4. Reciprocidade no laboratório
4.2. Procedimentos experimentais
Foram conduzidas duas sessões experimentais de cada tratamento, sendo cada sessão composta
por doze períodos. Estas repetições, que eram de conhecimento dos sujeitos, foram impostas para permitir
a compreensão da estrutura do jogo pelos participantes e para investigar as propriedades de convergência.
A experiência foi conduzida no mercado de trabalho e não no mercado dos bens. Embora a
probabilidade de favorecimento de comportamentos recíprocos seja maior, uma vez que a interacção
social entre firmas e trabalhadores é superior à dos vendedores e compradores, como já foi referido
anteriormente, o objectivo desta dissertação é precisamente estudar o comportamento dos sujeitos no
mercado de trabalho. Como suporte ao argumento desta opção não proteger em excesso a tese que se
pretende demonstrar, está a inexistência de diferenças significativas entre as experiências conduzidas no
mercado dos bens e no mercado de trabalho apresentadas no capítulo anterior.
Em cada sessão experimental participaram 24 alunos125 dos primeiros anos do ISEG sem
conhecimentos sobre economia experimental. Os estudantes participaram voluntariamente e pela primeira
vez numa experiência. Cada um só entrou numa sessão. Os únicos argumentos de recrutamento foram o
monetário e a participação numa iniciativa pioneira na sua universidade126. Não foram utilizados outros
argumentos.
Cada sujeito recebeu uma taxa de 1.000$00 pela participação numa sessão experimental, que foi
paga no fim da mesma. A acrescer a este incentivo receberam os ganhos obtidos no decorrer da sessão.
Estes estavam expressos em unidades monetárias experimentais que foram convertidas para escudos à
seguinte taxa: 1 unidade monetária experimental = 2 escudos. Esta era de conhecimento comum e era a
mesma para todos os sujeitos de todos os tratamentos.
um certo nível de esforço. A transposição desta racionalidade para as instruções poderia diminuir a propensão para reciprocar.
125
Não se teve em conta o sexo dos alunos, uma vez que este efeito não é significativo nos estudos feitos anteriormente (vide Bolton e Katok (1995) para uma análise desta problemática com jogos do ditador e Ledyard (1995) com jogos de bens públicos).
126
Este argumento da participação na primeira experiência deste género na sua universidade foi utilizado para motivar ainda mais os estudantes à participação.
Com os 24 participantes formaram-se dois grupos: um de doze empresas e outro de doze
trabalhadores. Aleatoriamente determinou-se quais os sujeitos que iriam desempenhar o papel de
empresas e quais iriam desempenhar o papel de trabalhadores durante toda a sessão experimental127. Essa
aleatoriedade resultou da escolha de um envelope pelos estudantes que tinha escrito o número da sala e do
lugar para onde se deveriam dirigir. A opção pela sala e pelo lugar em detrimento da função teve por
objectivo evitar comparações e conhecimento entre possíveis parceiros antes da sessão. Trabalhadores e
empresas foram localizados em salas diferentes para excluir a possibilidade da identificação dos parceiros
de interacção. Era conhecimento dos sujeitos que a identidade dos seus parceiros de interacção nunca
seria revelada. Com este procedimento pretendemos excluir a formação de reputações e pagamentos
escondidos após a sessão experimental. Refira-se que trabalhadores e empresas encontraram-se todos
antes de cada sessão, por forma a tornar mais credível que os pagamentos de uns dependiam dos actos dos
outros e que estes outros existiam de facto, não eram uma criação experimental.
Em cada período um trabalhador foi afecto exogenamente apenas a uma empresa e uma empresa
apenas a um trabalhador. Após cada período, trabalhadores e empresas foram reagrupados a empresas e
trabalhadores diferentes, respectivamente. Empresas e trabalhadores foram, portanto, agrupados apenas
uma vez durante a sessão experimental128. Este procedimento experimental era de conhecimento comum e
contribuiu para evitar que os sujeitos formassem uma reputação. Como os pares não se mantinham de
127 Uma crítica feita por Vernon Smith (1998: 13) é que divisões equitativas dos pagamentos podem resultar do proponente (neste caso, a empresa) não estar certo da legitimidade dos seus direitos de propriedade, quando estes são determinados aleatoriamente. Nestas circunstâncias o direito da empresa agir segundo o seu próprio interesse pode não ser reconhecido como legítimo e a empresa pode não se considerar no direito de tirar vantagem. Esta explicação é outra que não a reciprocidade, mas só explica uma parte dos resultados, pois grande parte continua a ter de ser explicada pela reciprocidade, como demonstram os resultados apresentados pelo próprio Vernon Smith (1998: 14). Ou seja, os direitos de propriedade têm efeito, mas não são decisivos. Por isso e como aumentaria a complexidade da experiência se houvesse a hipótese de ganhar os direitos de propriedade, optou-se por excluir essa alternativa. 128 Foi utilizado um procedimento idêntico ao de Cooper et al. (1996: 209), por forma a que as acções de um sujeito num determinado período não possam influenciar o comportamento dos sujeitos com quem vai ser agrupado no futuro. Deste modo, evita-se o efeito contágio. Este efeito, enunciado por Kandori (1988 citado por Cooper et al., 1996: 197), resulta de procedimentos de agrupamento aleatório suportarem jogadas cooperativas se a taxa de desconto for baixa e existir uma probabilidade de ser agrupado com alguém não cooperativo por causa de uma jogada não cooperativa anterior. O agrupamento aleatório não é, portanto, o mesmo que uma série de jogos de um período. Para construir uma série de jogos de um período, construiu-se um procedimento em que as empresas com quem um determinado trabalhador irá ser agrupado no futuro são agrupadas com os outros trabalhadores antes da empresa com quem esse determinado trabalhador está actualmente agrupado jogar com esses mesmos trabalhadores (ver quadro no anexo 2 e exemplo associado). Deste modo, evita-se o efeito triângulo (Kamecke, 1997: 413), i.e., evita-se que uma decisão da empresa num determinado período afecte de qualquer forma uma decisão futura do trabalhador com quem a empresa está agrupada nesse determinado período. Nomeadamente, evita-se que esse trabalhador afecte a decisão de outra empresa, que por sua vez afecte a decisão de outros trabalhadores com quem a empresa será agrupada no futuro. Ao evitar este efeito triângulo, qualquer decisão de um jogador num período não terá qualquer efeito nas decisões dos indivíduos com quem irá jogar em períodos seguintes. Não há possibilidade de recompensa ou punição indirecta.
período para período era impossível para as empresas (trabalhadores) recompensarem acções de períodos
anteriores dos trabalhadores (empresas), logo não existiam incentivos para formar uma reputação.
Cada sujeito podia calcular tanto o seu pagamento como o do seu parceiro, o que era de
conhecimento comum. Para o efeito, nas instruções (vide anexo 1) foi dada informação sobre os
procedimentos e funções de pagamentos. Para assegurar que todos os sujeitos perceberam o modo de
cálculo dos ganhos monetários, foram feitas questões de controlo. As sessões experimentais não tiveram
início até todos os sujeitos responderem correctamente às questões.
A possibilidade dos intervenientes poderem calcular as implicações das suas escolhas para os
pagamentos dos seus parceiros, permite a existência de considerações de equidade. Se as funções de
pagamentos fossem informação apenas dos próprios sujeitos, não existiria ponto de referência para avaliar
os comportamentos dos oponentes e dos próprios jogadores. Refira-se, neste sentido, que a informação do
domínio dos salários, bem como o domínio de níveis de esforço e respectivos custos eram do
conhecimento de todos os intervenientes do jogo, permitindo avaliar as intenções dos mesmos. Ao dar
conhecimento aos sujeitos das funções de pagamentos e do domínio de acções não se exclui nenhum dos
modelos apresentados no segundo capítulo como forma de explicar os comportamentos recíprocos. Com
efeito, tanto intenções (determinadas a partir das alternativas de escolha dos sujeitos) como aversão à
iniquidade (determinada pela comparação dos pagamentos) podem influenciar os comportamentos.
Em todos os tratamentos tanto o salário como o nível de esforço são informação privada, ou seja,
são apenas de conhecimento dos intervenientes de uma relação laboral. Deste modo, as escolhas dos
outros trabalhadores e empresas não são referência para os sujeitos. Esta característica experimental em
combinação com o anonimato dos participantes evita pressões de grupo para escolhas de níveis de esforço
elevados e reduz externalidades estratégicas entre períodos tanto quanto possível. O objectivo foi isolar a
componente de reciprocidade que se deve apenas às propostas salariais das empresas.
As sessões experimentais foram conduzidas manualmente, ou seja, um dos experimentadores
registou as propostas salariais das empresas e transmitiu-as à sala dos trabalhadores. Apenas o trabalhador
agrupado com uma determinada empresa foi informado da proposta salarial desta. O trabalhador escolhia,
então, um nível de esforço que era transmitido apenas à sua empresa. Refira-se que três experimentadores
experimentais participaram sempre os mesmos experimentadores para salvaguardar a não afectação dos
resultados por comportamentos diferentes de quem monitoriza.
No final de cada sessão experimental foi feito um questionário final (vide anexo 1.4.) sobre a
opinião dos sujeitos acerca da clareza das instruções e sobre se estariam dispostos a participar numa
sessão experimental futura com ganhos semelhantes. Esta última questão tinha por objectivo avaliar se os
ganhos eram suficientemente motivadores.
Antes de apresentar os resultados, tanto do questionário como das escolhas de trabalhadores e
empresas, importa enunciar as previsões da teoria dos jogos, bem como as previsões quando se
consideram comportamentos recíprocos.