2.2. Modelos de reciprocidade no mercado de trabalho
2.2.5. Notas sobre os modelos de reciprocidade no mercado de trabalho
Analisados os modelos que introduzem os comportamentos recíprocos no mercado de trabalho,
pode concluir-se que as previsões são substancialmente distintas das que se baseiam no postulado do
homo oeconomicus. Tal como Akerlof (1982) refere, existe uma troca de ofertas entre empresas e trabalhadores, consubstanciada em salários e níveis de esforço superiores ao previsto pela teoria
económica convencional. Estes salários e esforços extra são explicados pela reciprocidade.
Os comportamentos recíprocos no mercado de trabalho podem levar a melhoramentos de Pareto,
se o aumento do produto resultante do aumento do esforço pelo trabalhador for superior aos custos
salariais suportados pela empresa e se o aumento salarial for superior ao aumento dos custos do esforço
do trabalhador. A troca de ofertas é, então, um jogo de soma positiva.
É conveniente notar a importância do trabalho de Akerlof (1982) ao influenciar os outros autores
para o estudo da reciprocidade. O próprio Rabin (1993: 1282) reconhece a investigação de Akerlof neste
não depende do contexto, mas mostra que quando aplicado ao mercado de trabalho explica a troca de
ofertas prevista por Akerlof. Para além de Rabin, todos os outros autores estudados na secção 2.1.
aplicaram os seus modelos, embora alguns resumidamente, ao mercado de trabalho para explicar a troca
de ofertas.
Os contratos que permitem os comportamentos recíprocos analisados nos modelos anteriores
caracterizam-se por serem incompletos. Nestes, as obrigações de empresas e trabalhadores não estão
completamente especificadas para todas as situações que podem ocorrer na relação laboral. Este tipo de
contrato de trabalho caracteriza-se, em geral, por estipular um salário fixo sem incentivos explícitos ao
desempenho e pela discrição do nível de esforço. A ausência de incentivos explícitos ao desempenho
pode ser explicada como uma resposta racional das empresas às dificuldades em medir e verificar o
desempenho do trabalhador quando este desempenha múltiplas tarefas. Em contraste com este tipo de
contratos, nos contratos completos todas as acções estão especificadas no contrato e, portanto, não
existem problemas no cumprimento deste53.
A análise dos modelos que introduzem a reciprocidade na economia admitiu que existe uma
informação assimétrica entre trabalhadores e empresas, existindo entre eles uma relação de agência.
“Trata-se de uma relação de tipo contratual em que um indivíduo (o principal [a empresa]) delega certos
direitos a favor de outro indivíduo (o agente [trabalhador]) que é suposto actuar de acordo com os
interesses (função objectivo [escolher níveis de esforço superiores ao mínimo]) do principal a troco de
qualquer contrapartida (pecuniária ou não [salários])” (Pereira, 1997: 1). Os contratos têm uma natureza
incompleta, pois as acções do agente não são contratualmente definidas, sendo as preferências do
principal, em geral, distintas das do agente. A reciprocidade surge como forma de alinhar interesses entre
ambos evitando-se a obtenção de resultados subóptimos54, 55. Refira-se, também, que se existirem
comportamentos recíprocos evitam-se os custos de transacção associados ao cumprimento dos contratos
previstos pela Nova Economia Institucional56, 57.
53
Pearce e Stacchetti (1998: 75) distinguem os contratos legalmente executórios, que especificam os pagamentos condicionais a uma dada informação observável pelos tribunais, dos acordos em que existe mais informação para o empregador do que a publicamente observável, permitindo acordos implícitos entre as partes para complementar o acordo explícito.
54
Para uma análise da problemática da informação assimétrica no caso dos seguros vide Pereira (1997). 55
Algumas das experiências que vão ser apresentadas no terceiro capítulo são descritas no contexto da relação principal-agente, embora sejam aqui apresentadas na relação empresa-trabalhador, por uma questão de coerência de apresentação.
É conveniente referir que se se considerar somente uma interacção entre trabalhador e empresa,
ou seja, se a relação laboral for constituída apenas por uma proposta salarial, uma decisão de aceitação ou
rejeição e, no caso de aceitação, uma escolha de esforço, só o jogador que age em segundo lugar é que
tem comportamentos recíprocos. Recorde-se que a reciprocidade é uma resposta, logo só o jogador que
age em segundo lugar é que pode ter comportamentos que podem ser classificados por recíprocos. Ou
seja, se for a empresa a agir em primeiro lugar, como nas experiências que vão ser reportadas no capítulo
seguinte, esta ao oferecer um salário superior ao mínimo não está a agir reciprocamente, mas o
trabalhador ao escolher um nível de esforço superior ao estandardizado, em reposta ao salário oferecido
pela empresa, já está a fazê-lo. Isto porque o comportamento do trabalhador é uma resposta, ao contrário
do da empresa.
O comportamento das empresas pode ser interpretado de várias formas. Se os ganhos resultantes
do aumento do nível de esforço forem superiores aos custos de fornecer um salário mais elevado, as
empresas escolhem um salário superior ao mínimo se confiarem que o seu trabalhador responderá com
um nível de esforço não mínimo. De acordo com Berg, Dickhaut e McCabe (1995: 126): “a confiança é
compreendida como a expectativa da reciprocidade dos outros em que se faz um retorno por algo feito ou
dado”. Existe, também, a explicação sociológica de Akerlof (1982) das empresas tentarem oferecer um
salário justo. Contudo, mesmo o salário justo da empresa pode ser visto como a expectativa que o
trabalhador mantenha o quid pro quo de ofertas.
Outra explicação para o comportamento das empresas admite que estas são egoístas e neutras ao
risco e não existe informação comum de que todos os trabalhadores são racionais e egoístas. Nesse caso,
se existir uma proporção p de trabalhadores recíprocos (que escolhem níveis de esforço superiores ao
mínimo (e>emin) em resposta a salários não mínimos (w>wmin)) a empresa escolhe um salário alto se o pagamento esperado com essa escolha for superior ao pagamento certo de escolher o salário mínimo.
Essa superioridade, no caso de existir, resulta do comportamento recíproco dos trabalhadores.
Formalizando, a empresa, com uma função de pagamentos igual à considerada no modelo de Bolton e
Ockenfels (π(w,e)=(v−w)e), escolhe um salário superior ao mínimo se se verificar a seguinte condição: E
[
π(w,e)] [
= p(v−w)e]
+(1−p)[
(v−w)emin]
> π(wmin,emin)=(v−wmin)emin.57
Note-se, no entanto, que a análise feita nesta dissertação difere da realizada na Nova Economia Institucional, pois uma das hipóteses base desta última é o princípio da racionalidade limitada, que se afasta da análise feita nesta
Se os comportamentos dos trabalhadores (e não das empresas) seguem um padrão recíproco ou
de acordo com a teoria económica convencional é uma questão empírica. Optou-se pelo método
experimental para averiguar qual destas alternativas é corroborada.