critério da objetividade: proposta metodológica
3.2.2 A neutralidade e as avaliações
Desenvolvida por Osgood (1959)45 e explicitada por McQuail (2012) e Bardin (2016)
em seus textos, a análise avaliativa pode ser rapidamente explicada da seguinte maneira:
44 Ducrot, Oswald. 1987. “Esboço de Uma Teoria Polifônica Da Enunciação.” O dizer e o dito: 161–218.
45 Osgood, Charles E. 1959. “The Representational Model and Relevant Research Materials.” In Trends in Content
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Para aplicar o método, os textos são divididos em unidades de análise (frases “núcleo”) e três principais elementos verbais identificados: objetos de ação (referência a pessoas, coisas etc., que são objetos de avaliação); palavras (geralmente adjetivas ou adverbiais) às quais se atribui um “significado comum”, ou seja, palavras cujo direcionamento avaliativo (por exemplo, “mau” e “duvidoso” têm um direcionamento negativo, sendo a primeira palavra mais forte que a segunda), e “conectores”, unidades da linguagem que estabelecem conexões entre objetos de ação e termos de significado comum, estabelecendo padrões computáveis de direcionamento avaliativo. (McQuail, 2012, p. 240).
A análise de asserção avaliativa se apresenta interessante na medida em que permite revelar o chamado “ângulo de visão” na construção do discurso e possui diversas aplicações, em geral com o intuito de identificar a carga avaliativa de uma mensagem, ou as atitudes do locutor com relação aos objetos de que fala. A técnica tradicional consiste em avaliar intensidade e direção da avaliação. Utilizamos uma versão simplificada para avaliar a direção da avaliação, medindo, através da avaliação de unidades significativas de contexto, posições favoráveis, desfavoráveis ou neutras aos objetos de atitude (sobre os quais recaem avaliações ou predisposições da instituição comunicadora) identificados nas reportagens.
A análise parte da identificação de núcleos de significado, onde há o chamado objeto de atitude, que geralmente se liga a conectores verbais e ao material avaliativo em questão. É importante destacar que o material avaliativo nem sempre será constituído de adjetivos ou advérbios, como pode também estar implícito em formações verbais. A dificuldade em utilizar o método, para nossa pesquisa, está no fato da não utilização de “dicionários” de categorização de informações como os adotados por Holsti e Osgood, citados por Bardin (2016). Sendo assim, a avaliação analógica e individual depende do julgamento do próprio pesquisador, que necessita de cuidado redobrado ao identificar possíveis avaliações e seus significados.
De qualquer maneira, acreditamos que a categorização de objetos de atitude encontrados no texto do radiojornal se apresenta como caminho produtivo para a avaliação de seu grau de neutralidade. Em nossa análise, categorizamos as avaliações como aqueles conjuntos de asserções que continham juízo de valor, seja quanto ao “conjunto de qualidades” (Bardin, 2016, p. 212) - aquilo que o objeto é, os seus atributos ou qualificações -; ou quanto ao “conjunto de performance” - “o que o objeto faz, ou seja, as suas ações” (Bardin, 2016, p. 212). Não foram consideradas avaliativas as asserções que continham tais juízos seguidos de indicações da origem dos dados avaliados. Por exemplo, no caso de um repórter dirigir-se a uma variação no grau de desemprego no país como “positiva”, mas seguida de números que comprovem a qualificação ou avaliação, essa avaliação não é levada em consideração na análise, pois é embasada em dados. Entendemos que a apresentação de dados auxiliares ou provas auxiliares
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(Tuchman, 2016) faz parte dos parâmetros estabelecidos no jornalismo em relação à objetividade. Por isso, a decisão de excluir expressões adverbiais avaliativas seguidas de dados refina nossa avaliação e pode, acreditamos, trazer resultados mais satisfatórios à pesquisa.
Além das avaliações seguidas de dados, também foram excluídas avaliações que, mesmo na voz dos repórteres, tinham menção dependente da fonte, ou seja, a existência do texto era totalmente pautada na opinião ou no esclarecimento da fonte (e não como complemento ao discurso do repórter). Como neste exemplo, retirado de reportagem no dia 05 de janeiro de 2015:
Repórter Paulo Lasalvia: Na visão do ministro da Fazenda, esse novo ciclo econômico também deve ser apoiado por uma indústria eficiente e competitiva. Com todos esses princípios em andamento, Joaquim Levy prevê um aumento do comércio exterior e uma elevação da poupança interna, que é a quantidade de recursos que o governo tem em caixa para enfrentar momentos de crise econômica. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse também que a inflação deve convergir para a meta do Banco Central e que o país precisa dar certeza e regras claras para retomar os investimentos (Rádio, 2015a, grifos nossos).
Conforme se vê a partir das partes grifadas no texto, há diversas asserções avaliativas na passagem. Contudo, uma vez que a própria informação é estruturada claramente a partir da fonte como originária das opiniões, e não como maneira de complementar uma argumentação anterior, essas avaliações não são consideradas para a análise de asserção avaliativa aqui proposta. O bom senso na identificação de asserções avaliativas é crucial nas démarches analíticas relacionadas ao critério da neutralidade. Analisar asserções avaliativas é um trabalho que envolve atenção às sutilezas do discurso e por isso deve evitar generalizar ocasiões em que possíveis avaliações aparecem devidamente embasadas através do foco no personagem que fala.
Quanto ao material do radiojornal submetido à análise, foram avaliadas na íntegra as matérias de destaque das edições selecionadas, além das chamadas e transições dos apresentadores durante as notas e reportagens.
Com as análises avaliativas, medimos a quantidade e a direção dessas avaliações para termos, por um lado, uma noção de uso não avaliativo no discurso jornalístico, e por outro, a medida de sensacionalismo através da presença de aspectos de linguagem que pudessem representar noções como sentimentalismo ou “tom” nas notícias (McQuail, 2012, p. 242).
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