4. REDES DOS PREDECESSORES
5.3 Notes on the Synthesis of Form - Alexander (1964)
Em 1964, Christopher Alexander publicou Notes on the Synthesis of Form, que era basicamente sua tese de doutorado apresentado a Universidade de Harvard em 1962. Em seu lançamento, o livro de Alexander, já era considerado um dos mais importantes livros sobre arte e design126. O Jornal do Instituto Americano de Planejadores predizia “essa publicação poderá talvez um dia provar ser um marco divisório na metodologia de design127” (UPITIS, 2008, p.56). Segundo, Upitis (2008) o trabalho de Alexander, era possivelmente o primeiro a considerar como os computadores poderiam ir além de ferramentas de renderização para modificar métodos e práticas de projeto128.
5.3.1 Método geral de projeto (ou método de projeto)
O autor propõe um processo de projeto de forma racional. Esse processo é baseado no princípio de que todo problema de projeto inicia com um esforço para ajuste entre forma e
126 Malcolm J. Brookes, “Books,” Industrial Design 12, nº3 (March 1965): 20.
127 Original em inglês. Edward J. Kaiser, “Book Reviews,” Journal of the American Institute of Planners XXXI, nº1 (February 1965): 84.
128 Robert Bruegmann´s review of the early use of computers in architecture remains unparalleled in its detail. See Robert Bruegmann, “The Pencil and the Electronic Sketchpad: Architectural
Representation and the Computer” in Architecture and its Image, eds. Eve Blau and Ned Kaufman (Montreal: Centre Canadien d’Architecture; Cambridge, MA: Distributed by the MIT Press, 1989).
contexto. “A forma é a solução para o problema; o contexto define o problema. [...] Sendo assim, o designer teria que se preocupar em como fazer bons ajustes” (ALEXANDER, 1971, p.21, tradução nossa). Para Alexander o processo natural de construção das formas, que ele chama de processo inconsciente de si mesmo, tem êxito por ser um processo homeostático (auto-organizado) produzindo formas bem ajustadas (C1-F1). Enquanto que o processo consciente de si mesmo, aquele feito por um designer, por exemplo, quebra esse processo ao fragmentar o problema e escolher com qual subsequência de requisitos irá trabalhar independentemente (C2-F2). O remédio para isso, segundo o autor, está em retroceder em uma nova etapa de abstração (figura 45). Esta terceira imagem (C3-F3), é construída a partir de entidades matemáticas chamadas “conjuntos”. Ao expressar o problema em termos matemáticos, o designer teria neutralidade a respeito de um modo que não estará sujeito a parcialidade da linguagem e da experiência (ALEXANDER, 1971).
Figura 45: Processos de ajustes forma-contexto, Alexander (1971). Fonte: Adaptado pelo autor.
Alexander chama de realização de um programa de projeto, o conjunto analítico pelo qual se inicia um processo de projeto. Segundo o autor, o motivo da denominação de programa está em se tratar de conselhos ou instruções ao designer de modo que são suas peças principais e, portanto, indicam-lhe quais os principais aspectos do problema a que deve se dedicar (ALEXANDER, 1971). Assim encontrar o programa adequado para um problema determinado é a primeira fase do processo de projeto que ele chama de fase analítica. Essa fase é seguida por uma fase sintética da qual se gera uma forma para o programa. O ponto de partida da fase analítica são os requisitos, o ponto final é um programa, que é uma árvore de conjuntos de requisitos. Assim como, o ponto de partida da síntese é o diagrama e o produto final da síntese é a realização do problema, que é uma árvore de diagramas.
Alexander explica que o livro se dedica principalmente à fase analítica do processo e a criação de programas que podem fazer razoavelmente a tarefa da síntese da forma. Em nenhum momento o autor define um método dividido por etapas, no entanto para tornar
mais claro o seu processo foi feita uma adaptação da procedência do projeto (figura 46).
Mostrando a principal diferença entre a fase analítica, que consta na construção de uma arvore de conjuntos (programas) mediante a decomposição e partição do problema e a fase sintética que é feita mediante a fusão e recomposição dos elementos. “A eficiência e beleza dos conjuntos como uma ferramenta analítica para problemas de projeto esta em seus elementos poderem ser tão variados quanto necessário, não se limitando apenas por requisitos que podem ser expressos de forma quantificável129“ (ALEXANDER, 1971, p.80).
Figura 46: Realização de um programa ou processo de projeto, Alexander (1971). Fonte: Adaptado pelo autor.
Evidentemente a raiz da árvore representava a raiz de seu problema e sua divisão em ramos de seu problema em categorias permitiria que em cada final dos ramos estivesse uma variável de ajuste. Contudo não era uma solução convencional ou de incremento que interessava Alexander, o pondo fundamental de seu método estava na conveniência de reagrupar as variáveis de maneira a obter o melhor ajuste e sintetizar numa solução completamente nova, já que não haveria qualquer influência ou familiaridade.
(BROADBENT, 1976; ALEXANDER, 1971). Por fim, Alexander explica que uma solução de projeto não é um problema de otimização, nem de satisfazer determinado requisito. Mas sim de nivelar todos os requisitos de maneira a não deixar que haja o desajuste entre forma e contexto. Sendo isto realizado de maneira estritamente binaria, consistindo a tarefa em chegar cada variável ao valor ‘0’ e dessa maneira chegando a uma nova solução, talvez gerada mesmo sem que o próprio designer perceba (BROADBENT, 1976).
5.3.2 Teorias (ou métodos específicos)
A introdução de seu livro é intitulada “A necessidade de racionalidade”. Nela o autor expõe a
129 Tradução nossa.
dificuldade em tratar de problemas cada vez mais complexos:
Na atualidade, os problemas funcionais são cada vez menos simples.
Contudo, são raras as vezes que os designers confessam sua incapacidade para resolvê-los. Acontece, no entanto, que quando o designer não compreende um problema com claridade suficiente para ordena-lo, volta a utilizar ordens formais escolhidas arbitrariamente, e o problema em razão de sua complexidade permanece sem solução.130 (ALEXANDER, 1971, p.9).
A ideia de racionalidade, que exerceu forte influencia sobre o trabalho de Alexander, também foi fundamental no contexto institucional no qual ele estava incorporado, o Harvard Center for Cognitive Studies (CCS). Este era o lugar aonde Alexander conduziu experimentos psicológicos enquanto construía o seu trabalho de doutorado na Harvard Graduate School of Design. Para Alexander e figuras influentes do CCS, o irracional (ou não-racional) estava ligado ao psicológico. Patologias e patologias psicológicas foram pensadas aplicáveis a seres humanos ou máquinas. Os seres humanos eram configurados como máquinas de informação com sérias dificuldades, e as máquinas eram concebidas como seres humanos patológicos (UPITIS, 2008, p. 57). Isso pode ser notado no próprio discurso de Alexander, “... não surpreende a ideia de que a capacidade inventiva do homem seja limitada. Em outras áreas isso tem sido demonstrado e aceito, que existem limites para as capacidades cognitivas e criativas dos seres humanos” (ALEXANDER, 1971, p.13).
Alexander prossegue, “(…) o designer de hoje confia cada vez mais em sua posição como artista, no discurso pessoal e na intuição… porque tudo isso lhe alivia a carga de decisão e torna mais tratável seus problemas cognitivos”. (ALEXANDER, 1971, p.17)
Outro exemplo das ideias de Alexander sobre a racionalidade do projeto é a defesa que ele faz de uma teoria de projeto sistemático, muito próxima das ideias que Herbert Simon apresentaria em 1969 no seu livro The Sciences of the Artificial.
...a primeira vista, parece difícil imaginar que uma teoria sistemática possa ser considerada. Existem certas classes de problemas, como alguns dos quais se preocupam a Economia, jogos de damas, lógica ou de Administração que podem ser esclarecidos e resolvidos mecanicamente.
Isso é possível, porque os entendemos com clareza suficiente para convertê-los em problemas de seleção. Logo fica evidente que, se este tipo de solução é possível, não é preciso "projetar" uma solução (ALEXANDER, 1971, p.75-76).
Alexander trata seu método de forma matemática, se apoiando em Teorias dos grafos e dos conjuntos para gerar seu método abstrato de projeto. Além de uma forte influência da Cibernética e das Teorias da Psicologia cognitiva. Uma das razões no interesse de
130 Original em espanhol.
Alexander para a realização de um método abstrato também era o seu interesse em gerar aplicações computadorizadas do método de projeto como o HIDECS, provocando uma visão binária, essência da Computação digital e da Teoria da Informação.
Na figura 47 é apresentada a rede das áreas presentes nas suas citações.
Figura 47: Redes das áreas relacionadas às referências bibliográficas do autor, Alexander (1971).