Capítulo II: Industrialização tardia
Capítulo 3: Heterogeneidade estrutural e subemprego
3.2 Dinâmica do mercado de trabalho
3.2.1 Nota metodológica
Para captar a evolução da heterogeneidade estrutural, buscamos apreender estatisticamente o subemprego no período 1980-2010, para o que foram utilizados os censos demográficos de 1980, 1991, 2000 e 2010. Para identificar o subemprego, são necessários dois procedimentos: identificar os subsetores modernos e os arcaicos e, posteriormente, distinguir o subemprego do emprego.
O primeiro passo é selecionar os ramos de atividade202 que serão classificados como parte do setor moderno e aqueles que o serão como parte do setor atrasado. Dentro de cada setor e
201 Para uma análise pormenorizada de todos os critérios e cuidados necessários ao cálculo do subemprego, ver
Portugal Jr. (1998, p. 56-96; 2012, p. 350-373; 398-412).
202 É necessário levar em conta que muitas das ocupações que nos anos de 1980, 1991 e 2000 se encontravam nas
estatísticas do setor secundário, no ano de 2010, são identificadas como ocupações do setor terciário. Essa novidade, por sua vez, decorre do fato de que muitos empregados antes contratados por grandes empresas que atuam na
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subsetor serão observadas as respectivas participações do subemprego, que é calculado a partir de um critério baseado na renda pessoal do trabalho principal. Este, por sua vez, é utilizado como indicador da produtividade do trabalho.
Enquanto no setor primário não há separação entre as atividades que seriam arcaicas e aquelas que seriam modernas, o setor terciário e alguns ramos do setor secundário – mais especificamente, a indústria de transformação – recebem um tratamento mais distinto.
No setor primário, agrupado em um único subsetor, há a presença das atividades agrícolas, silvicultura e pecuária, extração vegetal, pesca e silvicultura. Nesse setor, central para a metodologia aqui empregada, notamos que, em sua maioria, os seus subempregados estão na condição de subsistência, muito frequentemente sob a forma de parceiros que trabalham para um proprietário que cede parte de suas terras para que esses pequenos agricultores plantem uma pequena roça e/ou criem algum animal.203
No secundário, dos subsetores Indústria Manufatureira, Construção Civil e Mineração & Serviços Industriais de Utilidade Pública-SIUP, apenas a indústria de transformação diferenciaria os ramos de atividade tecnologicamente atrasados dos avançados ou, de outro modo, os Tradicionais dos Dinâmicos.204 O primeiro seria composto dos seguintes ramos: indústria de transformação não metálica, indústria de madeiras, indústria domiciliar de artefatos de papel, de mobiliário, de papel e papelão, indústria da borracha, indústria de perfumes e sabão, indústrias têxteis, de vestuário, de produtos alimentares, de bebidas, de fumo, editoras gráficas e indústrias mal definidas. A parcela dinâmica da indústria, por sua vez, seria formada por indústrias metalúrgicas, mecânicas, de material elétrico comercial, de transportes, indústrias químicas, farmacêutica e veterinária e indústria de produtos plásticos. Os SIUP são compostos pela extração de petróleo e gás natural, de carvão pedra, exploração de salinas, de minerais metálicos e não metálicos, de minerais radioativos, enquanto a Construção Civil é formada apenas pelo agrupamento denominado indústria da construção civil.
produção de mercadorias, como é o caso emblemático das montadoras de automóveis, passaram a contar com um número muito maior de terceirizados atuando em ocupações tipicamente de serviços. Assim, uma quantidade razoável de postos de trabalho antes identificada como do setor secundário passou a ser identificada como do setor terciário.
203 Para as características da agricultura de subsistência, ver Portugal Jr. (2012, p. 249-250). 204
A listagem desses ramos de atividade está baseada nos Censos de 1980 e 1991, tendo ocorrido alguma ligeira modificação nos anos posteriores.
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O terciário, por sua vez, seria fragmentado em Serviços Modernos e Heterogêneos. Os subsetores mais avançados seriam os Públicos e à Comunidade, Financeiros e Similares e, finalmente, Técnicos/Profissionais. Quanto aos serviços arcaicos, estes seriam, de um lado, os Serviços Pessoais, Similares e Outros e, de outro, o Comércio. Os Serviços Públicos e à Comunidade são compostos pelos seguintes ramos: produção e distribuição de energia elétrica, de gás canalizado, abastecimento de água e esgoto, limpeza pública e remoção de lixo, transporte de tração animal, transporte rodoviário de passageiros e de carga, transporte ferroviário, marítimo, aéreo, serviços postais, comunicação eletrônica, assistência e beneficência, previdência social pública e particular, sindicatos e outras associações de classe, instituto científico e tecnológico, filosófico e/ou cultural, entidades recreativas, organizações civis políticas, serviço comunitário social, serviço médico público e particular, odontológico, veterinário, ensino público e particular, exército, marinha de guerra, aeronáutica, polícias civil e militar, corpo de bombeiros, outras organizações governamentais de segurança, organizações internacionais, poder legislativo, justiça e atividades auxiliares, serviço de administração federal, estadual, municipal, de administração de autarquias e outros serviços administrativos não definidos. Os Financeiros e Similares são estruturados pelos bancos, financeiras, etc., pelas caixas econômicas e cooperativas, pelos seguros, administrações comerciais de imóveis, comércios de títulos e moedas, loterias e organizações de cartão de crédito. Já os Técnicos/Profissionais são compostos pelos serviços jurídicos, de contabilidade e auditoria, serviços de assessoria, de engenharia e arquitetura, serviços de tradução, estudos de pintura, serviço técnico-profissional, serviços auxiliares na agricultura e na pecuária, no comércio, serviços de armazenagem, serviços comerciais auxiliares à indústria, serviços auxiliares de seguros, serviços de transporte não rodoviário, serviços de auxílio a transporte rodoviário e marítimo e os demais serviços auxiliares das outras atividades.
Quanto aos subsetores heterogêneos, começaremos pela composição do primeiro: serviço de alojamento, de alimentação, serviços de reparos elétricos, de veículos, de madeira, de instalação, serviço de higiene pessoal, de confecção, serviços de pessoal não incluso, serviço pessoal não incluso, serviço de conserto de vestuário, de limpeza e conservação, serviço de vigia e guarda, serviço domiciliar remunerado e domiciliar não incluso, outras atividades não definidas e outras atividades mal definidas. Por fim, o comércio é formado pelo comércio de produtos agropecuários, de gêneros alimentícios, de tecidos, comércio de móveis e tapeçaria, de papel, comércio de ferragens, etc., comércio de máquinas e aparelhos industriais, de veículos, comércio
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de produtos químicos e farmacêuticos, de combustíveis e lubrificantes, comércio ambulante, feiras, supermercados e lojas de departamento.
Para o segundo passo, é importante distinguir as atividades de alta e média produtividade e as de baixa produtividade, o que consiste em separar os rendimentos percebidos até dois salários mínimos dos rendimentos acima desse valor. De outro modo, se a renda do trabalho estiver entre zero e dois salários mínimos, a ocupação será considerada subemprego. Caso seja percebida uma remuneração acima desse valor, a ocupação será ordenada como emprego. Mas nem todo ocupado com remuneração acima de dois salários mínimos é categorizado como empregado. Em vez de se assumir o indivíduo como o único objeto de análise, o que poderia levar ao equívoco de identificar a capacidade técnica do trabalhador individual com a produtividade do trabalho, optamos por relacionar tal capacidade à dotação de capital do estabelecimento, o que é quantificado através da remuneração do empregador. Além disso, a associação direta entre produtividade do trabalho e rendimentos dos empregados pode levar a compreensões equivocadas sobre a real situação do estabelecimento, podendo ocultar assimetrias consideráveis entre os ganhos auferidos pelos trabalhadores e pelos patrões. Ou seja, a identificação dos subempregados não depende apenas da renda que auferem, mas sim da renda de seu respectivo empregador. Se a remuneração deste for superior a dois salários mínimos, será
estimado o número de ocupados por estabelecimento, o que nos levará ao número de
subempregados.
Como o Censo Demográfico não disponibiliza com precisão o número de empregados por estabelecimento, informando, ao invés disso, intervalos, é impossível averiguar com precisão o número de subempregados ocupados em estabelecimentos que obtêm até dois salários mínimos. Todavia, não são todas as suas publicações que sequer disponibilizam esse intervalo, informado apenas nos anos 1991 e 2000 –, o que leva a uma subestimação do cálculo do subemprego para 1980 e 2010. Diante dessa limitação, e para os anos em que isso é possível, foi necessário estimar o número de empregados em função do número de empregadores para a faixa de baixa produtividade – o número de empregados é obtido por contraste, uma vez que é conhecida a população ocupada total.
Em virtude da imprecisão da variável que indica o número de empregados por estabelecimento, é arbitrada uma distribuição uniforme sobre a distribuição de empregados dentro de cada intervalo. Por exemplo, se o intervalo for 1 a 2 empregados, como consta no
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Censo, assumiremos que o número médio de empregados para todos os estabelecimentos dessa faixa será 1,5. Multiplicamos esse valor – 1,5 – pelo número de empregados identificados aos empregadores que ganham até dois salários mínimos e repetimos o procedimento para os demais intervalos.
Todavia, há ainda uma última etapa para que sejam estimados todos os subempregados. Pelo fato de o último intervalo ser aberto – 10 ou mais empregados –, há uma dificuldade em obter o exato número de subempregados, o que requer um artifício não muito preciso para determiná-lo. Para tanto, não podemos supor, como fizemos na estimação dos intervalos anteriores, uma distribuição normal. Não podemos julgar simplesmente que o número de empregadores com dez empregados é o mesmo daquele com mil. Nesse caso, foi definida uma distribuição decrescente de empregadores com base no pressuposto de que o número de empregadores diminui conforme aumenta o número de empregados por empregador, o que ocorre em maior intensidade, tanto mais porque se trata de empregadores que percebem até dois salários mínimos, tendendo muito rapidamente a zero.
Adotando a hipótese de que o número de empresas com dez empregados é uma fração do número de empresas com onze empregados, que, por sua vez, é uma fração do número de empresas com doze, etc., identificamos a razão de uma progressão geométrica, definida separadamente para cada subsetor. Tal fração é baseada na proporção entre o número de empresas do intervalo aberto (dez ou mais empregados) e o número total de empresas do intervalo anterior (cinco ou mais empregados).
Obtida essa porção dos subempregos, temos ainda outras duas categorias que devem ser incorporadas ao total do subemprego. Estas seriam a categoria dos trabalhadores por conta própria, que recebem até dois salários mínimos, e a de todos os empregados domésticos e trabalhadores não-remunerados.
Sinteticamente, o subemprego seria composto por todos os não remunerados e empregados domésticos, assim como pelos autônomos e empregadores que recebem uma renda de até dois salários mínimos, e pelos empregados vinculados diretamente a esses empregadores. Os demais, formados pelos trabalhadores autônomos e pelos empregados que ganham mais de dois salários mínimos, assim como por aqueles que trabalham para estes, seriam os Empregados.
No que diz respeito às estatísticas relativas aos salários, cabe explicar por que, diferentemente dos demais dados, evidenciaremos três categorias e não duas. Além de emprego e
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subemprego, listamos Demais Trabalhadores Assalariados, categoria criada exatamente pela impossibilidade de se encontrar a média das remunerações de indivíduos que desconhecemos, pois parte considerável dos subempregados é estimada, e não identificada claramente nos Censos. Como só podem ser encontrados os salários dos empregadores e autônomos que recebem mais e menos de dois salários mínimos, respectivamente empregados e subempregados, tivemos a necessidade de captar de outra forma a renda do trabalho de uma parcela bastante expressiva da população.
Ainda que essa forma de captar os salários não seja totalmente coerente com a metodologia empregada nas demais estatísticas, a compatibilidade é mantida em virtude de serem diferenciados pela faixa de salário mínimo recebido pelos autônomos e, principalmente, pelos empregadores, que acabam por limitar a remuneração de seus empregados. De alguma maneira, portanto, pode ser observada a remuneração potencial destes.
Complementarmente à demonstração da dispersão salarial de Empregados e
Subempregados, a exibição da renda dos Demais Trabalhadores Assalariados pode indicar a
evolução que toma a distribuição da renda entre patrões e os seus subordinados.
Ainda sobre as remunerações, identificamos as dispersões salariais dentro de cada categoria, o que demonstramos por meio dos coeficientes de variação. Quanto maior o coeficiente, mais heterogêneas as rendas da categoria em questão.
Por fim, cabe dizer também que esta metodologia alternativa oferece a vantagem de captar mais claramente a dinâmica do mercado de trabalho, porque abrange os setores primário, secundário e terciário, em vez de focar as análises apenas na dinâmica industrial, como usualmente é feito; o que permite, por exemplo, a observação de fluxos de trabalhadores rurais pobres para as cidades nos momentos de modernização das produções agrícolas, tal como ocorreu intensamente no Brasil em meados do século XX e como vem ocorrendo com as produções de cana-de-açúcar, no estado de São Paulo.205 Esta metodologia procura destacar a intersecção entre a dinâmica global do mercado de trabalho e a dinâmica da ocupação nos diferentes setores, evidenciando, portanto, as migrações setoriais e regionais da população trabalhadora. De outro modo, é uma maneira de captar a evolução da heterogeneidade estrutural – a forma como se comportam o emprego, o subemprego e o desemprego – mais ligada à ideia de desenvolvimento, em vez de concentrar a atenção nas possibilidades de o crescimento econômico absorver alguma
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parcela da população trabalhadora a estabelecimentos com maiores possibilidades de reprodução ampliada, identificados como estabelecimentos que normalmente formalizam seus empregados. Ademais, como esta análise apreende a dinâmica global dos três setores da economia, sobretudo porque incluída a agricultura, evita-se cair em análises que concentrem todos os seus esforços na compreensão da dinâmica industrial, como indicamos no capítulo anterior. Desse modo, evitamos que a compreensão do desenrolar e da dinâmica industrial sejam os únicos responsáveis pelas mudanças na estrutura ocupacional e, em boa medida, dos salários.