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4.1 OS EMPREENDEDORES E SEUS NEGÓCIOS

4.1.5 Nicolas

Nicolas se descreve como uma pessoa "como qualquer outra", que "corre atrás das coisas" e que não "escolhe trabalho". A família de Nicolas vendia frutas em beira de estrada em pequena cidade do interior e vieram para a capital do Paraná, sem qualquer certeza, sem empregos garantidos – apenas com o primeiro ano de aluguel pago com as economias de até então, como conta:

Passamos necessidade eu com a minha família quando chegamos aqui pra Curitiba. Pagamos um ano de aluguel adiantado, mas era,

bem dizer, o único dinheiro que a gente tinha... Eu tinha 15 pra 16, o meu irmão de 17 pra 18, sem experiência nenhuma, tímidos, não conseguia serviços, minha mãe tinha profissão de cozinheira e até hoje. Começamos a passar necessidade, porque ninguém arrumava serviço e não tinha dinheiro pra pagar aluguel, depois venceu o ano e um ano sem trabalhar, daí tinha minha irmãzinha que tava com 3 pra 4 anos. Passava sorvete e as coisas e não tinha um real pra comprar um litro de leite no mercado. Ganhamos cesta básica da igreja e tudo. Daí comecei a trabalhar de servente de pedreiro.

Com 15 anos, Nicolas começou a trabalhar fora de casa. Foi servente de pedreiro, foi garçom e até mètre antes dos 20 anos, como gosta de apontar. Não levou adiante os estudos e não trata diretamente deste assunto. Nicolas diz que busca ser o melhor no que faz e diz ter sido influenciado por algo que ouviu quando menino:

Eu tenho um tio que me falou um negócio uma vez: ‘qualquer coisa que você for fazer, qualquer área ou serviço, seja o melhor. Seja o melhor!’. Na área de garçom, quando eu trabalhava, a gente queria ser o melhor - eu e meu irmão, a gente se destacava no meio de todos os garçons (...)A gente focava que a gente queria ser o melhor, a gente ganhava a melhor caixinha, tratava todos os clientes melhor, como o que a gente conseguia fazer de melhor.

Trabalhou em um hotel, onde conheceu gerentes de uma unidade de uma grande rede de academias de ginástica, para a qual foi trabalhar como auxiliar administrativo. Dentro desta academia, havia uma lanchonete contratada e quando esta rescindiu o contrato e abandonou o local, Nicolas pediu uma oportunidade aos gerentes para que ele e sua família assumissem o lugar. A mãe era cozinheira e ele e o irmão tinham suas experiências como garçons. Os gerentes lhe concederam a oportunidade que almejava e Nicolas, aos 23 anos de idade, e sua família tocaram a lanchonete a partir de então. Nicolas explica sua determinação em, na época, buscar empreender:

A gente começou a trabalhar e ver que a gente era... que tinha uma inteligência maior pra poder ter o próprio negócio, que não precisava ser empregado, que a gente era diferente, a gente era trabalhador mas tinha certo foco, expectativas boas assim, entendeu? (...) A gente tinha o pensamento de ter alguma coisa na vida. Já que a gente não nasceu em berço de ouro, então, vamos trabalhar e vamos correr atrás, se abrir oportunidade a gente mete a cara e foi o que aconteceu.

Nicolas e sua família abriram, dois anos depois, um estacionamento e um restaurante, com mesmo nome da lanchonete e compraram dois caminhões para serviços de guincho a seguradoras de porte nacional. O restaurante e o estacionamento são vizinhos e Nicolas atua em ambos. Os caminhões ficam no estacionamento, que se localiza no centro da cidade. As oportunidades que teve de agregar negócios e ser mais lucrativo, Nicolas aproveitou e parece se orgulhar do que conquistou.

Nicolas conta um episódio marcante, de quando, temporariamente deixou o restaurante aos cuidados da família e se dedicou exclusivamente à abertura do estacionamento:

Uma vez em que eu saí do restaurante (deixando-o aos cuidados de mãe e cunhada, pra abrir e cuidar do estacionamento e adquirir os caminhões-guincho) foi o maior chororô. Fizeram festa de despedida, balão... eu tinha ido no banco e quando eu voltei tinha bolo, salgado, todos os balões com uma declaração de cada funcionário escrita nos balões e o povo cantando e falando que eu era o melhor chefe do mundo, que isso, que aquilo, e os clientes ‘meu, volta pra cá’... eu tentava ser amigo de todo mundo e não falsamente, (...) ali todo mundo me chamava pelo nome, e acho que tem que ser assim, e ainda mais em restaurante que você tem contato com a pessoa todo dia, com os clientes, com os funcionários e você tem que ser amigo de todo mundo ali e... boa fé! Tem que ser que nem eu fui, prestigiado, todo mundo fala ‘volta’, isso faz a diferença, então, você vê que está fazendo um pouco certo, o lado das expectativas.

Depois de algumas reviravoltas nos negócios e a morte precoce de seu melhor amigo, Nicolas pensa em se mudar para o interior e administrar um negócio menor, ganhando mais tempo para si e para sua família.

Sinceramente? Não penso em ser rico! Não quero mais ser rico... eu perdi um amigo que estava fazendo engenharia, da minha idade. (...) Acidente de moto voltando da faculdade. Morreu meu único amigo em Curitiba. Perdi ele! Daí eu vejo que não adianta você querer ser rico, você querer ter as coisas, o importante é você ser feliz, você fazer as coisas que você gosta. Eu quero mais é ficar tranquilo!

Aproveitar mais a vida da gente assim.

Nicolas, com seus 28 anos no momento da entrevista, dizia planejar morar em um sítio em Nova Londrina, cidade pequena do interior do estado, e cuidar de afazeres menores, ver, de forma mais presente, o filho crescer e aproveitar melhor a própria vida e o patrimônio que já fez.

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