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2. O TURISMO COMO ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO LOCAL

2.2 Os roteiros regionais e a transformação das comunidades

Com a nova dinâmica do desenvolvimento a partir do turismo, o governo precisa gerar estruturas suportadas por algumas políticas públicas. Em 2003, foi criado o Ministério do Turismo (MTur). A iniciativa inseriu, pelo menos no papel, a atividade turística na cadeia de prioridades do governo federal, colocando o turismo como importante ativo do desenvolvimento econômico e social. Cerca de três meses depois, foi lançado o Plano Nacional do Turismo (PNT) – Diretrizes, Metas e Programas, para o período de 2003-2007, um instrumento de planejamento do Ministério do Turismo. A partir da criação dessas estruturas, fazia-se necessário o lançamento de programas de valorização dos territórios regionais e que compreendessem a cultura como ativo importante para a cadeia turística. Em 2004, é lançado o Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil – PRT. O programa de Regionalização do Turismo determina estruturação, o ordenamento e a diversificação da oferta turística no país e se constitui no referencial da base territorial do Plano Nacional de Turismo. É, dessa forma, um modelo de gestão de política pública descentralizada, coordenada e integrada, com base nos princípios de flexibilidade, articulação, mobilização, cooperação intersetorial, interinstitucional e na sinergia de decisões como estratégia orientadora dos demais programas e ações do PNT.

No novo programa é valorizado não apenas o turismo em si, mas toda a cadeia e os produtos que agregam valor à atividade turística. A partir desse viés, o artesanato foi considerado “uma opção relevante” na pauta da exportação, além de contribuir para o desenvolvimento do turismo. Nos estados, os governadores começam a pensar em projetos de valorização do fazer artesanal. Se o objetivo do plano era criar produtos de qualidade e diversificados para atender os turistas internacionais e os grandes mercados consumidores do Centro-Sul, houve capacitação dos artesãos e incentivos para que eles participassem dos principais eventos nacionais de artesanato.

Na Paraíba, a atividade também foi impulsionada pelo governo estadual. Em 2004 foi lançado o programa “A Paraíba em Suas Mãos”, que busca apoiar os artesãos no desenvolvimento da sua atividade, auxiliando na geração de emprego e renda, viabilizando o contato dos artesãos com diversas instituições e seus programas de apoio à atividade (SEBRAE, 2005, p. 78).

Com o objetivo de promover o crescimento integrado da atividade turística no país, envolvendo o artesanato e as manifestações culturais, o PNT elegeu como sua principal diretriz o PRT – Roteiros do Brasil. Esse Programa buscava um melhor entrosamento do governo central com os governos estaduais e a sociedade civil, gerando uma política pública para a atividade turística e buscando o desenvolvimento regional. O PRT previa uma gestão pública descentralizada, uma abordagem comunitária participativa e a formação de Conselhos, Fóruns e Planos de Turismo com uma proposta, teoricamente, ascendente, cujos fundamentos derivariam das bases da sociedade. Como ressalta o documento:

a Regionalização do Turismo é um modelo de gestão de política pública descentralizada, coordenada e integrada, baseada nos princípios da flexibilidade, articulação, mobilização, cooperação intersetorial e interinstitucional e na sinergia de decisões. Regionalizar é transformar a ação centrada na unidade municipal em uma política pública mobilizadora, capaz de provocar mudanças, sistematizar o planejamento e coordenar o processo de desenvolvimento local e regional, estadual e nacional de forma articulada e compartilhada (BRASIL, 2004).

O Programa de Regionalização do Turismo, nasceu como um dos eixos norteadores das políticas públicas do turismo brasileiro e tinha a função de articular toda a cadeia da atividade turística com objetivos de desenvolver as localidades numa ação articulada entre os diferentes agentes. Ao mesmo tempo, o PRT compreendia os produtos turísticos de modo a pensá-los dentro de uma estrutura maior e planejar roteiros turísticos que levassem em conta não apenas comunidades específicas, mas regiões inteiras. Se o PNMT serviu para que as cidades fossem cadastradas e descobrissem suas potencialidades, seus patrimônios, suas culturas, o PNT apresentou o turismo como um instrumento que tinha como proposta principal diminuir as desigualdades regionais. Além de criar novas oportunidades de transformação social do Brasil, o PNT fez com que os gestores estaduais e municipais re(inventassem) suas dinâmicas econômicas e repensassem o turismo como forma de desenvolvimento regional. Assim, o documento traz como visão que:

O turismo no Brasil contemplará as diversidades regionais, configurando-se pela geração de produtos marcados pela brasilidade, proporcionando a expansão do mercado interno e a

inserção efetiva do país no cenário turístico mundial. A geração do emprego, ocupação e renda, a redução das desigualdades sociais e regionais, e o equilíbrio do balanço de pagamentos sinalizam o horizonte a ser alcançado pelas ações estratégicas indicadas (PNT, 2003, p. 21).

Se antes havia necessidade de uma homogeneização de pensamento, de padronização de produtos turísticos e imagens de cidades turísticas, a diferenciação era primordial para a valorização de cada localidade. Com a diferenciação surgia um produto especifico em cada localidade a fim de atrair os viajantes para conhecer essas localidades e descobrirem o que cada comunidade tinha de particular, de “exótico”. Assim, os roteiros turísticos regionais poderiam ser construídos. Os turistas haviam de encontrar novidades sempre. O novo programa deveria traduzir- se em um modelo de desenvolvimento que, além do crescimento, buscasse a desconcentração de renda por meio da regionalização, interiorização e diversificação da oferta turística brasileira, promovendo o planejamento e a gestão das atividades turísticas por regiões. O Programa de Regionalização deveria diversificar os mercados assim como os produtos e destinos turísticos brasileiros.

Entre os objetivos específicos do PNT estava a “elaboração” desses produtos turísticos brasileiros e competitivos, em relação a outros países, capazes de destacar as diversidades regionais, culturais e naturais, além de apresentar um Brasil diferente, cultural e etnicamente múltiplo. As diferenças regionais precisavam ser vistas como valor agregado e não como uma imagem negativa. A imagem da diversidade vai ser vendida como a essência brasileira.

A mudança do foco da promoção, contemplando a diversidade cultural e regional brasileira, o incremento à comercialização de novos produtos de lazer, negócios, eventos e incentivos; vão proporcionar ao visitante estrangeiro um leque ampliado de opções. O fortalecimento destes segmentos cria as condições para o aumento do tempo de permanência do turista no Brasil [...] A disponibilização para o consumo de um número maior de serviços turísticos qualificados, o incremento da produção artesanal, o produto típico com a marca brasileira e a integração destes produtos com o turismo (PNT, 2003, p. 27-28).

Nessa nova perspectiva, não apenas o litoral é vendido como o principal ponto a ser apresentado aos turistas, mas todo o país, com sua riqueza, diversidade e belezas. Para as regiões com menos paisagens naturais, suas manifestações culturais são tão importantes quanto as belezas naturais. Os turistas são atraídos

para gerar novas imagens desses lugares. Como destaca Augé (2003), os turistas são fabricantes de imagens e lembranças. As festividades locais, que antes eram celebradas apenas pelos moradores, convertem-se em atração turística.

Mesmo levando em conta que o lugar turístico pode se tornar um não-lugar (AUGÉ, 1994), a partir do momento que são espaços não relacionais nem históricos, a negação de sua condição de retrato de vivências sociais em processo, de um conjunto de aspectos que representam o resultado, as tradições, heranças da continuada relação existente entre o homem e o ambiente em que vive podem levar o local turístico à criação de uma “mercadoria de uso temporário” e de paisagens superficilizadas, com tradições inventadas, simbolismo duvidoso, e destituídas de identidade com o lugar onde são construídas. Não se pode perder de vista que o turista não se preocupa com a autenticidade (URRY, 2001). Nem sempre ele quer saber que o que está vendo é um simulacro. Muitas tradições são reinventadas, retomadas a partir do interesse e do olhar externo. Como as tradições não são petrificadas, mas ressignificadas cotidianamente ou reinventadas (HOBSBAWM e RANGER, 2008), o produto turístico é apresentado como manifestações culturais locais. Como o turismo cultural essas manifestações culturais ressurgem híbridas e assumem um importante papel como atrações turísticas.