Introdução ao Comentário do 6º Capítulo de Hebreus
Como no dizer do apóstolo Pedro, nenhuma Escritura é de particular interpretação, devemos ter o cuidado de observar este princípio geral sempre que nos dedicarmos a interpretar textos considerados de difícil entendimento, de modo a não fazer inferências que venhamos a torcer ou mesmo a negar outras partes da revelação que sejam claramente e facilmente interpretadas quanto à fixação da doutrina que elas contêm.
Especialmente, os versos 4 a 7 deste sexto capítulo de Hebreus, devem receber redobrada atenção em sua interpretação, para que não se julgue precipitadamente que o assunto em tela se refere a uma possível perda de salvação por crentes genuínos que foram justificados e regenerados (nascidos de novo), como alguns costumam fazer ao se dedicarem à interpretação da citada passagem bíblica.
Convém destacar que neste mesmo sexto capítulo de Hebreus, afirma-se a segurança eterna da nossa salvação por Jesus Cristo, pela imutabilidade do propósito de Deus, da sua
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promessa e juramento, fundados na imutabilidade da sua própria pessoa divina, na fixação do seu conselho eterno quanto a que teria um povo formado pela união com Jesus Cristo, que jamais se separaria dele.
É com esta verdade central em vista, que permeia toda a Bíblia, quanto à aliança da graça, que opera por meio da fé, e não por obras, quanto à nossa eleição, justificação e regeneração, e pela qual também são garantidas a nossa própria santificação e glorificação, para a plena aceitação por Deus na condição de filhos amados, sendo as boas obras tão somente a consequência e evidência desta plenitude de aceitação que é segundo a graça livre de Deus, e tão somente mediante a fé.
Evidentemente, o autor de Hebreus não poderia estar se referindo a verdadeiros crentes justificados e regenerados por meio da fé em Jesus Cristo, quando afirma a impossibilidade de renovação dos que caíram (convém saber a que tipo de queda e de renovação se referia, e isto será feito ao longo deste livro), uma vez que isto contrariaria a verdade da segurança eterna da salvação de crentes genuínos conforme expressada em tantas passagens bíblicas. Dessa forma, suas palavras não podem ser entendidas sequer sob a forma de alerta a crentes genuínos
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quanto à possibilidade de uma queda final com perda da sua salvação, mas, como vinha fazendo ao longo de toda a epístola um alerta sobre a necessidade de uma fé salvadora e genuína para a entrada no descanso de Deus, e conforme continuaria a afirmar tal necessidade de fé até o fim da epístola, é sem sombra de dúvida um alerta à necessidade da confirmação de uma real eleição por parte daqueles que afirmavam ser professantes da fé cristã, e que no entanto não apresentavam sinais e frutos evidentes da sua genuína salvação.
Até hoje, e desde a Igreja Primitiva, não poucos fazem uma profissão do evangelho, se tornam participantes de muitas manifestações de uma religiosidade externa nominal, sem que no entanto, tenham experimentado uma verdadeira regeneração do Espírito Santo.
Apoiando-se em exterioridades religiosas, não chegam a serem participantes da aliança da graça pela qual suas naturezas seriam transformadas. Esta participação da graça salvadora e transformadora é a principal parte das coisas melhores e relativas à salvação a que o autor de Hebreus se refere. Os apóstatas por ele citados neste início do sexto capítulo são os mesmos citados pelo apóstolo Pedro quando diz que o cão voltou ao seu vômito e a porca lavada ao lamaçal. Eles nunca foram genuínas ovelhas
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de Cristo, senão cães e porcos que acabaram por revelar em seu afastamento da comunhão dos santos, que não tiveram de fato suas naturezas renovadas e transformadas. São os mesmos citados pelo apóstolo João como sendo os que abandonam a comunhão dos santos porque nunca foram de fato um deles. Então, este é um alerta à igreja, não somente por parte do autor de Hebreus, quanto ao fato de que pessoas como Judas, Himeneu e Fileto, Demas e muitos outros, transitam entre os crentes, com dons sobrenaturais do Espírito Santo, e operando muitos sinais em nome de Cristo, sem que no entanto, nunca tenham nascido de novo do Espírito Santo, e assim, não foram participantes da salvação verdadeira. Quando a hipocrisia deles é manifestada a todos, eles ficam de fato sem condição de permanecerem enganando como vinham fazendo até então, e é nisto que consiste a impossibilidade de renovarem a profissão de fé que haviam feito inicialmente, pois uma vez desmascarados, não serão mais aceitos pela Igreja. Isto é totalmente diferente de crentes genuínos que se desviam por causa de cederem ao pecado, e que podem voltar a serem restaurados por meio da confissão e do arrependimento, conforme a norma de Cristo, para a reconciliação à comunhão daqueles que haviam se afastado dela. A queda dos apóstatas apontada pelo autor de Hebreus é de outra
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natureza, a saber, da profissão que haviam feito, retornando ao velho modo impiedoso de vida, uma vez tendo caído a máscara religiosa que usavam até então. Estes apóstatas estiveram sob a ministração da palavra do evangelho, mas a graça que acompanhava a pregação e que caía como chuva abençoada de Deus sobre a igreja, nunca penetrou seus corações, e assim, permaneceram em sua antiga condição de infertilidade e dureza, ficando ainda sujeitos à maldição de Deus, e não à Sua bênção.
Assim, ao analisarmos o texto de Hebreus 6.4-7, devemos ter diante de nós, como pano de fundo, uma visão geral de toda a epístola, sobretudo quanto ao seu tema central, que é justamente o da afirmação da salvação pela aliança da graça contida na nova aliança inaugurada no sangue de Jesus, e não pela aliança da lei ou das obras.
São variadas as passagens nesta epístola que revelam a necessidade exclusiva da fé para se entrar no descanso de Deus, ou seja, para aceitação e comunhão com ele, como afirmado especialmente nos capítulos 3 e 4; da confiança plena no sacrifício e sacerdócio de Jesus para sermos salvos, e não nos sacerdotes e sacrifícios que tipificavam o de Cristo, na lei.
É afirmado que estamos perfeitos em Cristo, para sempre, quanto ao propósito de Deus de
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nos perdoar e salvar eternamente, e que as correções e disciplina a que somos submetidos para a nossa santificação são os atos de um pai amoroso, e não a rejeição de bastardos, que a propósito, por este motivo, não são disciplinados.
É a fé que foca somente em Jesus, aquela fé salvadora que conduz à conversão real, e não fé em Moisés, anjos, nos próprios meios de graça, como a oração, o jejum, a meditação da Palavra, e muito menos nos utensílios e serviços sagrados do templo do Velho Testamento, que nos salva.
Somos exortados a nos aproximarmos do Monte Sião, onde Jesus morreu por nós, e não do Monte Sinai, para encontrarmos a entrada no descanso eterno de Deus, e isto faremos se focarmos a nossa fé somente em nosso Senhor Jesus Cristo, e em ninguém, e em nada mais.
Como a salvação é eterna e aponta para aquela perfeição espiritual plena que os crentes terão em Jesus Cristo no porvir, então nada é mais lógico e necessário que se espere deles que façam progresso rumo a esta perfeição espiritual, aumentando cada vez mais em graus de santificação. Foi para atender a este propósito divino, que foi fixado antes mesmo da
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fundação do mundo, que foram salvos por Jesus Cristo, de modo que permanecer nos rudimentos elementares da fé, sem fazer progresso espiritual em santidade, é caminhar na contramão daquilo que Deus projetou para todos os seus filhos.
Aqueles que permanecerem em sua impiedade, e que não se converterem a Cristo, serão condenados eternamente, porque em si mesmos frustram todos os elevados propósitos que Deus estabeleceu para serem alcançados pela humanidade. E se a falta da devida consideração a este propósito leva os ímpios a um sofrimento eterno que jamais cessará, quanto deveriam todos os crentes dar a devida consideração e se empenharem para serem achados em santo procedimento e piedade, buscando em tudo, viverem para o inteiro agrado de Deus, uma vez que já não serão mais condenados eternamente por terem a Cristo como Fiador da sua salvação, e que não somente os livrou da culpa do pecado em Sua morte na cruz, como também lhes dotou com a Sua própria justiça, que lhes foi imputada na justificação, e que está sendo implantada pelo Espírito Santo no trabalho de regeneração e santificação. É proposto por Deus a todos os seus filhos que cresçam até a plena maturidade à semelhança de nosso Senhor Jesus Cristo.
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Disto decorre que a nossa salvação deve ser desenvolvida com temor e tremor diante de Deus, que é um fogo consumidor para o pecado em todas as suas formas. O fato de esta salvação ser segura e eterna não deve portanto, ser jamais um motivo para nos tornarmos negligentes, descansando naquilo que já temos alcançado, pois os que assim procedem ficam sujeitos a correções dolorosas da parte de Deus, pois não se proveu de filhos para que estes vivam de forma negligente e fazendo concessões ao pecado.
A epístola é uma advertência tanto para crentes genuínos quanto para crentes nominais, nas igrejas, a não serem negligentes com a graça que está somente em Jesus Cristo, pois quando isto acontece incorre-se automaticamente no desagrado de Deus que tem dado toda a honra, glória e poder a seu Filho Unigênito, de modo que aquele que não honrar o Filho não honrará o Pai. Justos aos olhos de Deus são apenas aqueles que vivem pela fé, de modo que todos aqueles que recuam deste modo de vida, não podem de modo algum agradá-lo, e Sua alma não tem prazer neles.
Quando se abandona o primeiro amor, que consiste na plena aceitação e comunhão com o próprio Cristo, o resultado é o que se vê nos
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capítulos 2 e 3 do livro de Apocalipse, nas cartas dirigidas pelo Senhor às sete igrejas, onde há sérias repreensões da Sua parte contra aqueles que estavam vivendo de modo desordenado e sem fazer progresso na piedade e na santificação. Havia inclusive crentes verdadeiros que estavam como que morrendo espiritualmente em Sardes (ainda que sem perderem a salvação); aqueles que haviam ficado cegos, pobres, nus e miseráveis, espiritualmente, como os de Laodiceia, que não estavam usando as vestes brancas de Jesus, o colírio e o ouro da graça para verem e serem enriquecidos pela santificação que está somente nEle, e estes e outros que foram chamados ao arrependimento e retorno às primeiras obras, de forma a viverem de modo digno da sua vocação.
Quando os crentes edificam suas vidas de modo irregular sobre o fundamento em que se encontram, que é o próprio Cristo, eles usam materiais perecíveis como restolho, feno e madeira, que não resistem ao fogo da provação de Deus, de maneira que ainda que sejam salvos, apesar de terem suas obras reprovadas, o são como que pelo fogo, e sofrendo danos, pois tendo sido feitos filhos de Deus, por meio da fé em Cristo, jamais perderão esta condição,
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embora sejam distinguidos de forma negativa por conta de seu viver infiel.
Assim, não foi o propósito do autor de Hebreus, apenas alertar contra a existência de apóstatas que são hipócritas que transitam nas igrejas e que jamais foram justificados e regenerados pela graça de Deus, mas também, alertar os crentes genuínos quanto à necessidade de prosseguir crescendo na graça e no conhecimento de Jesus, assim como fomos salvos por Ele, mediante a mesma graça, no início de nossa carreira cristã.