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ADRIANO SANTOS GODOY
Aparecida: espaços, imagens e sentidos
CAMPINAS 2015
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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
ADRIANO SANTOS GODOY
Aparecida: espaços, imagens e sentidos
Orientador: Professor Doutor Ronaldo Rômulo Machado de Almeida
Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, para obtenção do Título de Mestre em Antropologia Social.
ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO
ALUNO ADRIANO SANTOS GODOY, E
ORIENTADA PELO PROF. DR. RONALDO
RÔMULO MACHADO DE ALMEIDA.
CAMPINAS 2015
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Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387
Godoy, Adriano Santos, 1989-
G548a G Aparecida : espaços, imagens e sentidos / Adriano Santos Godoy. –
Campinas, SP : [s.n.], 2015.
Orientador: Ronaldo Rômulo Machado de Almeida.
Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
God1. Basílica Nossa Senhora Aparecida. 2. Santuários. 3. Catolicismo. 4. Peregrinos e peregrinações . 5. Consumo (Economia) . 6. Cultura material. I. Almeida, Ronaldo Rômulo Machado de,1966-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Aparecida : spaces, images and meanings Palavras-chave em inglês:
Sanctuary Catholicism
Pilgrims and pilgrimages Consumption (Economics) Material culture
Área de concentração: Antropologia Social Titulação: Mestre em Antropologia Social Banca examinadora:
Ronaldo Rômulo Machado de Almeida [Orientador] Renata de Castro Menezes
Maria Suely Kofes
Data de defesa: 25-03-2015
Programa de Pós-Graduação: Antropologia Social
vii Resumo
Aparecida/SP é uma cidade-santuário conhecida por sediar a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, e por ser um centro comercial. A Imagem Aparecida, em todos os casos, é o seu grande referencial. Etnograficamente ela não pode ser definida apenas pela religião, pela economia ou pela política porque as três categorias lhes são insuficientes. Aparecida é um nome polivalente e essa dissertação tem por objetivo explorar as potências antropológicas de seus espaços, suas imagens e seus sentidos.
Palavras-chave: Santuários - Catolicismo – Romarias – Turismo - Consumo – Cultura Material.
ix Abstract
Located in the state of São Paulo – Brazil, the city of Aparecida is famous not only for its catholic Basilic of Our Lady Aparecida, but also for its great commercial importance. In any case, the main reference to the city remains the “Aparecida Image” – a famous clay sculpture found in a river. On an ethnographic point of view, it is insufficient to define it based only on religion, economics or politics. Aparecida has a multivalent name, and therefore this dissertation has the objective to explore all the anthropological potencies of this spaces, images and meanings.
Key-words: Brazilian Catholicism – Pilgrimage – - Sanctuary - Consumption – Material Culture
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Sumário
PREÂMBULO 1
APARECIDA E FRANCISCO 1
INTRODUÇÃO 21
APARECIDA,SÃO PAULO,BRASIL: A CIDADE-SANTUÁRIO 31
Romeiros e Aparecidenses 34 O Centro de Aparecida 35 Árabes e Mineiros 42 O Vale do Paraíba 48 Os Centros de Eventos 51 A Cidade-Santuário 57
PRIMEIRO CADERNO DE FOTOGRAFIAS 63
NOSSA SENHORA APARECIDA: A SANTA, A IMAGEM, A MARCA 71
Consagração 80
Cerimônia do Manto 82
Sala das Promessas 85
A materialidade da religião 87
As imagens de Aparecida 91
SEGUNDO CADERNO DE FOTOGRAFIAS 101
APARECIDA EM DISPUTAS E DISCURSOS 107
Os feirantes 109
Os comerciantes 116
Os padres 120
Polivalências de Aparecida 128
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Dedico às minhas avós Mathilde e Nenê, devotas de Aparecida.
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AGRADECIMENTOS
Os agradecimentos de uma dissertação em antropologia, diferente de outras áreas do conhecimento, adquire mais importância porque ela só se realiza justamente através dos encontros que mantemos com outras pessoas. É este o presente caso, fruto de uma trajetória de três anos, e aqui quero agradecer todos àqueles que estiveram envolvidos, direta e indiretamente, e foram responsáveis por torná-la possível.
Durante todo esse período, minha família esteve muito presente, chegando mesmo a atuarem como assistentes na pesquisa de campo, por livre e espontânea vontade. Agradeço todo carinho e disposição das minhas irmãs, Déborah e Andressa, principalmente pelas ajudas em campo. E agradeço aos meus pais, Darcy e Adriana, que desde o início deram apoio incondicional às minhas escolhas: amo vocês.
Aos amigos de longa data, Vinícius Souza, Mirela Ferraz, Marcella Abboud e Mário Resende, eu agradeço pelo companheirismo nesse período, resistente à distância imposta muitas vezes pelas obrigações da própria pesquisa.
Aos amigos e colegas desde a graduação, Bruna Calux, Flávia Paniz, Paulo Pinto, Rafael Marangoni e Raquel Modolo agradeço pelas vezes que me convenceram a sair da reclusão da escrita, garantindo assim a minha sanidade mental.
À Fernanda Sampaio agradeço a amizade e o apoio nesse período, e por ter sido a primeira pessoa a me visitar em Aparecida. À Janaína Gomes agradeço todo o interesse pelo desenvolvimento desta pesquisa, inclusive nas terras baixas, e também pelas suas contribuições teóricas, lúdicas e etílicas.
Ao Enrico Bueno da Silva agradeço a contínua camaradagem, que vem desde o início da vida universitária, pelos questionamentos sociológicos e pela assessoria em assuntos religiosos para essa pesquisa. Agradeço ainda por propiciar aquela experiência angolana em Aparecida.
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Ao Dalton Yatabe e à Adriane Bagdonas agradeço pelas vezes que me receberam em casa, assim como por suas onipresenças baronenses, que nunca me deixaram desinformado sobre quando e onde ir.
À Marina Serva agradeço aos questionamentos que fez deste texto, pelas suas assessorias astrológicas, e pela companhia em tantos finais de semana campineiros, que ratificaram empiricamente a maravilha da autoestima.
Ao Hugo Ciavatta agradeço pelas tantas leituras, irônicas e minuciosas, e por encorajar meu jeito de escrever. Agradeço toda hospitalidade ao me receber em terras baronenses, durante a pesquisa de campo, e por ter sempre a tirinha certa para a hora certa.
Aos membros do Laboratório de Antropologia da Religião, cujos encontros vêm de muito antes, mas felizmente foi oficializado no decorrer dessa pesquisa, agradeço pela formação adquirida nessa área específica. Ana Carolina Rigoni, Anaxsuell Fernando da Silva, Asher Brum, Carlos Gutierrez, Deive Leal, Eduardo Oliveira, Everton de Oliveira, Hellen da Fonseca, Hugo Soares, Livan Chiroma, Lucas Braga, Milton Santos e Thuany Figueiredo: obrigado por compartilharem seus conhecimentos comigo.
Ao Bernardo Curvelano Freire agradeço pelo acompanhamento e interesse, desde o projeto de pesquisa até a redação final dessa dissertação, através das suas leituras críticas e sinceras, que foram esclarecedoras ao me causarem confusão.
Do mesmo modo, agradeço aos alunos do PPGAS, em especial àqueles das turmas de 2012, com os quais dividi tantos momentos de formação, informação e descontração, dentro e fora da universidade. Agradeço por cada um de vocês me inspirarem um modo específico de se fazer antropologia. Ao Guilherme Christol, ao David Reichhardt e ao Lucas Krasucki por demonstrarem que o engajamento e a pesquisa podem e devem andar juntos. À Mariana Marques pela determinação e seriedade. À Ana Piu pela arte. À Rebecca Slenes e ao Thiago Da Hora pela delicadeza e pela sensibilidade, inspiradoras sobre o humano e o religioso. Ao Liniker Giamarim Batista pela cooperação mútua que
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estabelecemos no decorrer da pesquisa, na qual subestimamos apenas o Açú e aquela tempestade em Carmo.
À Catarina Casimiro Trindade agradeço pelas tardes na biblioteca, nas quais transmitiu alegria e brownies, principalmente quando conseguia dividir a atenção entre o celular e o forró. Agradeço ainda por me introduzir no xitiki, imprescindível no pós-bolsa.
À Ana Elisa de Figueiredo Bersani agradeço por ser a companhia infalível, de todas as horas, mesmo questionando a sua percepção das horas. Por ter sido uma leitora assídua dessa dissertação, em todas as suas versões, e pela cooperação ativa na escrita, durante tantas manhãs e tardes, na biblioteca, e noites no Vila. Agradeço ainda por inspirar o título final dessa dissertação.
À Lis Furlani Blanco agradeço por tudo, já que os superlativos seriam insuficientes. Por ser o exemplo maior de organização e objetividade, com a paciência de me auxiliar nesses quesitos várias vezes, sem nunca dispensar o bullying. Pelas conversas tão abstratas quanto inspiradoras, pelas viagens “totalmente demais”, e pelas inúmeras leituras, questionamentos, estímulos, piadas e críticas que fez para essa pesquisa.
Ao Raphael Concli, ao Fernando Bee e ao Felipe Durante agradeço pelo compartilhamento de tantas jarras de café, garrafas de cerveja, mega pizzas e bandeijadas filosóficas. Dividir o mesmo teto com vocês e a Ofélia, em um momento crucial da escrita, foi vital.
Agradeço a todos os funcionários do IFCH, em especial ao Alexandre D’Ávila, à Maria José Rizola e à Márcia Goulart, por me ajudarem tantas vezes, e conseguirem fazer que na burocracia o impossível se tornasse possível. Agradeço também os funcionários da Biblioteca Octávio Ianni, local onde quase tudo o que está aqui foi escrito. Do mesmo modo, agradeço à CNPq e à FAPESP por fornecerem os recursos materiais e financeiros, através do financiamento público estatal, sem o qual essa e tantas pesquisas seriam inviáveis.
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Agradeço a todos os alunos da disciplina de Antropologia da Religião de 2013, com os quais tive o privilégio de desenvolver o Estágio Docente. Principalmente pelas contribuições para essa dissertação, através dos questionamentos persistentes e efetivos que fizeram durante a nossa viagem de campo à Aparecida.
À Professora Dra. Mariana Françozo agradeço pelo diálogo que mantivemos desde o início da pesquisa, e toda a disponibilidade ao me supervisionar durante a Bolsa de Estágio e Pesquisa no Exterior, desenvolvida na Universidade de Leiden. Agradeço ainda pelas reuniões de orientação que inspiraram o capítulo dois.
Ao Professor Dr. Willem Hofstee agradeço o seu interesse e disposição nas reuniões que discutimos essa pesquisa, cujas referências bibliográficas foram fundamentais para desenvolver o primeiro capítulo. Agradeço a Sara Brandellero e a Tecia Vailati, pelos almoços tertulianos, e a oportunidade de expor e discutir o andamento dessa pesquisa. À Monique van der Geest agradeço por intermediar os tão numerosos e penosos trâmites burocráticos, sem os quais a viagem para Holanda não seria possível.
À Professora Dra. Heloísa Pontes, ao Professor Dr. Omar Ribeiro Thomaz, à Professora Dra. Nádia Farage e ao Professor Dr. Mauro Almeida agradeço pelas excelentes disciplinas que ofereceram e que foram decisivas tanto para minha formação como para essa pesquisa.
Ao Professor Dr. Christiano Key Tambascia agradeço pela atenção na banca de qualificação, e pela generosidade nos comentários, cujas sugestões reestruturaram todos os três capítulos, além dos cadernos de fotografia, para essa versão final.
À Professora Dra. Renata Menezes agradeço pela arguição na banca de defesa, e todas as sugestões feitas tanto para essa versão final quanto para as minhas futuras pesquisas.
À Professora Dra. Suely Kofes agradeço por tantas aulas inspiradoras e por toda a atenção minuciosamente concedida nas bancas de qualificação e de defesa. Agradeço também por me convencer pelo uso das fotografias.
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Ao Professor Dr. Ronaldo de Almeida agradeço pela formação e a parceria desde a graduação, marcadas sempre pela confiança mútua. Aos seus comentários precisos e preciosos, capazes de estimular e orientar o desenvolvimento da pesquisa, respeitando sempre a minha autoria. Agradeço ainda por aquela sopa, divinamente providencial, durante a fila papista.
Por fim, agradeço a todas as pessoas que tive oportunidade de conviver durante minha estadia na cidade de Aparecida, e que são nomeadas durante a dissertação. Ela é fruto de nossos encontros, desencontros e questionamentos.
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No fundo são misturas. Misturam-se as almas nas coisas; misturam-se as coisas nas almas. Misturam-se as vidas, e é assim que as pessoas e as coisas, misturadas, saem cada qual de sua esfera e se misturam.
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LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Frente e verso do panfleto da visita do Papa distribuído pela Prefeitura Municipal.
Figura 2 – Tabela de expectativa de movimento, distribuída pela Prefeitura Municipal. Figura 3 – Capas das programações de dois eventos.
Figura 4 – Logotipo da Rede Aparecida de Comunicação.
LISTA DE MAPAS
Mapa 1 – Região central da cidade de Aparecida/SP com destaque para a Avenida Rio Branco (SP-062). Fonte: Google Maps.
Mapa 2 – Região central da cidade de Aparecida/SP com destaque para a região entre a Rodoviária Municipal e o Santuário Nacional. Fonte: Google Maps.
Mapa 3 – O território municipal de Aparecida destacado no estado de São Paulo. Mapa 4 – Guia turístico distribuído pela Prefeitura Municipal.
Mapa 5 - Região central da cidade de Aparecida/SP, com destaque para o perímetro no qual ocorre a Feira. Fonte: Google Maps.
LISTA DE FOTOGRAFIAS
Fotografia 1 – Papa Francisco incensa uma imagem de Aparecida no altar da Basílica. Fotografia 2 – Pessoas fotografam missa celebrada por Papa Francisco.
Fotografia 3 – Pessoas aguardam no corredor antes de entrar na Basílica para missa do Papa Francisco.
Fotografia 4 – Fila do lado externo do Santuário Nacional para a missa do Papa Francisco. Fotografia 5 – Vista interna das cabanas improvisadas na fila para missa do Papa Francisco.
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Fotografia 6 – Vista externa das cabanas improvisadas na fila para missa do Papa .Francisco.
Fotografia 7 – Agentes de segurança montam os raios-X e o detector de metal no corredor externo da Basílica. Soldados passam ao fundo.
Fotografia 8 – Trator retira lombada em frente ao Seminário Bom Jesus, para passagem do papamóvel.
Fotografia 9 – Vista da cidade de Aparecida/SP desde o Morro do Cruzeiro.
Fotografia 10 – Igreja Matriz de Nossa Senhora Aparecida, conhecida como Basílica Velha. Em primeiro plano, a praça Nossa Senhora Aparecida.
Fotografia 11 – Detalhe da Sala dos Milagres, com uma maquete da Igreja Matriz e das fotografias do teto.
Fotografia 12 – Procissão noturna de Corpus Christi passa em frente a Igreja de São Benedito.
Fotografia 13 – Três homens, em situação de rua, que pedem dinheiro próximo ao Terminal Rodoviário.
Fotografia 14 – Procissão noturna da semana santa, portando velas, pela Passarela da Fé em direção a Basílica.
Fotografia 15 – Vendedor ambulante na ladeira de Monte Carmelo.
Fotografia 16 – Romeiros atravessam tapetes da procissão de Corpus Christi para entrar em hotel da ladeira Monte Carmelo.
Fotografia 17 – Feirante expõe seus produtos à venda.
Fotografia 18 – Vista da Feira aberta, e de parte do bairro central, desde a cobertura da Torre Brasília.
Fotografia 19 – Desfile do Encontro Nacional das Congadas 2013 pela Avenida Rio Branco.
Fotografia 20 – Levantamento do Mastro durante a Festa de São Benedito.
Fotografia 21 – Romeiros escolhem bolsas em uma loja da ladeira Monte Carmelo. Fotografia 22 – Vista do Mirante da Santa entre bandeiras juninas.
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Fotografia 23 – Rainhas Congas durante Encontro Nacional das Congadas 2013. Fotografia 24 – Filas no corredor em frente ao Nicho da Imagem Aparecida. Fotografia 25 – Família em frente ao Nicho da Imagem Aparecida.
Fotografia 26 – Nicho da Imagem Aparecida.
Fotografia 27 – Contraste entre uma imagem Aparecida e o Mirante da Santa.
Fotografia 28 – Padre Redentorista conduz a Consagração a Nossa Senhora Aparecida. Fotografia 29 – Detalhe do Mirante das Pedras.
Fotografia 30 – Detalhe de um ex-voto na Capela das Velas.
Fotografia 31 – Feirante discursa durante manifestação na Câmara dos Vereadores. Fotografia 32 – Romeiros na Capela das Velas.
Fotografia 33 – Cardeal Dom Raimundo Damasceno, em pé, e Dom Darci Nicioli, sentado, durante celebração na Basílica de Aparecida.
Fotografia 34 – Assembleia de feirantes na Rua João Paulo II. Fotografia 35 – Detalhe de dados de pelúcia à venda.
Fotografia 36 – Fieis acendem velas na Capela das Velas.
Fotografia 37 – Dom Darci Nicioli concede entrevista próximo ao altar da Igreja Matriz. Fotografia 38 – Vista da Feira desde as escadarias da ala norte da Basílica.
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PREÂMBULO
Aparecida e Francisco
A pequena Imagem de Nossa Senhora Aparecida fica em um nicho dourado, e pode ser vista através do vidro blindado que a protege, com posição de destaque em sua Basílica, situada em Aparecida/SP, cidade localizada no Vale do Paraíba. Usualmente voltada para o corredor, no qual passam todos os dias multidões de pessoas interessadas em vê-la de perto.
Porém, no dia 24 de julho de 2013 ela está voltada para o lado oposto, onde fica a Capela dos Apóstolos. Nesse local reservado é Papa Francisco quem a contempla com os olhos cheios de lágrimas. Após a oração pela Jornada Mundial da Juventude1 (JMJ), feita com voz embargada, em profundo silêncio, ele dá alguns passos adiante e, visivelmente emocionado, oferta um ramo de flores, toca aquele vidro, faz o sinal da cruz e logo em seguida uma reverência à Imagem. Aplaudido pelos padres da Arquidiocese de Aparecida, acompanhado por alguns cinegrafistas, o tão esperado e anunciado “encontro íntimo”, entre Francisco e Aparecida, foi transmitido por diversos meios de comunicação pelo mundo.
A serenidade do olhar do Papa e da Imagem, focalizados por vários telões, contudo, contrastava com os sons que vinham de fora da igreja: o grito uníssono da multidão - “queremos respeito” – devido à longa espera e dificuldade para entrar no templo, reverberava nos vitrais e dificultava que eu entendesse o que era dito pelos alto-falantes. Chovia torrencialmente, o que fez com que a chegada do Papa atrasasse, mas não intimidou as centenas de milhares de pessoas, que acompanharam o papamóvel do lado de fora, nem as dezenas de milhares que, assim como eu, estavam do lado de dentro do templo. Soldados do exército brasileiro, fardados, formavam uma corrente humana para conter aquelas pessoas. Tentando acalmá-los, um padre propôs pelas caixas de som que rezassem uma ave-maria, mas teve que a interromper, devido à vaia coletiva que recebeu. O
1 Como o nome indica, trata-se de um encontro mundial da juventude católica com o Papa. O evento acontece
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clima era de tensão, resultado da longa jornada anterior de sacrifício para presenciar aquele megaevento.
Esse encontro era anunciado desde o fim do Conclave histórico, ocorrido em março de 2013, para a sucessão do Papa Bento XVI (Joseph Ratzinger), o primeiro Pontífice a renunciar ao cargo desde o ano 1415. Com a eleição do argentino Cardeal Bergoglio, que saiu da Capela Sistina de ônibus, a sua fotografia dividindo o assento com o brasileiro Cardeal Damasceno, arcebispo de Aparecida, trouxe a confirmação da notícia: ele seria o terceiro Papa a visitar Nossa Senhora Aparecida. Sendo o primeiro Papa latino-americano, além do primeiro Papa Jesuíta, a viagem evocava ainda mais importância. Se já era certa a ida ao Rio de Janeiro, para a Jornada Mundial da Juventude, a surpresa se deu porque a opção de visita à Aparecida já tinha sido rejeitada pelo seu antecessor.
João Paulo II foi o primeiro Papa a ir até Aparecida, em 1980, quando inaugurou a nova Basílica. Já o Papa Bento XVI foi em 2007, para a abertura da Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, na qual Dom Jorge Bergoglio participou2 ainda como Arcebispo de Buenos Aires. Já intitulado Papa Francisco, ele manifestou a vontade de refazer a viagem como um romeiro, isto é, no intuito de um encontro íntimo e pessoal com a Imagem Aparecida, perante a qual consagraria a juventude católica.
Resumida a esse encontro em Aparecida, a viagem não teria espaço para uma missa pública. Entretanto, o Santuário Nacional requisitava uma celebração a céu aberto, dado o grande número de pessoas esperadas. Assim, desde o anúncio até o dia efetivo da sua vinda, foram feitas várias viagens de comissões de Aparecida/SP para o Vaticano, e vice-versa, para preparação dos últimos detalhes.
Em todo esse período, por ser a primeira viagem internacional do novo Papa, Aparecida tornou-se um dos alvos da imprensa, aparecendo em meios de comunicação nacionais e internacionais. O Santuário Nacional, por meio de seus próprios meios de comunicação, informava diariamente sobre os preparativos em andamento.
2 Cardeal Bergoglio presidiu a comissão que redigiu o texto conclusivo do encontro, intitulado “Documento
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Uma das entrevistas, mais significativas, ocorreu no dia da confirmação definitiva da visita, em maio de 2013, pela Rede Aparecida de Televisão. Nessa ocasião, em tom informal, Dom Raimundo Damasceno (DRD) e Dom Darci Nicioli (DDN) falavam do início dos preparativos.
(DDN) O Papa parece que teria manifestado o seu desejo de um encontro mais íntimo com a virgem, e gostaria então de uma celebração não tão aberta ao público, né? Parece que, em um primeiro momento, ele teria manifestado essa sua intenção. Porém, vai ser quase que impossível que o Santo Padre celebre somente dentro da Basílica. Pelo menos é aquilo que Dom Raimundo Damasceno insistiu com a equipe que organiza essa viagem, mas devemos, é claro, respeitar o desejo do Santo Padre, e esperaremos uma resposta de Roma e estamos torcendo pra que seja sim: uma missa campal, exatamente naquele local onde Bento XVI celebrou a sua missa. O Santo Padre esteja celebrando também até para um maior contato, mais largo com todo o povo brasileiro, já que ele estará só no Rio e só em Aparecida, então é oportuno que seja uma missa campal, não é verdade Dom Damasceno?
(DRD) Perfeitamente, porque nós esperamos aqui cerca de trezentos, quatrocentos mil fiéis, devotos de Nossa Senhora. Como colocar esse pessoal dentro da Basílica? Ou então, como distinguir, né? O credenciamento para ver quem entra na Basílica, quem fica fora participando através dos telões que poderão ser colocados aqui na praça, né, da Basílica. Então tudo isso é muito difícil, vamos ver se a gente consegue do Santo Padre que ele atenda esse nosso desejo, mas caso não seja possível, evidentemente que nós os acolheremos da mesma maneira, com todo o afeto, com todo carinho, e a decisão é claro cabe a ele, que é o que nos visita e nós os acolhemos como anfitrião, mas temos que respeitar os desejos, é claro, do visitante sobretudo que é ele quem vai presidir a eucaristia. Então nós estamos aguardando e vamos ver que definição teremos daqui para frente.
(...)
(DRD) Bom, é claro que é uma visita mais breve, né? Como já anunciamos aqui, apenas um dia e... claro que o Papa vai vir ao Santuário, irá ao Seminário Bom Jesus, a Pousada do Bom Jesus, e fará esse percurso no papamóvel, portanto, vai percorrer o centro da cidade e não mais... não fará aquele percurso que o Papa Bento XVI fez. Ele fará o percurso pelo centro mesmo, tanto na ida como na volta, também para tomar novamente o helicóptero de regresso ao Rio de Janeiro. Então é claro que a cidade terá que fazer alguma coisa é... costuma-se dizer popularmente que o Papa, em suas visitas a algumas cidades, é sempre o melhor prefeito daquela cidade [risos] é... porque em pouco tempo, e poucos dias de sua presença, muitas vezes a cidade se movimenta... (Jornalista) Se faz o que não se faz em quatro anos, não é Dom Damasceno?
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(DRD) É... se movimenta na preparação. E é claro que virão muitos romeiros, e Aparecida tem que se preparar. Está habituada a receber, é claro, números grandes de romeiros: duzentos mil romeiros. É... acontece isso aqui, em Aparecida. Agora será maior o número de romeiros, né, na visita do Papa, embora seja de um dia só, então a cidade tem que se preparar. Segurança, alimentação, saúde.
(DDN) Os hotéis!
(DRD) Os hotéis, é claro, temos que trabalhar agora pra dar uma acolhida melhor aos romeiros. É claro, em primeiro lugar, que são os nossos fregueses. É, vamos dizer assim, clientes permanentes aqui, que vem sempre por causa de Nossa Senhora. Mas agora, vamos ter uma visita ilustre também, que é do Papa Francisco. Então precisamos acolhê-lo, também com dignidade, com simplicidade como é o estilo do Papa Francisco, mas com todo o respeito, e com toda a dignidade também que ele merece.
(J) Aí nós temos imagens ao vivo da cidade de Aparecida, câmeras exclusivas da Rede Aparecida de Comunicação, com o Santuário Nacional ao fundo, hoje um dia muito bonito, um dia de sol aqui na cidade de Aparecida. Agora, Dom Darci, eu falava da estrutura, justamente, porque não consiste somente na vinda do Papa em sua visita ao Santuário. O Santuário já demonstrou que é muito competente, na organização de grandes eventos, só que a cidade precisará receber em torno de trezentas a quatrocentas mil pessoas, e esses peregrinos, que virão até Aparecida, querem estar tranquilos, né? Da sua estadia, da sua permanência na cidade de Aparecida. O que precisava ser feito, urgentemente, pra garantir essa tranquilidade ao peregrino?
(DDN) Nós estaremos contando, com certeza, com as forças militares e todas as forças de ordem pública, mas a prefeitura de Aparecida vai ter que se esmerar, também, para apresentar não só ao santo padre, mas aos peregrinos, ao Brasil e ao mundo inteiro, porque será notícia no mundo inteiro, uma cidade mais bonita, esteticamente melhor organizada, especialmente aquele centro da cidade, vindo ali do Bom Jesus, e certamente, o Santo Padre virá na contramão do atual fluxo, passando pela Praça de São Benedito. Nós temos ali, aquela, uma praça, uma praça tão bonitinha, tão carinhosa, mas tão atulhada!
(J) Não bem cuidada...
(DDN) Não bem cuidada! Agora temos, também, um esforço bastante grande do prefeito Márcio que, aliás, agora sofre uma intervenção, e assume o... o atual vice prefeito, o Sargento Ernaldo, e temos uma relação muito boa com o poder público municipal. E nós estamos na expectativa, também daquelas barracas da feira, que contorna o... que contorna o Santuário Nacional, já está em processo de organização da grande avenida, onde ali serão colocadas as barracas, até porque a feira, que é uma instituição que devemos prezar, que devemos proteger, que
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devemos incentivar, esteja melhor postada naquele... naquele espaço, que tá ficando um espaço muito bonito, um espaço aberto. Então se melhor organizado, todos vão ganhar: tanto os feirantes, como aqueles que visitam e gostam de ir comprar na... na feira, como a própria cidade de Aparecida, e os... os transeuntes, os nossos queridos romeiros, que merecem uma cidade melhor organizada.
De fato, ouvi mais de uma vez que “o Papa é o melhor prefeito que a cidade já teve”: as duas visitas papais anteriores foram responsáveis por diversas obras estruturais em Aparecida/SP, como calçamento padronizado de toda a região central além da instalação de luminárias e lixeiras públicas estilizadas, em forma de sinos. O que as falas dos dois bispos aparecidenses deixam claras é a cobrança feita à prefeitura pelo clero para que tal empreitada se repetisse. Do mesmo modo, no encerramento do programa televisivo, o bispo faz um apelo aos romeiros:
(DDN) Agora é preciso também que o fiel que virá a Aparecida, que sempre vem a Aparecida, colabore no sentido de que, por exemplo, não abra seu carro para aceitar convites na entrada de Aparecida. Sempre tem vendedor de fitinhas e a gente não consegue organizar isso. Agora, aquele a que aqui vem tem que saber também: não abra o seu carro para receber qualquer proposta, entre dentro dos estacionamentos do Santuário Nacional ali você tem toda segurança, todo o acompanhamento necessário. Depois, não cabe mais, Eduardo, barracas com... com... fogareiro a gás, por exemplo, no meio de uma multidão de gente. Então, não compre comida e lanches em, em, em barracas, mas em estabelecimentos constituídos. Quer dizer, o fiel também deve se educar nesse sentido, é nessa oportunidade que educa a cidade como um todo para sair desse improviso. E saber que é uma cidade hoje de nível internacional! E se melhores apresentarmos os nossos trabalhos para o acolhimento dos fieis, certamente todo mundo ganha e Aparecida e vende uma outra imagem: que a sua vocação é acolher. Não é? Então vamos crescer todos nós: a cidade tem o seu dever de casa pra fazer, mas o fiel que nos visita também.
Passado o momento de euforia daquela primeira semana, o que mais chamou minha atenção foi perceber certa naturalidade, isto é, para os aparecidenses, a visita do Papa operava mais no nível do ordinário que do extraordinário.
“Na semana do papa, vai ter gente limpando as luminárias da rua com cotonete, você vai ver” - disse-me uma senhora – “mas depois vai voltar a ser essa porcaria aí”, complementou. De maneira hegemônica, os residentes não mostravam entusiasmo com as promessas de estrutura na cidade. “Aqui tá todo mundo vacinado com o
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papa” - explicou um lojista - “agora a gente já sabe que é só como um domingo a mais no mês”.
Devido às experiências anteriores, que foram um fracasso para as expectativas dos comerciantes, eles não esperavam retorno econômico relevante. Se nas visitas de João Paulo II e Bento XVI foram feitos grandes estoques e disponibilizados diversos produtos personalizados, que não foram vendidos, com a vinda de Francisco isso se mostrava diferente. Poucas lojas se prestaram a essa empreitada, e as que a fizeram foram cautelosas. Como fica evidente, essa notícia coincidiu com um momento peculiar na cidade. Por um lado, o prefeito municipal havia sido afastado por suspeitas de corrupção e, por outro, havia uma batalha política em andamento, entre os feirantes e o poder público. Como um forte catalisador, a visita papal fez com que esses impasses se pautassem concomitantemente.
“Esse papa tá mudando tudo, chegou a ver que ele dispensou limusine e a corrente de ouro? Dá até esperança de ver gente boa e humilde assim, na Igreja, porque a gente tá acostumado com os padres daqui, que são tudo mercenário”, afirmou um feirante, logo após uma das assembleias que acompanhei. Com discursos calorosos tanto contra o Santuário Nacional quanto contra a Prefeitura Municipal, a reação dessas pessoas à visita papal era dúbia: enquanto ela se mostrava uma boa oportunidade para atingirem seus objetivos de regularização das bancas da feira, ao mesmo tempo, eles eram céticos quanto às reais intenções da mudança, que poderia acentuar ainda mais os problemas.
Contudo, mesmo com ceticismo quanto aos efeitos práticos, não escondiam o entusiasmo com o carisma de Francisco. Na mesma assembleia, parte dos feirantes optou por não abrir as suas bancas no dia da visita, para poder acompanhar a missa dentro do Santuário. Boa parte dos feirantes também estava preocupada com atos de vandalismo, temendo que se repetissem as cenas que acompanharam nas manifestações ocorridas em junho de 2013, que se espalharam com vigor por todo o país, inclusive naquela cidade.
Aliás, essa preocupação não foi exclusiva deles. Nessa mesma semana, um lojista apreensivo, chamou-me: “hoje teve um general aqui perguntando se tinha visto gente suspeita pela cidade, e a descrição que ele fez é de gente jovem e com barba, com cara de universitário, assim que nem você: é bom ficar esperto!”. Uma semana antes do
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evento, milhares de militares do exército e da aeronáutica chegaram ao município, fazendo mapeamentos das ruas e estabelecendo diálogos com os moradores, realizando a operação padrão para chefes de estado. Uma escola vizinha à minha casa foi transformada em Quartel General de Operações Rápidas e, parte do estacionamento do Santuário, em um acampamento e hospital militar. Todos os dias, pontualmente às seis horas da manhã, havia hasteamento da bandeira e canto do hino nacional, no pátio da escola, seguidos de uma corrida pelas ruas da cidade. Durante os sete dias, dia e noite, todo o quarteirão do Seminário Bom Jesus, onde Papa Francisco almoçaria, foi cercado por soldados armados com rifles a cada dois metros.
Com posicionamentos que iam para além da rota oficial, como soldados em coberturas de hotéis próximos à igreja matriz, boatos passaram a surgir sobre o percurso de Francisco. Alguns diziam que, na realidade, ele faria o caminho a pé, e outros que atravessaria a passarela, descalço e portando a Imagem Aparecida.
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Foi nessa mesma semana que a Prefeitura Municipal efetuou as obras de estrutura, que se restringiram exclusivamente ao percurso a ser feito: grades foram fixadas, separando as vias das calçadas, cartazes de boas vindas pendurados e as luminárias devidamente limpas. As respectivas ruas foram recapeadas, e as lombadas existentes foram retiradas, exigências para a circulação do papamóvel.
Já próximo da data da visita, chegou-se ao consenso: uma missa no interior da Basílica, na quarta-feira, dia 24 de julho de 2013. No dia anterior, contudo, incertezas continuavam. Oficialmente, só poderiam entrar na igreja quinze mil pessoas: três mil vagas eram para convidados especiais, já os outros doze mil seriam selecionados por ordem de chegada.
Foi marcante a presença maciça de pessoas uniformizadas, fossem os soldados do exército e das polícias, agindo de maneira ostensória, como os funcionários da prefeitura e das empresas terceirizadas que cuidavam da manutenção das vias. Do mesmo modo, diversos grupos de romeiros vestiam camisetas idênticas, que indicavam sua cidade de origem e o rosto de algum santo ao lado do rosto do Papa.
Durante todo o dia que precedeu à visita, em companhia do Professor Ronaldo de Almeida, pudemos acompanhar os preparativos finais, fossem pelas ruas, nas lojas, nas praças, nas celebrações na Igreja Matriz e mesmo dentro do Santuário Nacional. Dada a grande quantidade de coisas acontecendo simultaneamente, e em locais distintos, optamos pela separação, no intuito de conseguirmos abranger melhor aquela pluralidade. Enquanto ele se responsabilizou por acompanhar a visita papal pela parte externa da Basílica, eu fui me informar de como conseguir acompanhar do lado de dentro da igreja, visando uma abordagem comparativa.
Desde cedo, emissoras de televisão já entrevistavam aqueles que formavam uma fila improvisada, para conseguir assistir à missa do lado de dentro. E foi até lá que me dirigi. Os portões do Santuário Nacional seriam fechados durante a noite, o que não costuma ocorrer, por questão de segurança. Descobri isso por volta das 17 horas, quando, sem mais informações disponíveis, fui para o meu respectivo lugar na fila, em companhia da minha irmã, interessada em ver o Papa e em me ajudar.
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Todos seguiam a mesma fila na calçada, que terminava no portão principal, e contornava os muros do Santuário pelo lado exterior. Ninguém tinha ideia de como proceder. Durante as primeiras duas horas, as dúvidas foram o tema das conversas. Quando chegaria o Papa? Quando abririam os portões? Haveria espaço para todos na igreja? Como controlariam a fila? Nenhum meio oficial de comunicação pôde responder. Um casal alertava, de acordo com a experiência de terem visto ali os outros dois papas, que a noite seria difícil.
Garantidos os lugares, os grupos de pessoas que se formaram passaram então a planejar como passariam a noite naquela calçada, localizada em um espaço em que usualmente ocorria a Feira, a Avenida Júlio Prestes. Foi nesse dia de véspera que os feirantes entraram em acordo com a Prefeitura Municipal e usaram apenas a Avenida João Paulo II. Dito de outro modo, a fila começava no espaço em que a feira acabava.
No cair da tarde, passaram a surgir diversas pessoas, entre elas os próprios feirantes, incluindo alguns que conhecia previamente, empurrando carrinhos de mão cheios de papelão, vendidos por um real a peça. Cada qual com seu papelão forrando o chão, os grupos passaram então a delimitar o espaço com as mochilas e demais objetos portados. Havendo mais pessoas juntas, tanto à minha frente como atrás, eu que tinha somente a companhia da minha irmã, fiquei com um espaço menor.
Com o tempo nublado, não tardou em começar uma garoa que passou a comprometer os papelões postos. Do mesmo modo, os vendedores de papelão passaram a vender capas de chuva. Assim, o segundo movimento foi o de buscar alguma proteção: enquanto uma pessoa guardava o respectivo local da fila, outra ficava responsável pela busca. O grupo de trás na fila comprou duas barracas de camping em uma loja próxima, que vendia cada uma por quinhentos reais. Eu vaguei pela chuva sem encontrar nada acessível.
Quando voltei, o grupo da frente havia conseguido uma grande lona preta e usaram os ganchos na parede, outrora usados pelas bancas da feira, para estender a lona até a guia da calçada usando pedras como peso. Protegido apenas pela capa, na chuva que aumentava, passei a negociar um espaço para duas pessoas embaixo da lona. Porém, sem muito sucesso: um senhor, acompanhado de seu filho, era estritamente contra, pois o
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número de pessoas já era muito alto. Já outro rapaz, que depois descobri ser seminarista, defendia que poderíamos ficar ali. O veredito final foi que tínhamos direito a apenas um espaço, o qual eu e minha irmã revezamos durante a noite.
Nos momentos intercalados sob a lona, pude conhecer um pouco daquelas pessoas, dezoito no total. Na realidade não se tratava de um grupo fechado, mas pequenos grupos que ali se encontraram. O pai e filho mencionados eram da cidade de Taubaté/SP, e ali chegaram juntos. Por estarem contrariados com minha presença sob a lona, não dialogamos muito. Com quem mais falei foi o seminarista, que advogou a meu favor. Nativo de Pernambuco, há pouco mais de um ano ele estava vinculado à Comunidade Canção Nova3, local em que cursava filosofia. Acompanhado de outros dois seminaristas, na mesma situação, narraram as dificuldades que encontravam em viver em comunidade e dividir alojamentos, fazendo paralelos com aquela situação em que nos encontrávamos.
Esses seminaristas chegaram ali acompanhados de uma mulher com seus quatro filhos, todos residentes em Cachoeira Paulista/SP, coincidentemente minha cidade natal, o que nos rendeu assuntos em comum. Essas pessoas, por três vezes, entoaram o Terço da Divina Providência4, característico da Renovação Carismática Católica5 (RCC), linha da qual eram adeptos. A primeira delas teve de ser interrompida, com as questões evocadas por outro rapaz, que ali chegou sozinho. Identificando-se como estudante de agronomia, ex-adepto das Testemunhas de Jeová e ateu, o jovem interrogava como os seminaristas lidavam com questões como a “ascensão gay”, “a dominação maçom das universidades” e “a influência illuminatti na guerra do Iraque”. Afirmou estar ali por curiosidade, “queria ver de perto como católicos lidam com o papa”. Todos os tópicos foram debatidos calorosamente. Portando um termômetro, ele ainda narrara a queda de temperatura, que
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Canção Nova é uma comunidade brasileira, adepta da Renovação Carismática Católica, fundada em 1978, com sede em Cachoeira Paulista/SP. Ela é conhecida principalmente pelo seu sistema internacional de rádio e televisão.
4 É uma maneira específica de se rezar o terço católico, no qual a oração da Ave-Maria nas contas pequenas é
substituída pela oração “Deus provê, Deus proverá, sua misericórdia não faltará”. Assim como nas contas grandes a oração do Pai-Nosso é substituída pela oração “Mãe da Divina Providência, Providenciai!”.
5 É um movimento da Igreja Católica Apostólica Romana que teve início durante dos anos 1960, nos Estados
Unidos da América. Defende uma renovação dos ritos tradicionais, baseando-se no carisma e nos dons do Espírito Santo.
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chegou a cinco graus Celsius de madrugada. Posteriormente, pude confirmar ter sido a noite mais fria do ano.
A segunda tentativa do terço fluiu ininterruptamente, após o rapaz ateu ter dormido. A única dificuldade era a de competir com o tom de voz dos ambulantes que passavam pela rua gritando os produtos à venda: “olha o papelão, a capa, a água, o salgado e a sopa!”. Por fim, por volta da uma hora, a última tentativa do terço fluía bem até que a lona rasgou, pelo vento forte e peso da chuva. Enquanto tentávamos prender a lona novamente na parede, outro senhor, vinculado à Sociedade São Vicente de Paulo, afirmava que aquela era uma ótima lição de humildade vinda de Deus, para todos aprendermos como “os irmãos mendigos passavam todas as noites” ou ainda “valorizar mais a luta dos irmãos do MST” [Movimento Sem Terra]. Após o restabelecimento do espaço, e o fim do choro das crianças, todos devidamente acomodados e em silêncio, pudemos dormir.
O sono, contudo, não durou muito: fomos todos acordados por volta das quatro horas com gritos de “Abriu! Abriu!”. A fila toda foi se levantando, os abrigos sendo desmontados e os pertences guardados. Chovia bastante, quem tinha capa de chuva a vestia e quem não tinha colocava os papelões sobre a cabeça. Nesse meio tempo, algumas pessoas aproveitando a confusão passaram a furar a fila, o que resultou em discussões e empurrões que se repetiram em diversos pontos: “É pra dar a mão! É pra todo mundo ficar de mãos dadas, assim ninguém fura fila”, gritam dois rapazes ao passar pela rua.
Todos concordam e a fila se tornou uma grande corrente de pessoas de mãos dadas, sob o escuro, o frio e a chuva. Minha irmã e eu demos as mãos para pessoas desconhecidas, já que perdemos de vista aqueles com quem passamos a noite. Os portões estavam fechados. Os boatos de abertura se repetiam inúmeras vezes, como quando os sinos da Basílica soaram às cinco horas da manhã. Nessa posição, por toda a hora seguinte, houve orações do terço a Nossa Senhora Aparecida, variados cânticos de louvor e principalmente reclamações contra o Santuário Nacional: “o que irrita é pensar que o Papa nem acordou ainda e a gente aqui”.
Junto com o raiar do sol, passaram a chegar dezenas de ônibus, que paravam pela rua. Os recém-chegados tentavam entrar na fila, mas eram vaiados e contidos pela corrente humana. Logo em seguida, centenas de policiais fardados começaram a passar, em
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grandes grupos: gritos de “até que enfim!” e “resolveram trabalhar é?” eram ouvidos. “Vocês tem que organizar a fila” – gritou um homem – “não temos nada a ver com isso”, ouviu como resposta de um policial rodoviário. “A gente tá sozinho mesmo, a polícia joga a culpa pro Santuário que joga de volta”, comentou um senhor a sua esposa.
Ainda com a tensão dos eventuais fura-filas, uma nova tática foi criada, com o uso de barbantes amarrados nos postes e árvores que separavam a calçada da via. Devidamente em seus postos, ainda de mãos dadas e com a pausa na chuva, passamos então a ser abordados por vendedores, que ressurgiram com novos produtos: binóculos, pedaços de bolos e café. “Esse povo de Aparecida vende até a mãe, parece turco” - exclamou uma senhora - “fosse futebol podia fazer o que quiser, mas aqui é igreja”. Outro senhor, concordando, complementou dizendo que “brasileiro não tem jeito”.
Logo após os grupos de policiais, o que se via eram outros grupos de dezenas de religiosos: freis e freiras das mais variadas ordens passavam, secos, pela rua em direção ao portão. A comoção da fila foi ainda maior, uma grande e longa vaia era escutada em todo o percurso. Ironicamente, referindo às batinas das irmãs franciscanas, uma mulher gritou “capa de chuva marrom pode furar fila, é? furar fila é pecado, hein?”. Não tardou para que toda a fila, massivamente, gritasse em conjunto: “Excomunga! Excomunga! Excomunga!” para todos aqueles religiosos que passavam secos.
Essas cenas se repetiram até às sete horas da manhã quando, de fato, os portões foram abertos. Coincidindo com uma tempestade, a desordem foi grande. Os barbantes foram rompidos pelas pessoas na rua, todos corriam em direção ao portão, alguns eram empurrados e outros caíam ao escorregar nos papelões enlameados. Próximo ao portão a tensão era grande, com ônibus estacionando naquele momento e os passageiros entrando diretamente no Santuário. Do lado de dentro, alguns soldados da Polícia Rodoviária Federal organizavam outra fila: “só vai entrar na Basílica quem estiver com a pulseira”, falavam pelos megafones.
Após receber a pulseira que trazia uma reprodução da Imagem Aparecida ao lado do logotipo da JMJ, era possível dirigir-se até a Basílica. Agora protegidos da chuva, nos corredores externos, formamos outro conglomerado de pessoas. Pela norma de segurança, todos deveriam passar pelos detectores de metal, pelos raios-X e serem
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revistados individualmente. Guarda-chuvas, objetos pontiagudos e arremessáveis eram proibidos.
Assim, as 12 mil pessoas que pegaram as pulseiras aguardaram a sua vez. Contudo, foram disponibilizados seis aparelhos no total, dois em cada porta, o que resultou em certa demora. Se para os soldados do Exército, que faziam a triagem, era a pulseira o diferencial, para os demais era a umidade das roupas: sempre que era identificado alguém com roupas secas, o que comprovava que não tinha ficado na fila noturna, o sujeito era alvo de vaias, acusações de pecado e os mais diversos xingamentos. Um casal com seus dois filhos, após serem identificados e vaiados, pediram escolta para um dos soldados, que os levou diretamente para dentro da igreja.
Sem espaço para me mover, isto é, nem mesmo abrir os braços, estava levando e sendo levado pela multidão em direção à porta. Quatro pessoas que estavam próximas a nós não aguentaram a situação e desmaiaram. Já outra senhora, de baixa estatura, conseguiu chegar rapidamente à porta, através de cotoveladas abdominais. A chegada do helicóptero papal acirrou ainda mais os ânimos. Diversas tentativas de rebelião, com empurrões e gritos coletivos de “Cadê a Organização?” não obtiveram sucesso na agilidade. Um soldado anunciou, pelo megafone, que caso insistissem, a entrada por aquela porta seria cancelada.
Após chegar de helicóptero diretamente do Rio de Janeiro, e ser recebido pelas autoridades eclesiais e políticas, o pontífice atravessou de papamóvel a multidão de pessoas que o aguardava do lado de fora do templo, parando para beijar alguns bebês que lhe eram oferecidos.
Consegui entrar no templo às dez horas da manhã, momento que acompanhei pelo telão o “encontro íntimo de Francisco e Aparecida”, já narrado. Após a oração feita em frente à Imagem Aparecida, Papa Francisco já paramentado caminhou até a nave central da Basílica, para dar início à missa. Nesse percurso, acompanhado de dezenas de bispos, passou pelo corredor da nave sul da Basílica, onde centenas de padres, esticando suas câmeras fotográficas e celulares, assistiriam à celebração. O primeiro ato da missa foi a saudação, feita pelo Cardeal Damasceno, que afirmando ser o porta-voz de todos os brasileiros lhe ofereceu um presente:
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Quando o bispo de Roma se faz também um romeiro de Nossa Senhora, todos eles se sentem confirmados na verdade da fé. No início dessa celebração solene, em nome dos devotos de Nossa Senhora Aparecida, em nome de todos os presentes, em nome dessa Arquidiocese e de todo o Brasil, entregarei à Vossa Santidade uma réplica da Imagem de Nossa Senhora Aparecida, esculpida em madeira por um artista da região. A cor negra dessa Imagem, santo padre, segundo estudiosos foi causada pelo lodo do rio e da fumaça das velas. Ela tem sido interpretada como uma referencia ao sofrimento dos pobres e excluídos, especialmente do povo negro ao longo da história do Brasil. O rosto, da imaculada mãe de nosso senhor, desperta nossa Igreja para que seja comprometida com os pobres, e seja pobre também ela para evangelizar. Assim livre, pode servir a nosso senhor e ao evangelho. Por meio da imagem que será dada a Vossa Santidade, peço a Nossa Senhora, em nome do povo brasileiro, que acompanhe e abençoe vosso ministério.
A imagem é entregue em mãos pelo Cardeal ao Papa, que a beija e ergue com aplausos calorosos da multidão. Em retribuição, o Papa presenteia o Cardeal com um cálice dourado que também é erguido. A celebração segue os preceitos canônicos de missa solene, com o uso de incenso e da cor dourada. Além de 50 bispos, há 1.100 padres presentes. Presidida pelo pontífice que faz todo o ritual em português, através da leitura até mesmo na homilia. A homilia não durou mais de dez minutos, o Papa falou sobre a importância de Maria na teologia católica, sem relacionar a nenhuma denominação específica, a não ser em um trecho:
A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor.
Lendo o discurso do púlpito, o enquadramento das câmeras tinha a Imagem Aparecida como plano de fundo. O Papa era intercalado por closes de algumas personalidades presentes, como o governador estadual Geraldo Alckmin, o Padre Antonio Maria e ainda os cantores Jair Rodrigues e Elba Ramalho.
Na televisão e nos telões era mostrada principalmente a ala sul, local onde estavam as pessoas convidadas, em sua maioria sacerdotes, freiras e políticos. Eu estava na ala norte da Basílica, com aqueles que supostamente passaram a noite na fila. Em sua
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maioria molhados e com feições de cansaço, buscavam o local mais próximo possível do altar. Os braços erguidos com câmeras fotográficas e celulares tentavam registrar pelo menos o vulto papal. Enquanto isso, muitos outros dormiam nos bancos, encostados nas paredes e pelo chão.
No momento das oferendas, foram levadas até o altar as bandeiras de todos os estados brasileiros assim como uma relíquia do manto da Imagem Aparecida, outro presente para Francisco. Contudo, nenhum momento causou mais interesse do que as partes finais: após fazer o ritual de consagração, o Papa fez um grande sinal da cruz no ar, utilizando a imagem que ganhou, para a benção final.
Ao fim, caminhou até o lado de fora para repetir a benção no palco externo da Basílica para cerca de 200 mil pessoas, as quais acompanhavam a missa pelos telões. Foi quando anunciou que voltaria em 2017, para o jubileu de 300 anos da Imagem Aparecida. “Se eu soubesse que a benção final ia ser lá fora nem tinha entrado”, confidenciou-me uma senhora envolta em um cobertor ainda encharcado.
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A visita do Papa Francisco à Aparecida aconteceu coincidentemente na última semana da minha pesquisa de campo na cidade. Escolhi a sua descrição pormenorizada neste preâmbulo por conseguir condensar, de maneira abrangente, os aspectos antropológicos que serão discutidos no decorrer dessa dissertação.
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INTRODUÇÃO
“Quem é você? O que quer aqui?”, disse-me um dos três homens de boné, chinelos de dedo e sem camisa que me cercaram, com braços cruzados e olhares intimadores. Sentado há poucos instantes, em uma sombra no meio-fio para tomar água, e não entendendo a situação, cheguei a olhar pros lados para verificar se falavam comigo mesmo. “O que você quer?”, repetiu. Gaguejei algumas sílabas e fui interrompido “é repórter? polícia?” - “Não! Sou universitário e estou fazendo uma pesquisa” foi a resposta genérica, quase automática, que lhe dei.
Até então, eu não havia percebido o senhor Eliseu, um idoso que estava mais atrás, e que tomou proximidade do grupo - “pode deixar comigo”- sentando em seguida, ao meu lado, e gesticulando para que os três homens saíssem do entorno - “tá todo mundo da feira comentando de você, acharam muito suspeito tirar fotos: sabe como é, aqui é tudo na ilegalidade”. Expliquei prontamente que não tinha a intenção de divulgar as imagens e ele respondeu - “Não! Divulga sim! A gente quer que isso seja divulgado. Essa é a primeira coisa que você tem que pôr na sua pesquisa: que tudo nessa cidade tá na ilegalidade”.
Era o meu primeiro sábado na cidade de Aparecida/SP, o quarto dia desde minha mudança, e logo após percorrer todos os corredores da feira, registrando com uma câmera fotográfica a multidão de pessoas e coisas em circulação, eu também me perguntava o que queria ali, sem ter ainda uma resposta.
Tendo feito uma série de viagens pontuais ao Santuário Nacional de Aparecida, desde 2009, meu interesse de pesquisa passou a se direcionar principalmente para a relação estabelecida entre a devoção à Nossa Senhora Aparecida e o comércio local. Se esse interesse pode ser justificado pela evidente constatação empírica do grande número de estabelecimentos comerciais ao redor da igreja, a minha motivação também veio do que ouvia. A evocação das “lojinhas” de Aparecida/SP era uma constante nos diálogos, direta e indiretamente, e sempre acompanhada de uma posição firme de apreço ou desprezo por elas, mas raramente de indiferença. Por si só, esses diálogos evidenciavam certa tensão na existência daquelas lojas naqueles espaços, e era sobre isso que queria me aprofundar.
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Nessas viagens, contudo, um incômodo metodológico surgiu da restrição da minha abordagem, tanto temporal como espacial, já que ela estava sempre circunscrita aos dias de maior movimento e ao entorno dos muros do Santuário. Foi por isso que, de fevereiro até agosto de 2013, residi na cidade de Aparecida/SP, tendo como intuito tentar entender a relação lá estabelecida entre devoção e comércio.
O propósito de fixar residência na cidade por seis meses foi, antes de tudo, expandir esse enfoque anterior, vivenciando a dinâmica local cotidianamente e em localidades distintas, no intuito tanto de observar como essa relação era posta em prática, quanto de ouvir o que as pessoas diretamente envolvidas pensavam a respeito.
Residindo na cidade, e com esse objetivo em mente, o desenvolvimento prático tomou outras direções. Guiado pelas palavras-chave do título de meu projeto de pesquisa, isto é, consumo e devoção, e tendo consciência de uma mútua dependência entre ambas, que já notara antes, não sabia bem como as abordar empiricamente e de maneira distinta.
Para desenvolver esse movimento de ajuste para enfoque, minha escolha metodológica inicial foi a de vagar pelas ruas de Aparecida/SP, sem um roteiro definido, explorando lugares desconhecidos e dialogando com as pessoas que encontrava no caminho, sempre acompanhado de um caderno de anotações, no qual fiz longas e detalhadas descrições do que encontrava, em um esforço de incluir também aquilo que me parecia irrelevante. Do mesmo modo, às vezes portava uma câmera fotográfica: no início, visava um mero registro instrumental, em que a fotografia auxiliasse tanto na descrição como na memória etnográfica, para posterior escrita. Contudo, no decorrer do tempo, a fotografia demonstrou ser um fim em si mesmo, capaz de apresentar o que encontrava de maneira discursivamente distinta.
Dito de outro modo, realizando uma espécie de reconhecimento do campo, nesse primeiro momento eu busquei propositalmente abrir o máximo possível minha perspectiva, antes de determinar de que modo conduziria a abordagem. Não tendo como pressuposto o simples acaso, foi a minha inquietação inicial que pautou a todo momento, definindo voluntária e involuntariamente, por onde eu vagava. Isso resultou, por exemplo, em mais tempo passado nas ruas centrais da cidade, pelas quais encontrava os comerciantes e devotos, do que nas áreas mais periféricas e exclusivamente residenciais.
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Foi nesse contexto que ocorreu o diálogo inicial com Eliseu, conhecido como Zulu pela cor da sua pele. Por volta dos 70 anos de idade, calvo e portando óculos de lentes grossas, ele atua na feira desde os primórdios, e afirma ser um profundo entendedor do seu funcionamento. Puxando-me pelo braço, ele então se levanta do meio-fio e pede para segui-lo. Tento não me perder na multidão, enquanto ando entre os corredores labirínticos, até chegarmos a uma banca de roupas infantis, cuja proprietária, chamada Rosângela, fora candidata a vereadora nas eleições de 2012. Após sermos apresentados, ela me submete a uma série de perguntas, como: de onde sou, qual minha faculdade, onde estou morando, quanto tempo estarei na cidade e o que exatamente eu queria saber.
Toda a desconfiança, a qual eu fora submetido até então, tinha um motivo: a Feira estava ameaçada de acabar, pelo menos do modo como ela era concebida. Alguns meses antes, em novembro de 2012, os comerciantes foram pegos de surpresa por uma liminar judicial que proibia a montagem de bancas fora da Avenida Monumental. A razão, eles descobririam logo depois: uma denúncia ao Ministério Público, feita pela administração do Santuário Nacional, alegando ser ilegal a prática desse tipo de comércio em rodovias, o que é o caso de todas as vias que dão acesso ao espaço do Santuário.
Profundamente interessado pela situação, acompanhei sistematicamente os desdobramentos desses acontecimentos, que se estenderam por toda a minha estadia, e detalharei mais à frente nessa dissertação. Optei por manter a proposta de registro. Porém, ao mesmo tempo, sentia-me incomodado por tudo aquilo dizer pouco a respeito da devoção, dentro das minhas referências iniciais. Com conversas que sempre remetiam às esferas econômica e política (Weber, 1997), sentia falta justamente da esfera religiosa. A meu ver, aquilo era pano de fundo, mas não minha discussão principal.
Esse incômodo foi levando a uma aproximação contínua do território do Santuário Nacional, já que ele era minha referência principal acerca da devoção. Passei a assistir a contínuas missas, acompanhar as homilias, observar a movimentação em diversos pontos do templo, do subsolo na sala das promessas, as capelas laterais, os pátios e o nicho da Imagem. Contudo, de maneira inversa, ali o que eu encontrava era a plena realização da esfera religiosa, pela devoção, com referências pontuais ao consumo.
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Nesse meio tempo, enquanto fazia essa busca, acontece um fato inesperado: a renúncia do Papa Bento XVI e o posterior conclave. O Cardeal e Arcebispo de Aparecida, Dom Raimundo Damasceno, logo em seguida dirigiu-se à Roma, já que além de votar, era um dos candidatos a novo Papa. A rede de televisão, sob sua supervisão, estava sempre a par das últimas atualizações, assim como os aparecidenses que, com os olhares voltados para a tela, nesses dias, tinham esse tema exclusivo de conversa.
Acompanhando os dois eventos, a reforma da Feira e a visita do Papa – que depois acabaram se fundindo em um só – , busquei ainda manter o meu planejamento inicial de pesquisa. Desse modo, a minha busca se direcionou para o Centro de Apoio aos Romeiros (CAR), uma galeria de lojas conhecida também como “Shopping da Fé”, que poderia ser o local ideal para encontrar a relação que eu problematizava: um grande estabelecimento comercial, nas dependências do Santuário Nacional.
Diferente da Feira, em que fui imediatamente recebido como pesquisador, no espaço do CAR o processo foi mais lento. Com o mesmo tipo de abordagem que fiz em outros espaços, foram vários os dias e horas em que vaguei pelo prédio, sem sucesso na interação. Se na Feira as pessoas são constantemente abordadas pelos vendedores, no CAR eles se restringem a atender apenas os interessados em comprar algo. Como fui saber depois, há uma norma contratual em que eles não podem atuar fora do espaço de suas lojas, seja abordando os transeuntes ou expondo mercadorias nos corredores.
Cheguei mesmo a comprar produtos pelos quais não estava interessado, para forçar interações, mas nenhum diálogo foi além da superficialidade. Nas vezes em que me apresentei como pesquisador, os vendedores disseram que não poderiam ajudar. Assim, busquei recorrer aos contatos já estabelecidos na cidade. Consegui abertura ao ser apresentado a alguns comerciantes que, por sua vez, apresentaram outros. De todo modo, os diálogos estabelecidos nesse tempo foram fundamentais. Por fim, depois de alguns meses, fui proibido pela segurança local de dar continuidade à pesquisa. Tive que requerer uma permissão para a administração, que nunca foi concedida.
Dada essa formalidade, requerida para minha aproximação, no primeiro contato com as pessoas tive que explicar qual era meu objeto de pesquisa. Na medida do possível fui cuidadoso nas palavras, no intuito de evitar induções desproporcionais. No entanto,
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quando falava minhas palavras-chave a reação era imediata: “o tema consumo e religião é muito interessante, discutimos bastante isso aqui”, como disse Renato, lojista aparecidense, no nosso primeiro contato. De fato, a impressão era que aquelas pessoas já tinham uma resposta pronta, assim como as soluções apresentadas, resultantes de uma longa reflexão prévia.
Daquelas pessoas que conheci, aquela com posições mais contundentes foi Reginaldo, outro lojista. Em uma de nossas conversas, ele foi enfático: “Olha, a verdade que você tá procurando é uma só: aqui o comércio e a religião se uniram, são uma coisa só. A diferença é que o comércio usa o nome de religião”.
Influenciado e refletindo continuamente sobre essa afirmação, foquei por certo tempo na segunda frase, isto é, passei a procurar em que medida o comércio se apropriava da religião. Passei a observar, mais atentamente, a ambiguidade dos produtos comercializados e como, dificilmente, poderiam ser classificados como meramente comerciais ou estritamente religiosos. Questionava a funcionalidade de um relógio ou uma caneca, por exemplo, se trazia estampada a figura de Aparecida. Esforçando para acreditar no que me fora dito, porém, pelo que observava desde o início, não conseguia enxergar a questão de apropriação e sim uma relação mútua, que foi eixo central do meu projeto de pesquisa,
já que santuários, festas e peregrinações estabelecem ligações diretas entre as esferas da religião, da economia e da política, alterando o fluxo de pessoas e de bens, reconfigurando a geografia, estabelecendo calendários (Menezes, 2011a: 26).
Após certo tempo, relendo as anotações, dei-me conta de que a principal afirmação de Reginaldo era simples e direta: “são uma coisa só”. A afirmação seguinte era a sua interpretação dessa nebulosidade. É aí que está a chave da abordagem: trazendo novamente a análise weberiana das esferas, o que eu procurava inicialmente era a intersecção entre a econômica e a religiosa, não percebendo que ali elas eram indistintas, para além dos tipos ideais e formas geométricas.
Compreendia que, assim como eu, os aparecidenses não só estavam à procura dessa diferenciação como tinham teses muito bem elaboradas sobre ela. Porém, ela não se expressava exclusivamente no campo discursivo; isto é, quando evocavam verbalmente