2 LINGUAGEM JURÍDICA E TEORIA DA COMUNICAÇÃO
2.4 SEMIÓTICA APLICADA AO DIREITO
2.4.3 Sobre a Relação entre a Semiose Jurídica e as Tríades de Interpretantes
2.4.3.4 O fim da cadeia normativa e o Interpretante Final
Não é incomum pensarmos nas cadeias semióticas, isto é, em cadeias onde Signos são produzidos a partir de outros Signos, como cadeias infinitas, mesmo porque, se Signo é aquilo que representa algo para uma mente, ao retirarmos sua capacidade de representação futura, estaremos retirando sua capacidade de ser Signo.
Ainda assim, é importante considerar que a infinidade das cadeias semióticas decorre de uma análise em abstrato das mesmas, vale dizer, de uma análise que é cabível a toda e qualquer cadeia semiótica sob um ângulo abstrato e sem considerar as sutilezas e individualidades das mais variadas cadeias que surgem no entremeio de nossa sociedade.
O que queremos dizer é que existem cadeias semióticas, individualizadas, que são mais, ou menos, propensas à produção de novos Interpretantes, ou, de novas representações.
Esta diferença nós podemos ver de perto quando analisamos as cadeias semióticas que formam o Direito e a Ciência do Direito. Isso porque, como sabemos, a possibilidade de produção científica acerca do Direito é muito mais propensa à produção de novos Interpretantes que aquela vista dentro do sistema do Direito Positivo.
Essa análise decorre da necessidade pragmática que o Direito tem de estabilizar as expectativas de comportamento inter-humano em sociedade. O chamado “sobreprincípio” da Segurança Jurídica e o instituto da Coisa Julgada nos levam a afirmar, com toda a certeza, que a cadeia semiótica do Direito trava a produção desregulada e infinita de novos Interpretantes (normas jurídicas) acerca de um mesmo Objeto (matéria). Clarice Von Oertzen de Araújo discorre sobre o tema de maneira bem realística, vejamos:
Afirmar a interpretação das normas jurídicas como semiose ilimitada seria formalmente possível. Esta possibilidade existe, em princípio, pela natureza simbólica das normas gerais e abstratas, as quais, portanto, caracterizam-se como signos genuínos. Mas esta possibilidade infindável de semioses jurídicas poderá ocorrer somente na linguagem descritiva da doutrina ou da Ciência do Direito. No universo propriamente normativo, ao se ingressar com uma demanda (um processo) no sistema jurídico, cuja linguagem é a prescritiva, seja em esfera administrativa ou judicial, haverá uma limitação semiótica que caracteriza o próprio signo “direito”, constituído como sistema, cujo primordial objetivo é regular as relações intersubjetivas, determinando a finitude dos eventuais conflitos sociais.132
Aqui, começamos a ver o “processo” como elemento essencial para caracterizar a finitude da cadeia de positivação normativa. A norma jurídica produzida no processo jurisdicional com a força do instituto da Coisa Julgada é a norma que põe fim àquela específica cadeia de semioses jurídicas, deixando esta linguagem numa instância irrecorrível, isto é, impedindo a rediscussão sem causa excepcional (não podemos esquecer a possibilidade da Ação Rescisória) da matéria e estabilizando, assim, as expectativas normativas das partes processuais acerca da conduta regulada (Objeto).
A mestra Clarice Von Oertzen de Araújo também destina ao processo a discussão completa das matérias jurídicas e também o fim da cadeia semiótica que é a chamada “cadeia
de positivação normativa”, fazendo-o da seguinte maneira:
Em se tratando da ordem jurídica brasileira, os princípios constitucionais do devido processo legal e da inafastabilidade do controle jurisdicional (princípio do direito de ação) levam para a instância dos processos judiciais o contexto ou local de ocorrência do fim da geração das cadeias semióticas. Ou seja, é na instância dos processos judiciais que está assentada a obtenção de certos fins do Estado, como a perseguição dos valores certeza do direito e estabilidade das relações. É no universo jurisdicional que está demarcado o limite semiótico da positivação da ordem jurídica. E assim é porque a exaustão das vias processuais administrativas não impede que uma nova cadeia de semioses venha a se instaurar com a propositura de
um processo judicial, discutindo-se e interpretando-se o mesmo caso concreto, ou seja, o mesmo objeto.133
Assentada a necessidade do processo jurisdicional para que a norma jurídica seja suficientemente desenvolvida, sendo tal “suficiência” ligada à função pragmática do Direito de estabilização das expectativas normativas acerca da conduta regulada pela norma jurídica, só nos resta atentar para o que Charles Sanders Peirce entende por seu Interpretante Final, para que só assim possamos traçar as devidas comparações, vejamos:
O Interpretante Normal, ou efeito que seria produzido na mente pelo Signo, depois de desenvolvimento suficiente do pensamento.134
Finalmente, há o que provisoriamente eu chamo de Interpretante Final, que se refere à maneira pela qual o Signo tende a se representar como estando relacionado ao seu Objeto.135
Meu Interpretante Final é o efeito que o Signo produziria sobre uma mente em circunstâncias que deveriam permitir que ele extrojetasse seu efeito pleno.136
[...] o Interpretante Final é o resultado interpretativo ao qual todo intérprete está destinado a chegar se o Signo for suficientemente considerado.137
A norma jurídica produzida em âmbito processual e com a força da Coisa Julgada é o Signo, ou, o efeito do Signo, que fora desenvolvido ao longo da cadeia de positivação normativa. O desenvolvimento da mesma se caracteriza, nesse estágio, como suficiente, dada a função pragmática do Direito, porém, isso não quer dizer que a representação cessa por aqui, uma vez que, assim, estaríamos retirando sua capacidade sígnica.
Isso quer dizer que, em termos jurídicos, a representação daquele Objeto (conduta regulada) e daquele enunciado prescritivo (linguagem produzida pelo julgador) “deve-ser”, daquele estágio para frente e, claro, naquele mesmo regime jurídico, sempre aquela norma jurídica, que funcionará, nesta específica cadeia semiótica, como o Interpretante Final da mesma.
A continuidade, ou, a força que o instituto da Coisa Julgada dá a essa norma jurídica para regular aquela conduta de maneira contínua, marca a presença decisiva da categoria
133ARAÚJO, Clarice Von Oertzen de. Semiótica do direito. São Paulo: Quartier Latin, 2005. p. 131.
134“[…] the Normal Interpretant, or effect that would be produced on the mind by the Sign after sufficient
development of thought” [Collected Papers of Charles Sanders Peirce, (CP: 8.343), tradução livre do autor].
135“Finally there is what I provisionally term the Final Interpretant, which refers to the manner in which the Sign
tends to represent itself to be related to its Object” [Collected Papers of Charles Sanders Peirce, (CP: 4.536),
tradução livre do autor].
136“[...] the Final Interpretant is the one interpretative result to which every Intérprete is destined to come if the
Sign is sufficiently considered” (PEIRCE, Charles Sanders. Semiotics and Significs. Bloomington: Indiana University Press, 1977. p. 111, tradução livre do autor).
137PEIRCE, 1977, p. 111 apud SANTAELLA, Lúcia. A teoria geral dos signos. São Paulo: Pioneira Thomson
Terceiridade na mesma, o que nos deixa ainda mais confortável em apontá-la como o Interpretante Final da cadeia de positivação normativa.
Devemos admitir, por último, que a possibilidade de mudança na norma jurídica por meio de Ação Rescisória ou por meio da inauguração de um novo regime jurídico (pelo nascimento de uma nova Constituição ou de um novo Estado totalitarista, por exemplo) não retira a natureza de Interpretante Final da norma jurídica produzida com a força da Coisa Julgada, uma vez que, além de tais mudanças serem excepcionalíssimas, Charles Sanders Peirce mesmo admite a provisoriedade de seu Interpretante Final, dado o falibilismo que persegue a produção de Signos pelo homem.
3 NÃO INCLUSÃO DE ÔNUS FISCAIS NO CONCEITO DE “FATURAMENTO” E