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3. A origem da regulação do trabalho no Brasil

3.3 O corporativismo brasileiro e seus ideólogos

Oliveira Vianna e Francisco Campos, dois dos principais idealizadores do modelo corporativista brasileiro, são antiliberais, e defendem o ideal do pensamento político português. O primeiro rejeita a democracia liberal por considerá-la fraca e desprovida de disciplina, o segundo, que foi Ministro da Justiça e idealizador da Constituição Federal de 1937, defendia o corporativismo autoritário, que rejeita o Liberalismo, pois que ele proporcionava a luta de classes, a anarquia e o comunismo.

E, nunca é demais lembrar, muito ao contrário, que os ideólogos que inspiraram o modelo corporativista no Brasil tinham profundas raízes no catolicismo, o que faz com que a idéia de origem fascista da legislação laboral brasileira seja irreal, dado que o ideal fascista renega a Igreja.

A dificuldade estava em saber qual o modelo de “revolução” modernizadora deveria ser empreendida no país. CÂNDIDO (1998/16), comentando a obra “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, mais especificamente seu Capítulo 4 – O Semeador e o Ladrilhador, expõe:

A alusão à cidade estabelece a conexão com o capítulo 4, “O semeador e o ladrilhador”, que começa pelo estudo da importância da cidade como instrumento de dominação e da circunstância de ter sido fundada neste sentido. Aqui chegamos a um dos

momentos em que se nota a diferença entre o espanhol e o português, depois da caracterização comum do princípio.

“Ladrilhador”, o espanhol acentua o caráter da cidade como empresa da razão, contrária à ordem natural, prevendo rigorosamente o plano das que fundou na América, ao modo de um triunfo da linha reta, e que na maioria buscavam as regiões internas. A isso correspondia o intuito de estabelecer um prolongamento estável da metrópole, enquanto os portugueses, norteados por uma política de feitoria, agarrados ao litoral, de que só se desprenderiam no século XVIII, foram “semeadores” de cidades irregulares, nascidas e crescidas ao deus-dará, rebeldes à norma abstrata. Esse tipo de aglomerado urbano não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem.”

Somado a isso, instava, ademais, atentar-se à realidade brasileira, que para Oliveira Vianna (1987 [2]/ 232) carecia de outra finalidade:

“Pela ausência na história da nossa formação nacional, de agentes eficazes de integração nacional e integração política, o problema principal da nossa organização, no momento da Independência, é o mesmo das outras nacionalidades latino-americanas: de um lado, um problema de autoridade e disciplina; de outro, um problema de concentração e unidade.

Dar consistência, unidade, consciência comum a uma vasta massa social ainda em estado ganglionar, subdividida em quase duas dezenas de núcleos provinciais, inteiramente isolados entre si material e moralmente: - eis o primeiro objetivo.

Realizar, pela ação racional do Estado, o milagre de dar a essa nacionalidade em formação uma subconsciência jurídica, criando- lhe a medula da legalidade; os instintos viscerais da obediência à autoridade e à lei, aquilo que Ihering chama o poder moral da idéia do Estado – eis o segundo objetivo.

Problema, como se vê, de estruturação e ossificação da nacionalidade: trata-se de dar, ao nosso agregado nacional, massa, forma, fibra, nervo, ossatura, caráter. Problema, portanto, cuja solução só seria possível pela ação consciente da força organizada. Quer dizer: pela instituição de um Estado centralizado, com um governo nacional poderoso, dominador, unitário, incontrastável, provido de capacidades bastantes para realizar, na sua plenitude, os seus dois grandes objetivos capitais: a consolidação da nacionalidade e a organização de sua ordem legal.”

Tratando do corporativismo, CAMPOS (1940, apud MARTINS – 1999/72) destaca:

“O corporativismo mata o comunismo como o liberalismo gera o comunismo. O corporativismo interrompe o processo de decomposição do mundo capitalista previsto por Marx como resultante da anarquia liberal. As grandes revoluções políticas do século XX desmentiram a profecia de Marx e desmoralizaram a dialética marxista. A vontade dos homens e as suas decisões podem, portanto, por termo à suposta evolução necessária do capitalismo para o comunismo. Essa evolução parou com o fim que o mundo contemporâneo prescreveu à anarquia liberal do século passado.

O corporativismo, inimigo do comunismo e por conseqüência do liberalismo, é a barreira que o mundo de hoje opõe à inundação moscovita. Inimigo do liberalismo não significa inimigo da liberdade. Há para esta cugar na organização corporativa.

Analisando o trecho transcrito, MARTINS (1999/73) expõe:

“A seu ver, o problema da liberdade, a relação Estado-Nação e a questão econômica ficam resolvidos dentro do sistema corporativo

como se o todo nacional, a partir dessa ideologia, funcionasse orgânica e harmoniosamente, em oposição às lutas ou dispersão das forças construtoras da nacionalidade.”

É ainda CAMPOS (1940, apud MARTINS – 1999/73) quem discorre:

“A liberdade na organização corporativa é limitada em superfície e garantida em profundidade. Não é a liberdade do individualismo liberal, mas a liberdade da iniciativa individual, dentro do quadro da corporação. A corporação, que representa uma determinada categoria da produção, tem, igualmente, a sua liberdade e a do indivíduo limitada por ela. A organização corporativa é a descentralização econômica, isto é, o abandono pelo estado da intervenção arbitrária no domínio econômico, da burocratização da economia (primeiro passo avançado para o comunismo), deixando à própria produção o poder de organizar-se, regular-se, limitar-se e governar-se. Para isto é necessário que o Estado delegue funções de poder público às corporações. A descentralização pelas corporações não implica, pois, indiferença do Estado pela economia. Cada corporação representa um setor da economia nacional. Só, porém, o Estado, que não tem interesse particularista, está em condições de representar o interesse nacional e de exercer, portanto, a arbitragem entre os interesses de categorias ou de setores. O Estado assiste e superintende, só intervindo para assegurar os interesses da Nação, impedindo o predomínio de um determinado setor da produção, em detrimento dos demais.”

Mas há outra dimensão que merece análise, ainda que rápida, sobre a questão trabalhista no país, que é a crença, bastante arraigada à época, da incapacidade de mobilização, reivindicação e luta do trabalhador brasileiro, em face das origens coloniais de nosso país. Para não se estender em demasia nas transcrições, destacam-se as

opiniões de Oliveira Vianna (1991/271), ideólogo maior do modelo jurídico trabalhista brasileiro, a seguir apresentadas:

“Do estudo objetivo e científico da estrutura psicológica do nosso povo que iniciei com o primeiro volume sobre populações meridionais, da sua lenta formação social e política nesses quatro séculos de história, a conclusão a que cheguei foi que o problema fundamental a resolver numa política de organização social do nosso povo era corrigir esta condição molecular ou atomística, da sua composição, que lhe vem impedindo ou embaraçando, no povo em geral e, especialmente, nas suas elites dirigentes (políticas, intelectuais, econômicas), a constituição, o desenvolvimento e a integração de uma forte mentalidade solidarista. Entenda-se: de uma mentalidade em que sejam preponderantes, como motivo determinante da conduta de cada cidadão no plano da as vida pública e política, a consciência e o sentimento dos interesses coletivos.

(...)

No Brasil, com efeito, seja pela dispersão geográfica da sua população; seja pelo incipiente e o rudimentar da sua estrutura econômica, industrial e urbana; seja pelas influências, ainda hoje existentes, do trabalho servil; seja pela ação desintegradora dos grandes domínios – as nossas classes ou categorias profissionais, nas cidades e nos campos, não puderam adquirir, senão em alguns raríssimos setores, densidade, espessura, consciência, organização. Na sua maioria, estão ainda em fase embrionária de formação, ainda indefinidos em seus lineamentos, sem contornos precisos e – o que é mais significativo – sem aquela “consciência de grupo”, a que se referem os sociólogos. Daí a ausência de associações sindicais em seu seio.”

Dentro desse modelo, teve a Igreja Católica importante participação. Inicialmente é de se lembrar que se comemorava, à época, os 50 anos da encíclica Rerum

Novarum, de Leão XIII, que propugnava o congraçamento entre as classes. A Igreja

aceita o corporativismo por considerá-lo coerente com a ênfase que ela própria dava à unidade social em detrimento do conflito de classes, sendo que da proposta de atuação conjunta entre Igreja Católica e trabalhadores para, com a garantia da dignidade destes, evitar a eclosão do comunismo, surgem os COCs – Círculos Operários Católicos - os quais, inclusive, passam a ser órgãos consultivos do Ministério do Trabalho.

Com esse ideal em vista, fica mais fácil compreender os dispositivos constitucionais da época.