Era64 o mês de outubro, mais precisamente dia 26. Estávamos realizando a segunda aula filmada, e todos da turma já sabiam o porquê da filmagem; já sabiam que eu fazia pesquisa e que a estagiária me ajudava nesse processo. A presença da filmadora era algo que chamava muito a atenção da grande maioria do grupo, e muitos queriam ser filmados, falar com e para a câmera, o que provocava ainda mais agitação e movimento na realização de atividades comuns à rotina do grupo, como, por exemplo, a roda de leitura e depois a conversa e a partilha sobre a escrita que realizavam no diário.
Desde o início de outubro estávamos desenvolvendo o projeto “Falando de sentimentos: contamos nossas histórias”, cujo principal objetivo era contribuir para a compreensão dos alunos sobre os sentimentos presentes nas atitudes que temos na escola e fora dela, criando em sala de aula um espaço aberto para a conversa e a escuta sobre o que pensamos e sentimos em relação aos diversos acontecimentos cotidianos que todos vivemos. Assim, uma das ações previstas no projeto era o registro individual dos alunos em um diário, por nós denominado Diário de Bordo. A turma tinha um Diário de Bordo coletivo, no qual eu reunia os registros de cada etapa vivenciada por todo o grupo durante a realização do projeto. Além do Diário da Turma, entreguei a cada criança um pequeno caderno para exercer a função de diário, onde deveriam escrever suas histórias e memórias a partir das conversas e atividades propostas que buscavam abordar os
64Utilizaremos na escrita dos Episódios uma fonte diferente daquela utilizada na escrita do restante do texto
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sentimentos que nos tomam a todo o instante como pessoas, como, por exemplo, o amor, a alegria, a tristeza, a raiva, o medo, entre outros. Podiam também escrever o que mais desejassem sobre os acontecimentos cotidianos na vida de cada um. Diariamente, após a leitura de histórias diversas que eu realizava, aqueles que quisessem poderiam pedir a palavra e partilhar com o grupo seus relatos pessoais produzidos nos diários.
Naquele dia, a agitação parecia “além da conta”, e muitos ficaram inquietos durante a leitura do livro “O fantástico mundo de Feiurinha”, de Pedro Bandeira. A escolha desse livro foi feita por um grupo de alunas que já sabiam do lançamento do filme sobre a obra que aconteceria no próximo mês. Muito atentas, viram a professora Fran entrando na sala e me entregando o livro com esse mesmo título. Nessa ocasião, mais ou menos duas semanas antes dessa aula, foram as três de mãos dadas em minha mesa: Larissa, Patrícia e Jennifer. Perguntaram: “Prô, este livro é seu?”. “É sim”, respondi, sem dar muita atenção, pois acreditava que não seria uma leitura de sucesso entre o grupo porque a história era muito longa, com detalhes mais complexos, que provavelmente não chamariam muito a atenção dos meninos do grupo, já que os gêneros aventuras e contos de repetição eram os seus preferidos. E elas, demonstrando timidez, prosseguiram: “A gente quer muito assistir a este filme quando sair no cinema. Por que você não conta a história pra gente antes de o filme sair? Igual você fez aqui na sala com a história da Chapeuzinho Vermelho?”. Não podia ignorar tal pedido, principalmente após a justificativa dada, que a mim dizia, de certo modo, da importância do trabalho com as diferentes versões textuais e de como a leitura e o contato com as histórias narradas, presente nos livros, era algo de valor para aquelas meninas. Eu esperava/desejava que fosse também para todo o grupo. Então começamos com a leitura desse livro, exatamente no dia 26 de outubro e que durou uma semana.
Após a leitura dos dois primeiros capítulos do livro, seguimos para a partilha das histórias narradas pelos alunos em seus diários, onde contavam algo que havia acontecido com eles e que consideravam importante escrever para dizer ao grupo na roda. Esse era um momento de livre escolha dos alunos; poderiam querer ou não contar para os amigos o registro produzido. Havia alunos que escreviam todos os dias no diário; outros, que só escreviam se eu solicitasse declaradamente; e outros ainda, que nada escreviam, nem por vontade própria e nem a meu pedido. A minha intenção era mobilizá-los o mais possível para levá-los ao desejo de escrever a partir da finalidade da própria escrita; pensava em criar condições para que escrever no diário se constituísse de fato uma necessidade65. Portanto, essa não era uma escrita “obrigatória”; porém, a cada roda em que partilhavam seus escritos, eu buscava sempre seduzir e encorajar aqueles que ainda não haviam se arriscado, a fazer o mesmo.
Depois que todos os que pediram o turno da palavra na roda compartilharam suas histórias, levantamo-nos do chão e cada um foi para o seu lugar, sentar com seu parceiro de dupla, que já havia sido definido previamente por mim.
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Os trechos destacados em negrito, ao longo dos Episódios, referem-se às verbalizações que tomei como indícios para análise, sendo que as palavras em negrito e sublinhadas representam aquelas que me ajudaram a compreender tanto o significados quanto os possíveis sentidos a perpassar o que definimos por pré-
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Durante todo o ano, trabalhei com o grupo a escrita de textos de memória, em sua maioria cantigas, parlendas e poesias trazidas por eles da Educação Infantil. A partir do segundo semestre, quando grande parte da sala já estava produzindo uma escrita com hipóteses silábico-alfabética e alfabética, achei que seria interessante continuar o trabalho com textos de memória a partir de novas canções, no caso, músicas populares brasileiras que fizeram muito sucesso no passado, inclusive entre os próprios familiares dos alunos. Assim, selecionei algumas canções e também a biografia de seus compositores para que o grupo conhecesse também um pouco do contexto de produção. E todos aprenderam a cantar e apreciar algumas belíssimas canções do nosso repertório de música popular, a listar: Carinhoso (Pixinguinha), A Banda (Chico Buarque), Leãozinho (Caetano Veloso), Cio da terra (Milton Nascimento e Renato Teixeira ), Garota de Ipanema (Vinícius de Moraes), Tarde em Itapuã (Toquinho e Vinícius de Moraes), O Sítio do Picapau Amarelo (Gilberto Gil). Já no segundo semestre eles conheciam de memória a maioria das composições, aprendidas no movimento de saber de memória para aprender a ler e escrever, ler para aprender a cantar por inteiro, saber cantar para escrever com o objetivo de compor um livro com essas canções, ensinar outras pessoas a cantar e também para problematizar a própria escrita e o conhecimento que tinham da linguagem com a qual se escreve a escrita convencional. Com alguns que já estavam mais avançados tratamos sobre a própria ortografia.
Nesse contexto de produção escrita das canções que sabiam de memória, a atividade planejada para essa aula foi apresentada para o grupo como “A música é...”. Organizados por meio de agrupamentos produtivos, cada dupla tinha como desafio escrever por inteiro a letra da canção solicitada por uma ficha que haviam recebido com a indicação de canção. Essa seria a primeira versão do texto, até que se chegasse, por meio de problematizações e intervenções que eu ia promovendo, a uma versão própria para a publicação e divulgação na última reunião de pais. Vale informar que, antes dessa atividade de escrever toda a letra de cada uma das músicas listadas acima, fizemos muitas outras, envolvendo leitura e escrita, com essas mesmas músicas: leitura da letra de cada música, ordenação adequada dos versos e escrita de parte da canção com o uso do alfabeto móvel.
Ocorreu que algumas duplas tiverem dificuldades, pois a ficha com o nome da canção a ser escrita era de uma canção da qual os alunos não se lembravam. Diante dessa dificuldade que os impossibilitava de realizar a tarefa, decidimos cantar cada uma das canções com a intenção de reavivar a memória. Ainda assim, aqueles que não conseguiam escrever, pois não sabiam de cor a música toda, teriam o direito de trocar de ficha com outras duplas, num processo de negociação, para conseguir realizar a tarefa. Ao final, todas as duplas reproduziram a letra de cada uma das canções, que vieram, posteriormente, a formar o livro: “Músicas do passado para lembrar no presente”.
(Narrativa produzida para a pesquisa a partir dos meus registros de aula no Caderno de Planejamento).
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Na intenção de destacar e aprofundar alguns dos acontecimentos trazidos nesse
Episódio, decidi compor, junto com a narrativa acima, trechos importantes da narrativa reflexiva que produzi, a partir do procedimento autoscópico. O intuito foi criar condições para uma análise mais aprofundada acerca do vivido, como também elucidar o próprio processo reflexivo instaurado pela e na pesquisa, essencial nas compreensões produzidas, bem como nos encaminhamentos futuros realizados tanto como professora quanto como pesquisadora.
A seguir, trechos dessa narrativa:
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OQQUUEEVVÊÊSS::
Vejo eu, a professora e a organização da roda para a leitura, na tensão da disciplina e da ordem, na necessidade de que todos “prestem atenção”, de que estejam todos dispostos e mobilizados a participar desse momento com intensidade e prazer... A leitura, a história que a professora separou, tem de suscitar prazer, gosto, interesse em todos do grupo... O corpo também diz, também chama a atenção da criança que se põe de outro modo na roda, que se movimenta e que também se interessa por outros atrativos que concorrem (talvez?) com o momento da leitura, ou que apenas coexistem, porque é possível também no movimento do corpo e no interesse a outros elementos, aprender e ouvir (será?)... Na filmagem, para a professora que ali está - no caso, eu -, tem de se fazer uma coisa de cada vez...
Vejo o valor da partilha e o sentido para o grupo de dar a palavra à criança. Dividir o espaço é preciso, possível, mas é um exercício difícil...
Vejo a apropriação de Isa, uma aluna que trouxe para mim tantos desafios e anseios - foi a primeira vez que tive uma aluna com necessidades educacionais especiais em sala de aula e, por muitas vezes, me senti completamente desamparada pela escola e pelo sistema para lidar com esse caso de modo que pudesse fazer o melhor por ela - tendo as condições necessárias também.
Com certeza fiquei muito atenta ao discurso presente na escola de que “como não há as condições ideais e necessárias para o atendimentos de crianças portadoras de necessidades educacionais especiais, também não há muito a ser feito”. Para não cair nessa mesma armadilha, fui, meio que intuitivamente, meio que apoiada na experiência de outras colegas professoras que também atendem em suas salas crianças com necessidades educacionais especiais – e vejo-me agora, olhando a gravação -, construindo um caminho de lidar com a Isa em busca do melhor para o seu desenvolvimento como criança, que, com toda certeza, também foi construído nas relações com esse grupo de alunos.
Vejo também a organização do grupo para ouvir a consigna da atividade: livro com músicas populares brasileiras aprendidas pela turma. Atividade: “A música é...”.
A questão da centralidade de alguns aspectos e orientações de organização do trabalho, ainda por conta da professora. Senti certo incômodo ao saber que essa atividade aconteceu em outubro e algumas questões de gestão da sala de aula ainda não
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aparecem de modo tranquilo pra mim, como o fato de ter de interromper as atividades a todo o instante para pedir silêncio para que todos ouçam as orientações.
Nem todos se lembraram da música que “pegaram”, embora ao pensar no agrupamento e na escolha das canções para cada dupla, havia considerado essa questão. Ou seja, a escolha da música que foi dada a cada dupla foi intencional; busquei deixar os alunos com as músicas com as quais tinham mais afinidade para que pudessem se lembrar das letras, já sabendo que poderiam não lembrar de todas. Ainda assim, no momento da atividade, muitas duplas não se lembravam mais das canções. Apostando na atividade e no desafio como significativos para o trabalho, que também acreditei possível, resolvi retomar com toda a sala um trecho de cada música, pois assim ajudaria todos a se lembrar do início da canção que tinham de escrever. Felipe se levanta para me entregar um bilhete, enquanto a sala toda canta “A Banda” de Chico Buarque. Vê-lo levantar-se, me entregar o bilhete, voltar para o lugar, cantando a música junto com a sala, como se não quisesse perder nenhum pedacinho, chamou a minha atenção, provavelmente pelo valor que cantar assumia para ele. Ver a Isa acompanhar também as músicas, cantando junto “A Banda”, “Garota de Ipanema” e “Sítio do Picapau Amarelo”, olhar para os corpos se movimentando sentados nas cadeiras (porque não era hora de levantar) no ritmo das canções, os braços se movimentando como se estivessem regendo uma orquestra, os olhos se fechando, sorrisos se abrindo, gestos esses se consagrando em especial na figura do João Vítor, me fazem perceber o valor dado pelas crianças à prática de cantar, conhecer e ouvir essas canções como momento de prazer e fruição. Foram feitos ainda novos ajustes e trocas de canções com as duplas a partir das músicas que melhor conheciam e com isso sentiam-se mais seguros para escrever, o que não poderia ser de outro jeito, pois, afinal, saber a música de cor era fundamental para que o desafio fosse possível e promotor de aprendizagem para as crianças.
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Penso sobre o exercício de professora-alfabetizadora comprometida com a aprendizagem da leitura e da escrita de seus estudantes e com a ampliação do seu repertório simbólico e linguístico que se mostrou tão intenso nessa busca de ensinar. Penso nas falas não escutadas no momento da roda, por exemplo, o diferente que ali se instaura e, às vezes, incomoda (porque se mostra contra o estabelecido/a ordem/ o combinado de não haver interrupções durante a fala da professora) requer um gesto de interrupção, sim, de “vagareza” : é preciso aprender a ouvir e demorar-se nessa escuta do que dizem as crianças, do que pretendem informar com seus gestos; é preciso, como tão bem diz Larossa : “parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar (...), parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes (...) falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço”. Aqui, as crianças me pedem tempo e espaço.
Com a possibilidade de debruçar-me sobre a imagem gravada, debruço a olhar para esta questão: perceber, pensar, compreender essa necessidade...
Essa necessidade também se mostra no momento da partilha do registro do diário, do que lhes acontece, da possibilidade de uso da escrita a serviço de uma prática social, que, para
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o grupo, nada mais era que uma possibilidade de não deixar escapar o que acontece na vida que se vive fora da escola e, às vezes, se que quer contar para os amigos, dividir com um grupo em um espaço aberto e criado para essa prática.
Olhar para Isa e observar a apropriação que ela faz tanto da fala, quanto da prática, da escrita e da leitura para partilhar uma história vivida fora da escola, além de constatar a possibilidade de comunicação, de interação no grupo, de valorização do que o outro, diferente, mobiliza e nos possibilita conhecer e também aprender me dá a dimensão da qualidade das interações estabelecidas entre as crianças e, de algum modo, talvez, da própria aprendizagem promovida por essas trocas tão ricas. Sim, socializar na roda a escrita do diário era uma prática potente em sala de aula. Sim, aqui as crianças confirmam sua potência e a possibilidade de invenção e de reinvenção do grupo e da própria professora.
Ao rememorar as canções, as crianças pensavam em cantar e talvez, se houvesse espaço, se eu tivesse possibilitado esse espaço, dançar e movimentar-se no ritmo que contagiava. Nesse momento, a necessidade da escrita e da leitura para a produção do livro me pareceu muito mais uma necessidade minha, da professora-alfabetizadora, do que das crianças.
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OQQUUEEFFAAZZEESSCCOOMMOOQQUUEEVVÊÊSSEEPPEENNSSAAS:S:
Tomo consciência da importância de atentar-me para o que as crianças insistem em dizer e mostrar com os movimentos que produzem com o corpo, com gestos e falas que entremeiam o encaminhamento pedagógico da aula, a compreensão de que é preciso dar tempo e espaço ao grupo. Grupo de crianças que insiste em ensinar a necessidade desse movimento em sala de aula, ainda que a professora, às vezes, não perceba essa insistência durante a ação. O saber que emerge dessa reivindicação dos gestos e movimentos que os alunos produzem, muitas vezes à revelia da autoridade da professora em sala, é aprender a olhar para essas outras formas de manifestação e expressão dos alunos em sala de aula também como produção e aprendizagem importantes para o desenvolvimento de todos.
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