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NOSSA SENHORA APARECIDA: A SANTA, A IMAGEM, A MARCA

No documento Aparecida : espaços, imagens e sentidos (páginas 97-133)

Atravessar a passarela como se desafiássemos o maior perigo existente no mundo até chegar ao carrinho que vendia picolé de duas cores. Enorme; ícone que representava para o meu coração o mesmo que a imagenzinha negra representava para o meu pai. Eu só não podia confessar esse absurdo. Caso contrário levaria um tapa bem dado na boca, e então não mais saborearia a minha devoção. As ruas eram estreitas, eu me recordo. As lojas minúsculas, muitas, todas iguais. Os terços pendurados, assim como nossas esperanças. (...) O picolé de Aparecida era cor de creme e cor-de-rosa. O fascínio estava no contraste. A imagem da Virgem também. Uma escrava vestida de rainha. O povo reverencia o conflito. Mas a imagem resolve ou estabelece o conflito? Depende. Há quem enxergue a escrava, e só. Há quem só tenha olhos pro manto garboso.

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Para se aproximar da Imagem Aparecida é preciso escolher uma das cinco filas paralelas que começam no corredor, que circunda a Basílica do lado de fora, e são divididas por longos corrimões de inox. As três filas do meio são as mais rápidas, nas quais estão as pessoas interessadas em um olhar breve e uma fotografia sorridente. Os que levam mais tempo acabam empurrados, diferente da última das filas em que ficam aqueles que levam terços para rezar, ora em pé encostados à parede e ora ajoelhados: ali quem quer passar é freado por quem fica. Já a primeira das filas é a mais longa, disputada e demorada: aos finais de semana é necessário esperar nela por mais de uma hora.

São famílias inteiras, grupos de amigos, casais de namorados, freiras, idosas solitárias, homens de muleta ou empurrados em cadeira de rodas. Muitos ajoelham-se assim que entram no templo, mesmo aqueles com o joelho sangrando após atravessar a passarela, movendo-se com a assistência do corrimão. O silêncio predomina.

Há aqueles que esticam as mãos o mais alto possível, tocando os ladrilhos da parede ou a proteção de vidro, alguns rezam completamente prostrados ao chão, enquanto outros passam com um olhar breve, mas com muitas lágrimas. Todos querem estar o mais perto possível daquela Imagem, disposta em um imponente nicho dourado60 a mais de dois metros de altura, com posição de destaque na Basílica.

Trata-se de uma Imagem de Nossa Senhora da Conceição, feita de barro, com cerca de 40 centímetros, que aparecera quebrada nas redes de três pescadores que buscavam alimento no rio Paraíba do Sul. O ano era 1717, na região de Guaratinguetá/SP, e a Imagem aparecida das águas, daí o seu nome, teria feito o primeiro milagre logo em seguida, concedendo uma pesca abundante. É assim que começou a devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, como ficou conhecida com o decorrer do tempo.

Essa história é contada de diversas maneiras, e com poucas alterações aparece em jornais, revistas, web sites, filmes e livros. A escolha de expô-la aqui, em um único parágrafo, tem por objetivo condensar o núcleo comum a todas elas: o momento da aparição da Imagem. Essa narrativa oficial não é só contada e recontada constantemente nas missas do Santuário Nacional, como é representada através de pinturas, esculturas e

60 Pela internet é possível vê-lo, ao vivo e imóvel. Santuário ao vivo. Santuário Nacional Aparecida,

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monumentos pela cidade. As representações dos três pescadores em um barco, em geral, apresentam certa diferença quanto à disposição dos pescadores, mas uma característica fundamental se repete: a centralidade da Imagem Aparecida. O ofuscamento é tanto, que geralmente não é possível identificar os pescadores, assim como seus nomes são pouco conhecidos. Ora erguida pelas seis mãos e ora nas mãos do pescador do meio, não resta dúvida que é ela o motivo central das representações.

Vale frisar que a questão da materialidade cristã não é nenhuma novidade, isto é, a presença de imagens e relíquias no culto católico, mesmo que remeta a uma temporalidade anterior, tem proliferação intensa desde a Idade Média (Ginzburg, 2001).

Nesse período crucial, foi submetida a várias interpretações e alvo de disputas sobre legitimidade, de cunho litúrgico, teológico e mesmo filosófico. Segundo Bynum (2011), a grande questão girava em torno da sacralidade das imagens estarem em si mesmas, ou seja, a devoção era voltada para própria materialidade, e não somente em relação daquilo que representavam, como defendiam alguns teólogos da época. As coisas não representavam, mas eram elas mesmas:

Esses objetos devocionais não eram apenas enfeites decorativos, de igreja e capela, ou dispositivos para dirigir a atenção para o invisível. As pessoas se comportavam como se as imagens fossem o que elas representavam. Materializar era animar. Por vezes, quanto mais físicos tais objetos devocionais tornaram-se, mais eles pareciam ganhar vida. (...) O entusiasmo e ansiedade que tais objetos produziram tinha tudo a ver com a sua materialidade. 61

Essa questão foi fundamental no contexto da reforma protestante, que no movimento iconoclasta classificou a devoção a imagens como idolatria, e por isso proibida. Já a Igreja Católica Apostólica Romana, no movimento de contrarreforma, teve como argumento teológico que as imagens, diferente dos ídolos, são uma mera representação de algo importante. O resultado foi uma regulamentação, feita pelo Concílio de Trento62, que reafirmou essa posição institucionalmente.

61 Minha tradução da seguinte citação: “These devotional objects were not just decorative embellishments of

church and chapel or devices to direct attention to the invisible. People behaved as if images were what they represented. To materialize was to animate. The more physical such devotional objects became, the more they were thought sometimes to come alive (…) The enthusiasm and anxiety such objects produced had everything to do with their materiality” (Bynum, 2011: 125).

62 Ocorrendo de 1545 a 1563, dentre as várias novas normas estabelecidas, foi o responsável pela

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Assim, o padrão estético e simbólico na fabricação de suas imagens, pelas congregações religiosas, passou a ser submetido a essas orientações. No caso dos missionários nas Américas, elas eram voltadas para fins catequéticos das populações nativas. É esse o caso das imagens feitas pelos beneditinos, “artistas eruditos” (Etzel, 1975), que seguiam a risca essas regras, recentes na época, o que resultou em detalhes muito ricos, mesmo na simplicidade do material.

Na tradição católica, Nossa Senhora da Conceição63 é o título dado à representação de Maria64, personagem bíblica, grávida de Jesus Cristo. Dentre os mais de 1000 títulos65 de Maria existentes, esse seria o mais popular na península ibérica (Justino, 2006), declarada padroeira de Portugal desde 1646. Através da colonização portuguesa é creditada a sua popularidade no Brasil. Nessas representações, que também incluem pinturas, Maria está ladeada por alguns anjos aos seus pés, trajando longo manto, usualmente com os cabelos soltos e com a barriga levemente saliente pela gravidez: ela é a representação católica da maternidade, por excelência.

Não fugindo do padrão, a Imagem pescada no rio Paraíba do Sul tem essas características. Ela faz parte da primeira geração de imagens católicas, fabricadas em território brasileiro: as imagens seiscentistas, produzidas nas oficinas monásticas, por congregações religiosas. Analisada por alguns especialistas, como Neto (1970), o barro utilizado confirma sua procedência do Estado de São Paulo, e a análise comparativa das

63 A Imaculada Conceição de Maria é a ideia que Maria teria nascido, vivido e gerado Jesus sem nunca ter

pecado. Ela é celebrada pelo menos desde o século XV, mas só foi instituída como dogma da Igreja Católica Apostólica Romana pelo Papa Pio IX em 1854, ou seja, mais de um século após a aparição e culto da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

64 O corredor, em que está localizado o Nicho, tem as paredes estampadas com todas as mulheres bíblicas, em

ladrilhos, com a Imagem Aparecida justamente no local de Maria. Na parede sobre ela, estampados os três arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael.

65 Os títulos dizem respeito a alguma característica de Maria, que varia consideravelmente. Por exemplo,

pode se referir a uma passagem bíblica como “Nossa Senhora das Dores” que representa Maria ao ver Jesus crucificado, ou então “Nossa Senhora do Amparo” que representa Maria cuidando do corpo de Jesus após a crucificação. Mas os títulos podem se referir também ao local de uma aparição de Maria, como Lourdes, Fátima, Salete e Czestochwa. Ou, ainda, o título pode fazer referência a alguma graça de sua especialidade como “da Boa Morte”, “da Boa Viagem” ou “do Bom Conselho”.

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feições indica que teria sido esculpida pelo Frei Agostinho de Jesus, monge da Ordem Beneditina, na primeira metade do século XVII66.

Tendo em vista esse panorama, Padre Júlio Brustoloni (1998), historiador oficial do Santuário Nacional, explora os detalhes da Imagem de maneira minuciosa, e sua interpretação final é a de que eles teriam sido fundamentais para a devoção, desde o primeiro momento.

Os três pescadores ficaram surpresos diante do achado e guardaram carinhosamente as duas partes daquela imagem enrolada num pano e continuaram a pesca. Quebrada como estava, eles poderiam tê-la atirado novamente na água, sem nenhum desrespeito. – E porque não fizeram? Certamente porque viram na pesca milagrosa, que se seguiu, um sinal da proteção da Mãe de Deus; mas, creio, antes de tudo, porque descobriam que o semblante daquela imagem quebrada inspirava confiança e devoção (Brustoloni, 1998: 50).

Na análise do autor, não foi apenas a pesca milagrosa que deu origem a devoção, mas inicialmente a Imagem em si mesma que, em suas próprias características físicas e estéticas, gerou fascínio67. Exposta na casa dos pescadores, ela continuou a atrair pessoas de regiões cada vez mais distantes, até que, tendo conhecimento do fenômeno, o pároco local fez a primeira capela. A Imagem Aparecida foi transferida para o templo, que pelo fluxo de pessoas foi sendo ampliado, dando origem a Igreja Matriz, a Basílica e a própria cidade de Aparecida/SP68. Ou em outras palavras, como afirma o historiador: “Ela mesma seria a primeira construtora e foi sempre desde o começo. Os outros, inclusive o Senhor Cardeal, todos foram instrumentos” (Brustoloni, 1998: 224).

Saiu poucas vezes dali, como quando em 1931 foi para o Rio de Janeiro “mostrando ao Presidente Vargas todo o poder que uma pequenina imagem de barro é

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Essa autoria é constantemente mencionada, porém Alvarez (2014) ressalta que estudos mais recentes indicam que não pode ser confirmada. Há a tese de que foi algum dos alunos anônimos do Frei Agostinho, e não ele próprio, quem a esculpiu.

67 No decorrer do livro isso é ressaltado diversas vezes (Brustoloni, 1998: 75-79). 68

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capaz de emanar” (Fernandes, 1988: 90). Em uma grande cerimônia69, com um milhão de pessoas na capital do país, Nossa Senhora Aparecida foi declarada Padroeira do Brasil70.

As motivações políticas e clericais, que teriam tornado essa uma devoção nacional, são exploradas por Souza (1996). Considerando Aparecida um símbolo, a autora evoca uma influência do poder público, isto é, o Estado brasileiro no começo do século XX, que nela encontrou o referencial identitário nacional que procurava.

Nossa Senhora Aparecida seria esse símbolo. A Virgem parece combinar, afortunadamente, memória, tradição e modernidade, apresentando-se como uma alternativa viável para representar a Igreja e materializar seu projeto de construção institucional e de uma identidade católica brasileira (Souza, 1996: 88). Nesse sentido, as semelhanças entre as características identitárias da Imagem e dos devotos foram fundamentais. Como é evidente, a Imagem apresenta uma coloração escura, que especialistas conferem tanto ao lodo acumulado, durante o período sob as águas, quanto à fuligem das velas as quais ficou exposta. Tendo sido pintada originalmente, poucos vestígios restaram das cores, que outrora cobriam o corpo de barro. Assim, a ideia da mãe da nação é vinculada com a sua aparência, que evoca uma mestiçagem similar a dos brasileiros, ou seja, “Uma Virgem quase negra para um povo quase branco” (Souza, 1996: 99).

Porém, ao que tudo indica, essa percepção é recente. Pode ser facilmente constatado tanto no Museu de Aparecida, como no levantamento feito por Etzel (1979) das representações de Nossa Senhora Aparecida, que ela era retratada com tez branca até o final do século XIX71.

Em 1869 os franceses Robin & Favreau vendiam, no largo da Capela, “os verdadeiros retratos de Nossa Senhora da Conceição Aparecida”. Por que “verdadeiros”? Porque antes desses fotógrafos, as estampas encontradas traziam

69 “Três horas e meia depois de sair da igreja de São Francisco de Paula, no centro, a padroeira chegou à

Esplanada do Castelo, às margens da Baía de Guanabara. E lá, aos pés da escadaria, foi recebida pelo chefe do Governo Provisório, o presidente Getúlio Vargas. (...) Aparecida foi colocada num palco, no alto da escadaria. E o cardeal Leme ajoelhou-se: Senhora Aparecida, o Brasil é vosso!” (Alvarez, 2014: 192).

70 No ano seguinte, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, os soldados paulistas também viram na

Imagem Aparecida seu símbolo político anti-Vargas: “Nos pátios do santuário, formou-se um pelotão de aproximadamente cinquenta homens que recebeu o nome de Batalhão de Nossa Senhora. Para apoiar os soldados de Aparecida, e também os de outros pelotões, mandou-se confeccionar medalhinhas juntando a bandeira de São Paulo com a imagem da santinha” (Alvarez, 2014: 196).

71 Um romeiro me disse que já encontrou réplicas de Aparecida, de pele branca, para comprar. Questionando

o vendedor, ouviu que “tem gente que prefere ela assim”. Porém, durante minha pesquisa de campo, nunca encontrei.

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Nossa Senhora Aparecida com traços diferentes da verdadeira. Sua cútis era branca e vestia-se à moda do Império. Nota-se que foram desenhadas e confeccionadas em Paris, e certamente por alguém que não teve a ventura de conhecê-la (Ribeiro, 1998: 47).

Assim como a cor, não sendo meros detalhes, a coroa e o manto azul são os grandes referenciais estéticos que caracterizam Nossa Senhora Aparecida que, sem eles, ainda seria Nossa Senhora da Conceição. Se o nome Aparecida diz respeito à origem da Imagem de barro, aparecida das águas, ao se falar da Imagem Aparecida aqui a referência é todo o conjunto.

Sem precisão quanto à data, o uso do manto teria começado ainda quando estava exposta na casa dos pescadores, por iniciativa dos devotos. No decorrer do tempo foi sendo alterado e recebeu como detalhe, além dos fios dourados, as bandeiras do Brasil e do Vaticano. Já a coroa foi um presente de Princesa Isabel, que afirmava ser sua devota, no ano de 1884 (Brustoloni, 1998: 79; Alvarez, 2014: 177).

No artigo de Fernandes (1988), através de seus referenciais identitários, explora alguns dos títulos de Aparecida (Senhora, Rainha e Mãe) e como, cada um deles, opera em uma lógica relacional distinta. Em um trabalho de fôlego, através de uma retomada histórica, o autor elenca as tentativas por parte do clero, para romanização72 do catolicismo brasileiro e como elas foram apropriadas pelos poderes políticos, da monarquia até a nova república73, incluindo a ditadura militar74.

Fernandes (1988) também faz um apontamento, pouco aprofundado, sobre a extrapolação da religiosidade estritamente católica: identificada como Oxum, Aparecida pode ser encontrada em terreiros de Umbanda do sudeste brasileiro. Se, na religiosidade afro-brasileira, Aparecida estabelece uma relação positiva, por ser um Orixá, e na religiosidade católica por ser Nossa Senhora, ao mesmo tempo em uma religiosidade

72 “Romanização” é o termo pelo qual ficou conhecido o movimento de reapropriação e centralização da

Igreja Católica no Brasil, por parte do Vaticano, no final do século XIX e início da República. No regime de Padroado, vigente na Monarquia, a Igreja era submetida ao Imperador e ao Estado brasileiro.

73 Além da Princesa Isabel e do Presidente Getúlio Vargas, o Presidente Juscelino Kubitschek também teve

uma relação próxima com Aparecida e foi o doador da chamada Torre Brasília, em que atualmente funciona a administração do Santuário Nacional. Já a Passarela da Fé foi uma doação dos ditadores Arthur da Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici.

74 A Imagem Aparecida foi um dos símbolos das “Marchas da Família com Deus pela liberdade”, ocorridas

em 1964, que precederam o golpe militar. Depois, durante a ditadura, o governo militar estimulou uma peregrinação da Imagem por todo o país.

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protestante essa relação é marcada pela negatividade, à medida que representa um mal a ser combatido.

Isso fica evidente em um dos momentos mais trágicos da sua trajetória: o atentado75 de 1978. A Imagem Aparecida foi quebrada, ao ser jogada ao chão, por um iconoclasta. Identificado como evangélico e posteriormente diagnosticado como louco, o autor do atentado afirmava cumprir ordens divinas.

Partindo-se em cerca de duzentos pedaços, as únicas partes intactas foram a cabeça e o dorso, na região em que as mãos estão postas. Dentre os efeitos imediatos ocorridos, e a comoção gerada, é significativa a interpretação material oferecida dois anos depois pelo Papa João Paulo II, na sua visita à Aparecida/SP:

Contaram-me que entre os mil fragmentos foram encontradas intactas as duas mãos da Virgem unida em oração. As mãos postas de Maria no meio das ruínas são um convite a seus filhos a darem espaço em suas vidas à oração (Alvarez, 2014: 217).

Além dessa interpretação, repetida ainda hoje por padres em homilias, também o depoimento de Maria Helena Chartuni é constantemente presente: “Enquanto ela era reconstituída fisicamente por mim, eu era reconstituída espiritualmente por ela, foi uma relação profunda e inexplicável, que eu chamo de milagre”76

. Funcionária do Museu de Arte de São Paulo (MASP), ela foi a responsável pela restauração77 da Imagem Aparecida, o que resultou em sua conversão ao catolicismo. Desde então, ela é a pessoa diretamente responsável pela manutenção e conservação da Imagem, indo à Aparecida pelo menos uma vez ao ano, durante a Festa da Padroeira, na qual sempre tem papel de destaque nas celebrações.

O segundo grande caso, dessa relação conflituosa com as religiões evangélicas, ficou conhecido como “o chute na santa” 78. Famoso episódio de 1995 em que um pastor,

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Em uma pesquisa anterior, de iniciação científica, desenvolvo os desdobramentos desse caso.

76 Entrevista concedida para: MENDES, Luciana. O dia em que a imagem da Padroeira quebrou. Jornal

Valeparaibano, São José dos Campos, s/d.

77 Alvarez (2014: 31) conta em detalhes o processo de restauração. Vale ressaltar que foi a restauradora quem

defendeu que a Imagem permanecesse escura, na sua cor original, mesmo com apelo de padres para que fosse clareada.

78 Esse evento pode ser assistido na plataforma Youtube. Pastor Sergio Von Helder O chute na santa. Postado

por Antonio Rosa, abr. 2009. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WPIoxanOkxI>. Acesso em 22/01/2015.

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da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem réplica de Aparecida em rede nacional de televisão, justamente no dia de seu feriado. Questionando a laicidade do estado brasileiro, o pastor usa dessa imagem justamente como símbolo do catolicismo brasileiro, transportando o atrito para além da esfera religiosa ao envolver duas emissoras de televisão, como deixam claros os artigos de Flávio Pierucci (1996) e de Ronaldo de Almeida (2007), que tratam dos desdobramentos desse caso de intolerância.

Não é pretensão, da presente pesquisa, desvendar todos os pormenores históricos. Contudo, o interesse em trazer esses casos foi para ressaltar, na vida social (Appadurai, 2008) da Imagem Aparecida, como a sua materialidade é fundamental político- religiosamente. Muito além de uma representação de Nossa Senhora da Conceição, uma entre tantas, pelos sucessivos acontecimentos na sua trajetória, a Imagem passou a se referenciar por si mesma.

Em outro plano, considerando-se a materialidade da imagem, o corpo da santa é feito, como todos sabem, de barro. A imagem de barro não apenas representa, mas também é a própria santa (Dawsey, 2006: 138).

Nessa outra abordagem antropológica, mais contemporânea, análise semelhante pode ser encontrada. Acompanhando uma romaria até o Santuário Nacional, Dawsey tece considerações muito sensíveis, sobre as relações estabelecidas entre os romeiros e a Imagem. Na volta, depois de a verem de perto “com reverência, contaram da santa. Alguns mencionaram o seu olhar. Viam-se sendo vistos por ela. Na verdade, não se avalia a santa. É a santa que avalia” (2006: 145).

De fato, pude observar que logo após passar pela Imagem Aparecida, ainda no corredor, as pessoas começam a partilhar suas experiências. Uma vez fui repreendido por

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