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No que nos resta dos tempos

No documento A fenda incomensurável : literatura e cinema (páginas 194-200)

Capítulo III: A experiência do tempo para além das imagens

B) Nos que resta do cinema: o direito à invisibilidade

3) No que nos resta dos tempos

Não mostres todos os aspectos das coisas/reserva para ti uma margem de indefinição

Jean Luc Godard; Histoire(s) do Cinema

398 Nas novas tecnologias lúdicas, mediante um procedimento de scanning, podemos estar no interior do

aparelho, “dentro” do jogo, “dentro” da tela, “interagindo” com ela. Grande parte dos desenvolvimentos tecnológicos visa transformar as telas em dispositivos táteis. Apalpar na tela um mundo que fica para sempre intocável é o desejo paradoxal das tecnologias. No mesmo sentido, as telas se apresentam agora como feitas de “plasma”- o plasma é o “quarto estado da matéria”, anterior ao gasoso e, também o componente principal do sangue dos mamíferos superiores (90%): a tecnologia não deixa de unir, nas suas metáforas de seus nomes, os extremos da vida. Também as artes pretendem trabalhar as condições da percepção sob “ambientes imersivos” mediante o trabalho sobre a luz...

Muito longe de ser revelado pelas imagens ou acolhido nas palavras, o mundo fica perdido, dissolvido, varrido nas telas que nos rodeiam. Nelas, inscrevem-se as modalidades em que se produz o que somos hoje: efeitos de uma onda de luz evanescente, sempre dispostos a morrer no instante de seu máximo esplendor. O mundo é efeito de um cálculo brilhante e indiferente: somos apenas poeira luminosa. Estamos, a cada instante, varridos por uma breve intensidade, por um fulgor do tempo. Talvez por isso, Clarice Lispector podia se perguntar, no final de A hora da estrela: “quanto pesa a luz?” Parece que, em última instância, a isso se reduz nossa vida: ao preciso instante em que uma luz oscila na noite e devolve-se (nos devolvendo) à escuridão399.

Somos feitos de luz. Somos uma magia digital. Isso não é melhor, nem pior do que outras definições. Mas, exige que possamos pensar as novas lógicas, as economias de seu funcionamento, sua genealogia. Trata-se, como sustentava Deleuze, em nossa epígrafe inicial, de estudar as especificidades de nossa sociedade para produzir as interrupções nos fluxos que nos conformam, nos desviando, no detendo, nos escapando. Há algo mais apavorante que um black out –energético-elétrico-informacional-, algo de mais arrepiante que uma interrupção total dos fluxos, fazendo que nada flua, no mundo pós-capitalista? Há algo de mais alarmante para as redes, que não nos encontrar nos seus gráficos quadriculados, que não nos encontrar interconectados? Se a percepção é simplesmente um ato de codificação de dados dispersos, as artes (o pensamento como arte) têm, nesse lugar, o seu desafio. Não se trata de combater as tecnologias, mas de encontrar nelas o que não foi ainda pensado, para libertar a vida das redundâncias pelas quais somos estereotipados.

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Talvez, essa seja ainda a pergunta que a literatura e as artes audiovisuais não podem responder. Talvez essa pergunta marque o limite entre isso que não podemos dizer e isso que não podemos olhar.

Temos de quebrar os brinquedos, como queria Benjamim; inventar a jogada nova, segundo Flusser; criar os afectos e perceptos puros, segundo Deleuze e Guattari. Se nossas crenças se fundam nas telas que nos rodeiam, se o verdadeiro e o falso encontram nelas o seu local de realização, se a comunidade está intermediada por cálculos digitais, se, enfim, nossa experiência da cultura está feita de imagens e as palavras computadas, a tarefa estética e política das artes seja, talvez, a produção de novas crenças e novos direitos, de crenças que a tecnologia não produz, de direitos que não pode reconhecer e de sobrevivências que não pode calcular.

Contra a ilusão de visibilidade total que esses meios tecnológicos impõem, temos de lembrar o que Foucault sustentava em Vigiar e Punir: a visibilidade é uma armadilha400. Ou aquilo que, no limite, era para Deleuze e Guattari o ato decisivo: devir imperceptíveis. Ou, talvez, se trate de capturar esse ponto cego em que a cultura se desfaz, em que um “punctum” nos desvia iniciando uma errância oblíqua que quebra a boa ordem dos dígitos; uma interrupção que provoca o vazio dos cálculos, fazendo com que não consigam nos computar. Uma fenda que os números não podam calcular. Nos tempos que nos atravessam, no interior dos dispostivos que nos governam, só aqueles que querem exercer a violência de sua força têm a obrigação de se mostrar. Os outros temos o direito ao silêncio e à invisibilidade.

O desvio pela literatura e o cinema, o desvio pelos tempos contraditórios das palavras e das imagens, nos coloca, assim, diante de uma encruzilhada: quando essas materialidades, tanto tempo sobreviventes, acabem finalmente por desaparecer, em que restos vai se resguardar o tempo? Em que restos nos lançamos para o porvir? O que dará testemunha das coisas? Onde se conservará nossa presença espectral? Onde sobreviverá

isto que somos? Desde onde voltaremos para nos conjurar?401 Como será possível criar outra incomunidade? Talvez, na noite mais escura do universo digital, o direto a não nos expormos, a devir imperceptíveis, a não ser visíveis, a ficar calados, a gritar, a interromper os fluxos, seja, finalmente, a exceção em que a arte pode trabalhar contra a luz asfixiante da cultura.

Uma tese sobre literatura e cinema pode parecer, no início, muito afastada dessas preocupações. Pode parecer muito longe das multidões e do ruído e dos holofotes que invadem as ruas. Porém, há outra coisa que mereça o esforço de pensar (embora seja de modo muito alusivo, muito torto, embora seja pelas vias mais indiretas e os caminhos mais longínquos, embora seja pelo viés das luzes que se apagam na errância das imagens), senão essa violência que arrebata o que somos? Há outro interesse, para além dessa urgência, que marca o limite do nosso presente? Há outra coisa para pensar, senão a força dos tempos que nos passam?

O presente por vir encontra, nisso que nos resta, no que nos resta do tempo, o seu desafio.

401 O conjuro exigido pelo pai de Hamlet é o conjuro dos tempos: uma vingança, uma restituição de justiça e

um ato de bruxaria. Os tempos por vir contêm, no seu mistério, o segredo de uma magia. Talvez, neste ponto, tenhamos que reconhecer, como nos ensinara Warburg, que a magia não pode ser simplesmente afastada do horizonte de nossa vida e que crer seja, hoje, de certa forma, uma magia laica.

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