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Simónides de Keos

NOME DAS COISAS (1977)

CÍCLADES

(evocando Fernando Pessoa)

A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença O teu nome emerge como se aqui

O negativo que foste de ti se revelasse Viveste no avesso

Viajante incessante do inverso Isento de ti próprio

Viúvo de ti próprio

Em Lisboa cenário da vida

E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de [uma leitaria

O empregado competente de uma casa comercial

O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés [da Baixa

O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo (Onde ainda no mármore das mesas

Buscamos o rastro frio das tuas mãos

 O imperceptível dedilhar das tuas mãos) Esquartejado pelas fúrias do não-vivido À margem de ti dos outros e da vida Mantiveste em dia os teus cadernos todos Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas Das múltiplas navegações da tua ausência 

Aquilo que não foi nem fostes ficou dito Como ilha surgida a barlavento

Com prumos sondas astrolábios bússolas Procedeste ao levantamento do desterro Nasceste depois

E alguém gastara em si toda a verdade O caminho da Índia já fora descoberto Dos deuses só restava

O incerto perpassar

No murmúrio e no cheiro das paisagens E tinhas muitos rostos

Para que não sendo ninguém dissesses tudo Viajavas no avesso no inverso do adverso

Porém obstinada eu invoco  ó dividido 

O instante que te unisse

E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do

[teu rosto Estes são o rápidos golfinhos da tua alegria Que os deuses não te deram nem quiseste

Este é o país onde a carne das estátuas como choupos [estremece

Atravessada pelo respirar leve da luz Aqui brilha o azul-respiração das coisas

Nas praias onde há um espelho voltado para o mar Aqui o enigma que me interroga desde sempre É mais nu e veemente e por isso te invoco: «Porque foram quebrados os teus gestos Quem te cercou de muros e de abismos Quem derramou no chão os teus segredos» Invoco-te como se chegasses neste barco E poisasses os teus pés nas ilhas

E sua excessiva proximidade te invadisse Como um rosto amado debruçado sobre ti No estio deste lugar chamo por ti

Que hibernaste a própria vida como o animal na [estação adversa

Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra [melhor ver recua

E quiseste a distância que sofreste

Chamo por ti  reúno os destroços as ruínas os [pedaços 

Porque o mundo estalou como pedreira E no chão rolam capitéis e braços Colunas divididas estilhaços

E da ânfora resta o espalhamento de cacos

Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros Porém aqui as deusas cor de trigo

Erguem a longa harpa dos seus dedos E encantam o sol azul onde te invoco

Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência Pudesse o instante da festa romper o teu luto Ó viúvo de ti mesmo

E que ser e estar coincidissem No um da boda

Como se o teu navio te esperasse em Thasos Como se Penélope

Nos seus quartos altos

Entre seus cabelos te fiasse

GUERRA OU LISBOA 72 Partiu vivo jovem forte Voltou bem grave e calado Com morte no passaporte Sua morte nos jornais Surgiu em letra pequena É preciso que o país Tenha a consciência serena

SUA BELEZA

Sua beleza é total

Tem a nítida esquadria de um Mantegna Porém como Picasso derrepente

Desloca o visual

Seu torso lembra o respirar da vela Seu corpo é solar e frontal

Sua beleza à força de ser bela Promete mais do que prazer

Promete um mundo mais inteiro e mais real Como pátria do ser

25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo

NESTA HORA

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se

[invoca o povo Pois é preciso que o povo regresse do seu longo

[exílio

E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia [verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto Ganhar meio salário

Como só ter direito A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade E o resto joga com habilidade

Porque pensa que o povo só pensa metade Porque pensa que o povo não percebe nem sabe A verdade não é uma especialidade

Para especializados clérigos letrados Não basta gritar povo é preciso expor Partir do olhar da mão e da razão Partir da limpidez do elementar Como quem parte do sol do mar do ar

Como quem parte da terra onde os homens estão Para construir o canto do terrestre

 Sob o olhar silente de atenção 

Para construir a festa do terrestre Na nudez de alegria que nos veste

20 de Maio de 1974

BREVE ENCONTRO

Este é o amor das palavras demoradas Moradas habitadas

Nelas mora

Em memória e demora

A PALAVRA

Heraclito de Epheso diz:

«O pior de todos os males seria A morte da palavra»

Diz o provérbio do Malinké:

«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento Mas não pode

Enganar-se na sua parte de palavra»

MUSEU

Aqui  como convém aos mortais 

Tudo é divino

E a pintura embriaga mais Que o próprio vinho

POR DELICADEZA Bailarina fui Mas nunca dancei Em frente das grades Só três passos dei Tão breve o começo Tão cedo negado Dancei no avesso Do tempo bailado Dançarina fui Mas num bailei Deixe-me ficar Na prisão do rei ?Onde o mar aberto E o tempo lavado?

Perdi-me tão perto Do jardim buscado Bailarina fui Mas nunca bailei Minha vida toda Como cega errei Minha vida atada Nunca a desatei Como Rimbaud disse Também eu direi:

«Juventude ociosa Por tudo iludida Por delicadeza Perdi minha vida»

OÁSIS

Penetremos no palmar

A água será clara o leite doce

O calor será leve o linho branco e fresco O silêncio estará nu  o canto

Da flauta será nítido no liso Da penumbra

Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira

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