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3.2 ASPECTOS QUE CARACTERIZAM O CONSTITUCIONALISMO

3.2.1 Normatividade e centralidade da Constituição

Reconhecer a força normativa da Constituição pressupõe admitir que, além de ser um

simples documento político que expressa os fatores reais do poder

199

, ela detém imperatividade e

força vinculante, ou seja, pressupõe o reconhecimento da aplicabilidade e efetividade plena

das normas contidas na Carta Magna de um Estado

200

, partindo-se da premissada supremacia

da Constituição.

Ocorre que o reconhecimento da supremacia da Constituição não se compatibiliza

com a ideia da supremacia do parlamento, fato que talvez explique o completo desinteresse da

burguesia que dominou a Revolução Francesa em apresentar mecanismos que pudessem

resguardar a incolumidade da ordem constitucional, e que acabaram por reduzir consideravelmente

o papel do Poder Judiciário na interpretação e aplicação do conteúdo da Constituição.

       

198

BARROSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito: o triunfo tardio do

direito constitucional no Brasil. Boletim de Direito Administrativo, São Paulo, v.23, n.1, p.20-49, 2007.

199

LASSALLE, Ferdinand. Que é uma Constituição? Porto Alegre: Editorial Villa Martha, 1980. p.18.

200

O princípio da efetividade foi apresentado por Konrad Hesse, que afirmava que toda norma contida na

Constituição deve ser revestida de um mínimo de eficácia, pena de figurar “letra morta em papel”. Para o

autor, a Constituição não configura apenas o “ser” (os princípios básicos que orientam a formação do

Estado), mas um dever ser, ou seja, a Constituição deve incorporar em seu bojo a realidade jurídica do

Estado, estando conexa com a realidade social. (HESSE, Konrad. A força normativa da Constituição.

Porto Alegre: Sérgio Fabris, 1991. p.26).

Com efeito, a partir da segunda metade do século XVIII, cresce no continente europeu

os movimentos liberais, que restaram caracterizados, de um lado, pelo enaltecimento do

princípio da supremacia da lei e do legislador e, de outro, pelo pouco valor jurídico atribuído

às Constituições, que nessas condições, além de não terem função de limite ou de garantia,

não poderiam restringir a expressão do povo soberano.

201

Com a Revolução Francesa, o povo demonstra claramente que o seu objetivo não era

o de manter o regime absolutista com a simples superação das suas falhas, mas a sua superação,

e, dessa forma, ascender ao poder. O povo não poderia ser apenas o autor da Constituição,

mas tinha de ser soberano, sem se deixar travar pela Constituição. Nessas circunstâncias,

impossível o reconhecimento de uma Constituição dotada de força normativa, porquanto

possibilitaria a limitação aos interesses da burguesia que acabava de assumir o poder político,

tornando-se os novos soberanos. O Poder Legislativo é, nessas condições, fortalecido pela

supremacia da lei, com o objetivo claro de manter o status quo pós-revolucionário e o grupo

dominante no poder.

Com as novas propostas do constitucionalismo contemporâneo, emergidas a partir do

Segundo Pós-Guerra, essas concepções sofrem uma radical mudança. Com a promulgação das

Constituições da Alemanha (1949) e da Itália (1947), e com a instalação do Tribunal Constitucional

Federal da Alemanha (1951) e da Corte Constitucional Italiana em 1956, o reconhecimento da

força normativa da Constituição passou a ser uma premissa para aqueles que se propõem a

pensar, interpretar e aplicar a Constituição, na perspectiva do caráter vinculativo e obrigatório

de suas disposições.

202

Dentre as diversas alterações ocorridas no paradigma constitucional a partir da segunda

metade do século XX, passou-se a atribuir à norma constitucional a condição de norma jurídica.

Produz-se uma significativa mudança no constitucionalismo vigente, que até então visualizava

a Constituição como um mero documento político entregue à livre disposição dos Poderes

Estatais, e no qual a concretização das propostas constitucionais (em especial no que se refere

à efetividade dos direitos fundamentais) estava sujeita à discricionariedade do legislador e do

administrador, mesmo porque pouca ou quase nenhuma tarefa era reservada ao Poder

Judiciário na realização do conteúdo da Constituição.

       

201

MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de

direito constitucional. São Paulo: Saraiva, 2007. p.186.

202

BARROSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito: o triunfo tardio do

direito constitucional no Brasil. Boletim de Direito Administrativo, São Paulo, v.23, n.1, p.20-49, 2007.

Esse novo modelo jurídico-político que passa a representar o Estado Constitucional

de Direito no mundo contemporâneo, propõe a superação do constitucionalismo tradicional,

uma nova forma de visualizar, pensar e interpretar a Constituição. A Constituição passa a ser

o centro do ordenamento jurídico, seu texto adquire densidade jurídica e suas disposições

passaram a ostentar os atributos da normatividade direta e efetiva, imperatividade e superioridade

jurídica, pressupostos indispensáveis à efetividade do direito em toda a sua manifestação,

pública ou privada.

203

No que se refere aos princípios, que até então possuíam uma função supletiva ou

interpretativa, estes adquirem normatividade e exigem uma radical mudança nos processos de

interpretação e aplicação do direito. Além do método da subsunção, passam a contar com

novas técnicas interpretativas, que possibilitam a maximização dos efeitos normativos dos

direitos fundamentais, cuja concretização acaba por enaltecer a atividade decisional do Estado

na efetivação dos direitos e das garantias individuais.

Em decorrência dos princípios da máxima efetividade, imperatividade plena e

superioridade das normas constitucionais, estas devem ser interpretadas de tal modo que a

eficácia da Constituição seja plena, máxima. A interpretação de determinada norma mediante

a busca do seu verdadeiro significado, da sua essência, é de fundamental importância, pois

permite a sua aplicação de forma inequívoca. Dessa maneira, para que a Constituição tenha

força normativa, necessário se faz interpretá-la de modo a buscar sua plena eficácia.

204

Isso decorre do fato que, além da norma constitucional passar a contar com atributo da

imperatividade próprio das normas jurídicas em geral, a Constituição também passou a

ostentar o caráter da supremacia no sistema jurídico

205

, de forma que as demais normas devem

com ela manter compatibilidade, seja no modo da formulação do direito (compatibilidade

formal), seja quanto à matéria (compatibilidade material).

Do que se observa dessas novas concepções, é que a imperatividade da Constituição está

intimamente vinculada à ideia do fortalecimento das normas constitucionais diante da totalidade

ordem jurídica. Para tanto, as Constituições contemporâneas, em sua quase totalidade, são rígidas,

       

203

BARROSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito: o triunfo tardio do

direito constitucional no Brasil. Boletim de Direito Administrativo, São Paulo, v.23, n.1, p.20-49, 2007.

204

HESSE, Konrad. A força normativa da Constituição. Porto Alegre: Sérgio Fabris, 1991. p.26-28.

205

Segundo Luís Roberto Barroso: “A supremacia constitucional decorre de uma exigência democrática, que

busca sintetizar os valores e os interesses de um povo soberano e, portanto, titular do poder constituinte que

dá origem ao processo de promulgação da Constituição, que, nestas condições, passa a ser a fonte máxima

de produção do Direito, e o fundamento último de validade as normas jurídicas em geral, conferindo

coerência e integridade ao sistema jurídico”. (BARROSO, op. cit., p.38).

e nessa condição passaram a exigirquórum e processo legislativo diferenciados,

impingindo-lhes maiores dificuldades do que o procedimento exigido para a aprovação de leis ordinárias,

consagrando derradeiramente o princípio da supremacia da Constituição.

O constitucionalismo contemporâneo tem como pressuposto a supremacia da

Constituição, que passa à centralidade do ordenamento jurídico, como núcleo portador de uma

força normativa que vai refletir e impregnar toda a ordem jurídica, ou, como sustenta Luis Prieto

Sanches, o núcleo desse novo constitucionalismo reside na condição de ter sido concebida como

Uma norma suprema, fonte direta de direitos e obrigações, imediatamente aplicável

por todos os operadores jurídicos, capaz de se impor frente a qualquer outra norma

e, sobretudo, como um conteúdo prescritivo verdadeiramente exuberante de valores,

princípios e direitos fundamentais, em suma, de normas regulamentares que já não

informam somente acerca de ‘quem’ e ‘como’ se manda, mas sim em grande parte

do ‘que’ e se pode ou deve mandar.

206

Evidentemente que não basta conceber a Constituição como fonte das fontes no sistema

jurídico; essas novas concepções vão mais além e pressupõem que sendo a Constituição a

principal fonte, suas normas (inclusive as programáticas) possuem eficácia e aplicação direta,

e, dessa forma, independem da posterior edição de qualquer ato estatal que lhes atribua força

vinculante, pois isso decorre do próprio texto constitucional.

Nessas condições, afastando-se das concepções da doutrina clássica

207

, Canotilho entende

que não é mais possível no constitucionalismo contemporâneo admitir-se a existência de normas

constitucionais que não possuam eficácia e aplicação próprias, chegando a ponto de falar da

“morte” das normas constitucionais programáticas. Para tanto, estabelece critérios que permitem

atribuir-lhes força vinculante, a saber: a vinculação do legislador, de forma permanente, à

realização dos objetivos constitucionais (imposição constitucional); a vinculaçãopositivade

todos os órgãos concretizadores, devendo estes tomá-las em consideração como diretivas

materiais permanentes, em qualquer dos momentos da atividade concretizadora (legislação,

execução, jurisdição); e a vinculação, na qualidade de limites materiais negativos, dos poderes

       

206

SANCHIS, Luis Prieto. Ley, principios, derechos. Instituto de Derechos Humanos Bartolomé de las casas,

Universidad Carlos III de Madrid, Dykinson, 1998. Disponível em: <http://portal.uc3m.es/portal/page/

portal/instituto_derechos_humanos/publicaciones/cuadernos_idhbc/pdf>. Acesso em: 09 jan. 2016.

(tradução livre).

207

No Brasil, José Afondo da Silva denominavanormas de eficácia programática, uma subdivisão das normas

de eficácia limitada, e que serviriam de mera indicação ao legislador e ao executivo dos caminhos que

deveriam ser seguidos. (SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. São Paulo:

Malheiros, 2002. p.88-96).

públicos, justificando a eventual censura, sob a forma de inconstitucionalidade, em relação

aos atos que as contrariam.

208

Portanto, a correta compreensão, interpretação e aplicação do Direito Constitucional

contemporâneo pressupõe a percepção de que toda e qualquer norma constitucional goza dos

atributos da normatividade, imperatividade e eficácia, e que nessas condições fixam

parâmetros de defesa e veiculação de direitos fundamentais, oupara coibir quaisquer decisões

estatais adotadas em sentido contrário à Constituição.

E, nesse sentido, o constitucionalismo contemporâneo vai mais além do que a mera

correção das imperfeições do constitucionalismo de feições liberais, pois trata-se de uma concepção

que, além de atribuir e ao mesmo tempo recobrar à Constituição toda a sua normatividade,

deve, na perspectiva democrática, não se limitar simplesmente a um objeto de expressão das

regras da maioria, mas preponderantemente à garantia plena dos direitos fundamentais, sejam

eles de liberdade, ou econômicos, ou sociais e culturais.

209

Apresenta-se o novo paradigma constitucional, portanto, como um sistema em que há

mais Constituição do que leis. O culto ao legislador soberano sucumbe diante das novas

exigências do Estado Democrático de Direito, agora assentado sob as bases da democracia.

Nesse modelo de Estado, a Constituição promove uma autoblindagem às próprias maiorias de

maneira a impossibilitar qualquer conduta tendente a sufocar as minorias ou distanciar-se do

seu principal objetivo, que é a efetivação dos direitos fundamentais.

Mediante o reconhecimento da supremacia constitucional, é possível superar o modelo

juspositivista e as respectivas concepções de Estado de Direito edificadas com base no império da

lei, que expressaria a vontade geral de um povo. Reconhecer a supremacia da Constituição

significa reconhecer que esta possui poderes para se voltar contra os Poderes Legislativo e

Executivo, e até mesmo a vontade da maioria. Nesse sentido, segundo Duarte e Pozzolo,

“deve existir uma relação de íntima correlação entre Constituição rígida e os direitos

fundamentais, determinando a superioridade da norma em relação à lei, veiculando um

sistema de valores protegidos contra abusos da maioria”.

210

       

208

CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional. Coimbra: Livraria Almedina, 1993.

p.184-187.

209

GRACIA, Jaime Cárdenas. La argumentación como derecho. México: Universidad Autónoma de México,

2006. p.42.

210

DUARTE, Écio Oto Ramos; POZZOLO, Susanna. Neoconstitucionalismo e positivismo jurídico: as faces

da teoria do direito em tempos de interpretação moral da Constituição. São Paulo: Landy, 2006. p.81. Nessa

mesma linha de raciocínio, Penã Freire entende que: “A rigidez constitucional supõe que qualquer reforma

da Constituição só será possível se realizada através de algum procedimento agravado em relação aos

Portanto, a supremacia constitucional é um instrumental de fundamental importância

para o constitucionalismo contemporân, porquanto assegura a finalidade do Estado constitucional,

que é concretizar os direitos fundamentais, que nessas condições ficam protegidos pela rigidez

constitucional e o caráter normativo das Constituições.