CAPÍTULO 1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E ABORDAGENS CONCEITUAIS A cidade é o produto histórico das relações sociais, onde os conteúdos e as formas
1.3 NOVAS HORIZONTALIDADES E NOVAS TERRITORIALIDADES
A desterritorialização, enquanto processo de avanço e expansão global das técnicas, impulsiona o desequilíbrio das organizações locais onde há uma implantação normativa de técnicas invasoras. Há uma perturbação a ordem local pela imposição de uma lógica estranha ao lugar. Daí, são diversas as consequências, como explica Santos (1996, p. 170):
Esses fenômenos podem ser paralelos ao do "esvaziamento" político local, com repercussões diretas ou indiretas em escala mais ampla, como a região ou o Estado. Na medida em que os atores recém - chegados tragam consigo condições para impor perturbações, o acontecer em uma dada fração do território passa a obedecer a uma lógica extra-local, com uma quebra às vezes profunda dos nexos locais. É o caso do que C. de Mattos (...) chama de "desterritorialização do capital" e é, também, o caso da produção local de riscos ambientais, transportados por técnicas movidas por interesses distantes.
Essa perturbação possibilita o acontecimento de “reações à desterritorialização” e a construção de novas territorialidades pelos grupos inconformados. Para Andrade (1994, p. 214-215), tal inconformidade com os efeitos da desterritorialização e a produção de diferentes territorialidades faz parte da história da formação socioespacial do Brasil. Segundo o autor:
(...) Admitimos que a expressão territorialidade pode ser encarada tanto como o que se encontra no território e está sujeita a gestão do mesmo, como, ao mesmo tempo, ao processo subjetivo de conscientização da população de fazer parte de um território, de integrar ao território.
Dialeticamente, porém, a expansão do território, ao mesmo tempo em que promovia a ampliação da territorialidade, provocava a desterritorialidade nos grupos que se sentiam prejudicados com a forma e a violência com que era feita. Os indígenas, por exemplo, tomaram conhecimento do processo de espoliação econômica e da desaculturação a que estavam sendo submetidos; os posseiros, que já estavam sendo expropriados nas áreas de origem e procuravam acesso à terra naquelas em povoamento, se sentiam novamente espoliados e, naturalmente, reagiam à territorialização a que eram submetidos pelas forças políticas e pelos órgãos de comunicação.
(...) Dessa convergência espacial dos contrários, surgia a reação a gestão central à desterritorialidade e à integração com a formação de novas territorialidades, novas formas de concepção do uso e do processo de domínio do território. Concepções que têm fundamentação de caráter econômico, mas que têm também uma forte conotação antropológica e social.
A produção de novas territorialidades através de certa conscientização por parte da população encontra obstáculos devido à forma de união entre os lugares atingidos pelos vetores da globalização. Nesse sentido, Santos elucida que:
(...) A tendência atual é que os lugares se unam verticalmente e tudo é feito para isso, em toda parte. Créditos internacionais são postos à disposição dos países mais pobres para permitir que as redes se estabeleçam ao serviço do grande capital. Mas os lugares também podem se unir horizontalmente, reconstruindo aquela base de vida comum suscetível de criar normas locais, normas regionais. (1994, p. 19-20, grifo meu)
A tendência de união vertical dos lugares está relacionada a ordens globais de domínio territorial como estratégia de reprodução capitalista do espaço. Já a união horizontal implica uma defrontação a essa tendência através da criação de ordens locais. O exame da realidade geográfica que se pretende aqui acompanha o questionamento levantado pelo autor (1996, p. 225):
(...) A partir dessas duas ordens, se constituem, paralelamente, uma razão global e uma razão local que em cada lugar se superpõem e, num processo dialético, tanto se associam, quanto se contrariam. É nesse sentido que o lugar defronta o mundo, mas, também, o confronta, graças à sua própria ordem.
O autor admite que a ordem local é regida pela interação de objetos (que implicam, portanto, em ações) e reunidos “como território” (Santos, 2002, p. 230-231):
A ordem local é associada a uma população contígua de objetos, reunidos pelo território e como território, regidos pela interação. No primeiro caso, a solidariedade é produto da organização. No segundo caso, é a organização que é produto da solidariedade. A ordem global e a ordem local constituem duas situações geneticamente opostas, ainda que em cada uma se verifiquem aspectos da outra. A razão universal é organizacional, a razão local é orgânica. No primeiro caso, prima ainformação que, aliás, é sinónimo de organização. No segundo caso, prima a comunicação.
Em ambos os casos, as ordens impõe territorialmente uma funcionalização que designará múltiplas formas de organização vertical ou horizontal, em redes ou zonas (Haesbaert, 2004, p. 22). O território é nesse sentido um recurso utilizado para satisfazer
interesses ou necessidades de atores hegemônicos ou hegemonizados, e as formas de apropriação ou dominação levam a existência de múltiplas formas de organização territorial. Essa diversidade de possibilidades de organização territorial fundará o que tem sido denominado multiterritorialidade. Haesbaert (2004, p. 28), define este conceito como sendo a “multiplicidade simultânea de territórios” e permite a distinção de duas perspectivas sobre a multiterritorialidade:
(...) aquela que diz respeito a uma multiterritorialidade “moderna”, zonal ou de territórios de redes, embrionária, e a que se refere à multiterritorialidade “pós-moderna”, reticular ou de territórios-rede propriamente ditos, ou seja, a multiterritorialidade em sentido estrito. Neste trabalho, ao investigar a constituição de formas de apropriação e de constituição de ordens locais dos enclaves urbanos ocupados irregularmente, adota-se a perspectiva mais tradicional, onde se verifica a constituição de uma territorialidade zonal delimitada, principalmente, pelos muros do condomínio.
Tal adoção não desconsidera a existência de territórios diversos organizados em rede em escala transnacional, pelo contrário, admite. Mas considera que esta multiterritorialidade “em sentido estrito”, em territórios-rede por todo o globo, corresponde ao próprio território usado como o produto dos conflitantes processos de des–reterritorialização das técnicas que são, portanto, criadores de redes instrumentais aos agentes hegemônicos.
A multiplicidade de territorialidades zonais ocorridas em escala intraurbana, por sua vez, é considerada como decorrente da atual fase de “emergência de novas formas espaciais, continente de novas territorialidades dos grupos sociais” (Soares, 2008, p. 163).
Considera-se, ainda, que estas territorialidades presentes na cidade encontram como finalidade principal ou como “objetivo da territorialização” o “abrigo físico” (Haesbaert, 2004, p. 23). Tal proposta é corroborado pelo o pensamento de Santos (2000, p. 108) quando este coloca que:
Os atores hegemonizados têm o território como um abrigo, buscando constantemente se adaptar ao meio geográfico local, ao mesmo tempo que recriam estratégias que garantam sua sobrevivência nos lugares.
A análise das dinâmicas internas das formas horizontais presentes na cidade, continentes de territorialidades, operam através da ordem ou razão local que serve
instrumentalmente aos habitantes - estes personificam os chamados agentes hegemonizados. Gottmann (2012, p. 526) explica que o conceito de território enquanto “abrigo” aproxima à ideia de isolamento político na medida em que possibilita proteção ao grupo que estabelece poder sobre uma parcela estratégica da superfície.
O autor explica ainda que, em contrapartida, o território enquanto “recurso” aproxima à ideia de cosmopolitismo no sentido de inter-relação com outros territórios. O que diferencia, portanto, os territórios são suas formas de uso – o que sempre envolve interesses políticos de uso do território.
1.4 A URBANIZAÇÃO COMO FATOR CRIADOR DA SEGREGAÇÃO URBANA