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Aconteceu no início da década de 90. Quem me contou jura de pés juntos que não se trata de uma piada, mas de um legítimo “causo”, daqueles que se passa de geração a geração em meio a risadas regadas a comes e bebes no entorno de uma fogueira – ou de uma churrasqueira, no caso do Brasil: Um homem liga para o serviço de atendimento ao
consumidor de uma empresa de computadores e reclama que o porta-copo de seu PC quebrou. A pessoa do outro lado da linha parece não entender.
“Porta-copo?”, ela repete, intrigada. A falta de compreensão inicial não a impede de entender o dilema do cliente insatisfeito. Certa de que há alguma parte da história carente de aprimoramento de detalhes, ela insiste: “Você quer dizer que comprou um porta-copo em nossa loja, é isso?”
“Não, ele veio com o computador que comprei. Faz parte do equipamento.” “Mas... nossos computadores não têm porta-copo.” “Você não sabe de nada, querida. Tem sim. Inclusive,
estou olhando agora mesmo pra ele”, responde o homem, já sem muita paciência. “É só apertar o botãozinho que o porta-copo sai na hora, e o meu está quebrado!” Só depois é que se entendeu que a gavetinha de CD
do computador do homem não resistira ao peso da xícara de porcelana com café pingado que ele apoiava sobre a peça toda manhã. É fácil culpar o personagem da piada – perdão, causo
– pela sua falta de conhecimento básico de tecnologia, mas não estamos longe de protagonizar cenas similares. Se no passado havia um espaço de algumas décadas para disseminar a história por entre os diferentes círculos de amigos (os colegas da firma, os parentes, a família do cônjuge, etc.), hoje temos apenas poucas semanas até que a anedota perca sua força – seja por já ter virado um meme compartilhado à exaustão ou por nos fazer lembrar de nossa própria ignorância: enquanto você está rindo do tiozão obsoleto, a obsolescência já está rindo de você.
Nada deixou esse fato tão cristalino para mim quanto a quarentena.
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De repente, as reuniões ganharam nomes diferentes – hangout – e onomatopeias que só se viam na antiga série do Batman, como zoom, ganharam novo significado, ao mesmo tempo que reunir amigos virtualmente para conferir uma performance de Paul McCartney cantando “Hey Jude” da sala de sua casa se tornou normal. Quem adiava a intimidade com internet se viu, do dia pra noite, em um complicado
ménage entre smartphones e a vida real. É claro que nada disso é necessariamente novidade, mas as lacunas que defasavam as estruturas emergentes se abriram como abismos sob os pés de todos. A tecnologia, que vem cumprindo papel fundamental na manutenção da sanidade coletiva durante o isolamento social, tem evoluído de forma mais rápido do que prevíamos – ainda que as previsões para 2020 fossem repletas de aviões supersônicos, carros voadores e metrópoles com calçadas rolantes. Ainda não chegamos lá. Uma entrevista recente do Elon Musk, inclusive, me decepcionou: ele disse que as implicações adaptativas de ordem urbana, financeira e tecnológica impedem a produção e utilização de carros voadores por enquanto. Tudo bem, ainda temos Twitter e aplicativos de delivery (ei, dar palpite na vida de presidentes estrangeiros e ter uma comida que não seja pizza entregue em casa é, sim, uma marca característica da civilização moderna; pergunte à sua vó). Embora ainda estejamos longe dos carros voadores, a
ideia sobre aquele futuro distópico dos filmes nunca esteve tão fora das telas. A um olhar apressado e desatento, ficamos com a parte ruim da barganha: escassez, ansiedade, armazenamento de alimentos, lockdown e ruas desertas são apenas alguns dos cenários aos quais nos tornamos atores involuntários. Mas a verdade é que, além de porta-copos improvisados e aplicativos essenciais, a tecnologia nos deu uma certa capacidade de enxergar o futuro. E não foram poucos que o fizeram. Bill Gates alertou
em 2015, o Instituto de Estudos Futuros de Copenhague avisou em 2016 e a Universidade Johns Hopkins simulou um cenário similar
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Para deixar a coisa ainda mais assustadora, em um documento escrito e publicado em 2004 para descrever o mundo em 2020, o Conselho Nacional de Inteligência (NIC) dos EUA descreveu: “Alguns especialistas acreditam que é apenas uma questão de tempo até que uma nova pandemia apareça, como o vírus da gripe de 1918 a 1919, que matou cerca de 20 milhões em todo o mundo, e poderá colocar uma interrupção nas viagens e no comércio global durante um período prolongado, levando os governos a gastar enormes recursos em setores de saúde sobrecarregados.” O período tem trazido à tona diversos pedidos de
previsões futuras dessa espécie. Eu me atrevi a algumas. Seremos expostos a alguns dilemas éticos importantes como no caso da vigilância biométrica pelos governos, ou da nossa privacidade versus nossa segurança, mas essa discussão é velha. Agora, nos cabe aceitar que somos a geração que encabeça essa luta e agradecer por termos a oportunidade, mais uma vez, de colocarmos em prática um futuro que promova novas realidades. Entre futuristas, já se fala de monitoramento térmico por câmeras para identificar febres e focos de contaminação e sistemas de identificação ultraeficiente de novas doenças epidemiológicas através de inteligência artificial – uma empresa canadense deste segmento, inclusive, alertou sobre os casos atípicos da nova doença em Wuhan 10 dias antes da OMS fazer seu primeiro comunicado sobre o assunto. Ah, e as entregas de comida muito provavelmente não terão motoristas: drones deixarão o alimento na porta da sua casa. Já posso imaginar os slogans. Eu poderia continuar desfiando aqui outras muitas glórias não louvadas do revolucionário futuro próximo – distanciamento por geolocalização, interconectividade de dados atualizados para enfrentamento assertivo – mas não vou fazê-lo. Não há espaço para tanto e, de toda forma, se nem ao Bill Gates ouviram, que dirá a mim. Apenas não tente usar o porta CD como guarda-copos. Isso eu garanto que não funciona. Mas que é revolucionário, é.