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4.1 OS EMPREENDEDORES E SEUS NEGÓCIOS

4.1.4 Thomas

Thomas se define como “alguém que está tentando se reinventar e reaprender”, um “observador e um aluno”. Marido e sócio de Ana na delicatessen

que se tornou um restaurante convencional, tem 55 anos de idade e morou 35 anos nos Estados Unidos, onde trabalhou inicialmente em fábricas de materiais de construção, inicialmente sem falar a língua local. Saiu do Brasil com 18 anos e apenas o ensino médio na bagagem. Em 1986, foi convidado por um colega da firma em que trabalhavam a abrir uma empresa para instalação de telhados - o que já faziam pela firma, em sociedade, trabalhando para um empreiteiro. Dois anos mais tarde o empreiteiro iria à falência e deixaria a empresa de Thomas e seu sócio à deriva. O sócio de Thomas, com as dificuldades sofridas, logo resolveu mudar de ramo e Thomas assumiu sozinho a companhia, que tocou e expandiu até 2012, quando, junto a sua esposa, resolveu voltar ao Brasil e abrir uma delicatessen.

Já em 2008, com a crise imobiliária meu trabalho se reduziu.

Fazíamos construção de imóveis e passou a ser mais reformas, passou a ser trabalhos pequenos. Cortamos pessoal, [trabalhamos]

pra nos manter, só pra sobreviver.(...) Muita gente disputando o mesmo cliente as vezes e os preços vão baixando... Você sobrevive não é? Você tem sua clientela formada, clientes fieis a você. Se você é fiel ao teu cliente, você consegue se manter. Mas até 2012 eu não tava tendo muita perspectiva de mudança.

Os negócios já não iam bem, segundo Thomas, nos Estados Unidos quando ele e Ana decidiram voltar ao Brasil. Thomas sempre manteve aberta a possibilidade de retornar aos EUA e reativar a companhia, que tinha como nome as iniciais de seus três cachorros.

Thomas diz que sempre foi de “sujar as mãos” e ter “preguiça de cuidar da parte administrativa”, sempre teve paixão pela cozinha e, embora não tenha trabalhado com isso anteriormente, diz que sabia que daria conta do recado.

Thomas empreendeu nos EUA e empreendeu no Brasil com o mesmo motivo:

ganhar mais fazendo aquilo que gosta e sabe fazer. Estar no comando também lhe é importante:

Na verdade, o ser humano é ambicioso, não é? Você sempre quer mais e trabalhando com um salário... (...) mas se é você que esta dando as cartas, tudo depende de você mesmo, de você ir atrás e fazer mais... acho que é o incentivo maior, se você trabalha pra você mesmo. (...) Eu acho que as possibilidades são maiores se você está no comando das coisas! As pressões são muito maiores, as possibilidades são maiores. Eu acho que você pode fazer mais se você está no comando.

Thomas fala em ambição para buscar retornos maiores pelo que realiza, aceitando riscos e assumindo o comando. Thomas valoriza, dessa forma, o âmbito de, ao empreender, poder depender de si mesmo, ter seus resultados mais diretamente vinculados a seu próprio trabalho e diz haver, em contrapartida, pressão para o empreendedor, ou seja, a partir do momento em que existe a possibilidade de maiores ganhos e conquistas ao indivíduo empreendedor, a sociedade exige essas vitórias para que ele se afirme como tal, para que seja aceito nesta posição.

Também de forma inédita nas entrevistas realizadas aparece a noção de mentir à clientela. Thomas sente-se em falta com a verdade, em falta com o propósito inicial da empresa aberta aqui no Brasil, vez que esta deixou de ser uma delicatessen para, na prática, se tornar um restaurante convencional executivo.

Falo por mim, eu acho que ainda deixo a muito a desejar dos meus clientes. Eu acho que nós criamos uma imagem que... que... que fugiu totalmente do propósito que era (pretendida), quando alguém vê aquela placa, se alguém toma tempo pra ler aquela placa e vê

"Delicattessen”... (...) então, em certo ponto, as vezes eu me acho estranho na relação com as pessoas. Talvez a maneira que a gente está conduzindo o negócio agora seja mentirosa... realmente é, porque não está naquilo que era pra ser. Se transformou mais num restaurante com prato executivo. Uma coisa que é positiva é ver que as pessoas gostam da tua comida, do seu tempero, então, pelo menos, sei a gente está fazendo alguma coisa diferente do que tem aqui na vizinha próxima, mas não... eu não me sinto realizado, da maneira que está sendo feito.

Thomas se sente envergonhado mesmo de um ato honesto - a alteração não oficial de delicatessen para restaurante, porque o contexto de seu estabelecimento não condiz com o título em sua placa de divulgação e, além de sentir envergonhado por tal "mentira", Thomas sente que o público percebe seus sentimentos, suas ações não intencionais e lhe conferem uma atuação mentirosa, o que confirmaria sua expectativa.

Thomas sente que sua empresa nos EUA era mais sua “filha” do que o

“rebelde” restaurante brasileiro e diz se sentir frustrado, tanto pela indecisão de ficar ou ir embora, quanto por não cumprir com o que se propôs inicialmente a fazer. "O [restaurante] é alguma coisa que... é algo que tem que mudar! Esse aqui é um filho rebelde. Mas tem esperança!". Caso decidissem, ele e Ana, ficar no Brasil,

deveriam, segundo Thomas, mudar o negócio para um local maior e aumentar a produtividade do estabelecimento, atendendo como restaurante e como delicatessen, cumprindo em sua opinião com seu objetivo ao abrir o estabelecimento no Brasil e com a expectativa de sua clientela para com ele, como empreendedor.

Do contrário, voltariam aos Estados Unidos, e Thomas voltaria ao ramo de construção. A única certeza que Thomas tinha, no começo de 2015, é que “do jeito que está não pode ficar”. A frustração de Thomas com aquele momento era frequentemente apontada, como em:

A falta de espaço, a falta de produtividade, a falta de você poder oferecer um produto melhor pro cliente... Tem muita maneira de crescer e modificar e fazer melhor, mas não no espaço que nós temos, que nós estamos. Essa a coisa que mais me incomoda. (...) É bem frustrante, estar na posição que nós estamos agora, nada definido o que vai ser. Se vai ser o ramo de delicatessen, de restaurante ou se eu voltar ao que eu fazia antes. É frustrante e chega a ser uma perda de tempo.

Por fim, Thomas se autodescreve novamente. Dessa vez como um cara frustrado que gostaria de ver o empreendimento “filho” deslanchar. Desejava, o mais cedo possível, definir se voltaria para os Estados Unidos para continuar o negócio que deixou por lá ou se ficaria no Brasil, com o restaurante, se o mesmo suprisse a lacuna financeira e afetiva do anterior. Thomas, como informado na história de Ana, voltou aos EUA para reativar seu negócio em construção civil.

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