“Quem dorme na Estrada perde o chapéu ou a cabeça.” Nizami, Tesouro de mistérios.
O Gulistan (“jardim das rosas”) e o Bustan (“pomar”) de Saadi de Chiraz (1184-1291) são dois clássicos do sufismo que ministram a base moral e ética da leitura de milhões de pessoas, na Índia, Pérsia, no Paquistão, Afeganistão e na Ásia central. Saadi foi, por diversas vezes, dervixe ambulante, capturado pelos cruzados, obrigado a cavar fossos e depois resgatado; visitou os centros do saber do Oriente e escreveu poesia e literatura ainda não ultrapassadas. Educado em Bagdá, no grande colégio fundado por Nizão, amigo de Khayyam e ministro da corte do xá, afiliou-se à Ordem Naqshbandi dos sufis e manteve íntima associação com o xeque Shahabudin Suhrawardi, fundador da Escola Suhrawardi, e também com Najmuddin Kubra, o “Pilar do Século”, um dos maiores sufis de todos os tempos.
A influência de Saadi sobre a literatura européia é reconhecidamente considerável. Ele pertence ao grupo cujos escritos emprestaram substância ao Gesta romanorum, livro do qual se originaram inúmeras lendas e alegorias ocidentais.Eruditos observaram muitas influências de Saadi na literatura, como, por exemplo, na da Alemanha. Encontraram-se traduções de suas obras no
Ocidente, pela primeira século XVII. Como a maior parte das outras obras sufistas, entretanto, o sentido espiritual de Saadi é escassamente conhecido através dos seus intérpretes literários. Um comentário típico, feito por um comentador recente, mostra-o com clareza. É menos uma opinião sobre Saadi do que uma indicação do espírito do autor: “É muito para duvidar que ele fosse um sufi por temperamento. Nele, o didata suplanta o místico”.
Na verdade, os contos instrutivos, as rimas, as analogias espirituais empregadas por Saadi são multifuncionais.No nível comum contribuem, de fato, para a estabilização usual da ética. Mas o professor Cofrington, praticamente o único entre os comentadores ocidentais, enxerga-o de maneira mais profunda:
“A alegoria no Gulistan é peculiar aos sufis. Não podendo confiar seus segredos aos que não estão preparados para os receber ou interpretar corretamente, estes últimos criaram uma terminologia especial para transmiti- los aos iniciados. Quando não existem palavras para comunicar tais pensamentos, utilizam-se de expressões especiais ou alegorias”.
Não é só no Ocidente que as pessoas esperam que os conhecimentos esotéricos lhes sejam oferecidos numa bandeja. O próprio Saadi o assinala numa das suas histórias.
Ele viajava com alguns companheiros devotos na direção do Hejaz, na Arábia. Perto do oásis de Beni Hilal, um menino se pôs a cantar de tal maneira que o camelo de um detrator do misticismo começou a dançar e, depois, saiu correndo para o deserto. “Fiz o seguinte comentário”, diz o xeque: “‘O senhor não se deixa comover, meu amigo, mas a canção mexeu até com um animal’.”( 1 )
Os seus ensinamentos acerca do exame de consciência não se referem apenas à necessidade comum de praticar o que se prega. No Caminho do sufi é preciso que haja algum exame de consciência. Isso ocorre numa fase anterior àquela em que se podem compreender as admoestações do professor. “Se você
não se reprovar”, diz Saadi, “não receberá bem as reprovações alheias.”
Tal é a persistência da exaltação mecânica da vida solitária que um candidato aos estudos sufistas precisa ser informado primeiro do local do retiro. “É melhor viver constrangido na presença de amigos do que com estranhos num jardim”, observa ele. Só em certas circunstâncias se faz mister o alheamento do mundo. Anacoretas, que nada mais são do que profissionais obsessivos,deram a impressão de que o deserto ou as montanhas são os lugares em que o místico precisa passar toda a vida. Eles tomaram um fio pelo tapete.
A importância do tempo e do lugar nos exercícios sufistas é outra questão que Saadi acentua. Os intelectuais comuns não acreditarão que o pensamento varia em qualidade e efetividade de acordo com as circunstâncias. Planejarão um encontro para certo lugar e hora, encetarão uma conversação acadêmica e a manterão em quaisquer circunstâncias, insensíveis à noção sufista de que apenas “às vezes”, de acordo com o sufi, pode a mente humana escapar à máquina dentro da qual revolve.
Esse princípio, familiar na vida cotidiana através do dito “Há um momento e um lugar para tudo”, é posto em destaque pelo Gulistan de modo típico. O conto 36 do capítulo sobre as maneiras dos dervixes parece um simples exercício de instrução moral ou etiqueta. Exposto na atmosfera sufista, revela novas dimensões.
Um dervixe entrou em casa de um homem generoso, e ali encontrou uma assembléia de literatos. Havia uma troca constante de ditos jocosos e o ar se adensara com os resultados do exercício intelectual. Alguém o convidou para contribuir.
— Vocês terão de aceitar de um intelecto menor apenas um dístico — disse o dervixe.
Os circunstantes imploraram-lhe que falasse.
das mulheres, enfrento a mesa, faminto de comida.”
Os dois versos acima significam não só que aquele era o momento de comer e não de falar; mas também que a tagarelice intelectual é apenas um cenário para o verdadeiro entendimento.
Segundo reza a história, o dono da casa apressou-se a dizer que logo, logo seriam servidos bolinhos de carne.
— Para quem está morrendo à míngua — replicou o dervixe — o pão simples já é bolinho de carne suficiente.
Os que ardem por aprender sem saber que não estão preparados, em seu estado primitivo, para assimilar o sufismo, são, não raro, repreendidos pelo Gulistan, em histórias e poesia. “Como pode o adormecido despertar o adormecido ” pergunta Saadi numa expressão sufista familiar. Conquanto possa ser verdade que as ações de um homem devem harmonizar-se com suas palavras, é também muito verdadeiro que o próprio observador precisa estar em condições de avaliar essas ações. “Uma conferência dos doutos é como um bazar de algibebes. Deste último lugar não poderemos levar nada sem pagar com dinheiro. Daquele, só poderemos carregar o que formos capazes.”( 2 )
O egoísmo do candidato a discípulo ao buscar o próprio desenvolvimento e os próprios interesses é outro assunto realçado entre os sufis. Será forçoso alcançar um equilíbrio entre o desejar alguma coisa para si e o desejá-la para a comunidade também. O elo entre os sufis e os Irmãos da Sinceridade, escassamente notado pelos observadores de fora, é posto em relevo na seção de Saadi consagrada ao problema. Os Irmãos eram uma sociedade de sábios que preparavam resenhas de conhecimentos disponíveis e as publicavam anonimamente, em favor da educação, sem visar, com isso, aumentar a própria reputação. Por formarem eles uma sociedade secreta, pouco se sabia a seu respeito; e por estar a “sinceridade” associada aos sufis, os professores sufistas eram amiúde interrogados a respeito deles. Saadi dá esta
lição sobre os Irmãos misteriosos no conto número 43:
Interrogado acerca dos Irmãos da Sinceridade, um sábio respondeu: “Até o menor dentre eles honra, acima dos seus, os desejos dos companheiros. Como diz o sábio: ‘O homem que só se preocupa consigo mesmo não é irmão nem parente’".
O lugar conquistado pelo Gulistan como livro de edificação moral dado invariavelmente aos jovens alfabetizados acabou estabelecendo um potencial sufista básico na mente dos leitores. Saadi é lido e apreciado, em virtude dos seus pensamentos, dos seus poemas, do valor recreativo dos seus livros. Anos depois, quando se afilia a uma escola de ensino sufista, as dimensões internas dos contos podem ser reveladas ao estudante, que tem assim alguma coisa sobre a qual construir. Esse material preparatório quase não existe em outras culturas.
Os segredos revelados prematuramente — e há alguns no sufismo que podem ser de fato comunicados sem o conjunto dos ensinamentos — talvez causem mais prejuízos do que benefícios. A não ser que esteja preparado, o receptor pode abusar do poder guardado pelos sufis. É o que Saadi explica numa história que pouco mais é do que a ampliação do provérbio cediço:
Um homem, que tinha uma filha feia, casou-a com um cego, porque ninguém mais a queria. Um médico ofereceu-se para restaurar a visão do cego. O pai, todavia, não o permitiu, receoso de que o cego, recuperado, se divorciasse da filha dele.
“O marido de uma mulher feia”, concluiu Saadi, “é melhor que seja cego.”
A generosidade e a liberalidade são dois fatores importantes que, aplicados enérgica e corretamente, ajudam a preparar o candidato para o sufismo. Quando se diz: “Nada se consegue de graça”, subentende-se muito mais do que se diz. A maneira de dar, a coisa dada, o efeito da doação sobre o indivíduo — são os fatores que determinam o progresso do sufi. Existe uma
vigorosa ligação entre o conceito de persistência e bravura e o de liberalidade. O discípulo comum é conhecido em outros sistemas, em que a compreensão interior do mecanismo do progresso está em desordem, refletirá em termos de luta. Nada se consegue sem luta, pensa ele; e é estimulado a pensar desse jeito.
Saadi, contudo, localiza com precisão o problema num dos seus menores aforismos. Uma pessoa, diz ele, foi à procura de um sábio e perguntou-lhe se era melhor ser valoroso ou liberal. Respondeu o sábio: “Quem é liberal não precisa ser valoroso”. Este é um aspecto muito importante do treinamento sufista. Notar-se-á também que a forma em que se expressa o ensinamento proporciona a Saadi a possibilidade extra de assinalar (pela boca do sábio) que as perguntas formuladas de certo modo não precisam ser necessariamente respondidas desse modo.
No capítulo das vantagens do contentamento, Saadi esconde ensinamentos sufistas em várias histórias que visam, aparentemente, aos que não exercitam a etiqueta correta. Certo número de dervixes, reduzidos a morrer de fome, queriam aceitar comida de um homem mau, mas conhecido por sua liberalidade. O próprio Saadi os adverte, num poema famoso:
“O leão não come as sobras do cão Ainda que morra de fome em sua cova. Obriguem o corpo a afazer-se à fome: Não implorem favores dos vis”.
O modo e a posição com que se narra essa história mostra aos sufis que Saadi acautela o dervixe contra seguir qualquer credo atraente que não seja o seu, enquanto estiver num período de provação decorrente de sua dedicação ao sufismo.
O verdadeiro sufi tem em si algo cujo valor não pode ser diminuído pela associação com homens inferiores. Saadi tornou esse tema muito atraente num
dos seus elegantes contos morais, que mostra onde reside a verdadeira dignidade:
Um rei estava caçando no ermo em companhia de alguns cortesãos. Como começasse a fazer muito frio, ele anunciou que todos dormiriam no casebre de um camponês até a manhã seguinte. Os cortesãos insistiram em que a dignidade do monarca sairia ferida se ele entrasse num lugar como aquele. Disse, todavia, o camponês: “Sua Majestade nada perderá; mas eu ganharei em dignidade por ser honrado dessa forma”. O camponês recebeu um manto de honra.
Notas:
( 1 ) Este e outros excertos são da tradução de Aga Omar Ali Shah (MS).
( 2 ) "Muitos homens ‘doutos’ são destruídos pela ignorância e pelo saber que não lhes aproveita.” (Hadrat Ahmed ibn Mahsud, o sufi.)