Esquema 1- Tipos de sistemas
3 METODOLOGIA
4.7 Relação Sistema-a-Sistema e o acoplamento estrutural
O processo histórico de interações do subsistema educacional com os demais fez com que a educação fosse assumindo funções específicas e grande importância nas sociedades contemporâneas. Historicamente foi se transformando num subsistema, assumindo funções específicas em relação ao sistema social. Considerando o aporte teórico em questão, as organizações políticas e as organizações escolares estão consonância com o conceito de subsistema autopoiético, onde:
[...] a autopoiésis constitui-se na propriedade que os sistemas fechados e auto referidos têm de, a partir de seus próprios elementos, produzir a si, como unidades diferenciadas. Entretanto, nesse processo de autoprodução, a capacidade que tais sistemas têm em se auto-repararem, se auto-restruturarem, se auto-transformarem, auto adapatarem (sem, contudo, perderem suas identidades), é o que caracteriza e define a autopoiésis, diferenciando-se de termos já existente como auto-organização. (RODRIGUES, 2008, p.113).
A relação com outros sistemas é condicionada pelo conceito de acoplamento estrutural, e como descrito anteriormente, denomina a relação de dois sistemas autopoiéticos, que precisam para seu funcionamento de outros sistemas, sem, no entanto, abrir mão de suas respectivas funções sob pena de destruição do próprio sistema.
Cada sistema, portanto, deve determinar como são as relações com os outros sistemas por meio do acoplamento estrutural. No caso do sistema educacional, à medida que consolida seu processo de diferenciação em relação a outros sistemas, não deve tematizar a relação com outros sistemas (o sistema político, por exemplo) como identidade do sistema. O que é visto como diferença, não pode ao mesmo tempo ser visto como unidade (LUHMANN, 2002, p. 124).
A relação com outros sistemas (ambientes) deve ser expressa, segundo Luhmann (2002), na forma de um paradoxo e nesta forma deve ser trabalhada no interior do sistema. Na relação do sistema educacional com o sistema político, objeto da pesquisa, a marcação da
diferença entre sistema e ambiente é relevante para o sistema educacional na medida em que estão dotados de estruturas análogas. E nas relações intersistêmicas o sistema educacional requer autonomia com relação a intervenções políticas.
4.7.1 Acoplamento estrutural e a contradição dependência/autonomia dos sistemas autopoiéticos
A relação sistema/ambiente sob o conceito de acoplamento estrutural em Luhmann envolve a observação atenta do efeito dessa relação nos conceitos de dependência e de autonomia dos sistemas. O sistema político possibilita ao sistema educacional a sua autonomia de educar, por meio de um arcabouço institucional que envolve estrutura administrativa para tomada de decisões, rede de escolas, pessoal, material didático etc.
O sistema educacional, diferente do sistema político, não pode tomar decisões coletivas, mas está atrelado a elas por meio de uma relação de interdependência com o sistema político: planos de aula, avaliações, currículos, políticas públicas etc. Quando são introduzidas ideias de reforma administrativas sem consultas à estrutura administrativa dificulta a sua viabilidade política, já que é essa estrutura que garante a interação com o sistema educacional nas ações pedagógicas.
É nesse contexto que Luhmann aponta para o agravamento da contradição entre dependência e autonomia do sistema (NEVES, 2003, p. 26). A dependência ocorre menos na pressão política de realizar algo com a qual não se concorda (não é visto como correto) mas no fato de que não se recebe as decisões políticas que o sistema educacional quer.
A autonomia, por sua vez, toma a forma de resignação, a renúncia de ideias, que políticas e administrativamente não são realizáveis. Nessa relação, o sistema educacional reclama por autonomia em relação a intervenções políticas e não quer ser instrumento de doutrinação políticas. Apoia-se na regulamentação das organização, financiamento e definição de pessoal feitas no século XIX, agora mais próximas e complexas (NEVES, 2003, p. 26). Mesmo assim, Luhmann considera que o sistema educacional permanece no sistema operativo, autônomo. O quanto a ensino é bom ou ruim só pode ser decidido no nível das interações. 4.7.2 Contradição dependência/autonomia e o “fechamento” dos sistemas
O cenário descrito acima implica na separação entre os sistemas regulatórios, sistemas de política simbólica e sistema de interação do ensino “e a unidade dessa diferença toma a
forma de ilusão de que se poderia controlar ideias e a regulação da ação no ensino” Luhmann conclui a análise afirmando:
não negamos que a distribuição de recursos e, principalmente a definição das disciplinas tem seus efeitos. O problema é que não se sabe como as distribuições destas regulações resultam em distinções no sistema educacional. A ilusão de controle que une os sistemas e sem a qual o sistema educacional não teria motivos para buscar determinar decisões políticas, não é fácil se for reconhecida. Aqui trata-se do paradoxo de dependência e independência. (LUHMANN, 2002, p. 131).
Ao administrar seus paradoxos cada sistema oscila no contexto das diferenças que para eles são importantes e produz com isso estruturas dissipativas que precisam ser autônomas e, de acordo com as possibilidades de auto-organização sistêmicas, precisam ser construídas e reconstruídas. Considerando os sistemas de interação (professor/aluno) pouco influenciável, o sistema educacional é relativamente resistente a tais flutuação em sua intenção de educar.
4.7.3 “Intenção de educar” como unidade do sistema educativo
A intenção de educar no aporte teórico de Luhmann (2002) é o símbolo cognitivo do sistema educacional, pois possibilita a coordenação e agregação das comunicações do sistema e sua função está baseada numa definição de sistema de interação (NEVES, 2003, p. 31). Luhmann afirma que o conceito de educação tendo por base a intenção de educar resulta em implicações estruturais no sistema (LUHMANN, 2002, p. 55-56), que serão descritas em seguida.
A primeira implicação apontada é assimetria de papéis, ou seja, é necessário esclarecer de quem é a intenção de educar e a quem não é, a fim de solucionar o problema da dupla contingência. O educador deve contar que o educando procura subtrair-se do seu desenvolvimento, mas não reagir com uma contra educação. Isso significa que, na educação, não há uma situação aberta de dupla contingência. Ela está na dependência comprometida com a institucionalização social.
A segunda implicação é que a intenção de educar seja uma boa intenção. Isso exclui hostilidades, prejuízos e comportamentos viciados. A boa intenção deve ser explicitada por meio de bons objetivos e programas de ensino corretos. A terceira implicação da intenção de educar em Luhmann (2002) é que uma comunicação só é vista como educação se ela ocorre num sistema de interações entre pessoas presentes, o que garante a percepção do que ocorre e não somente a comunicação verbal. É a comunicação que dá sentido e uma estrutura temporal e processual. É ela que constitui as informações como sistema social (NEVES, 2003, p. 31).
A intenção de educar é, portanto, o “símbolo cognitivo” no qual a educação se reconhece como educação. Segundo Luhmann (2002), nenhuma sociedade poderá prescindir da educação, mas é a intenção para a educação o cerne da diferenciação. Ela está embutida no sistema de interações (professor e aluno) e simboliza a unidade do sistema de educação. A intenção de educar pode ser reconhecida nas ações com as quais o educador procura transmitir conhecimento e capacidades para alguém que ainda não as possui ou delas dispõe.
Ao descrever o processo de diferenciação para a educação Luhmann (2002) chama a atenção para as mudanças que levam a educação doméstica ser substituída por uma “boa educação”, de caráter social a partir do século XVIII. Esse é o ponto de partida para a autonomização das reflexões sobre educação baseada em “boas intenções” ocorrido em processos lentos e morosos de desenvolvimento institucional no sentido de conseguir formação correspondente, salários, independência do status social dos alunos, prédios, material de instrução etc. A intenção é o símbolo para um procedimento de diferenciação, que provoca a formação de um novo sistema que vai se materializar nas organizações escolares, mais especificamente nas salas de aula.