“É iluminado aquele cujo falar e cujo proceder são concordes, que repudia as conexões comuns do mundo.”
Dhu’l-Nun, o Egípcio
Maulana (literalmente, Nosso Mestre) Jalaluddin Rumi, que fundou a Ordem dos Dervixes Dançantes, confirma em sua carreira o dito oriental: “Gigantes vêm do Afeganistão e exercem influência sobre o mundo”. Nascido em Báctria, de família nobre, no princípio do século XIII, viveu e lecionou em Icônio (Rum), na Ásia Menor, antes do princípio do império otomano, cujo trono, segundo se diz, recusou. Suas obras, escritas em persa, são tão estimadas dos persas pelo seu conteúdo poético, literário e místico que se lhes deu o nome de “o Corão da língua péleve” — em que pese o fato de se oporem ao culto nacional dos persas, a fé xia, criticando-lhe o exclusivismo.
Os árabes e os muçulmanos indianos e paquistaneses consideram Rumi um mestre místico de primeiro plano — conquanto ele afirme serem os ensinamentos do Corão alegóricos e terem sete significados diferentes. Dificilmente se poderá calcular a extensão da influência de Rumi, embora se possa ter um vislumbre ocasional dela na literatura e no pensamento de inúmeras escolas. O próprio dr. Johnson, que nunca primou pelos pronunciamentos favoráveis, diz, a respeito de Rumi: “Ele torna facilmente compreensíveis ao Peregrino os segredos do Caminho da Unidade, e desvela os Mistérios do Caminho da Verdade Eterna”.
Sua obra já era bem conhecida menos de cem anos depois da sua morte, ocorrida em 1273, pois Chaucer faz referências a ela em alguns livros, assim
como ao material dos ensinamentos do precursor espiritual de Rumi, Attar, o Farmacêutico (1150-1229/30). Até um exame perfunctório das inúmeras menções ao material árabe encontradas em Chaucer mostra o impacto sufista da escola de literatura de Rumi. Até o emprego, por Chaucer, da frase: “Assim como os leões se acautelam quando se castiga um cachorrinho. . ." não é mais que uma estreita adaptação de Udhrib el-kalba wa yata’ addaba el-fahdu (“Bata no cão e verá o leão comportar-se”), frase secreta usada pelos dervixes dançantes. Sua interpretação depende de um jogo de palavras com os vocábulos “cão” e “leão”. Embora se escrevam com seus nomes, ao pronunciar a senha usam-se como homófonos. Em vez de dizer cão (kalb), o sufi diz coração (qalb) e, em lugar de leão (fahd), fahid (o negligente). A frase passa a ser, então: “Bata no coração (exercícios sufistas) e as negligentes (faculdades) se comportarão (corretamente)”.
Esta é a divisa que apresenta os movimentos de “bater no coração” estimulados pelos movimentos e concentrações dos dervixes dançantes Mevlevi.
A relação entre os Contos de Canterbury como alegoria do desenvolvimento interior e A conferência dos pássaros, de Attar, é outro item interessante. Recorda-nos o professor Skeat que, à semelhança de Attar, Chaucer tem trinta participantes na sua peregrinação. Trinta peregrinos à procura do pássaro místico, o Simurgh, é algo que tem sentido em persa, porque si-murgh realmente quer dizer “trinta pássaros" ( 1 ) . Em inglês, todavia, a transposição é impossível. O número de peregrinos, tornado necessário em persa pelas exigências da rima, é preservado em Chaucer, sem o duplo sentido. “O conto do perdoador” ocorre em Attar; a história da pereira encontra-se no Livro IV da obra sufista, o Mathnawi de Rumi.
A influência de Rumi, tanto nas idéias quanto nos textos, é considerável no Ocidente. Como a maior parte da sua obra foi traduzida para idiomas ocidentais em anos mais recentes, o seu impacto tornou-se maior. Mas se ele é,
como lhe chama o professor Arberry, “o maior poeta místico na história do gênero humano”, a poesia propriamente dita, em que se expressa uma parte tão grande dos seus ensinamentos, só pode ser realmente apreciada no original persa. Os ensinamentos, contudo, e os métodos usados pelos dervixes dançantes e outras escolas, que sofreram a influência de Rumi, são menos esquivos, para os que compreendem a maneira de apresentar verdades esotéricas.
São três os documentos através dos quais a obra de Rumi pode ser estudada pelo mundo exterior. O Mathnawi-i-Manawi (Dísticos espirituais) é a obra-prima de Jalaluddin — seis livros de poesia e de imagens de tamanho vigor no original, que a sua recitação produz uma exaltação estranhamente complexa na consciência do ouvinte.
O autor levou quarenta e três anos escrevendo-o. Não se pode com exatidão criticar-lhe a poesia em virtude da especial complexidade de idéias, forma e apresentação. Os que só procuram nele o verso convencional, como observa o professor Nicholson, são obrigados a saltar trechos na leitura, perdendo, assim, o efeito do que é, na verdade, uma forma especial de arte, criada por Rumi com a finalidade expressa de comunicar significados que não têm paralelo verdadeiro na experiência humana comum, como ele mesmo admite. Passar por cima dessa notável realização é o mesmo que selecionar o gosto da geléia de morango sem a geléia.
Salientando exageradamente o papel da poesia requintada no oceano do Mathnawi, o professor Nicholson demonstra, às vezes, preferência pelo verso formal.
“O Mathnawi,” diz ele (Introdução, Seleções do divã de Shams de Tabriz, página XXXIX), “contém uma riqueza de poesia encantadora. Mas os leitores terão de seguir o seu caminho através de apólogos, diálogos, interpretações de textos do Corão, sutilezas metafísicas e exortações morais, antes de topar com uma passagem de canto puro e requintado.”
Para o sufi, se não para mais ninguém, este livro fala de uma dimensão diferente e, apesar disso, de uma dimensão que está, de certo modo, dentro do seu eu mais profundo.
Como acontece com todas as obras sufistas, o efeito do Mathnawi sobre o ouvinte variará de acordo com as condições em que estiver sendo estudado. Contém piadas, fábulas, conversações, referências a professores antigos e a métodos geradores de êxtase — exemplo fenomenal do método dispersivo por meio do qual se constrói uma imagem por impacto múltiplo para infundir na mente a mensagem sufista.
Acontece com Rumi o que acontece com todos os mestres sufistas: essa mensagem é parcialmente preparada em resposta ao meio em que ele trabalha. Consta que Rumi introduziu danças e movimentos giratórios entre os discípulos em virtude do temperamento fleumático das pessoas no meio das quais se viu atirado. A chamada variação de doutrina ou de ação prescrita pelos vários professores sufistas nada mais é, na realidade, do que a aplicação dessa regra.
Em seu sistema de ensino, Rumi usava a explicação e o treinamento mental, a reflexão e a meditação, o trabalho e o jogo, a ação e a inação. Os movimentos do corpo e da mente dos dervixes dançantes, associados à música da flauta pastoril na qual eram executados, são o produto de um método especial destinado a colocar o Aspirante em afinidade com a corrente mística, a fim de ser transformado por ele. Tudo o que o homem não-convertido compreende tem um emprego e um significado dentro do contexto especial do sufismo, que pode ser invisível até ser experimentado. “A prece”, diz Rumi, “tem uma forma, um som e uma realidade física. Tudo o que tem uma palavra tem um equivalente físico. E todo pensamento tem uma ação”.
Uma das características realmente sufistas de Rumi é que, embora diga, de maneira não-comprometedora, a coisa mais impopular — que o homem comum, sejam quais forem suas consecuções formais, é imaturo em se tratando
de misticismo —, também dá azo a qualquer um, ou quase, de progredir no rumo da consumação do destino humano.
À semelhança de muitos sufis atirados numa atmosfera teológica, Rumi fala primeiro aos ouvintes de religião. Acentua ser incorreta a forma como a religião comum, emocional, é compreendida pelos grupos organizados. O Véu da Luz, barreira erguida pelo farisaísmo, é mais perigoso do que o Véu da Escuridão, produzido na mente pelo vício. A compreensão só pode chegar através do amor, e não pelo treinamento por meio de métodos organizacionais.
Para ele, os primeiros professores de religião estavam certos. Os seus sucessores, com poucas exceções, organizaram os assuntos de tal maneira que excluíram, virtualmente, a iluminação. Essa atitude requer novo enfoque dos problemas da religião. Rumi tira toda a questão do canal normal. Não está disposto a submeter o dogma ao estudo e à argumentação. A verdadeira religião, diz ele, não é a que o povo pensa que é. Por conseguinte, não há mérito no exame do dogma. Neste mundo, diz ele, as coisas que se chamam o Trono (de Deus), o Livro, os Anjos, o Dia do Juízo Final não têm equivalente. Usam-se símiles, mas estes dão, necessariamente, apenas uma idéia aproximada de algo distinto.
Na coleção dos seus ditos e ensinamentos intitulada Nele o que há nele (Fihi Ma Fihi), usada como manual pelos sufistas, Rumi vai ainda mais longe. A humanidade, afirma, passa por três estágios. No primeiro, adora qualquer coisa — homem, mulher, dinheiro, filhos, céu, pedras. Depois de progredir um pouco mais, adora a Deus. Finalmente, já não diz: “Adoro a Deus”, nem: “Não adoro a Deus”. Passou para o último estágio.
A fim de chegar ao Caminho do sufi, o Aspirante precisa compreender que é, em grande parte, um feixe de condicionamentos (como hoje são chamados) — idéias fixas e preconceitos, às vezes respostas automáticas ocorridas através do treinamento de outros. O homem não é tão livre quanto se julga. Ao dar o primeiro passo, o indivíduo deixa de pensar que compreende, e
realmente compreende. Mas ensinaram ao homem que ele pode compreender tudo pelo mesmo processo, o processo da lógica. Esse ensinamento minou-o.
“Se seguir os caminhos em que foi treinado, que pode ter herdado, por nenhuma outra razão além dessa, você será ilógico.”
A compreensão da religião e do que as grandes figuras religiosas ensinaram é parte do sufísmo. O sufismo usa a terminologia da religião comum, mas de um modo especial, que sempre excitou a cólera dos devotos nominais. Falando de um modo geral, cada professor religioso simboliza, para o sufi, em seu credo e de um modo especial em sua vida, um aspecto do caminho cuja totalidade é o sufismo. Jesus está dentro de você, diz Rumi; procure a sua ajuda. E não procure dentro de você, do seu Moisés, as necessidades de um faraó.
Rumi expõe o modo como diferentes caminhos religiosos estão simbolizados para o sufi quando diz que o caminho de Jesus era lutar contra a solidão e sobrepujar a sensualidade. O caminho de Maomé era viver na comunidade da humanidade comum. “Siga o caminho de Maomé”, diz ele, “mas, se não puder, siga o caminho cristão.” Rumi, aqui, não está convidando, de maneira alguma, seus ouvintes a abraçar uma ou outra religião. Está apontando para os caminhos em que o Aspirante pode realizar-se; mas realiza- se pela compreensão sufista do que são os caminhos de Jesus e Maomé.
De maneira semelhante, quando fala de Deus, o sufi não se refere à divindade no sentido em que a compreende o homem exercitado pelo teólogo. Essa divindade é aceita por alguns, os piedosos; rejeitada por outros, os ateus. Trata-se, porém, de uma rejeição ou de uma aceitação de algo apresentado por escolásticos e por sacerdotes. O Deus dos sufis não está envolvido nessa controvérsia; porque a divindade é uma questão de experiência pessoal para o sufi.
Nada disso quer dizer que o sufi tenta remover o exercício da faculdade raciocinante. Rumi explica que a razão é essencial; mas tem o seu lugar. Se
você quiser mandar fazer roupas, procurará um alfaiate. A razão lhe indicará o alfaiate que você deve procurar. Depois disso, contudo, a razão f icará à espera. Você terá de depositar plena confiança — fé — no alfaiate, certo de que ele fará o seu trabalho de forma correta. A lógica, diz o mestre, leva o paciente ao médico. Depois disso, ele fica inteiramente nas mãos do facultativo.
Mas ao materialista bem treinado, embora proclame que deseja ouvir o que o místico tem para dizer-lhe, não se pode dizer toda a verdade. Ele não acreditaria nela. A verdade não se baseia no materialismo nem tampouco na lógica. Daí que o místico trabalhe numa série de planos diferentes e o materialista apenas em um. Do contato entre eles, resultará que o sufi pode parecer até contraditório ao materialista. Se ele disse hoje alguma coisa que disse ontem de maneira diferente parecerá mentiroso. No mínimo, a situação de mal-entendido destruirá qualquer possibilidade de progresso no entendimento entre ambos.
“Aqueles que não compreendem uma coisa”, observa Rumi, “afirmam-na inútil. A mão e o instrumento são como a pederneira e o aço. Golpeia a pederneira com terra. O golpe produzirá uma centelha?” Uma das razões por que o místico não prega em público é que nem o homem religioso condicionado, nem o materialista, o compreenderão:
O falcão de um rei pousou numa ruína habitada por corujas. Estas concluíram que ele viera com o propósito de expulsá-las da sua casa e tomar posse dela. “Esta ruína pode parecer-lhes um sítio próspero. Para mim, o melhor lugar é o braço do rei”, disse o falcão. Algumas corujas gritaram:
“Não acreditem. Ele está trapaceando para roubar-nos a casa”.
O emprego de fábulas e ilustrações como esta é corrente entre os sufis; e Rumi é o melhor fabulista dentre todos os sufis.
O mestre apresenta amiúde o mesmo pensamento de muitas formas diferentes, a fim de fazê-lo penetrar na mente do discípulo. Dizem os sufis que uma idéia só entrará na mente velada (condicionada) se for expressa de modo
que possa contornar a tela dos condicionamentos. O fato de um não-sufi ter tão pouca coisa em comum com o sufi significa que aos sufis cumpre usar os elementos básicos existentes em todo ser humano e que não são destruídos de todo por nenhuma forma de condicionamento. E tais elementos são, precisamente, a base do desenvolvimento do sufi. Destes, o primeiro e permanente é o amor. O amor é o fator que levará o homem, e todo o gênero humano, à realização:
“O gênero humano tem uma carência, um desejo, e luta por realizá-lo mediante toda sorte de empreendimentos e ambições. Mas somente no amor encontra a realização”.
Mas o amor, por si mesmo, é um assunto sério, algo que caminha a par com a iluminação. Ambos crescem juntos. O fogo potencial da iluminação é poderoso demais para ser suportado de uma só vez.
“O calor de uma fornalha às vezes é tão grande que você não consegue tirar proveito do seu efeito aquecedor; ao passo que a chama mais fraca de uma lâmpada pode dar-lhe o calor de que você necessita”.
Todos nós, chegados a determinada fase de mera sofisticação pessoal, acreditamos poder encontrar sozinhos o caminho da iluminação. Isso é negado pelos sufis, que perguntam como pode alguém encontrar alguma coisa se não sabe o que é. “Todo mundo se transformou em garimpeiro”, diz Rumi, “mas o homem comum não conhece o ouro quando o vê. Se você não puder reconhecê-lo, junte-se a um conhecedor”.
Julgando estar no caminho da iluminação, o homem comum freqüentemente vê apenas um reflexo dela. A luz pode refletir-se num muro; o muro é o hospedeiro da luz. “Não se prenda ao tijolo do muro, mas procure o original eterno”.
“A água precisa de um intermediário, um vaso, entre ela e o lume para ser corretamente aquecida”.
Em primeiro lugar, não deve abandonar o trabalho nem deixar de viver no mundo. Não desista de trabalhar, recomenda Rumi; na verdade, “o tesouro que você procura deriva disso”. Essa é uma das razões por que todos os sufis precisam ter uma vocação construtiva. O trabalho, porém, não é apenas o labor costumeiro, nem mesmo a criatividade socialmente aceitável. Inclui a labuta consigo mesmo, a alquimia mediante a qual o homem se aperfeiçoa: “A lã, mercê da presença de um homem de conhecimento, transforma-se em tapete. A terra converte-se em palácio. A presença do homem espiritual cria uma transformação similar”.
O homem sábio é inicialmente o guia do Aspirante. O mais cedo possível, o professor dispensa o discípulo, que passa a ser seu próprio mestre na continuação do trabalho consigo mesmo. No sufismo, como em toda parte, os falsos mestres não têm sido escassos. De modo que os sufis se encontraram numa situação estranha: enquanto o falso professor parece autêntico (porque se esforça seriamente por parecer o que os discípulos querem que ele seja), o verdadeiro sufi nem sempre se parece com a idéia que o Aspirante inexperiente e não-discriminante faz de um sufi.
Adverte Rumi:
“Não julgue o sufi pelas aparências, meu amigo. Até quando, como criança, você continuará preferindo somente nozes e passas?”
O falso professor dará grande atenção às aparências e saberá fazer o Aspirante julgá-lo um grande homem, que o compreende, que tem grandes segredos a revelar. O sufi tem segredos, mas precisa fazê-los desenvolver-se dentro do discípulo. O sufismo é uma coisa que acontece a uma pessoa, não uma coisa dada a ela. O falso professor manterá seus seguidores em torno de si o tempo todo, não lhes dirá que estão recebendo um adestramento que acabará o mais cedo possível, de modo que eles mesmos possam saborear o próprio desenvolvimento e prosseguir como pessoas realizadas.
“Quando deixarão de adorar e amar o cântaro? Quando começarão a olhar para a água?” Externas são as coisas pelas quais as pessoas costumam formar opiniões. “Conheçam a diferença entre a cor do vinho e a cor do vidro”.
O sufi precisa seguir todas as rotinas do auto-desenvolvimento; de outro modo, a simples concentração numa delas provocará o desequilíbrio, que conduz à perda. A velocidade do desenvolvimento de pessoas diferentes varia. Algumas, diz Rumi, compreendem tudo pela simples leitura de uma linha. Outras, que estiveram realmente presentes a um acontecimento, sabem tudo a respeito dele. A capacidade de compreensão desenvolve-se com o progresso espiritual do indivíduo.
As meditações de Rumi incluem algumas idéias notáveis, detinadas a levar o Aspirante a compreender que está temporariamente fora de contato com a realidade completa, ainda que a vida comum pareça ser a totalidade da própria realidade. O que vemos, sentimos e experimentamos na vida comum, não realizada, de acordo com o pensamento sufista, apenas parte do grande todo. Há dimensões que só conseguimos alcançar com esforço. Como a porção submersa do iceberg, elas estão lá, embora despercebidas nas condições comuns. Também como o iceberg, são muito maiores do que poderíamos inferir de um estudo superficial.
Rumi emprega diversas analogias para explicá-lo. Uma das mais impressionantes é a sua teoria da ação. Existe, diz ele, uma coisa que é a ação abrangente, e existe também a ação individual. No mundo comum dos sentidos, estamos acostumados a ver apenas a ação individual. Suponhamos que certo número de pessoas esteja fazendo uma tenda. Algumas costuram, outras preparam as cordas, outras tecem. Todas estão tomando parte na ação coletiva, ainda que cada qual esteja absorta em sua ação individual. Se estivermos pensando na feitura da tenda, o importante é a ação coletiva do grupo inteiro.
Em certas direções, diz o sufi, a vida precisa ser encarada, ao mesmo tempo, como um todo e também individualmente. Esse afinar-se com o plano
todo, a ação abrangente da vida, é essencial à iluminação.
Pouco a pouco, à proporção que suas experiências aumentam, o sufi principia a reformar seu pensamento ao longo dessas linhas. Antes de ter uma experiência real de misticismo, ele ou era um escarnecedor, descompromissado, ou tinha uma idéia completamente ilusória da experiência e, sobretudo, do professor e do caminho. Rumi lhe ministra meditações destinadas a superar o superdesenvolvimento de certas idéias, correntes entre os não-instruídos. O homem espera que lhe dêem uma chave de ouro. Mas alguns se desenvolvem mais depressa do que os outros. O homem que viaja através da escuridão ainda está viajando. O discípulo aprende quando não sabe que está aprendendo e, em resultado disso, pode impacientar-se. No inverno, recorda-lhe Rumi, a árvore armazena alimento. As pessoas podem pensar que ela está ociosa, porque nada vêem acontecer. Na primavera, porém, avistam os renovos. Agora, pensam, ela está trabalhando. Há um tempo para armazenar assim como há um tempo para liberar. Isto nos traz de volta ao ensino: “A iluminação precisa vir pouco a pouco — para não nos angustiar”.
Os instrumentos da escolástica, parcamente utilizados pelos sufis, estão sendo substituídos pelo treinamento esotérico, que tem de ser feito de acordo com a capacidade do estudante. Os instrumentos do ourives, observa o nosso professor, nas mãos do sapateiro são como sementes semeadas na areia. E os instrumentos do remendão nas mãos do lavra-dor são como palha oferecida a um cachorro, ou ossos oferecidos a um burro.
A atitude para com as convenções comuns da vida passa por um exame. A