3. A origem da regulação do trabalho no Brasil
4.6 A Justiça do Trabalho e seu papel num contexto corporativo de regulação do
4.6.3 O poder normativo da Justiça do Trabalho
Já se analisou, no item 4.2 supra, a distinção entre interesses individuais, coletivos e difusos, tendo a Justiça do Trabalho competência para apreciar litígios que envolvam todos esses interesses, desde que a matéria envolvida diga respeito a trabalho.
conflitos coletivos de trabalho de natureza econômica ou jurídica. Nos primeiros, também denominados conflitos coletivos de interesses, a Justiça do Trabalho tem o papel de conciliar, mediar ou arbitrar conflitos de interesses surgidos durante a negociação coletiva entabulada pelos atores econômicos (sindicatos de empregados de um lado e empresa, grupo de empresas ou mesmo o sindicato patronal de outro) com vistas à elaboração do acordo e convenção coletivos de trabalho que irá reger os contratos individuais de trabalho envolvidos por esses atores. Nessa dimensão, ao julgar o dissídio, a Justiça do Trabalho cria novos direitos e obrigações a serem aplicados aos contratos de trabalho durante o período de vigência da sentença normativa.
Na segunda hipótese – dissídios coletivos jurídicos, também denominados dissídios de interpretação - a Justiça do Trabalho não cria nova norma, mas procede a interpretação de uma ou mais cláusulas de norma coletiva vigente que está sendo objeto de dúvida quanto à aplicação pelas partes envolvidas. Nesse caso a Justiça do Trabalho atua como intérprete, revelando o significado que determinada cláusula deve ter para sua aplicação aos contratos de trabalho.
Ao ser provocada para dirimir conflitos coletivos de trabalho de natureza econômica ou de interesses, a Justiça do Trabalho no Brasil pode exercer papel conciliador, mediador ou arbitral.
Nessa última dimensão, utiliza-se do denominado poder normativo que lhe atribui o artigo 114 da Constituição Federal, com a redação que lhe foi dada pela Emenda
Constitucional nº 45, de 2004, segundo o qual:
Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar: (...)
§ 2º Recusando-se qualquer das partes à negociação coletiva ou à arbitragem, é facultado às mesmas, de comum acordo, ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica, podendo a Justiça do Trabalho decidir o conflito, respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho, bem como as convencionadas anteriormente.
Definindo o poder normativo, MARTINS FILHO (1996/13) estabelece tratar-se de
“poder constitucionalmente conferido aos Tribunais Trabalhistas de dirimirem os conflitos de trabalho mediante o estabelecimento de novas e mais benéficas condições de trabalho, respeitadas as garantias mínimas já previstas em lei.”
No que se refere à sua natureza jurídica, ou seja, qual a natureza da atividade do tribunal laboral ao decidir um conflito coletivo de trabalho, grande foi a celeuma doutrinária em torno da questão, dado que ao utilizá-lo, a Justiça do Trabalho atuou, por muito tempo, como se Poder Legislativo fosse, dado que não havia limites à capacidade de criação de direitos e obrigações que seriam integrados aos contratos individuais de trabalho.
Tal questão hoje já se encontra completamente pacificada, não existindo mais qualquer sombra de dúvida quanto a tratar-se de atividade jurisdicional, dependente, pois, de provocação da parte que se sinta prejudicada, e onde as decisões precisam ser fundamentadas.
Por tudo o até aqui analisado, é de se ver que a regulação do trabalho no Brasil, quer oriundo da legislação estatal, da conformação das entidades que têm legitimidade para negociar direitos trabalhistas ou mesmo dos mecanismos de análise e decisão dos conflitos entre empregado e empregador, nas dimensões individual e coletiva, é eminentemente corporativa, na medida em que tem por escopo evitar ou eliminar o conflito entre esses agentes.
Uma visão rápida de todo esse sistema poderia levar à conclusão de que o mesmo é virtuoso, na medida em que se antecipa aos conflitos entre capital e trabalho e regula os direitos e obrigações de seus representantes, bem como institui mecanismos arbitrais para decidir os conflitos - individuais e coletivos – sem deixar que a greve ou o lock out sejam usados como mecanismo de força entre os agentes, causando um mal estar na sociedade. Mas não é assim que o sistema deve ser analisado.
Em verdade, o arcabouço de direitos e obrigações constantes na CLT são devidos aos empregados, ou seja, aos trabalhadores que prestam suas atividades como pessoas físicas, com onerosidade, subordinação, não e eventualidade e pessoalidade, como já analisado. Não se aplica, pois, aos trabalhadores autônomos, rurais, domésticos, avulsos, servidores públicos, prestadores de serviços em geral e demais espécies de trabalhadores elencados no artigo 7º da CLT.
Ou seja, o sistema que deveria ser universalizador é, em verdade, seletivo, na medida em que restringe a aplicação de seus parâmetros a uma parcela até certo ponto
restrita dos trabalhadores.
Tal fato leva à distinção apontada pela doutrina entre o formal e o real em termos de políticas sociais, conforme se depreende da análise de KREIN (2007/61):
“A ambigüidade do sistema de direitos sociais – que se confundem com os direitos trabalhistas – está no caráter seletivo, pois este é estruturado a partir de uma concepção de incorporação regulada das pessoas na vida nacional e não baseado em uma concepção de direitos universais dos membros de uma sociedade. Teoricamente, o acesso aos direitos é para todos os assalariados, mas, na prática, muitos deles são negados. Por exemplo, parcela significativa dos trabalhadores não tem registro em carteira de trabalho, o que significa muita dificuldade de acesso aos benefícios, assim como compromete as fontes de financiamento das políticas sociais. Portanto, historicamente, há uma grande distinção entre o formal e o real, dependendo do poder sindical ou de outros fatores políticos o cumprimento do contrato ou da lei. Tanto o acesso como a ampliação dos gastos sociais – leia-se sistema de proteção social – ficam, assim, fortemente dependentes do desempenho dos níveis de emprego com registro em carteira de trabalho e dos salários formalizados.”
Fatores diversos levaram a que esse modelo vigorasse no Brasil desde 1943 (embora a análise da legislação anterior já sinalizasse no mesmo sentido), a despeito de todas as crises econômica, política e mesmo sociais ocorridas no país. Importa, agora, a análise das alterações ocorridas a partir dos anos 80 do século passado.