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NEUTRALIDADE JUDICIAL E IGUALDADE DE ARMAS

No documento Direção material do processo (páginas 181-184)

Mathews v. Eldridge: Three Factors in Search of a Theory of Value, 44 The University of Chicago Law

8. DIREITO PROCESSUAL CIVIL ALEMÃO

8.3 NEUTRALIDADE JUDICIAL E IGUALDADE DE ARMAS

A direção material do processo faz parte do direito a um processo justo e também da igualdade de armas (Waffengleichheit).513 Muito já se falou e escreveu acerca da igualdade das partes no processo civil.514

Da mesma forma que a igualdade como valor num contexto mais amplo, também no processo civil ela pode produzir diferentes pontos de vista e conduzir a diferentes interpretações. Novamente vem à tona o tema dos objetivos do processo civil. Quem defende que o objetivo primário não é a proteção de direitos subjetivos costuma atribuir à igualdade processual um significado muito mais amplo. Caberia ao juiz realmente equilibrar as partes, para que tivessem exatamente as mesmas chances. Isso incluiria abandonar uma posição de neutralidade com relação ao conflito e praticamente atuar como advogado da parte que considere mais fraca na relação processual.

Rudolf Wassermann afirma que o juiz deve atuar como um jogador de xadrez que joga contra si próprio e, portanto, analisa lance a lance como pode, alternadamente, derrotar a si próprio.515 Tal exemplo é extremado porque coloca o juiz em situação indevida e certamente ele acabará sabotando uma das partes, que levará logo um xeque- mate. Stürner lembra o sermão do monte e a exortação de Jesus, segundo a qual: “Ninguém pode trabalhar como escravo para dois amos; pois, ou há de odiar um e amar o outro, ou há de apegar-se a um e desprezar o outro”.516 A passagem se encaixa bem, porque o juiz não é

513 Cf. ROSENBERG, Leo; SCHWAB, Karl Heinz; GOTTWALD, Peter. Zivilprozessrecht... op. cit., p. 9.

No Brasil, por influência da obra de Nicolò Trocker, (TROCKER, Nicolò. Processo civile e costituzione: problemi di diritto tedesco e italiano. Milano: Giuffrè, 1974, 768 p.) é mais utilizada a expressão ‘paridade de armas’.

514 Veja-se, em especial, com bibliografia: STÜRNER, Rolf. Die Richterliche Aufklärung… op. cit., p. 37-

38; VOLLKOMER, Max. Der Grundsatz der Waffengleichheit im Zivilprozess – eine neue Prozessmaxime?, Festschrift für Karl Heinz Schwab, coord. P. Gottwald e H. Prütting. München: C.H. Beck, 1990, p. 503- 520.

515 WASSERMAN, Rudolf. Der Soziale... op. cit., p. 176. Em sentido contrário, corretamente: STÜRNER,

Rolf. Die Richterliche Aufklärung… op. cit., p. 22-28.

uma máquina incapaz de sentir e os seus sentimentos podem traí-lo. Além disso, a visão de Wassermann ignora o valor intrínseco da participação das partes no processo. Ao afirmar que o juiz é o enxadrista que joga contra si próprio, ele simplesmente exclui por completo a importância das partes. Elas se tornariam meros informantes,517 com um papel coadjuvante em relação ao ator principal, o juiz.

Como a maioria absoluta dos processualistas alemãs adota a tese de que o objetivo principal do processo é a proteção dos direitos subjetivos das partes, essa não é a posição dominante acerca da igualdade de armas no processo civil. Assim a descreve Hanns Prütting:

A máxima da igualdade de armas processual foi desenvolvida em conexão com princípio do Estado de Direito e com o Art. 3 Abs. I GG. Ela faz com que as partes sejam oneradas de forma igualitária com relação aos riscos e aos custos do processo. Também deve em todos os processos ser garantido que ambas as partes sejam capazes de alegar tudo que for importante para a decisão.518

A posição adotada por Prütting representa aquela adotada pelo Tribunal Constitucional alemão.519 Como se vê, o Tribunal Constitucional também adota uma concepção bastante moderada e realista da igualdade das partes no processo civil. Não é permitido ao juiz tentar, pagando com a sua neutralidade e imparcialidade, cancelar as diferenças entre as partes e seus advogados. O juiz deve agir materialmente para que as partes obtenham do processo tudo aquilo que elas próprias querem obter e não tudo aquilo que ele pensa que seria justo que elas obtivessem. É por isso que o Tribunal Constitucional limita a direção material do processo à vontade das partes. É proibido ao juiz sugerir à

517 Esse importante ponto, acerca da impossibilidade do juiz tratar as partes como informantes é ressaltado

por Ulfried Neumann (NEUMANN, Ulfried. Zur Interpretation des forensischen Diskurses in der Rechtsphilosophie von Jürgen Habermas, Rechtstheorie, n.º 27, p. 417).

518 PRÜTTING, Hanns. Einleitung, Zivilprozessordnung und Nebengesetze… op. cit., p. 30. Tradução livre

do original: “ Der Grundsatz der prozessualen Waffengleichheit ist im Zusammenhang von Rechtsstaatsprinzip und Art. 3 Abs. 1 GG entwickelt worden. Er fordert eine gleichmäßige Belastung der Partein mit dem Prozeßrisiko und den Prozeßkosten. Auch muß in jedem Verfahren gewährleistet sein, daß beide Parteien alles für die Entscheidung Erhebliche vortragen können.”

519 O BVerfG entende que a ‘igualdade de armas’ é a garantia constitucional de igualdade valorativa das

parte pedidos que não foram realizados, apontar fatos que não foram alegados ou apontar possíveis defesas que não foram argüidas. O juiz que assim agisse teria “ultrapassado as fronteiras da neutralidade judicial, porque essas condutas dão a impressão de identificação com uma parte.”520 Como bem ressaltado por Stürner, as diferenças entre as partes não são diferenças somente processuais e não podem ser resolvidas pelo juiz no processo.521

Importa aqui salientar que a direção material do processo é um componente essencial da igualdade de armas. Através do seu ativismo processual, o juiz pode, sem se comprometer, auxiliar as partes que não se manifestaram adequadamente sobre alegações de fatos ou sobre pontos de vista jurídicos importantes para a decisão.522

520 Cf. STADLER, Astrid. § 139… op. cit., Rn 5. Tradução livre do original: “überschreiten die Grenze

richterlicher Neutralität, weil sie den Anschein der Identifikation mit der Partei erwecken.”

521 STÜRNER, Rolf. Die Richterliche Aufklärung… op. cit., p. 37-38.

522 Cf. RAUSCHER, Thomas. Einleitung, Münchener Kommentar zur Zivilprozessordnung, 3.ª ed.

München: C.H. Beck, 2008, Einleitung, Rn 222. MUSIELAK,

No documento Direção material do processo (páginas 181-184)