2 LINGUAGEM JURÍDICA E TEORIA DA COMUNICAÇÃO
2.4 SEMIÓTICA APLICADA AO DIREITO
2.4.3 Sobre a Relação entre a Semiose Jurídica e as Tríades de Interpretantes
2.4.3.2 Normas abstratas e o Interpretante Imediato
As normas jurídicas em sentido estrito podem ainda ser classificadas como “gerais e abstratas”, “gerais e concretas”, “individuais e concretas” e “individuais e abstratas”. Estas classificações dependem do grau de determinação (ou indeterminação) daqueles critérios mínimos que compõem os termos antecedentes e consequentes de tais normas. Paulo de Barros Carvalho explica tal classificação nestes termos:
Costuma-se referir a generalidade e a individualidade da norma ao quadro de seus destinatários: geral, aquela que se dirige a um conjunto de sujeitos indeterminados quanto ao número; individual, a que se volta a certo indivíduo ou a grupo identificado de pessoas. Já a abstração e a concretude dizem respeito ao modo como se toma o fato descrito no antecedente. A tipificação de um conjunto de fatos realiza uma previsão abstrata, ao passo que a conduta especificada no espaço e no tempo dá caráter concreto ao comando normativo.112
Pretendemos agora, para identificar os tipos de Interpretantes produzidos na cadeia de positivação normativa, nos ater especialmente à dicotomia (abstração/concretude) que envolve o antecedente das normas jurídicas em sentido estrito. Mas tal escolha não é feita de maneira aleatória e possui uma justificativa muito importante.
Acreditamos que, em termos de “fenomenologia da incidência normativa”, a dicotomia abstração/concretude, que diz respeito ao termo antecedente das normas jurídicas, ganha certa relevância em relação àquela presente no termo consequente das mesmas (generalidade/individualidade), posto que esta última nos serve somente para indicar o tamanho do conjunto que formam os destinatários das normas em questão. Isso porque a incidência das normas jurídicas se dá, necessariamente, pela constituição de um fato jurídico (termo antecedente concreto) denotado a partir do fato hipotético conotado no antecedente da norma jurídica abstrata, sendo isto independente da generalidade ou individualidade do termo consequente da norma.
Tudo isto nos leva a considerar que, se estivermos tratando de uma norma jurídica abstrata, porém com o consequente individualizado, ainda não podemos afirmar que tal norma incidiu, dado que o fato descrito em seu antecedente ainda vaga no campo da possibilidade. Agora, se nos depararmos com uma norma jurídica geral, mas de antecedente concreto, podemos sempre afirmar que tal norma incidiu, uma vez que podemos perceber a subsunção de um fato social (linguagem descritiva de um evento concreto) a uma hipótese normativa, o que culminou na constituição jurídica do termo antecedente em questão.
Paulo de Barros Carvalho muito já discorreu acerca do antecedente das normas jurídicas abstratas. Vejamos, então, o que o mestre paulista, nos ensina sobre o tema:
A derradeira síntese das articulações que se processam entre as duas peças daquele juízo, postulando uma mensagem deôntica portadora de sentido completo, pressupõe desse modo, uma proposição-antecedente, descritiva de possível evento do mundo social, na condição de suposto normativo [...].
A proposição antecedente funcionará como descritora de um evento de possível ocorrência no campo da experiência social [...].
112CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário – Fundamentos jurídicos da incidência. São Paulo: Saraiva,
O antecedente da norma jurídica assenta no modo ontológico da possibilidade, quer dizer, os eventos da realidade tangível nele recolhidos terão de pertencer ao campo do possível.113
Podemos perceber, de súbito, que a característica da “possibilidade” é algo marcante nas normas jurídicas abstratas. E não poderia ser diferente, já que, para que a norma incida, é preciso que um fato social ocorra, sendo subsumido ao conceito da hipótese da norma abstrata, e para isto ele precisa ser um possível.
A “possibilidade”, assim como assentado, é uma ideia intimamente ligada à categoria cenopitagórica da Primeiridade. Assim, podemos afirmar que as normas jurídicas abstratas são Interpretantes impregnados pela categoria Primeiridade. Na tríade de Interpretantes Imediato, Dinâmico e Final, devemos, em seguimento ao raciocínio desenvolvido no primeiro Capítulo desta dissertação, apontar o Imediato, como o Interpretante de Primeiridade.
É neste sentido que Clarice Von Oertzen de Araújo afirma, com grande acurácia, que: As normas gerais e abstratas revestem a natureza de juízos hipotéticos condicionais, refletindo, portanto, a natureza de interpretantes imediatos das leis. Ou seja, a norma geral e abstrata é aquilo que a interpretação das leis está apta a produzir, se e quando a interpretação ocorrer. Elas são o significado potencial e futuro dos enunciados prescritivos.114
E não podemos discordar de tão decisiva linha de pensamento, já que, para isso, nos basta olhar para o que o próprio Charles Sanders Peirce entende sobre o Interpretante Imediato, que afirma:
Meu Interpretante Imediato está implicado no fato de que cada Signo deve ter sua peculiar capacidade de Interpretação, antes que ele alcance qualquer Intérprete.115 O Interpretante Imediato é uma abstração, consistindo numa Possibilidade.116 O Interpretante representado ou significado no Signo.117
[...] o interpretante como ele se revela no entendimento correto do Signo ele mesmo, e é comumente chamado de significado do signo.118
113CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário – Fundamentos jurídicos da incidência. São Paulo: Saraiva,
2012. p. 48.
114ARAÚJO, Clarice Von Oertzen de. Semiótica do direito. São Paulo: Quartier Latin, 2005. p. 113.
115“My Immediate Interpretant is implied in the fact that each Sign must have its peculiar Interpretability before
it gets any Interpreter” (PEIRCE, Charles Sanders. Semiotics and Significs. Bloomington: Indiana University Press, 1977. p. 111, tradução livre do autor).
116“The Immediate Interpretant is a abstraction, consisting in a Possibility” (Ibid., p. 111, tradução livre do autor).
117“[...] the Interpretant represented or signified in the Sign” [Collected Papers of Charles Sanders Peirce, (CP:
8.343), tradução livre do autor].
118“[...] the interpretant as it is revealed in the right understanding of the Sign itself, and its ordinarily called the meaning of the sign” [Collected Papers of Charles Sanders Peirce, (CP: 4.536), grifo no original, tradução
[...] o efeito total não analisado que se calcula que um Signo produzirá, ou que naturalmente se espera que ele produza [...] suponho que ele seja da natureza de uma “impressão”.119
O Interpretante Imediato consiste na Qualidade da Impressão que um Signo está apto a produzir, não diz respeito a qualquer reação de fato.120
Tais descrições se encaixam perfeitamente na nossa ideia de norma jurídica abstrata, uma vez que nelas, a incidência é uma mera possibilidade, isto é, o processo de interpretação que culminará na subsunção de um fato social a uma hipótese normativa e posterior constituição de um fato jurídico está no futuro, como uma interpretação possível.
A inserção das normas jurídicas abstratas no ordenamento jurídico, de fato, está no passado, mas como fruto da incidência não delas mesmas, mas de seus veículos introdutores, que são outras normas jurídicas, estas sim, concretas, das quais falaremos mais adiante.
Pois bem, temos dois tipos de normas abstratas, que são: as abstratas e gerais, isto é, de hipóteses cujos critérios servem para identificar um fato de possível ocorrência, e de consequentes cujos sujeitos da relação jurídica ainda não se encontram determinados; e as abstratas e individuais, ou seja, de hipóteses cujos critérios servem para identificar um fato de possível ocorrência, e de consequentes cujos sujeitos da relação jurídica se encontram determinados.
Vamos aos exemplos:
- A norma jurídica que prescreve o Imposto sobre a Renda é uma norma abstrata e geral, já que seu antecedente nos revela as notas para identificarmos um fato que pode vir a ocorrer (Se auferir renda), e em seu consequente estabelece uma relação jurídica (deve-se pagar certa quantia em tributo) em que o sujeito passivo é um elemento geral (todo aquele que auferir renda).
- A norma jurídica produzida pelo Fisco, em resposta ao procedimento de consulta iniciado pelo contribuinte, que requisitou saber se determinada conduta sua seria ou não tributada a título de IPI, é uma norma abstrata e individual, uma vez que seu antecedente conteria as notas para identificar um fato possível (se for realizada a conduta objeto da consulta), e seu consequente estabelece uma relação jurídica com os sujeitos já individualizados (Fazenda Nacional e o sujeito da consulta).
119“[...] the total unanalyzed effect that the Sign is calculated to procure [...] I suppose it is of the nature of an
‘impression’.” (PEIRCE, Charles Sanders. Semiotics and Significs. Bloomington: Indiana University Press, 1977. p. 110, tradução livre do autor).
120“The Immediate Interpretant consists in the Quality of the Impression that a sign is fit to produce, not to any
Como podemos ver, ambas as normas descritas acima precisam ganhar foros de concretude para se fazerem incididas, quer dizer, tanto a aplicação das mesmas é uma possibilidade, como elas próprias são apenas duas normas jurídicas dentre uma gama de outras que podem ser atribuídas à aplicação sobre um mesmo fato social, do mesmo modo que um mesmo fato pode ser descrito por várias palavras e que a uma palavra podem ser atribuídos vários significados.
É por isso que tratamos tais normas aqui, como Interpretantes Imediatos, por vagarem ainda no campo da possibilidade, característica inerente a esse tipo de Interpretante. Mas não é por isso que elas são menos importantes que as normas concretas, já que acabam por fundamentar a validade (ou invalidade) de todas estas últimas.