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Novo ano, problemas e processos velhos – o poder contra a CGT

No documento A Confederação Geral do Trabalho (1919-1927) (páginas 107-111)

CONSELHO CONFEDERAL

1.3. Novo ano, problemas e processos velhos – o poder contra a CGT

No princípio do ano de 1920, quando a CGT tem em curso a produção e distribuição de material destinado à organização da cobrança das quotas - cadernetas, verbetes e selos-cota - e os carimbos com o label confederal identificativo dos organismos sindicais confederados, mantêm-se no centro das atenções da organização operária quer a questão dos operários expulsos do Brasil, detidos à chegada a Lisboa e outros imediatamente deportados para África44, quer os problemas da carestia e da vida cara, a falta de habitação em Lisboa e o preço das rendas, levando a movimentações lideradas pelas Uniões de Sindicatos e contando também com o envolvimento do Comité Confederal.

Na entrada do ano intensifica-se o processo reivindicativo de aumento de salários, que se vai manter muito forte ainda mais 3-4 meses, por parte de quase todas as classes profissionais. Muitos desses movimentos chegam à greve - cerca de 90, nos cinco primeiros meses do ano, das quais, pela sua duração e/ou efectivos profissionais envolvidos, merecem destaque:

• iniciadas em Janeiro, a dos Carregadores e Descarregadores de Mar e Terra do Porto e Gaia (4 semanas), a do pessoal dos Telefones (37 dias), a greve geral corticeira (15 dias45), a dos operários da indústria do mobiliário do Porto (5 semanas), a dos curtidores e surradores de Guimarães (mais de 17 dias), a greve geral no Porto (8 dias, mantendo-se algumas classes profissionais em greve mais uma semana, tendo-se verificado a morte de 2 operários pela polícia e muitos feridos);

42 Alexandre Vieira - Almanaque da “A Batalha”, p. 94, e AB, 24-11-1919. A Nota Oficiosa da CGT

sobre o Horário de Trabalho de 8 Horas vem publicada em AB, 11-11-1919.

43 AB, 10-11-1919. 44

Além de outras acções em favor dos “deportados do Brasil”, o secretário geral da CGT, acompanhado pelo advogado do Conselho Jurídico, chegam a reunir com o presidente do Governo, nos primeiros dias do ano, mas sem qualquer resultado prático. Os deportados para Cabo Verde, 11 no total, serão libertados em Janeiro de 1921 (AB, 31-01-1921).

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A greve geral nacional corticeira culmina um processo de preparação empreendido pela Federação desde o mês de Dezembro de 1919; teve a duração de 15 dias, a partir de 14 de Janeiro de 1920 referenciando-se a participação dos operários de praticamente todos os locais onde se funcionam unidades industriais corticeiras. Entre os não aderentes, referência à Feira, onde a indústria emprega 2.000 trabalhadores, “talvez por estarem desorganizados”, escreve-se em A Batalha, 15-01-1920.

• iniciadas em Fevereiro, a greve dos soldadores das fábricas de conservas de Almada (1 mês), a do pessoal extraordinário dos tabacos de Lisboa (cerca de dois meses) e as dos ferroviários do Estado (5 dias), além da greve geral, no Porto, em que é notícia a participação do pessoal operário de duas fábricas de fiação têxtil;

• iniciadas em Março, a dos funcionários públicos (incluindo os telégrafo-postais) em Lisboa, Porto, Coimbra e outros locais, que no Porto se estendeu à polícia (12 dias), a greve geral metalúrgica, em Lisboa e arredores, envolvendo mais de 20 mil operários (mais de 15 dias), a greve geral da construção civil em Lisboa e arredores (mais de 70 mil operários, durante 34 dias), e a greve geral no Funchal46;

• iniciadas em Abril, as greves em Lourenço Marques (Moçambique) do pessoal do comércio, os empregados públicos e os gráficos;

• iniciadas em Maio, a dos tipógrafos, em Lisboa (mais de 50 dias), a do pessoal dos eléctricos em Lisboa (9 dias).

Pelo seu impacto na vida da população, e por isso mesmo geradoras de protestos generalizados, merecem ser referidas as greves dos padeiros ocorridas neste período, em Braga, Porto e Lisboa.

Este período foi, seguramente, na vida da CGT, um dos mais activos em matéria de greves operárias47.

Como foi referido, a grande motivação destas greves é a obtenção de aumentos de salário, como quase sempre na vida da CGT, mas este ano ainda com maior razão de ser, em virtude do aumento galopante do custo de vida e o acentuar da carestia48.

À crise social provocada pelo aumento brutal do custo de vida, junta-se o problema do da escassez de bens essenciais no mercado, frequentemente por razões especulativas

46 Este movimento, informa A Batalha, foi desencadeado por causa da tentativa de apreensão pelas

autoridades do jornal O Operário, órgão da União de Sindicatos do Funchal (a 26 de Março) e no dia seguinte, sábado, o assalto à Casa Sindical, pela polícia; o movimento começou a 29 terminou no dia 31 de Março, com a aceitação pelo Governo Civil de um conjunto de reivindicações operárias, respeitantes a fim da repressão e retirada da Guarda Republicana das instalações operárias e ao combate à carestia (AB, 19-04-1920).

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Sobre a amplitude e importância das greves referenciadas, tenha-se em atenção o que indicámos na nota 35 do capítulo I. Para detalhe das greves neste período, veja-se a Cronologia no Apêndice A e, no Apêndice K a sua distribuição geográfia e sectorial.

48 Entre Julho de 1919 a Julho de 1920, os preços no país aumentaram 74%; apesar do vigor do surto

grevista e de em muitos casos, terem sido exigidos aumentos superiores a 100%, os salários não acompanharam a subida dos preços, ficando-se naquele período por uma variação de +26%. Em valores acumulados dois anos – Julho de 1918 a Julho de 1920 – a variação dos preços foi de +88%, e a dos salários de apenas +48%. Ver Anuário Estatístico de Portugal, 1925, cit. por Douglas Wheeler - História

Política de Portugal-1910-1926, p.196 e Fernando Medeiros – A sociedade e a economia portuguesas nas origens do salazarismo, p. 133. No que respeita à evolução dos preços, este último autor, tendo

considerado que os dados oficiais merecem reservas, por extrapolarem para o país os índices de Lisboa, onde o controlo das autoridades administrativas e a pressão operária limitavam os efeitos do açambarcamento com fins especulativos, elaborou uma tabela com base na evolução os preços ponderados de 25 artigos de consumo corrente, em Lisboa e no Porto, para concluir que, enquanto em Lisboa os preços aumentaram 52% entre 1919 e 1920 (e 103% no biénio 1918-1920), no Porto – e no resto do país, cuja situação era neste particular mais próxima do Porto do que de Lisboa) essas variações teriam sido muito superiores, respectivamente, +108% e +120%. Idem, idem, p.134-135.

– a “bicha” para comprar açúcar, batatas, pão e até tabaco converteu-se numa instituição com efeitos muito negativos na vida das famílias. Apesar de proibido por lei e de combatido pelas autoridades – com pouca ou nula eficácia – o açambarcamento era um fenómeno em expansão, denunciado não apenas pelos sindicatos e pela imprensa operária, mas também pelos políticos, incluindo os do círculo do poder, e pela imprensa em geral49.

Questão especialmente sensível na crise das subsistências é o preço do pão, que constitui então o principal produto de alimentação da maioria das famílias50.

Seguindo uma política de preço controlado do pão, o governo de António Maria Baptista veio a decretar, em 24 de Abril de 1920, a adopção de um único tipo de pão, em lugar dos dois existentes, uma medida que correspondia a uma velha reivindicação do movimento operário, já defendida pela UON.51

Sinal dos tempos, em 17 de Janeiro de 1920, tinham-se verificado tumultos em Oliveira de Azeméis, motivados pela carestia; esta há-de estar na origem de acontecimentos idênticos em Beja, nos últimos dias de Abril e, no segundo semestre do ano (como se verá) em vários locais do país, como Setúbal, Castelo Branco, Guarda e Coimbra. Refira-se que a greve geral, no Funchal, no fim de Março, termina com a aceitação pelo governador civil de uma tabela de preços dos bens de primeira necessidade52.

49 Alguma legislação contra a adulteração de produtos, o açambarcamento e o aumento dos preços:

no governo de Sá Cardoso, em 1919, a lei de 12 de Agosto, os decretos de 18 de Setembro e 19 de Novembro e a lei de 30 de Dezembro, esta estabelecendo o julgamento sumário, multas e penas de prisão para os actos de adulteração e açambarcamento de géneros alimentares; no governo de António Maria Baptista, empossado em Janeiro de 1920, o decreto de 20 de Março, fixando preços máximos para o leite, o arroz, o azeite, a batata, o feijão, o café, o grão e o milho. Damião Peres – História de Portugal,

Suplemento, p.253 e 274. Sobre o tratamento desta questão na imprensa, veja-se por exemplo A Ilustração Portuguesa, 05-01-1920, p.13-15 e 25.

50 O pão representaria, em 1918, perto de 50% da ração calórica das famílias portuguesas. Idem, idem, p.141-143, com base em J. Alarcão – “Subsídios para o estudo dos termos fundamentais da

economia portuguesa”, Revista de Economia, vol. II, Fasc. II, 1948.

51 Pelo regime de intervenção vigente, o Estado cedia aos industriais de panificação trigo importado

a preço inferior ao de custo, assegurando assim a manutenção do preço do pão abaixo do preço dos factores de produção. Destes processos foram beneficiárias principais a Companhia Industrial de Portugal e Colónias (também proprietária de padarias e com grandes interesses em outras áreas industriais – produção de energia, minas, banca e imprensa – que não deixará de reforçar o seu poder os anos seguintes da 1ª República) e a Sociedade Industrial Aliança, formando as duas, em conjunto, um poderoso bloco de interesses muitas vezes designado por “polvo” da Moagem. Contra esses interesses se movimentou o jornal O Século, numa verdadeira campanha iniciada em Fevereiro de 1920, denunciando negócios ilícitos e fraudulentos em prejuízo dos interesses do Estado e dos consumidores, que levou à discussão do assunto na Câmara dos Deputados, onde foi exigida ao governo a adopção de um tipo único de pão. Ver A.H.de Oliveira Marques, História de Portugal, vol. III, p.295-296, e Damião Peres obra e volume citados, pp.274-275. Também A Batalha, em 08-02-1920, se faz eco dessa campanha, denunciando o valor da dívida da Moagem ao Estado – 7.134.415$8,5. O preço do pão estabelecido pelo decreto de 24 de Abril de 1920 era de $28 por quilo. No Verão desse mesmo ano o aumento do preço do pão voltaria a incendiar a sociedade portuguesa.

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Os governos liderados por Leite Pereira e o de António Maria Baptista (15-01 a 26- 06-1920) pautaram-se por uma relação mais musculada com a organização sindical – Leite Pereira, que governou em pleno surto grevista, dando-se a sua saída em plena greve dos funcionários do Estado, e em consequência dela, fecha o seu mandato com o assalto, pela polícia e guarda republicana, às instalações sindicais na calçada do Combro, em Lisboa, sede da CGT, da União de Sindicatos, da redacção do jornal A Batalha, e da Federação e Sindicato da Construção Civil; o governo de António Maria Baptista, cujo programa este chegara a resumir na fórmula “Ordem pública, ordem pública, ordem pública”53, que veio a ser confrontado com um cenário social idêntico ao da governação do seu antecessor, em que sobressaem as greves metalúrgica, da construção civil, dos operários mobiliários e a dos eléctricos pautou-se por uma série de acções repressivas sobre o movimento sindical, mais expressivas a partir de 18 de Março, em pleno surto grevista, quando há especulações sobre a iminência de uma revolução bolchevique em Lisboa54, ganhando força no movimento sindical a necessidade de uma greve geral contra o despotismo do governo, a que este responde com mais repressão55.

Durante mais de um mês, em Lisboa, com as instalações operárias da calçada do Combro, e outras, encerradas, o cenário social será dominado por enfrentamentos entre polícias e trabalhadores em greve, pelo rebentamento de bombas e petardos, por prisões em massa, pelo estabelecimento da censura à imprensa, apreensões e obstruções várias à circulação de jornais (A Batalha, O Combate) e até a sua suspensão, sob pretexto de inserirem incitamentos à greve e ataques aos poderes constituídos, de desrespeitarem a autoridade e de utilizarem “linguagem despejada”56.

Multiplicam-se os protestos das organizações sindicais contra a repressão e a própria CGT distribui um documento apelando para a realização de um movimento em todas as localidades do país57, cuja antecipação é proposta, pouco depois, aos organismos sindicais quando, no Parlamento, se começa a discutir um projecto de lei de excepção, proposto pelo governo, e se fala de planos de deportação, para a Guiné, de elementos escolhidos pelo governo58.

É este o pano de fundo do 1º de Maio de 1920, data de especial significado para o movimento sindical.

53 Damião Peres, obra e volume citados, p. 268. 54

Ver Fernando Medeiros, obra citada, p. 222.

55

Em 23 de Março, A Batalha fazia o balanço do governo do “coronel Baptista”: encerramento das sedes das Associações do Pessoal Maior e Menor dos Correios e Telégrafos, da Construção Civil e dos Metalúrgicos, bem como das suas secções, e das sedes da CGT e da USO-Lisboa.

56

AB, 06-04-1920. Nos meses de Abril e Maio de 1920, as suspensões do jornal A Batalha totalizam 21 dias.

57 Circular nº 4, do Comité Confederal, datada de 10-04-1920. AB, 18-04-1920.

58 Ver “Uma lei de excepção” e “Monstruosidade máxima – Pior que nos “ominosos” tempos de

No documento A Confederação Geral do Trabalho (1919-1927) (páginas 107-111)