Esquema 1- Tipos de sistemas
3 METODOLOGIA
4.3 Niklas Luhmann e a Teoria dos Sistemas Funcionais
Niklas Luhmann nasceu em Lüneburg/Alemanha, no ano de 1927. Estudou direito em Freiburg (1946-1949). Em 1960 estudou em Harvard, onde foi aluno de Talcott Parsons, quando teve contato com a teoria de sistemas. Assumiu a Cátedra de Sociologia da universidade de Bielefeld em 1968, onde permaneceu até 1993. Nesse período, desenvolveu sua teoria dos sistemas. A obra de Luhmann (2011) tem como objetivo formular uma teoria geral da sociedade, utilizando um aporte universal que permitisse à sociológica observar essa mesma sociedade para além da conexão micro/macro.
É considerado um dos autores mais importantes das ciências sociais do século XX com sua proposta inovadora de transpor “barreiras disciplinares e desenvolver um conhecimento científico verdadeiramente transdisciplinar” (RODRIGUEZ, 1990, não paginada). O aporte
teórico proposto pelo autor permite controvérsias e, consequentemente, o avanço das pesquisas sobre o social, sobretudo, pela introdução do conceito de sistema social, onde amplia as discussões sociológicas de Talcott Parsons sobre a compreensão do social.
O autor conclui que essa sociologia apresenta limites teóricos inerentes ao funcionalismo estrutural, apesar da contribuição de Parsons, foi superada pela necessidade de explicar as condições de possibilidade da preservação das estruturas nos sistemas na análise social, o que poderia incentivar o conservadorismo em vez da crítica social.
Luhmann (2011) chama a atenção para o fato de essa superação ser mais uma opção ideológica do que abordagens teóricas. O fato é que isso fragilizou a teoria e, consequentemente a sociologia, que sem o arsenal interdisciplinar da época, se tornou incapaz, segundo o autor, de descrever de forma coerente os problemas sociais contemporâneos, sobretudo pelo conceito de estrutura (LUHMANN, 2011, p. 40). Apesar do afastamento posterior da teoria de Parsons, Luhmann é influenciado por ele em sua obra.
As transformações sociais advindas da Segunda Guerra Mundial trazem a confiança na possibilidade de mudanças sociais radicais na estrutura da sociedade moderna. O funcionalismo estrutural se aliou, segundo Luhmann (2011), à planificação de cima, ao controle, e o conceito de sistema se converteu em instrumento de racionalização e reforço de estruturas de domínio. Esses novos conceitos terão impactos na sociologia.
Nas décadas de 1960 e 1970 a Teoria das Organizações sofre influências da perspectiva sistêmica com a publicação de Katz (1996) e Kahn (1978) afirmando as organizações como sistemas abertos e a troca de “material” com o ambiente. Essa perspectiva possibilitou avanços na teoria das organizações, porém a introdução do conceito de neguentropia deixou questões abertas sobre a adaptabilidade dos sistemas a um ambiente caótico, que desafia o equilíbrio.
Essas questões foram enfrentadas com os estudos dos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela que publicaram em 1980 “Autopoiese direito e Cognição” e estabeleceram o conceito de autopoiese, que será detalhado mais adiante. O conceito de autopoiese será fundamental na busca de sanar o déficit teórico da sociologia, termo nomeado por Luhmann (2011).
Luhmann trabalhou durante toda sua vida acadêmica no desenvolvimento de um único projeto de pesquisa: Uma teoria da sociedade. Em 1984 publica o “capítulo introdutório”, a
obra: Soziale Systeme, Grundriss einer allgemeinem Theorie. Essa obra incorpora vários aspectos das publicações de Humberto Maturana6, sobretudo o conceito de autopoiesis.
A publicação foi seguida de vários estudos dos sistemas funcionais específicos da sociedade moderna. Em 1997, Luhmann apresenta “Die Gesellschaft der Gesellschaft, como obra finalizadora do seu projeto.
A teoria sociológica de Niklas Luhmann deve ser recebida como uma ruptura radical com a tradição científica clássica iluminista e proposição de uma nova teoria que permita compreender os fenômenos sociais da sociedade complexa em que vivemos o que, segundo ele, não é possível com o paradigma científico moderno.
Ao elaborar sua teoria, Luhmann da constatação segunda a qual existe um déficit da teoria sociológica atual diante da profunda complexidade da sociedade contemporânea. A ausência de uma teoria da sociedade adequada para observar e descrever o mundo atual, deve- se mais fundamentalmente aos obstáculos epistemológicos prevalecentes na teoria do conhecimento do que a complexidade social.
O autor faz uma crítica severa aos clássicos e a teoria da ação construída, segundo ele, sobre um conceito pouco preciso de indivíduo antropológico e propõe a superação de três obstáculos epistemológicos, na perspectiva de Bachelard (1947, p. 13) para a superação do déficit apontado: a) O preconceito humanista; b) O preconceito das unidades ou fronteiras territoriais e, c) o preconceito de objetividade do social.
O preconceito humanista é estruturado na ideia de que a sociedade é constituída de pessoas ou de relações entre as pessoas. A teoria da sociedade então, com a espécie humana, ou seja, com o conjunto da humanidade existente e suas relações sociais. Segundo Luhmann (2011), isso implica em que pessoas concretas são “partes” dos sistemas sociais (FEDOZZI, 1997, p. 19) com pele e cabelo, com cromossomos e neurônios, com a consciência e a subconsciência multiplicados por bilhões de pessoas.
Quanto preconceitos das unidades territoriais e fronteiras, as fronteiras das sociedades seriam as fronteiras territoriais e/ou políticas. Luhmann (2011) afirma que todos os esforços para obter acuidade nas delimitações fracassaram, independente de se orientarem pela organização estatal, pela linguagem, pela cultura ou pela tradição, logo a sociologia não pode
6 Humberto Maturana (1928) desenvolveu uma teoria que busca colocar a circularidade da questão da reprodução
da vida no centro de uma teoria epistemológica do conhecimento. Seu conceito de autopoiesis expressa a autoprodução da vida por meio de elementos que são, por sua vez, reproduzidos pela vida. ROMECÍN, H.M. De máquinas y seres vivos, Chile: Ed. Universitária, 1973.
resolver-se pela geografia. Portanto, o reconhecimento das diferenças entre territórios precisa ser explicado como diferenças “na sociedade” e não “entre sociedades”.
Finalmente, o preconceito da objetividade social decorre da diferença entre o sujeito e o objeto, concebida pela teoria do conhecimento até a atualidade. A crítica é que a teoria do conhecimento separa sujeito e objeto (conhecimento/objeto), resultando numa observação e descrição do mundo “de fora” e só reconhecendo como conhecimento quando qualquer inter- relação circular sujeito/objeto for evitada.
Nessa perspectiva, segundo Luhmann (2011), somente os sujeitos possuem autorreferência; os objetos são como são. A sociedade seria um objeto que poderia ser descrito “objetivamente” por meio de um sujeito. Luhmann (2011) se opõe ao sentido clássico da sociologia como “ciência positiva” na perspectiva de Durkheim.
Essa ruptura com a teoria clássica do conhecimento direciona Luhmann (2011) para o desenvolvimento de sua teoria pressupondo que a extrema complexidade do mundo só pode ser descrita por meio de uma teoria complexa, de elevado nível de abstração, interdisciplinar e capaz de reduzir a complexidade do sistema social. Isso leva a teoria a considerar a “irrestrita indeterminação do mundo social e a condição contingente da própria elaboração teórica.
A compreensão da sociedade moderna só é possível, segundo Luhmann (2011), se observada como sistema. A existência de sistema é inquestionável. Nessa visão, o ponto de partida na descrição da sociedade em Luhmann (2011) é considerar o sistema social como o mais abrangente, onde são incluídos todos os outros sistemas sociais (MATHIS, 1998). Sob esse aporte teórico, alguns pressupostos precisam de esclarecimentos prévios no sentido de apreender a teoria a partir de seus próprios conceitos.
4.4 A Sociedade moderna em Luhmann: Evolução e o primado da diferenciação