A parceria estreitou a relação entre a administração do condomínio e a empresa CPFL Piratininga. Verificou-se durante a entrevista que é comum as trocas de mensagem entre a síndica e funcionários da empresa através do aplicativo de celular Whatsapp. Por esse meio, a empresa informa sobre os cortes que pretende realizar de forma remota aos moradores com contas atrasadas, bem como informa problemas no fornecimento de energia.
Renata explica que sempre busca auxílio de políticos para resolver necessidades do condomínio quando necessário. Ela relata que:
Nós íamos sair na frente dos outros condomínios de novo se a prefeitura do Crespo colocasse os hidrômetros que prometeram aqui. Mas ele saiu antes. O deputado federal Jeferson Campos36, que já foi vereador em Sorocaba e
é pastor da igreja quadrangular que vou, conversou com a equipe do Crespo37 e eles fizeram a primeira reunião da equipe deles aqui. Daí eles
prometeram arrumar a energia elétrica e fizeram. Iam colocar o hidrômetro mas ele (Crespo) saiu antes38.
O estreitamento de relações com empresas e pessoas ligadas ao poder público não é incomum no Parque dos Eucalitptos.
Por causa da situação de irregularidade fundiária e as dificuldades geradas pela baixa arrecadação da taxa condominial, tem sido comum até os dias de hoje o contato com o poder público municipal por parte da administração. Abner, por exemplo, explica que:
(...) logo que a síndica chegou, o candidato a vereador, Manga, se reuniu com os moradores e prometeu lutar pela regularização dos imóveis. (...) Acredito que ele fez o que poderia enquanto vereador e encaminhou um processo que está parado com algum juiz.
Contudo, as informações apresentadas esclarecem ainda mais como as normas hegemônicas que regulam o território usado pelas grandes empresas e pelo Estado são o grande fator de modelação das relações presentes nos subespaços, nos lugares e nas territorialidades presentes na cidade.
36 PSB – SP.
37 DEM-SP.
38 O prefeito Crespo (DEM) teve o mandato cassado em agosto de 2019 por irregularidades na contratação de voluntários da prefeitura.
O condomínio Parque dos Eucaliptos, enquanto um território organizado por normas criadas localmente, serve de exemplo para mostrar como ocorrem adaptações dos agentes para conformidade com as normas criadas externamente.
A situação da taxa de condomínio é um exemplo desta adaptação à norma existente na maioria dos enclaves urbanos convencionais, no entanto, é incapaz de ser semelhante, na medida em que não pode aplicar penalizações para os que não pagam a taxa.
Vale lembrar que foi justamente a coerção sobre os que não pagam a taxa que impulsionou a eleição de Renata e a integração espacial das duas partes do condomínio Parque dos Eucaliptos em 2007. Logo, este tipo de relação de poder foi superado através de uma norma mais democrática.
Outro exemplo de adaptação normativa aparece na questão do fornecimento de água e luz. Para o primeiro recurso não foi encontrada outra alternativa senão deixar de realizar o pagamento dos valores mensais, visto a inviabilidade devido à baixa arrecadação da taxa de condomínio. A regra que se criou a partir desta circunstância foi a de realizar todo mês um pagamento “simbólico”, no intuito de demonstrar o interesse e a incapacidade de realizar a quitação dos débitos.
É notável também que a autarquia SAAE não tenha conseguido chegar em um acordo consensual sobre as dívidas acumuladas e as formas de pagamento do mesmo modo que a CPFL. Enquanto os moradores sofrem com os problemas de manutenção da bomba d’água e a interrupção constante do fornecimento, a instituição não se mobiliza para efetivamente encontrar uma solução que beneficie a todos. A dívida se acumula mês a mês.
Já o fornecimento elétrico expressa duas formas de adaptação. A primeira aparece nas ligações irregulares, os “gatos”, que foram a alternativa encontrada pelos moradores que adentraram ao condomínio a partir de 2001.
A outra adaptação aparece na parceria entre a Litro Luz, CPFL e a administração do condomínio. Apesar de se perceber um ganho muito maior para as empresas envolvidas, destaca-se esta ação como algo positivo para a comunidade de moradores na medida em que oferece solução para o risco que se corre com ligações irregulares, cujos efeitos nunca podem ser, de fato, mensurados em cada caso.
Por fim, a taxa de condomínio enquanto norma local demonstra ser um importante aparato regulador das relações no Parque dos Eucaliptos. Através dela se efetiva os serviços necessários à reprodução do cotidiano e dá base para o processo de territorialização do lugar, dado que serviu de pretexto para a coerção outrora, mas hoje serve de subsídio para a realização de relações de poder mais equilibradas.
Por isso, respondendo a indagação de Renata ao final do subcapítulo anterior, acredita-se que aqueles que podem pagar a taxa de condomínio devem cumprir com esta
norma, com certeza, pois beneficia de imediato o grupo. No entanto, aventa-se que não é
capaz de resolver todas as questões, visto que as relações estão desequilibradas por instâncias superiores, inclusive relativas a aspectos econômicos e culturais da sociedade atual.
● Residencial Ipatinga
No Residencial Ipatinga existe uma evidente desigualdade no arrecadamento das taxas de condomínio entre a parte de cima e a parte de baixo.
Na parte de cima o valor do condomínio é de R$ 120,00, segundo Thiago. Infelizmente, não foi possível saber qual a proporção de famílias que contribuem. A julgar pela ausência de reclamação de atraso salarial e pelas boas condições das pinturas das fachadas, acredita-se que, entre os três lugares, ali ocorra a maior contribuição.
Também não foi possível saber ao certo quantos funcionários trabalham no condomínio. Entretanto, sabe-se que ali não existe a norma de contratação apenas de residentes. Dois porteiros com quem se conversou despretensiosamente revelaram não serem moradores do Residencial Ipatinga.
Na parte de baixo, por sua vez, o valor da taxa de condomínio é de R$ 80,00. No entanto, a arrecadação é baixíssima, entorno de 15% das famílias contribuem todo mês, o que incorre em problemas para a equipe de administração. Assim como no Parque dos Eucaliptos, os atrasos salariais são comuns, o que tem desmotivado o síndico Seu Lourenço em continuar na administração. Segundo o responsável:
O povo anda confundindo as coisas. Eu já estou aqui há 18 anos, já conheço quase todo mundo e, quando o pessoal pega amizade assim eles aproveitam. Não querem saber de pagar o condomínio, não tem dinheiro pra trocar. Na verdade eu tô até mudando de ideia. Pensando em contratar uma empresa pra assumir aqui. Tomara que dê certo.
O que podia ser feito já foi. Já batemos de porta em porta. Fulano promete que vai pagar, e nada. Só dá pra esperar em deus mesmo.
A fala do síndico expressa a dificuldade existente em organizar a situação de contribuição da taxa. Segundo Maria: “o Seu Lourenço é um rapaz bom, mas ele sozinho não dá conta, gente! Ele que arruma, conserta, faz reforma. Mas o pessoal tinha que pagar o condomínio”. A figura 39 mostra Seu Lourenço apresentando a prestação de contas do condomínio através de um comunicado que é afixado na entrada de cada um dos blocos.
FIGURA 39. FOTOGRAFIA - COMUNICADO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS