2.3 Nitrogênio e cálcio em plantas forrageiras
2.3.1 Nitrogênio em plantas forrageiras
O nitrogênio é extremamente importante para a produtividade de gramíneas forrageiras, pois é responsável por características como o tamanho das folhas e dos colmos, e aparecimento e desenvolvimento dos perfilhos, fatores que estão diretamente relacionados à produção de massa seca da planta forrageira (CORSI, 1984; WERNER, 1986).
Segundo Monteiro e Werner (1977), o aumento da produção de forragem é dependente da adequada disponibilidade de nutrientes e, em especial, do nitrogênio. A necessidade por esse nutriente é maior após o desenvolvimento inicial da gramínea, quando passa a contribuir expressivamente para a produção de massa seca, a concentração de nitrogênio e o conteúdo de proteína bruta.
Vicente-Chandler (1973), abordando o efeito de doses de nitrogênio em sete capins tropicais, relatou ampla faixa de respostas em produção de massa seca à adubação nitrogenada, sendo que o capim-Gordura (Melinis minutiflora) obteve sua produção máxima na dose anual de nitrogênio de 224 kg ha-1, enquanto para o capim-Napier (Pennisetum purpureum) a produção máxima ocorreu na dose anual de nitrogênio de 1729 kg ha-1. Esse autor mencionou que as gramíneas tropicais podem responder a doses anuais de nitrogênio de até 1800 kg ha-1, desde que os demais nutrientes estejam presentes no solo em quantidades adequadas.
O efeito do nitrogênio na taxa de aparecimento de perfilhos tem sido relatado por diversos autores, os quais constataram o efeito benéfico de doses de nitrogênio no perfilhamento de diversas gramíneas forrageiras (SANTOS; CORRÊA; MONTEIRO, 1995; CORRÊA, 1996;
COLOZZA, 1998). Premazzi; Monteiro e Corrente (2003), verificando o perfilhamento em capim-Bermuda cv. Tifton 85 (híbrido F1 interespecífico entre Cynodon nlemfuensis e Cynodon
dactylon) em resposta a doses e ao momento de aplicação do nitrogênio após o corte, constataram efeito das doses de nitrogênio no número inicial de perfilhos no segundo crescimento, no número de perfilhos surgidos e no número final de perfilhos nos dois períodos avaliados.
Avaliando respostas do capim-Mombaça (Panicum maximum) a doses de nitrogênio de 0;
250 e 500 kg ha-1 e a intervalos de corte, Braga et al. (2004) verificaram que as doses de nitrogênio influenciaram a produção de forragem, sem diferença para os intervalos de corte e o número de perfilhos atingiu seu ponto de máximo na dose de nitrogênio de 406 kg ha-1.
Em experimento com capim-Marandu, em solução nutritiva com omissões de macronutrientes, Monteiro et al. (1995) verificaram que o tratamento de omissão de nitrogênio foi o mais limitante no desenvolvimento das plantas, quanto ao número de perfilhos, altura das plantas e em termos de produção de massa seca da parte aérea e das raízes.
Santos Junior (2001) relatou que as doses de nitrogênio foram mais efetivas que as idades de crescimento em promover ou permitir ajustes na morfologia e fisiologia do capim-Marandu.
As doses de nitrogênio proporcionaram aumentos em massa seca total, área foliar, número de perfilhos, massa seca radicular, relação parte aérea:raízes, comprimento e superfície radicular e taxa de crescimento absoluto do capim.
A produção de massa seca da parte aérea e de raízes, a área foliar, o número de folhas verdes expandidas, o número de perfilhos, a taxa de aparecimento de folhas e filocromo do capim-Aruana (Panicum maximum) foram influenciados pelas doses de nitrogênio de 1 a 33 mmol L-1 fornecidas na solução nutritiva, de acordo com Lavres Junior et al. (2004).
A concentração de nutrientes na planta forrageira é influenciada pelo genótipo, idade, estádio fenológico, ritmo de crescimento, disponibilidade de nutrientes e fração da planta considerada (CORSI; SILVA, 1985). Para as gramíneas forrageiras, as lâminas de folhas recém-expandidas são as mais recomendadas para a avaliação do estado nutricional das plantas forrageiras (MONTEIRO, 2004).
Monteiro; Benetti e Carmello (2001), avaliando a distribuição de nitrogênio na parte aérea do capim-Tanzânia pela separação da parte aérea em folhas emergentes, lâminas de folhas recém-expandidas, lâminas de folhas maduras e colmos mais bainhas, verificaram que as duas folhas de lâminas recém-expandidas acumularam mais nitrogênio (35 a 45% do total de nitrogênio na parte aérea das plantas) que as outras folhas.
Santos (1997), estudando a diagnose nutricional e respostas do capim-Braquiária (Brachiaria decumbens) sem suprimento de nitrogênio ou recebendo doses até 33 mmol L-1, observou que as doses de nitrogênio proporcionaram aumentos na produção de massa seca da parte aérea, das raízes e no número de perfilhos dessa gramínea forrageira. O nível crítico de nitrogênio nas lâminas de folhas recém-expandidas foi de 14,50 a 22,00 g kg-1.
Avaliando o rendimento e diagnose foliar de dois cultivares de Panicum maximum em Latossolo Vermelho-Amarelo, Colozza (1998) observou que os níveis críticos de nitrogênio nas lâminas de folhas recém-expandidas foram de 18,8 e 21,6 g kg-1 para o cultivar Aruana e de 20,8 e 22,9 g kg-1 para o cultivar Mombaça, no primeiro e segundos cortes, respectivamente.
Manarin e Monteiro (2002) verificaram que o nível crítico de nitrogênio variou de 16,0 a 16,5 g kg-1 para o capim-Mombaça e que as doses de nitrogênio até 33 mmol L-1 fornecidas na solução nutritiva elevaram a produção de massa seca e concentração de nitrogênio na parte aérea e nas raízes dessa gramínea forrageira.
A deficiência de nitrogênio nas gramíneas forrageiras é mais intensa nas folhas mais velhas, que apresentam secamento acelerado e morte prematura, e com o progresso do sintoma, a clorose das folhas passa a ser generalizada na planta. É também caracterizada pelo menor crescimento das plantas, reduzindo a quantidade de perfilhos e o tamanho de folhas e, como conseqüência, tendo baixa concentração de proteína bruta e tornando a forrageira deficiente para a nutrição animal (WERNER, 1986).
2.3.2 Cálcio em plantas forrageiras
Em estudo sobre a nutrição mineral de alguns capins tropicais, Werner e Haag (1972) encontraram as concentrações de cálcio de 4,0 g kg-1 no tratamento completo e 2,9 g kg-1 no tratamento com omissão de cálcio nas folhas emergentes coletadas junto com as lâminas de folhas recém-expandidas. Também verificaram que a omissão de cálcio foi muito limitante tanto para a produção da parte aérea como para as raízes do capim-Colonião.
Premazzi (1991), avaliando a saturação por bases como critério para recomendação de calagem em cinco forrageiras tropicais, verificou que a concentração de cálcio na parte aérea do capim-Colonião variou de 1,9 a 3,6 g kg-1 no primeiro corte e de 1,8 a 3,5 g kg-1 no segundo
corte, enquanto nas raízes oscilou de 0,7 a 1,2 g kg-1. A produção de massa seca máxima desse capim foi obtida quando a saturação por bases se encontrava em 47%.
Avaliando a concentração de cálcio e outros nutrientes nas lâminas foliares do capim-Tanzânia manejado em lotação contínua e em diversas alturas (24 a 78 cm), Cecato et al. (2001) verificaram que a concentração média de cálcio nas lâminas foliares variou entre 4,1 e 5,4 g kg-1 e para os colmos a concentração média desse nutriente oscilou entre 3,2 e 4,2 g kg-1, ao longo do período experimental.
Estudando a concentração dos nutrientes em partes do capim-Tanzânia irrigado, em função dos períodos de coleta e das intensidades de pastejo, Aguiar (2004) constatou que nas folhas emergentes a concentração de cálcio variou de 1,5 a 1,7 g kg-1, nas lâminas de folhas recém-expandidas de 4,2 a 5,6 g kg-1, nas lâminas de folhas maduras de 6,1 a 7,4 g kg-1, nos colmos mais bainhas de 1,1 a 1,4 g kg-1, e na parte aérea toda de 2,8 a 3,1 g kg-1,
Santos Junior (2005), estudando a fertilidade do solo no acúmulo de forragem e nutrição do capim-Tanzânia sob pastejo na região dos Cerrados, encontrou a concentração máxima de cálcio de 6,36 g kg-1 nas lâminas de folhas recém-expandidas aos 26 dias de rebrotação no ciclo de pastejo de verão e no ciclo de pastejo de outono as concentrações de cálcio variaram linearmente de 4,07 a 4,36 g kg-1.
Hass (1986) determinou as concentrações dos macronutrientes nas plantas de Coastcross (Cynodon dactylon) estabelecidas em um Latossolo Vermelho-Amarelo e constatou concentração média de cálcio de 2,81 g kg-1. Fagundes et al. (2000) avaliaram a concentração de macronutrientes no capim-Tifton 68 (Cynodon nlemfuensis) durante o outono-inverno, nos períodos de crescimentos de 30, 60, 90 e 120 dias e a concentração de cálcio apresentou praticamente a mesma concentração durante o ciclo vegetativo (4,6 a 5,8 g kg-1).
Monteiro et al. (1995), trabalhando com o capim-Marandu em solução nutritiva com omissões de macronutrientes, observaram que para o tratamento completo a concentração de cálcio na parte aérea foi de 8,5 g kg-1 e nas raízes de 4,6 g kg-1, enquanto no tratamento de omissão de cálcio a parte aérea apresentou 0,9 g kg-1 e as raízes tiveram 0,8 g kg-1. Esses autores constataram maior produção de massa seca e números de perfilhos na omissão de cálcio do que o tratamento completo, e relacionaram estes resultados às formas de nitrogênio fornecidas (uma vez que no tratamento completo o nitrogênio foi todo fornecido na forma de nitrato e na omissão de cálcio parte do nitrogênio foi suprido como amônio). O mesmo não foi observado para a produção
de massa seca das raízes, uma vez que esta produção foi bem inferior na omissão de cálcio que no tratamento completo.
Weber e Haag (1984) relataram que a concentração de cálcio na parte aérea do capim-Makueni (Panicum maximum) variou segundo modelo quadrático, com as concentrações máximas de cálcio de 5,3 g kg-1 aos 90 dias e de 4,7 g kg-1 aos 120 dias. Esse capim foi submetido à dose anual de nitrogênio de 250 kg ha-1, na forma de sulfato de amônio e foi avaliado aos 30, 60, 90, 120 e 150 dias de rebrotação.
Sintomas visuais de deficiência de cálcio em gramíneas forrageiras são característicos, sendo mostrados pela presença de folhas mal formadas, com bordos irregulares e os ápices foliares apresentam-se afinados e retorcidos (WERNER; HAAG, 1972; MONTEIRO et al., 1995;
RAO; KERRIDGE; MACEDO, 1996; GUIMARÃES, 2000).
As informações sobre a produção de massa seca de gramíneas forrageiras relacionada ao cálcio são escassas, e os estudos têm mostrado que a calagem nem sempre altera a produtividade dessas plantas. Respostas à calagem são mais freqüentes na implantação e raras na manutenção das pastagens. Calagem acima do necessário, além de não refletir em aumento de produção, pode induzir a menor disponibilidade de micronutrientes (MACEDO, 2004).
2.3.3 Relação entre nitrogênio e cálcio em pastagens
O emprego de doses de nitrogênio em pastagens normalmente proporciona queda na concentração média de cálcio nas plantas, porém não são decréscimos acentuados e podem estar associados ao efeito de diluição, devido aos aumentos na produção de massa seca promovidos pelas doses de nitrogênio (PACIULLI, 1997).
Monteiro et al. (1980), avaliando o capim-Colonião submetido a doses de nitrogênio, verificou que a adubação nitrogenada resultou em decréscimos lineares na concentração de cálcio na parte aérea desse capim. A concentração de cálcio foi de 6,4 g kg-1 quando não se forneceu nitrogênio e de 5,1 g kg-1 para a adubação nitrogenada de 225 kg ha-1.
Hoffmann (1992) verificou que a concentração de cálcio na parte aérea no primeiro corte do capim-Colonião aumentou nas baixas doses de nitrogênio (0; 100 e 200 mg kg-1) e decresceu nas maiores doses (300 e 500 mg kg-1), ocorrendo a maior concentração de cálcio na dose de nitrogênio de 200 mg kg-1 de solo, embora as maiores produções de massa seca tenham sido
observadas na dose de nitrogênio de 300 mg kg-1 de solo. No segundo corte, a concentração de cálcio aumentou até a dose de nitrogênio de 300 mg kg-1 de solo, a partir da qual ocorreu diminuição.
Estudando o acúmulo de macronutrientes no capim-Tanzânia ao longo de ciclos de pastejo (verão e outono), Santos Junior (2005) encontrou significância da interação entre doses de nitrogênio e tempo de rebrotação da pastagem para o acúmulo de cálcio nas folhas no ciclo de verão, enquanto no ciclo de outono o efeito das doses de nitrogênio não foi significativo. No ciclo de pastejo de verão, o acúmulo de cálcio nas folhas do capim-Tanzânia variou linearmente com o tempo de rebrotação da pastagem e, nas doses anuais de nitrogênio de 150 e de 300 kg ha-1 o acúmulo diário de cálcio foi de 0,46 e de 0,73 kg ha-1, respectivamente.
Rocha et al. (2000) verificaram efeito significativo das doses de nitrogênio e das gramíneas forrageiras estudadas na concentração média de cálcio, sendo o capim-Tifton 85 superior ao capim-Tifton 68 e este superior ao capim-Coastcross na concentração média de cálcio na parte aérea. Também observaram queda na concentração média de cálcio com o aumento das doses de nitrogênio.
3 MATERIAL E MÉTODOS