• Nenhum resultado encontrado

PARTE I-COMUNICAÇÃO, JORNALISMO, NOTÍCIA E

Capítulo 3 – Mulher na imprensa

4.5 Notícia e acontecimento

Podemos compreender o acontecimento como a realização de algo, ainda exterior ao texto, ao mundo discursivo. Trata-se de um fato ainda não narrativizado, ainda não contado. Lembramos o slogan da extinta revista Manchete21 que afirmava:

“Aconteceu, virou Manchete”. O trocadilho do nome do elemento noticioso manchete,

com o nome da emissora faz-nos perceber de forma clara a relação que há entre aquilo que acontece (fato) e a sua transformação em notícia (manchete), neste caso feita pela Rede Manchete. Desse modo, vemos que o episódio contado pela mídia transforma-se em notícia. Pontes e Silva (2010) afirmam que “o jornalismo coloca-se como mediador que possui a tarefa de trazer esse acontecimento exterior para a interioridade do texto”,

21 A revista Manchetefoi lançada em 26 de abril 1952, pela Bloch editora e permaneceu até o ano 2000.

Informações disponíveis em: http://tvbrasil.ebc.com.br/delapraca/episodio/revista-manchete, acesso em 28 de julho de 2015.

ou seja, a imprensa responsabiliza-se por construir o discurso daquilo que é noticiável. Sendo assim, os critérios utilizados pela instância de produção para definir o que é notícia são responsáveis por balizar as publicizações de acontecimentos cotidianos.

Discursivamente, compreendemos conforme Monnerat que

(...) toda significação veiculada pela língua decorre de modos de organizar nosso conhecimento sobre o mundo em categorias culturalmente estáveis e socialmente relevantes integradas em sistemas simbólicos, ou seja, a palavra com que comunicamos nossas percepções não é um espelho fiel do mundo, mas uma representação dele (MONNERAT, 2010, p.247).

Ao tratarmos as produções jornalísticas, tal afirmação encontra maior significação, uma vez que toda a narrativa jornalística baseia-se na narração do fato a partir de sua observação feita por uma testemunha, um contador, para usar os termos de Charaudeau, referente ao modo de organização narrativo. Sob o mesmo viés, Sousa (2012, p.25) afirma que os acontecimentos “são transformados em notícias pelo sistema

jornalístico”. Assim, os jornalistas processam as informações a respeito do episódio

para gerarem as notícias. Surge aqui uma discussão interessante: até que ponto vai a fidelidade do profissional para narrar com precisão os eventos ocorridos? Ou ainda: é possível construir um discurso que seja exclusivamente fiel ao episódio ocorrido? Como tratamos da perspectiva da verossimilhança anteriormente, pensamos ser tarefa difícil construir um discurso real e isento, por isso a notícia assume seu caráter verossímil, por aproximar-se da realidade, mas não ser a realidade plena.

É importante ressaltar que não há um consenso entre os pesquisadores da comunicação no que diz respeito a definição do termo acontecimento. Há duas perspectivas distintas para a compreensão do acontecimento: uma que considera acontecimento como tudo aquilo que ocorre no mundo real, mesmo sem ser discursivizado e outra que remete àquele fato que foge do comum, que extrapola o esperado e transforma-se, portanto, em um acontecimento.

Para Charaudeau o acontecimento só existe quando é nomeado. “O

acontecimento não significa em si. O acontecimento só significa enquanto

acontecimento em um discurso” (CHARAUDEAU, 2007, p.132). Soma-se a esse pensamento, a perspectiva de Benetti, ao afirmar que “o fenômeno precisa ser inscrito

em um regime discursivo para que passe a ter existência como acontecimento” (BENETTI, 2010, p. 148).

Sendo assim, ao aceitarmos a diferenciação do acontecimento, optamos por nomear como acontecimento jornalístico aquele fenômeno do mundo real que é

“elevado” ao caráter de notícia, ou seja, tem importância social e midiática para ser noticiado. Para Benetti, “o acontecimento jornalístico geralmente se define a partir de

uma concepção positiva ou funcional da história: o excepcional em relação ao comum, o

desvio em relação à norma” (BENETTI, 2010, p.145).

Somamos nossos pensamentos também aos de Rodrigues (1988), ao afirmar que o acontecimento jornalístico refere-se ao “acontecimento de natureza especial,

distinguindo-se do número indeterminável de acontecimentos possíveis em função de

uma classificação ou de uma ordem ditadas pelas leis das probabilidades, sendo

inversamente proporcional à probabilidade de ocorrência” (RODRIGUES, 1988, p.27).

Sendo assim, quanto mais inusitado o fenômeno, maior a capacidade de tornar-se notícia, de ser reconhecido como acontecimento.

De forma mais completa, Leal et al. (2012) fazem uma reflexão a respeito da notícia como transformação do fenômeno real em construção discursiva:

Sendo uma ‘sombra projetada’ pelo conceito de fato, o acontecimento

constitui uma espécie de resíduo do saber jornalístico, algo que se infere a partir de sua transformação em narrativa noticiosa. Em outras palavras, o acontecimento é tanto anterior como posterior à ação jornalística, que se constitui, então, como um ator social mas no processo de disseminação – leitura, conformação e produção – dos eventos e não só como momento último de um ocorrido linear e finito. Dessa maneira e por outro lado, a separação entre sujeito e objeto, tão cara à visão do jornalismo como espelho do real, se esvanece, pois o acontecimento é tanto o material de trabalho do jornalista como o produto do fazer. O acontecimento não é um dado, sim um construto histórico social dinâmico e instável. (LEAL et al., 2102, p.388) 22.

22 Nossa tradução de: “Siendo una “sombra proyectada” por el concepto de hecho, el acontecimiento

constituye una espécie de residuo del saber periodístico, algo que se infiere a partir de su transformación em narrativa noticiosa. En otras palabras, el acontecimiento es tanto anterior como posterior a la acción periodística, que se constituye, entonces, como un actor social más en el proceso de diseminación - lectura, conformación y producción- de los eventos y no sólo como el momento último de un recorrido linear y finito. De esa manera y por otro lado, la separación entre sujeto y objeto, tan cara a la visión del periodismo como “espejo del real”, se evanece, pues el acontecimiento es tanto el material de trabajo del periodista como el producto de su hacer. El acontecimiento no es un dato, sino um constructo histórico- social dinámico e inestable” (LEAL et al., 2012, p.388)

A compreensão do acontecimento como construção sócio histórica é bastante rica no sentido de apontar o modo como o sujeito percebe o mundo e o relata, através da perspectiva discursiva. Ao tratarmos a figura do jornalista como observador e testemunha dos fenômenos observados, verificamos a sua subordinação às instâncias hierárquicas de produção da notícia. Portanto, como já discutimos anteriormente, os critérios definidores da construção histórica do produto noticioso relacionam-se a valores pessoais, mas muito mais a valores coletivos institucionalizados pela mídia.

Enquanto construção da realidade, a notícia é capaz de assumir seu caráter histórico, ainda que a partir de um olhar enviesado do jornalista ou da instância midiática. Os fatos adquirem importância como fatos sociais, uma vez que eles passam a existir como registros e tornam-se válidos e reais para produtores e receptores daquela informação jornalística. Sendo assim, a relevância de determinado fato social poderá ser maior para um grupo na mídia e menor para outro, dados os crivos jornalísticos que cada um assume para si.

Outra forma pertinente de compreender o acontecimento é a partir do seu grau de afetamento, ou seja, observar/analisar como as pessoas são tocadas/afetadas por aquela publicação tornada acontecimento.

Na medida em que afeta os sujeitos que a ele se expõem, o acontecimento assume dimensão de teste: ele emerge como uma prova da qual não saem intactos aqueles que a ele se submetem. Ao se processar, o acontecimento coloca em causa a própria identidade dos sujeitos, que constroem-se e compreendem-se à luz das revelações que

ele traz à baila” (FRANÇA & ALMEIDA, 2008, p.6).

Sob esse prisma, verificamos que o acontecimento interfere na dinâmica social, apresenta a perspectiva do inédito e desencadeia ações e reações na sociedade em função de sua repercussão e do nível de envolvimento e recepção do destinatário com tal publicação chamada acontecimento.

Baroni e Aguiar acrescentam um viés interessante à perspectiva do acontecimento. Para eles, “Fato, em latim factum, é particípio passado; desse modo, o

fato é o acontecido. O acontecimento permanece no agora” (BARONI & AGUIAR,

2009, p.139). Sob esse ponto de vista, atribuímos ao acontecimento a capacidade de permanência, de continuidade, uma vez que ele pode ser desmembrado em outras recorrências, a partir do ponto inicial, do fato relatado. No jornalismo, esse

desmembramento dos fatos é conhecido como retranca, quando há a possibilidade de abordar outras perspectivas a partir do fato inicial, diante dos acréscimos e das novidades descobertas no processo de produção da notícia.

Nesta mesma linha, David-Silva compreende o acontecimento como construção posterior ao fato acontecido. Para ela,

[...] o acontecimento [é] algo que se encontra no passado, já que, mesmo que presenciemos o momento exato de sua ocorrência, enquanto ocorrência, ele ainda não é um acontecimento, não podemos apreender nesse momento toda a sua dimensão. Apenas a posteriori, por um processo de redução de sua complexidade e indeterminação, é que poderemos descrevê-lo e torná-lo inteligível. (DAVID-SILVA, 2007, p.2).

Assim, compreende-se que o acontecimento abre espaço não só para a construção estratégica da linguagem, à medida que se dá à posteriori do fato, como também para a exposição do modo de ver o mundo da instância produtiva.

Em seus estudos sobre acontecimento e celebridades, Simões (2012) descreve as diversas perspectivas a respeito do termo acontecimento, sustentadas por pesquisadores

com distintos pontos de vista. Para a autora, “os acontecimentos irrompem na

experiência dos sujeitos e são descritos e narrados a partir de outras narrativas que os re- configuram – incluindo aqui as narrativas midiáticas” (SIMÕES, 2012, p.24). E ainda,

interpretando Queré, Simões defende que “o acontecimento não se reduz, assim, à ideia

de fato, já que não pode ser datado, reduzido à sua efetuação espaço-temporal e submetido à lógica da causalidade” (SIMÕES, 2012, p.22). Esse entendimento contribui, portanto, para estabelecermos o relacionamento entre o acontecimento narrado e a experiência do destinatário diante dele. As associações e avaliações (diretas ou indiretas) feitas pelo público contribuem para a construção do acontecimento, para o aumento de sua repercussão social e, consequentemente, para a sua validação enquanto acontecimento jornalístico e não como um simples fato (cotidiano).

4.6 Considerações finais do capítulo

As discussões em torno da história do jornalismo e das concepções de notícia e acontecimento são importantes para o desenvolvimento desta pesquisa, uma vez que oferecem subsídios para compreendermos a forma como as notícias são construídas e de que maneira elas evidenciam a visão de mundo das instâncias de produção noticiosa.

Foi o que tentamos mostrar neste capítulo e nesta primeira parte da tese. Na segunda parte desta pesquisa, dedicar-nos-emos à discussão sobre as identidades e representações para, a posteriori, enveredarmos para a reflexão e análise da identidade e representação da mulher na imprensa feminista (escrita).

PARTE II – MULHER(ES) E SUAS IMAGENS ATRAVÉS