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6. A FESTA DO BODE E O CINEMA NO DESENVOLVIMENTO DE CABACEIRAS

6.6 Novos empreendimentos para uma nova cidade

A partir da “Festa do Bode Rei” e do cinema em Cabaceiras, novos empreendimentos foram criados, como hotéis, bares restaurantes lojas de artesanato e mercadinhos. O município investiu na infraestrutura e na restauração das áreas de eventos para atender as atividades turísticas e aparelhar o setor às demandas do cinema e do bode. A cidade conta com quatro mercadinhos de grande porte na sede do município e dois no Distrito da Ribeira. Uma das carências da localidade é a escassez de restaurante. Há apenas três restaurantes na sede da localidade e nenhum no Distrito da Ribeira. Contudo, segundo dados de representantes da prefeitura, todos os estabelecimentos geram mais de 200 empregos diretos e cerca de 300 indiretos.

Foi apenas a partir da construção de empreendimentos que a cidade se torna dotada de uma estrutura mínima para receber os visitantes, uma vez que turismo, como destaca Beni (2002), envolve uma gama de fatores entre eles as

hospedagens. Sem hospedarias adequadas não existe turismo, existe apenas excursão. Bem como no alerta Pereiro (2009) que a atividade turística é, por natureza, multidisciplinar fazendo com que envolva diversos setores.

Até 1998, a cidade não contava com nenhuma pousada, apenas um dormitório muito modesto, conforme o proprietário do estabelecimento. O dormitório foi ampliado e hoje é uma pousada com 30 leitos. O município dispõe de 272 leitos, distribuídos em cinco hospedarias, uma delas só funciona durante o período da festa. Uma das pousadas está sendo reformada para ser um resort, o primeiro resorte do Cariri, e um dos maiores hotéis do interior do Estado, com capacidade para mais de 100 leitos. O Hotel Fazenda Pai Mateus, que fica a 29 km da sede municipal continua recebendo turistas nos finais de semana. Os empreendimentos de hotelaria empregam diretamente 42 funcionários.

Além das hospedarias oficiais, a Prefeitura Municipal criou o serviço de hospedaria alternativa para receber os turistas durante a “Festa do Bode Rei”. A ação consiste na ligação entre o turista e o proprietário do imóvel.

Muitos moradores utilizam suas próprias casas como hospedaria, criando alternativas de geração de renda. Tem família que durante os três dias de festa aluga a casa e vai para a casa de parentes. Minha vizinha mesmo, ano passado, alugou a casa para uma turma de 25 pessoas. Durante a festa ela ficou na casa da mãe. É uma forma de ganhar um dinheirinho extra. Eu nunca aluguei a minha, mas todo ano vem gente da minha família pra aqui. A casa fica cheia de gente de outras cidades. Gente que há anos não vinha para a cidade. Além de ser uma forma de reencontrar os antigos amigos é uma maneira de valorizar sua cidade (Entrevistada 9).

Segundo a diretora do Departamento de Turismo de Cabaceiras, até o dia oito de maio de 2012, período da entrevista, 56 famílias já haviam cadastrado suas residências como hospedaria alternativa. Pela cidade era possível ver uma convocatória do departamento chamando as pessoas para cadastrarem suas residências caso quisessem hospedar turistas. Conforme, Jozineide Pereira, os hotéis e pousadas não suportam todos os turistas, então, as residências se tornam uma boa alternativa para quem vem para festa.

As famílias alugam suas casas completas, com utensílios domésticos e todo mobiliário. Para os turistas que vêm em grupos é muito bom, para o proprietário também é uma forma dele ter renda durante a festividade. Tem gente que não quer colocar barraca, não sabe fazer uma comida típica da gastronomia bodística, então aluga a casa e

consegue um dinheiro extra. Tem residências que são alugadas até por R$ 2.000,00. Pode parecer caro, mas um grupo de 20 a 30 turistas, esse valor fica muito barato para os três dias de festa.

De acordo com a diretora do Departamento de Turismo, na última edição da “Festa do Bode Rei” a prefeitura cadastrou 150 empreendedores locais e de outras cidades vizinhas, entre barraqueiros e ambulantes. Embora o comércio seja aquecido durante a festividade e novos empreendedores sejam atraídos a cada ano para a festa, alguns moradores afirmam que boa parte das barracas é de fora e o dinheiro não fica na localidade.

Tem muitas barracas, mas a maioria é de fora. As pessoas daqui ainda estão preocupadas em aproveitar a festa. Eles não percebem que se tivessem um empreendimento era uma forma de ter uma renda extra durante a festa. Mas como não fazem isso vêm as barracas de fora, essas pessoas que ficam de festa em festa, vêm para cá e levam os lucros. Eu acredito que mais da metade das barracas são de fora (Entrevistada 13).

Segundo a entrevistada citada anteriormente, por mais que a festa já exista há 13 anos e que a administração a promova como uma tradição, as pessoas da cidade ainda não se apropriaram da festa. Entretanto, o comércio que é realizado durante os três dias de festa é ainda dominado por comerciantes de outras cidades. Por mais que a população tenha passado por capacitação para o setor de empreendedorismo ela ainda não assumiu a festa para ter lucro. A entrevistada 13 que é comerciante, afirma que falta a população perceber que a festa é dela e que os recursos que são gerados durante a festa precisam ficar na cidade e desenvolvê- la e não ir embora junto com os visitantes.

Se antes a cidade não era reconhecida nacionalmente hoje os moradores se orgulham de ser da cidade do cinema e de onde o bode é rei. Se a “Festa do Bode Rei” serviu para a revitalização da cultura bodística, da culinária e do artesanato locais, o cinema foi fator primordial para que os agentes públicos tivessem descoberto que o que parecia obstáculo natural para o desenvolvimento era, na verdade, potencialidade. O cinema só foi possível na localidade justamente em decorrência das características orográficas e climáticas. À medida que a cultura do bode revalorizou o que os homens e mulheres já vinham fazendo há décadas, o cinema redescobriu as paisagens naturais do município e as divulgou para o mundo.