ANTECEDENTES DA REDE URBANA CEARENSE: DOS LIMIARES DO PROCESSO DE FORMAÇÃO ECONÔMICA ATÉ OS ANOS 1970.
TABELA 6 – GRANDES REGIÕES E ESTADOS DA REGIÃO NORDESTE: PARTICIPAÇÃO NO VALOR DA TRANSFORMAÇÃO INDUSTRIAL*
2.2.1. Notas sobre os deslocamentos urbanos brasileiros pós 1970.
Na evolução das intensas transformações verificadas na economia brasileira no período pós-1930, acompanhando as tendências mundiais mediadas pelas particularidades tardias do seu desenvolvimento capitalista, os aspectos espaciais principalmente após 1950 seguiram, segundo Macedo (2010, p. 44), dois padrões de organização: concentração econômica e nítida hierarquia territorial.
Mesmo seguindo as caraterísticas intrínsecas ao desenvolvimento capitalista, estes dois aspectos assumem aqui algumas desarmonias associadas ao seu processo de formação. Ao passo que a estrutura pré-existente se apresenta como concreta à concentração econômica espacial e ao padrão de hierarquia territorial montado no Brasil, a sua consolidação reafirma estas
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A garantia da estabilidades nas estruturas espaciais dada pelo Estado nacional não está somente na institucionalização de limites, regionalizações e determinações de níveis sub nacionais. Esta importante função é exercida por ser dotado de capacidade de disponibilizar e regulamentar infraestrutura produtora de espaço, que se fixa, transforma através de suas redes, circuitos e instalações como transporte (rodovias, canais, ferrovias, rotas aéreas), e os circuitos comerciais, produtivos e bancários. (LEFEBVRE, 1978, p. 259).
82 características. Entretanto avança em algumas transformações pela lógica de integração/consolidação do mercado nacional com novas orientações espaciais expandindo-se para todas as regiões83.
Ao relembrar a periodização do desenvolvimento capitalista brasileiro que é adotada na presente investigação, a intensificação de consolidação do mercado nacional como dínamo caminha pari passu com os progressos na integração espacial produtiva pautada no aprofundamento da industrialização. Recapitulando os elementos maiores de sua evolução com o intuito de apreender as impressões inveteradas referentes às espacialidades urbano-regionais, como ponto de partida desponta o papel que a industrialização assumiu a partir de 1930.
Ainda que os condicionantes justifiquem coerentemente a localização espacial com o protagonismo paulista e, em segunda instância, dos estados adjacentes (CANO, 2007a)84, o padrão concentrado do dinamismo econômico brasileiro montado a partir de então reafirma os caracteres da formação espacial. Entretanto, o que se pretende acentuar não é necessariamente a sua concentração mas sim a relação entre a urbanização brasileira e a formação do mercado nacional a partir dos avanços na industrialização. O GRÁFICO 2 apresenta as trajetórias análogas de ascendência entre a taxa de urbanização e o número de ocupados na atividade industrial que têm relação mais direta entre as décadas de 1950 e 1990. Entretanto, a conexão é válida ao se empreender análises fundadas em qualquer variável comportamental destes dois parâmetros. Faria (2008 [1982], p. 191-192) faz esta relação entre a intensa urbanização brasileira ocorrida a partir dos anos 1940 e o processo de industrialização evidenciada na decorrente dinâmica de emprego por ele promovida.
83 Tanto para a fase de industrialização restringida (1930-1955) quanto para a industrialização pesadas (1955-1980),
definidas pela tese do capitalismo tardio. (MELLO, 2009)
84 Tais condicionantes já foram discutidos mas é de pertinência relembrar a relevância do trabalho assalariado e a
consequente formação de um mercado de consumo relacionado à reprodução da força de trabalho de caráter eminentemente capitalista. Como é bem observado pela literatura do assunto, tal processamento não ocorre de forma homogênea no espaço nacional. Ver Cano (2007a), Oliveira (1993), Furtado (2007), dentre outros.
83 GRÁFICO 2 – BRASIL: PESSOAL OCUPADO NA INDÚSTRIA E TAXA DE
URBANIZAÇÃO 1940-19851.
Fonte: Elaboração com base, nos Censos Industriais (1939, 1949, 1959, 1970, 1988, 1985), PIA’s (2000 e 2010 e Censos Demográficos (1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1991, 200 e 2010), realizados pelo IBGE.
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Até 1985, em Pessoal Ocupado utilizou-se dados dos Censos Industriais. Já em 2000 e 2010 se referem à PIA. Em decorrência da não realização das respectivas pesquisas, o ano de 1990 merece a informação de que as estatísticas de Pessoal Ocupado na Indústria são referentes a 1985 e os da Taxa de Urbanização tratam-se do Censo Demográfico de 1991.
O protagonismo da indústria na condução dos avanços da urbanização e sua propagação territorial confirmaram a hipótese de relevância deste setor na transformação das estruturas, por ser maior gerador de empregos em todos os níveis, assumindo com isto os fortes impulsos de demanda, traduzindo as sincronias/diacronias dos níveis tecnológicos de produção. O caso brasileiro reproduzia esta relação: a elevação da produtividade ditada pelos ritmos de produção industrial que se intensificaram ocasionou alterações no padrão das estruturas dentre as quais, a urbanização se constitui em uma delas. Nesta relação entre a industrialização e o sistema urbano brasileiro, os impulsos dados pela indústria
Aumenta[m] a circulação da economia, e esta é realizada através de um sistema de infraestrutura que integra os diversos lugares a um mesmo circuito mercantil. Observa-se um reordenamento territorial que se manifesta de duas formas interligadas: do ponto de vista intraurbano, há um crescimento expressivo das cidades que são centros industriais, ainda que estas possam caminhar para uma economia de serviços; do ponto de
0,82 1,31 1,75 2,63 3,82 5,50 4,04 6,25 31,24 34,89 44,96 55,94 67,59 75,59 81,25 84,36 0,00 10,00 20,00 30,00 40,00 50,00 60,00 70,00 80,00 90,00 1 9 4 0 1 9 5 0 1 9 6 0 1 9 7 0 1 9 8 0 1 9 9 0 2 0 0 0 2 0 1 0
84 vista interurbano, as cidades passam a se conectar por meio de fluxos contínuos de bens, serviços, dinheiro e pessoas (MACEDO, 2010, p. 19). Além de uma extensa incorporação ou processo de ocupação capitalista moderno da grande hinterlândia central brasileira, ganha maior nitidez a divisão espacial do trabalho com a integração promovida pela industrialização. Regionalmente, este processo terá localização concentrada e de desequilíbrios até os anos 1970 quando, conforme aponta Cano (2008) com base nas evidências dos dados, com destaque para os Censos Industriais, passa a haver uma desconcentração produtiva regional no Brasil. Já foi tratado anteriormente, tal desconcentração é caracterizado como um processo virtuoso até 1980, e a partir de então como fenômeno de caráter espúrio.
Não se pode prescindir do fato de que estes movimentos deram-se seguidos pela orientação dada por órgãos e ações governamentais “criados especialmente para estimular o crescimento e a diversificação do sistema produtivo nacional.” (IANNI, 1989, p. 20). O protagonismo do papel do Estado, enquadrado no padrão desenvolvimentista, foi determinante. O desempenho desta função requisital para as alterações em processo não se restringiram aos marcos institucionais sendo também imprescindíveis os investimentos em infraestrutura geral (estradas, ferrovias, portos, aeroportos, disponibilidade de energia elétrica, dentre outros), construindo os elementos fixos que permitem ações de modificações territoriais e de ações, denominadas de fluxos (SANTOS, 2006, p. 38).
Os nexos entre os processos descritos de integração do mercado nacional capitaneado por urbanização e industrialização, aprofundado da década de 1950 em diante, se sobrepõem às características do modelo de desenvolvimento capitalista tardio brasileiro partindo do padrão já mencionado de concentração econômica e intensa hierarquização territorial. Considera-se adicionalmente que a evolução em marcha se deu em pleno vapor das condições de capitalismo monopolista imprimindo na organização urbana expressões das desarmonias exigidas pela curta temporalidade processual face à formação estrutural e aos requerimentos das transformações produtivas em marcha. Como resposta, arranjos estruturais urbanos se constituíram compondo um mapa intricado e,
85 os diversos padrões espaciais são reveladores, ora de uma superposição, ora de uma justaposição de processos criativos de núcleos urbanos verificados em momentos distintos e com propósitos também diversos, configurando no presente uma rede extremamente complexa. (CORRÊA, 2011, p. 98)
Numa análise mais geral, o processo de integração do mercado nacional sob as determinações dos vetores de modernização produtiva, Santos (2008, p. 77) observa que as transformações urbanas brasileiras, entre os anos 1950 e 1980 seguem estágios de predomínio de uma urbanização aglomerada, seguida de uma urbanização concentrada para então chegar-se ao estágio da metropolização. A diferença entre estes estágios está na gradativa importância que o fato aglomerativo assumiu crescendo toda a população urbana no primeiro estágio, ao passo que nas demais a intensidade do crescimento situa-se nas faixas de municípios com maior número de habitantes, até ganhar destaque o fato metropolitano.
Nesse contexto de transformações da dinâmica urbana, a TABELA 7 traz a evolução da população brasileira distribuída por tamanho de municípios demonstrando o gradativo deslocamento entre dois padrões: i) até o decênio 1960-70 marcado pelo crescimento da população residente em pequenos municípios (até 20 mil habitantes) e naqueles de maior população (acima de 100 mil habitantes); ii) e a partir dos anos 1970, quando têm mais importância o crescimento da população vivendo em grandes centros.
O primeiro padrão acima destacado explica-se inicialmente pelo avanço na criação de municípios durante este período, que foi mais intensa entre 1950-60 (Ver TABELA I em ANEXOS). Já o crescimento de população vivendo em municípios de maior porte reflete os efeitos da integração do mercado nacional promovida pela diversificação econômico-produtiva vivenciada a partir da segunda metade dos anos 1950, em que alguns centros polos são beneficiados. Além de algumas capitais das Regiões Sul, Sudeste e Nordeste, neste momento começa a incorporação urbana mais interiorizada que tem capítulo importante na construção de duas grandes cidades no Centro-Oeste, Goiânia e Brasília, para exercerem funções de centro administrativo (MACEDO, 2011, p. 45). A malha rodoviária que cresceu consideravelmente neste período também favoreceu a integração territorial nacional. Imensas rotas foram pavimentadas ligando a nova capital às capitais estaduais e também os demais complexos regionais. Grandes cidades em outras regiões do país assumem função de entrepostos de
86 distribuição comercial e se dinamizam a partir da função de entroncamentos de grandes eixos rodoviários85.
TABELA 7 – BRASIL: DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO POR TAMANHO DE MUNICÍPIOS (%) 1940-2010 1940 1950 1960 1970 1980 1991 1996 2000 2010 até 20 mil 25,5 23,1 25,9 28,6 21,6 20,1 20,1 20,3 17,9 20 a 50 mil 43,6 40,1 33,2 26,1 21,8 19,1 18,0 16,9 16,3 50 a 100 mil 15,4 16,4 13,9 11,0 13,2 13,2 12,6 12,3 11,6 100 a 500 mil 7,4 9,8 12,1 15,6 19,8 22,4 24,1 24,5 27,0 mais de 500 mil 8,1 10,6 14,9 18,7 23,6 25,2 25,2 26,0 27,2 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Fonte: IBGE - Censos Demográficos (1940 a 2010)
O segundo padrão, cujo desempenho de aumento de habitantes vivendo nos dois estratos de maior população (100 a 500 mil e acima de 500 mil) é evidente, associa-se à veemente urbanização do período, quando o país passa a ter mais da metade da sua população residindo em áreas urbanas. É possível enfatizar um ciclo de dois movimentos tratados das características da urbanização do Brasil nesse padrão, datado de um período mais recente: inicialmente o auge e deslocamento da fase de intensa metropolização dos anos 1970-90, ganhando incremento a partir daí a magnitude de pessoas residindo em municípios entre 100 e 500 mil habitantes, consideradas como cidades médias. Entre 1970 e 2010 este crescimento vai de 15,6% para 27% da população conforme demonstra a TABELA 7.
O movimento de ganho expressivo do papel metropolitano, é manifestado a começar pela expansão agigantada de São Paulo e Rio de Janeiro e incorporou na sua dinâmica uma gama de grandes cidades espalhadas por várias partes do país. Sua institucionalização em 1973 representou diversos signos da concentração principalmente econômica, industrial e política, não somente por se dar em pleno contexto autoritário mas também num momento histórico de acentuadas desigualdades espaciais e de concentração econômica.
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A expansão da rede rodoviária entre o período de 1960-70 foi de 178,3% e de 64,4% entre 1970-80. A rede estadual cresce respectivamente 506,5% e 70,3% nos mesmos períodos. No primeiro destes dois períodos, quando o crescimento foi maior e os investimentos na expansão rodoviária crescem em decorrência dos eixos de ligação à nova capital, a malha pavimentada federal vai de 8.675km para 24.146kme a estadual de 4.028 para 24.431km (FERREIRA e MALLIAGROS, 1999, p. 23)
87 Por outro lado, expressa também os reflexos da desconcentração em marcha, demonstrando instrumentos para desconcentração que adquiri feições concentradas. Ao mobilizar a criação de outros espaços metropolitanos nas cinco regiões, os espaços metropolitanos concentradores até então – formados por São Paulo e Rio de Janeiro -, são os que mais caem em participação populacional.
É conotado na metropolização um arranjo de política e não necessariamente uma concretização a partir do fato metropolitano86. Das Regiões Metropolitanas criadas em 1973 pelas Leis Complementares 14/73 e 20/74, salvo Rio de Janeiro e São Paulo, nem todas as outras vivenciavam este fato metropolitano pleno, entendido pela presença de elementos como
a) são formadas por mais de um município, com o município núcleo – que lhe dá nome – representando área bem maior que as demais; b) são objeto de programas especiais, levados adiante por organismos regionais especialmente criados, com a utilização de normas e recursos em boa parte federais. (SANTOS, 2008, p. 84)
É determinante que com a consolidação do processo de metropolização observado, moldam-se efetivamente os componentes hierárquicos superiores da rede urbana nacional87. Já nos anos 1980 este crescimento passa a ser decrescente e toma novos caminhos, cuja marca se observa em taxas maiores para metrópoles localizadas em áreas que usufruíram do processo de desconcentração produtiva regional apontado por Cano (2008). A TABELA 8 compara o crescimento populacional tendo como parâmetro as primeiras RM’s criadas no Brasil, o crescimento urbano e o crescimento populacional brasileiro, evidenciando esta evolução. Embora com tendências também decrescentes, desde 1980-91 as taxas de crescimento de Salvador,
86 O arranjo de política aqui mencionado refere-se em primeiro plano às intencionalidades de política econômica de
desconcentração com a criação das nove Regiões Metropolitanas e não se estas Regiões eram ou não de fato metropolitanas. Atualmente esse aspecto adquire caracteres mais nítidos considerando que a institucionalização de Regiões Metropolitanas após a Constituição de 1988 ficou a cargo dos governos estaduais. Assim, outras questões que não a metropolização em si passaram a presidir a institucionalização das RM’s. Acordos político-partidários, decisões de políticas estaduais de espacialização econômica, regionalizações e até definição de áreas territoriais estratégicas para interiorização de investimentos via guerra fiscal exercem influencias. Somam-se ainda outros esvaziamentos institucionais, políticos e financeiros metropolitanos como a tanto a diversidade de formatos metropolitanos e a descentralização política e a autonomia municipal ainda da CF-1988, a rejeição às formas de planejamento territorial centralizadas, a transferência de responsabilidade de gestão metropolitana às UF’s sem correspondentes instrumentos para (IPEA, 2010, p. 677)
87 Uma análise a partir dos REGIC’s pode evidenciar isso, confirmando-se posteriormente o papel funcional das
metrópoles nacionais e regionais que se despontam neste momento. Dentre sugestões de investigações que se propõem a isto, tendo como objetivo estudos mais localizados dentro do REGIC, cita-se MOTTA AJARA (2001) e MORAIS e MACEDO (2012).
88 Fortaleza, Curitiba e Belém são mais altas que as de metrópoles de maior porte como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.
TABELA 8 - BRASIL: TAXA DE CRESCIMENTO POPULACIONAL TOTAL, URBANA