71% e 54,4% entre homens e mulheres, respecti- vamente, considerando a amostra total dos indivíduos dos municípios estudados.
As DCNT são influenciadas pelo ambiente e
Doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT)
Gráfico 2 - Prevalência da desnutrição em adultos, segundo regiões geográficas e sexo Brasil 2003.
GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA 134
8
6
4
2
0
Nordeste rural Nordeste urbano Sudeste rural Sudeste urbano homens mulheres 4 7,2 3,3 5,9 4,2 6,2 2,7 4,9 % d e adultos com IMC < 18,5 Kg/m 2 ONTE F : IBGE, 2004a.por isso passíveis de prevenção. Esse grupo de doenças é considerado uma manifestação da má- nutrição, evidência comprovada por estudos científicos (NATIONAL RESEARCH COUNCIL, 1989a; WORLD CANCER RESEARCH FUND, 1997; PAN AMERICAN HEALTH ORGANIZATION, 1998b; U N I T E D N A T I O N S A D M I N I S T R A T I V E COORDINATING COMMITTEE, 2000; EURODIET, 2001; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1990a, 1990b, 2003a). No último século, essas doenças têm sido a causa principal de incapacidade e de mortes prematuras na maioria dos países economicamente desenvolvidos; contudo, conforme já mencionado, os processos de transição demográfica, epide- miológica e nutricional também começam a afetar os países em desenvolvimento, incluindo a América Latina (SHETTY; MCPHERSON, 1997) e o Brasil.
A Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (Pnad), realizada pelo IBGE em 2003, incluiu um módulo destinado a aferir o acesso e a utilização dos serviços de saúde pela população brasileira que traz importantes informações sobre as DCNT (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2003).
À época da pesquisa, a população brasileira residente foi estimada em 176 milhões de habitantes. Por meio de informação relatada pelos entrevistados, os resultados mostram que aproxi- madamente 29,9% da população informaram ser portadores de pelo menos uma doença crônica não- transmissível. Essa proporção aumentava com a idade e variava segundo os sexos, sendo maior para as mulheres (33,9%) do que para os homens (25,7%). Até a idade de 13 anos, a parcela de mulheres com doença crônica não-transmissível era menor e, repetindo o padrão das demais variáveis de estado de saúde avaliadas, superava a dos homens em todos os grupos etários a partir de 14 anos.
As informações revelam, ainda, que a proporção de pessoas com doença crônica nãotransmissível se eleva à medida que aumenta o rendimento mensal familiar: 26,7% entre aqueles com rendimento de um salário mínimo ou menos, alcançando 33,6% entre aqueles de 10 e 20 salários. Para a classe de rendimento acima de 20 salários, a freqüência foi de 32,4%. Entre as pessoas que informaram doenças crônicas não-transmissíveis, 18,5% informaram ter três ou mais doenças, sendo
este percentual de 13,4% para os homens e de 22,1% para as mulheres. Estes padrões referentes à idade e ao sexo foram semelhantes aos observados em outros países (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2003).
Um outro inquérito realizado, em 2002/ 2003, pelo INCA, instituto vinculado ao Ministério da Saúde, a partir de amostra de base domiciliar, investigou comportamentos de risco e de morbidade referida para doenças e agravos não- transmissíveis, em 15 capitais e no Distrito Federal. Essa pesquisa teve como objetivos estimar a prevalência de exposição a comportamentos e fatores de risco para as DCNT e a prevalência de hipertensão e diabetes auto-referidos. Foram entrevistados os indivíduos com idade igual ou supe- rior a 15 anos no momento da pesquisa. Os dados referem-se a uma amostra de 23.457 pessoas e n t r e v i s t a d a s . A l g u n s r e s u l t a d o s s e r ã o apresentados nas páginas seguintes, pois também contribuem para elucidar a gravidade da prevalência de DCNT em nossa população (BRASIL, 2004e).
Destacam-se a seguir algumas informações disponíveis sobre doenças cardiovasculares, câncer, hipertensão arterial e diabetes que mostram a situação no Brasil, doenças estas que têm, entre seus fatores de risco, a inadequação alimentar.
Atualmente, as doenças cardiovasculares são responsáveis por cerca de 18 milhões de mortes anuais em todo o mundo. Dentre elas, a doença isquêmica do coração e as doenças cerebro- vasculares responsabilizam-se por 2/3 das mortes e por mais de 20% dos óbitos por todas as causas (BEAGLEHOLE et al., 2001).
No Brasil, na década de 30, as doenças infecciosas e parasitárias correspondiam, proporcionalmente, a 46% da mortalidade geral, enquanto que as cardiovasculares a 12%. Já os dados de 2001 mostram uma nítida reversão desses dados: enquanto as infecciosas e parasitárias respondem por 5,0% de todas as causas de morte, as doenças cardiovasculares ascenderam a 31% (BARBOSA, 2003).
Segundo estimativas do Ministério da Saúde, as doenças cardiovasculares (DCV) corres- ponderam a 1/3 dos óbitos por causas conhecidas e
Doenças cardiovasculares
135 PARTE 3 - AS BASES EPIDEMIOLÓGICAS E CIENTÍFICAS
2/3 dos gastos com atenção à saúde em 2002 (BARBOSA, 2003). Elas tornaram-se uma das principais causas de morte, em conseqüência, entre outros fatores, das profundas transformações no abastecimento de alimentos e padrão alimentar, com o rápido aumento da produção e consumo das gorduras saturadas, que tornou as dietas mais calóricas, bem como a redução na atividade física cotidiana (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1982).
O impacto econômico das doenças cardiovasculares no Brasil pode ser avaliado por meio das seguintes informações: esse grupo de doenças é responsável por 65% dos óbitos de adultos entre 30 e 69 anos de idade e causa de 14% das internações nessa faixa etária (1.150.000 internações/ano) e é também responsável por 40% das aposentadorias precoces (BRASIL, 2003d).
A prevalência de vários tipos de câncer, incluindo o do cólon, mama e próstata, aumentou expressivamente após a segunda metade do século XX, possível conseqüência das mudanças nos sistemas alimentares, padrões de trabalho e lazer (WORLD CANCER RESEARCH FUND, 1997).
No Brasil, a incidência de câncer, que até a década de 60 matava menos de 5% dos brasileiros, aumentou e, no final dos anos 70, já era de cerca de 10%, quatro vezes maior do que a encontrada na década de 30 (OLIVEIRA et al., 1996). Conforme se pode observar na , ao final da década de 70, as doenças crônicas não-transmissíveis, que englobam doenças cardiovasculares, câncer e diabetes, respondiam por 34,4% das mortes, sendo este valor de 48,3% em 2003.
Dados do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, relativos ao ano de 1998, indicaram que as neoplasias de traquéia, brônquios e pulmões e o câncer maligno de estômago ocupavam, respectivamente, o 14.º e 17.º lugar, entre as 20 causas de morte na população masculina. Entre as mulheres, essas causas de morte ocupam, respectivamente, o 19.º e 20.º lugar, destacando-se ainda o câncer de colo de útero em 11º lugar e o câncer de mama em 7º lugar
Câncer
Tabela 1
(SCHRAMM, 2003). Em 2001, dados do mesmo sistema indicaram que as neoplasias foram causa de 15,3% das mortes no Brasil (tabela 2, página 141) e já são a segunda causa de morte entre homens e mulheres no Brasil.
A hipertensão arterial está associada à origem de muitas DCNT e é, portanto, uma das causas mais importantes de redução da qualidade de vida e da expectativa de vida. Ela é responsável por complicações cardiovasculares, encefálicas, co- ronarianas, renais e vasculares periféricas.
O Brasil não dispõe de informações sobre a prevalência nacional de hipertensão arterial. Estudos epidemiológicos locais, com base em medidas casuais da pressão arterial, no entanto, apontam prevalências de 40% e 50% na população adulta com mais de 40 anos de idade.
No período decorrido entre 1996 e 1999, a hipertensão arterial foi causa de 17% das internações de pessoas entre 40 e 59 anos e de 29% das pessoas com 60 anos ou mais, nos hospitais públicos do País (COSTA et al., 2000).
No ano de 2002, o Ministério da Saúde realizou a Campanha Nacional para Detecção de Hipertensão Arterial (CNDHA), objetivando a detecção de casos não diagnosticados e tendo como população-sujeito cerca de 31 milhões de pessoas com 40 ou mais anos de idade. Nessa ocasião, foram realizadas mais de 12,5 milhões de aferições da pressão arterial, em 74% dos municípios brasileiros (BRASIL, 2004f).
A , a seguir, apresenta os resul- tados dos casos suspeitos de hipertensão arterial 14 rastreados durante a CNDHA, definidos como os indivíduos que apresentaram pressão arterial
140/90mmHg.
Mais recentemente, em 2002/2003, o estudo sobre a prevalência de hipertensão arterial brasileiros. auto-referida, em 15 capitais e no Distrito Federal, mostrou um nítido crescimento das prevalências com a idade: de 7,4% a 15,7% entre pessoas de 25 a 39 anos; de 26% a 36,4% entre 40 e 59 anos e de 39% a 59% em pessoas com 60 ou mais
Hipertensão arterial
tabela 3
>
GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA 136
anos. Segundo a escolaridade, os resultados evidenciam prevalência variando de 25% a 45,8% entre pessoas de menor escolaridade e de 16,5% a 26,6% entre as de maior escolaridade (BRASIL, 2004e).
O diabetes apresenta alta morbimor- talidade, sendo uma das principais causas de mortalidade, insuficiência renal, amputação de membros inferiores, cegueira e doenças cardio- vasculares (BRASIL, 2004f).
A prevalência de diabetes no Brasil, entre adultos de 30 a 69 anos residentes em nove capitais brasileiras, em 1988, foi estimada em 7,6%; e a de tolerância diminuída à glicose, de 7,8%. A prevalência é mais alta com a evolução da idade: 2,7% entre 30 e 39 anos, 5,5% entre 40 e 49 anos, 12,7% entre 50 e 59 anos e, finalmente, 17,4% entre 60 e 69 anos (BRASIL, 1988). Esse mesmo estudo revelou que 46,5% das pessoas que tiveram o diagnóstico confirmado desconheciam ser porta- dores de diabetes.
Dados mais recentes estimam em cerca de 4,9 milhões de adultos brasileiros diabéticos, prevendo-se, para 2025, que esse número será de 11,6 milhões (KING, 1998).
Em 2001, o Ministério da Saúde realizou a Campanha Nacional para Detecção de Diabetes Mellitus (CNDDM), envolvendo 95,3% dos municípios brasileiros. A campanha direcionou-se para a população brasileira com 40 anos ou mais
Diabetes
que depende do SUS para atendimento clínico. Esse número foi estimado em aproximadamente 31 milhões de pessoas. Foram considerados casos suspeitos indivíduos com glicemia de jejum 100mg/dl ou glicemia casual 140mg/dl. Por esses critérios, por ocasião da campanha, 16,4% foram considerados casos positivos. Em uma segunda etapa de investigação, que envolveu busca ativa de uma amostragem probabilística dos casos positivos, 10,1% tiveram diagnóstico confirmado (BRASIL, 2004f).
No inquérito nacional nas 15 capitais e no Distrito Federal, realizado em 2003/2004 pelo Inca, que investigou morbidade referida, mostrou que, entre os indivíduos que tiveram acesso ao exame diagnóstico de diabetes, a prevalência variou de 5,2% a 9,4% entre a população de 25 ou mais anos. Entre os homens, a prevalência auto-referida variou de 4,9% a 11,7%; e, entre as mulheres, de 4,9% a 8,9%. Os resultados evidenciam um significativo aumento com a idade, variando de zero a 4,7% na faixa de 25 a 39 anos e de 11,6% a 25,2% em pessoas com 60 ou mais anos de idade (BRASIL, 2004e).
O mais recente inquérito nacional que permite estimar as prevalências do excesso de peso e da obesidade no Brasil é a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada em 2002-2003, pelo IBGE e Ministério da Saúde. As informações estão disponíveis apenas para adultos (pessoas com 20 ou mais anos de idade), não se dispondo ainda das informações para as demais fases do curso da vida.
Excesso de peso e obesidade
Norte 31,9 Nordeste 38,7 Centro-Oeste 37,3 Sudeste 35,2 Sul 34,5 Brasil 36,0 FONTE: BRASIL, 2004f.
(*) Refere-se aos indivíduos rastreados por ocasião da CNDHA que apresentaram pressão arterial 140/90mmHg, em 4.118 municípios
>
Tabela 3 - Resultados da Campanha Nacional de Detecção de Hipertensão Arterial (CNDHA). BRASIL, 2002
Região Percentual de exames suspeitos (%)(*)
137 PARTE 3 - AS BASES EPIDEMIOLÓGICAS E CIENTÍFICAS
A prevalência do excesso de peso e da obesidade na população adulta brasileira, apurada pela POF 2002-2003, revela que esses agravos alcançam grande expressão em todas as regiões do País, no meio urbano e rural e em todas as classes de rendimentos. A obesidade, caracterizada por IMC
igual ou superior a 30kg/m2, afeta 8,9% dos homens adultos e 13,1% das mulheres adultas do País. Obesos representam cerca de 20% do total de homens com excesso de peso e cerca de um terço do total de mulheres com excesso de peso.
Os gráficos 3 e 4 a seguir evidenciam a
Gráfico 3 - Tendência secular do excesso de peso no Brasil, segundo sexo. Brasil, 1975-2003
tendência secular do excesso de peso e da obesidade, respectivamente, entre adultos brasileiros, a partir de três inquéritos nacionais: o Endef, realizado em 1975; a PNSN em 1989; e a POF em 2002-2003. (IBGE,1977, 2004a; INAN,1990,1989)
O excesso de peso teve uma nítida tendência de aumento no período compreendido entre meados da década de 70 e 2003 entre os homens; e, entre as mulheres, houve tendência de redução entre 1989 e 2003. Em 2003, 40% da
população adulta apresentavam excesso de peso (IMC igual ou superior a 25 kg/m2).
Considerando a obesidade (IMC maior ou igual a 30 kg/m2), a prevalência na população adulta é de 11,1%, sendo de 8,9% entre homens e de 13,1% entre as mulheres.
O indica comportamento similar da tendência de obesidade, se comparada à do excesso de peso: crescimento contínuo da prevalência de obesidade entre os homens, no
gráfico 4
GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA 138 50 40 30 20 10 0
FONTES: ENDEF(1977); PNSN (1989); POF (2004)
Homens Mulheres 1975 1989 2003 18,6 29,5 41,0 28,6 40,7 39,2
Gráfico 4 - Tendência secular da obesidade no Brasil, segundo sexo. Brasil, 1975-2003
FONTES: ENDEF(1977); PNSN (1989); POF (2004)
Homens Mulheres 1975 1989 2003 %IMC 25 Kg/m > 2 %IMC 30 Kg/m > 2 2,8 5,1 8,8 7,8 12,8 12,7 14 12 10 8 6 4 2 0
período estudado; entre as mulheres, o crescimento ocorreu no período de 1975 a 1989, tendendo a estabilização até 2003.
Ainda assim as mulheres apresentam prevalência de obesidade superior aos homens. Os dados da POF-2002 indicam ainda a ocorrência de obesidade, tanto em áreas urbanas quanto nas rurais, como também nas diferentes regiões do País. Entre homens e mulheres residentes em zonas rurais, as prevalências encontradas são, respectivamente, de 9,7% e de 12,7%; já nas zonas urbanas, as taxas são de 8,9 e 13,1%. A prevalência da obesidade, segundo as regiões geográficas, r e v e l a q u e , m e s m o n a s r e g i õ e s m e n o s desenvolvidas, como o Norte e o Nordeste, as prevalências são expressivas para ambos os sexos,
conforme se observa comparando-se os .
Ao analisar os dois gráficos, observa-se que para os homens, em todas as regiões geográficas, houve um crescimento expressivo e continuado da prevalência de obesidade entre 1975 e 2003. Entre as mulheres, o comportamento da obesidade tendeu a crescer, entre 1975 e 1989, em todas as regiões, e a reduzir no período entre 1989 e 2003, exceto na Região Nordeste.
A prevalência da obesidade também ocorre em todas as classes de rendimento.
O mostra que, entre os homens, a prevalência aumenta de acordo com o aumento da renda; porém, entre as mulheres, esse crescimento
gráficos 5 e 6
gráfico 7
Gráfico 5 - Tendência secular da obesidade masculina, segundo região brasileira. Brasil, 1975-2003
Gráfico 6 - Tendência secular da obesidade feminina, segundo região brasileira. Brasil, 1975-2003
139 PARTE 3 - AS BASES EPIDEMIOLÓGICAS E CIENTÍFICAS
10 8 6 4 2 0
Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste
1975 1989 2003 3,8 6,6 7,8 1,4 2,5 6,8 3,1 5,6 9,8 3,9 7,5 9,7 2,8 5,1 8,4 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0
Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste
1975 1989 2003 7,3 11,8 11,2 4,7 9,0 11,5 8,7 13,613,3 10,5 14,5 16,8 7,6 12,1 10,9 %IMC 30 Kg/m > 2 %IMC 30 Kg/m > 2
ocorre somente na classe de menor rendimento. O inquérito sobre fatores de risco para DCNT fornece informações auto-referidas sobre peso e altura dos entrevistados (BRASIL, 2004e), porém, alguns desses resultados são muito similares aos encontrados pela POF 2002-2003.
A prevalência de excesso de peso (que soma casos de sobrepeso e obesidade) em algumas capitais chegou a 40%. O sobrepeso (IMC entre 25,0 e 29,9kg/m2) variou de 23% a 33,5% e a obesidade (IMC 30kg/m2) entre 8,1% e 12,9%. A prevalência de sobrepeso foi sempre maior entre os homens que entre as mulheres, em todas as capitais. De modo geral, as capitais do Sul e Sudeste apresentaram as taxas mais elevadas de sobrepeso e de obesidade e as prevalências de excesso de peso foram mais baixas para os grupos etários mais jovens (BRASIL, 2004e).
Essas tendências de excesso de peso e obesidade na população adulta brasileira vêm comprovar a gravidade e a magnitude que o problema assumiu no Brasil, fundamentando a urgência de intervenções que façam retroceder o avanço do excesso de peso e, concomitantemente, das outras DCNT no Brasil.
Em relação à obesidade entre crianças menores de 5 anos, três inquéritos nacionais permitem identificar a prevalência: Endef (1974- 1975), PNSN (1989), PNDS (1996) (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 1977; INSTITUTO NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO, 1990; INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 1997). Os dados indicam uma tendência de manutenção das prevalências (4,6%, 4,6% e 4,3%, respectivamente). Comparando-se os dados do ENDEF com os dados de Pesquisa de Padrões de Vida, também realizada
pelo IBGE em 1996/1997, apenas nas regiões Sudeste e Nordeste, observa-se que a prevalência de obesidade triplicou entre crianças e adolescentes de 6 a 18 anos: em 1975 era de 4,1% e aumentou para 13,9% em 1997 (WANG et al, 2002).
Conforme se discutiu anteriormente, houve uma queda expressiva da prevalência de desnutrição infantil, estimada em 70% para o período decorrido entre meados da década de 70 e 90; contudo, comparando-se as prevalências de desnutrição e de obesidade entre crianças, observa- se que, em meados da década de 70, havia quatro vezes mais crianças desnutridas do que obesas, e essa proporção, ao final da década de 80, diminuiu para pouco menos de duas crianças desnutridas para uma obesa (MONTEIROet al., 2000).
Dados mais recentes, oriundos de estudos localizados, também referem tendências de crescimento da obesidade e do sobrepeso na população mais jovem. Em estudo realizado na Região Sudeste, em amostra de 10.822 escolares de 7 a 10 anos, foram observadas taxas de sobrepeso de 15,7% e de 18% de obesidade. Foram encontradas prevalências de obesidade de 16,9% e de 14,3% entre meninos e meninas de escolas públicas, respectivamente. Em escolas particulares, as taxas de obesidade foram, de 29,8% em meninos e 20,3% em meninas (COSTA et al., 2003b).
Finalmente, a mostra o percentual de óbitos potencialmente evitáveis por meio de uma alimentação adequada. Verifica-se que entre 40% e 90% dos óbitos anuais por DCNT, de acordo com o grupo de doenças, podem ser potencial- mente evitados se a população tiver garantido o acesso universal a uma alimentação adequada e saudável, como se preconiza neste guia.
tabela 4
GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA 140
Gráfico 7 - Prevalência de obesidade, segundo a renda. Brasil, 2003
16 14 12 10 8 6 4 2 0 Homens Mulheres < 1/4smpc 1/4 - 1/2 smpc 1/2 - 1 smpc 2,7 4,1 8,8 11 13,5 7,6 8,8 14,4 13 12,7 13,7 11,7 1 - 2 smpc 2 - 5 smpc > 5 smpc %IMC 30 Kg/m > 2
FONTE: IBGE, 2004a.
Doenças Crônicas(CID 10)*
Obesidade e outras formas de hiperalimentação (E65-E68) Diabetes (E10-E14)
Doenças cérebro-vascular (I60-I69) Doenças isquêmicas do coração (I60-I69) Outras doenças cardiovasculares Neoplasias (Cânceres) (C00-D48) Doenças relacionadas com o álcool
Total
Em conclusão, as informações sobre o perfil epidemiológico e nutricional no Brasil vêm reforçar a tese de que a insegurança alimentar e nutricional no País deve, concomitantemente, prever ações de promoção da saúde e prevenção da desnutrição infantil e das deficiências de micronutrientes em vários grupos populacionais, bem como do excesso de peso, obesidade e das DCNT a ela associadas, formas emergentes de manifestação da má- nutrição na população. A promoção da alimentação saudável, para a qual este guia é um instrumento, deve ser consolidada na atenção à saúde de todas as fases do curso da vida, bem como integrar, como eixo estruturante, as políticas de segurança alimentar e nutricional em delineamento do Brasil.
O sistema alimentar e a alimentação do brasileiro sofreram mudanças nos últimos 50 anos e essas mudanças vêm se acelerando com a política
A transformação nos padrões alimentares nacionais
internacional de "mercado livre", um aspecto da globalização (LANG; MCMICHAEL, 1997).
Nas duas últimas gerações, o sistema brasileiro de abastecimento de alimentos transformou-se: antes predominantemente primário ou composto por produtos minimamente processados e comprados em pequenos comércios varejistas e atualmente produtos pré preparados e embalados, comprados em grandes redes de supermercados.
Essas mudanças no padrão alimentar são comparáveis às que ocorreram décadas atrás, como resultado do processo de industrialização da Europa Ocidental e da América do Norte. Em geral, o consumo de alimentos de origem vegetal, incluindo cereais, raízes, tubérculos e leguminosas, frutas, legumes e verduras, tende a decrescer e a produção e o consumo de alimentos de origem animal, incluindo a carne e os laticínios fontes de proteína animal e de gordura, tende a aumentar. Mais recentemente, houve crescimento da produção e do consumo de óleos vegetais e margarina, açúcar e, Tabela 4 - Óbitos ocorridos por doenças crônicas não-transmissíveis e óbitos potencialmente evitáveis com alimentação adequada (números relativo e absoluto). Brasil, 2003 N.º de óbitos % de mortes evitáveis N.º de mortes anuais evitáveis (atuais) 1.018 37.451 88.923 83.122 101.706 134.573 536 447.329 90 90 50 - 75 50 - 75 50 - 75 30 - 40 916 33.706 44.462 - 66.692 41.561 - 62342 50.853 - 76.280 40.372 - 53.829 211.870 - 259.143
FONTE: Ministério da Saúde/SVS/DASIS, 2004.
* CID 10. Classificação Internacional de Doenças, 10.ª edição.
141 PARTE 3 - AS BASES EPIDEMIOLÓGICAS E CIENTÍFICAS
em geral, dos alimentos com alta densidade e n e r g é t i c a p r o c e s s a d o s c o m g o r d u r a s hidrogenadas, açúcar e sal e produtos refinados (CANNON, 1992; MONTEIRO; et al., 1995a, 1995b, 2000; CANNON, 2001).
A maior disponibilidade de alimentos, mais especificamente o consumo de alimentos industrializados com alta densidade energética, aumenta o risco de doenças, especialmente das doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT). Por outro lado, as evidências científicas também mostram que alimentos de origem vegetal, principalmente frutas, legumes e verduras, se consumidos de forma regular e em quantidades apropriadas, são fatores de proteção contra várias doenças relacionadas à alimentação, contribuindo também para a manutenção de um peso saudável. Essas evidências são comprovadas por inúmeros estudos, citados e referenciados ao longo deste documento, e realizados em diferentes épocas e países.
O acúmulo de evidências que associam a dieta ao estado de saúde dos indivíduos levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a estabelecer limites para o consumo de nutrientes: gorduras (10% a 30% do VET), ácidos graxos saturados (10% do VET), açúcar livre (10% do VET), colesterol (300mg/dia) e sal ( 5g/dia) e a estimular o consumo de carboidratos complexos (45% a 65% do VET) e de frutas, legumes e verduras (400g/dia) (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2003a).
Com base nessas evidências é que este guia recomenda a restrição de consumo de alimentos densamente energéticos, o resgate e a valorização da alimentação brasileira tradicional, baseada em preparações combinadas de cereais e leguminosas (arroz e feijões), frutas, legumes e verduras. Este guia incentiva o consumo de uma alimentação variada, com base principalmente em alimentos de origem vegetal e .
Esta seção apresenta as informações