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1.6 A política de parques infantis a partir de 1958

1.6.2 Novos parques infantis e a política das Escolas Parque

Quase todos os bairros possuem o seu Parque, que colaboram útil e decisivamente para o aprimoramento do caráter e da educação de milhares de crianças. É a vida ao ar livre, brincando e aprendendo! É a alimentação supletiva. É alegria de meninos e meninas que não vivem confinados em apartamentos, cortiços ou porões, sem ter um lugar para correr e brincar, dentro desse entusiasmo contagiante da infância (JORNAL DE CAMPINAS, 28/06/1960).

A reportagem do Jornal de Campinas, de 28 de junho de 1960, enaltecia os parques infantis existentes na cidade que, segundo o jornal, cobriam o atendimento à infância em quase todos os bairros da cidade. Mesmo apontando a intenção do poder público de continuar investindo nestas instituições, em nenhum outro momento, Campinas veria novamente a inauguração de nove unidades num curto período de tempo, como foi o ocorrido entre 1958 e 1959. A próxima unidade viria a ser construída em 1966, no distrito de Souzas (Parque Infantil Zuleika

46 Movimento Brasileiro de Alfabetização, programa criado em 1968 pelo governo federal para erradicação do analfabetismo no Brasil através da educação de jovens e adultos por um prazo de 10 anos.

47 O trabalho de Basseto (2006) se dedica a fazer uma discussão sobre a política e organização da pré-escola na Secretaria Municipal de Campinas entre 1969 a 1988. A análise da autora recai sobre a sobreposição de políticas destinadas à infância.

Helimeiser Novaes) e uma outra depois, em 1968, quando começou a funcionar, em Barão Geraldo, o Parque Infantil Agostinho Pátaro.

Abriam-se dois novos parques infantis na cidade, e fechavam-se outros dois. Um deles era o primeiro Parque Infantil “Violeta Dória Lins”, que, em 19 de março de 1966, através do Decreto 2.787 teve suas atividades encerradas, cedendo lugar para a instalação da Escola de Arte. É também nesse período que o Recanto Infantil nº 4 Dr. Euclides Vieira passa a pertencer à cidade de Paulínia. Desse modo, em 1969, Campinas continua a contar com a mesma quantidade de parques infantis na cidade, ou seja, quatorze. No ano seguinte, mais quatro parques infantis são criados, todos eles localizados no mesmo terreno das Escolas Parque48, somando-

se agora, dezoito parques infantis com um total de 2.800 crianças matriculadas. A primeira Escola Parque de Campinas foi criada em 1966, localizada no bairro Vila Rica. Recebeu o mesmo nome de “Violeta Dória Lins”, anteriormente dado ao parque infantil fechado naquele ano. As Escolas Parque foram criadas dentro de uma proposta bastante parecida em termos de infraestrutura, com a dos parques infantis e com o que já havia sido idealizado no Plano Municipal de Ensino, Educação, Cultura e Recreação de 1955, para os Núcleos de Ensino. O depoimento dado pelo Dr. Ruyrillo de Magalhães à pesquisadora Ramos (2001) enfatiza seu ponto de vista quanto à semelhança entre o projeto de Núcleos de Ensino constante no Plano Municipal de 1955 e as Escolas Parque construídas na segunda metade da década seguinte.

Os alunos dos Parques e Recantos Infantis entrosados com os alunos das Escolas Municipais recebiam assistência pedagógica, alimentar, social, médica e dentária. Conseguimos, desse modo garantia de fato, em 1º lugar no Brasil e antes de qualquer outro Estado ou Município, os primeiros “NEBIS” - Núcleo de Educação Básica Integral, formando então aquilo que mais tarde chamou-se Escola Parque (RAMOS, 2001, p.46).

Segundo o Relatório das Atividades Desenvolvidas no ano de 1966 pelo DEDC49, a Escola-Parque tinha sido construída em amplo terreno no bairro Vila Rica,

funcionava das 8 às 17 horas, “educando intelectualmente aos alunos, 48 Essa instituição é um novo tipo de escola, pois agregava, no mesmo espaço, os primeiros anos do 1º grau e, numa outra edificação, no mesmo terreno, o parque infantil.

49 Ao findar o ano, a administração pública, ou seja, cada Departamento e Secretaria produzia um relatório das principais ações desenvolvidas durante o ano, apresentando dados estatísticos, investimentos, abertura e fechamento de serviços e unidades. O relatório era endereçado ao Prefeito Municipal. No caso desta pesquisa, consultamos, no Arquivo Municipal Público os Relatórios do exercício de 1940, 1941, 1942, 1943, 1958, 1960, 1961, 1962, 1963, 1964, 1966, 1969, 1970, 1971 e 1972. A partir dessa data, não foram localizados relatórios anuais das atividades desenvolvidas.

proporcionando-lhes merendas adequadas, exercícios físicos racionalmente dosados e propiciando-lhes, em tôdas as áreas do ensino, trabalhos de expressão” constituindo-se, deste modo, em “verdadeiro núcleo de educação básica integral”. Nessa instituição, as crianças estariam em um período envolvidas com as aulas do curso primário e, no horário oposto, em outras atividades na Escola-Parque. No início de 1969, foram inauguradas mais oito escolas-parque. Em quatro delas, são também instalados os parques infantis:

Com a instalação dos Parques Infantis junto às Escolas-Parque, aproveitando-se as próprias e adequadas instalações já existentes (salas e galpão interno, playground, piscina, teatro de arena, aparelhos recreativos, etc.) atendeu-se a uma faixa etária de crianças até então sem possibilidades de frequentar escolas ou Parques Infantis, no bairro.

Os Parques Infantis instalados seguem a mesma orientação dos demais já existentes, funcionam em dois períodos: de 8 às 12 horas e 30 minutos e de 12 horas e 30 minutos às 17 horas, com fornecimento de merendas a todos e almoços àqueles cujas mães trabalham fora (CAMPNAS, RELATÓRIO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS, 1971, p.10).

A década de 1970 reflete um momento de várias mudanças na política educacional do município referentes ao ensino primário e à pré-escola, pois, já em 1970, as escolas-parque criadas em 1966 e em 1969 passam a oferecer apenas o ensino primário e não mais a educação integral, devido à necessidade de se aumentarem as matrículas. Para isso, tiveram que mudar o horário de funcionamento, instituindo os dois turnos, com duração de três horas cada um: das 8 às 11h e das 14 às 17. Nesse mesmo período, várias escolas municipais são cedidas para o Estado que passa a ser o maior responsável pela educação primária, ficando a Prefeitura Municipal responsável pelo atendimento das crianças de 0 a 6 anos de idade.

Tendo encontrado uma definição clara de que ao Estado competiriam as faixas etárias de primário, secundário e superior, estabelecemos como ponto de partida que à Prefeitura caberia atuar no pré-primário, maternal e supletivo, com a finalidade de se conseguir integração e não intromissão de fôrças. Assim, sempre que num bairro houvesse necessidade de uma escola primária e a P.M. aí possuísse um prédio, cedê-lo-ia em comodato (permissão de uso) ao Estado.

Especificando, temos que às faixas acima definidas correspondem as seguintes iniciativas: ao pré-primário, os parques infantis; ao maternal, as creches, em convênio com a Secretaria de Promoção Social; ao supletivo, a alfabetização de adultos e qualificação de mão de obra.

Parques Infantis – Constituem uma parte da dinâmica educacional. Escolarizam a criança, na faixa etária dos 4 aos 7 anos, preparando-a para

o primário, sociabilizando-a, assistindo-a médica, dentária e psicologicamente, neste último caso com o objetivo de fazer com que a criança ingresse “integralizada” no grau elementar (…) Ao todo são 18 parques propriamente ditos e 4 “Serviços de Parques”, funcionando êstes junto às antigas escolas parques. Em 1971 e 1972 deverão ser criados mais 12, seis por ano (CAMPINAS, RELATÓRIO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS, 1970).

O investimento na educação pré-escolar e a definição mais precisa de que a faixa etária de atendimento seria de 0 a 3 anos, na creche, e de 4 a 6, na pré- escola, resultaram nas seguintes medidas: abertura de classes de emergência nos parques infantis acompanhada da abertura de classes de pré-primário em instituições conveniadas com a Secretaria de Educação e Cultura; aumento na abertura de estabelecimentos privados de educação infantil para atender a classe média; instalação de um projeto de classe pré-primária no parque infantil, com o propósito de preparação para o ingresso no primeiro ano do primeiro grau. Nota-se também que, já em 1970, o relatório apresentava a escola parque como algo que não existia mais, embora os parques infantis a eles anexos tivessem o funcionamento normal. Segundo Basseto (2006), em 1975, as escolas parque são transformadas em escolas municipais de 1º grau (EMPG).

Embora tenha voltado sua atenção para a faixa etária da pré-escola, o poder público não cumpriria seu planejamento, de modo que os últimos seis parques infantis construídos na cidade (e não doze como previsto) seriam entregues na segunda metade da década de 1970. Nesse momento, o Recanto Infantil nº 1 já tinha encerrado suas atividades (1972) e um dos parques infantis anexo à escola parque também não existia mais (Parque Infantil do Jardim São Vicente). Desse modo, Campinas encerra sua política de parques infantis em 1981, com 19 parques e mais três anexos às antigas escolas-parque, totalizando 22 unidades que se transformaram em Escolas Municipais de Educação Infantil (Lei Municipal nº 5.157 de 10/11/1981).

O projeto dos parques infantis sofre, na década de 1970, o impacto das políticas nacionais de expansão da pré-escola de massa e das políticas compensatórias. Em 1970, a classe experimental de pré-primário em um dos parques, foi muito bem avaliada e, no ano seguinte, tornou-se realidade em todos os demais. Nota-se também que, a partir da dessa década, o parque infantil passa a corresponder, nos discursos dos relatórios elaborados pela administração pública, ao atendimento pré-primário, sendo “parte da dinâmica educacional” (CAMPINAS,

RELATÓRIO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS, 1970). A educação dessa faixa etária passa a fazer parte do processo de escolarização, devendo, por isso, preparar a criança para a etapa subsequente.

Na perspectiva da educação compensatória, Ramos (2001) mapeia ainda neste período outras ações desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura, como a reestruturação do programa de Educação Alimentar da pré-escola, ligado ao programa nacional (RAMOS, p. 82). O caráter compensatório da instalação das classes de pré-primário nos parques infantis é assunto tratado na reportagem do Correio Popular, de 1979, com o título “A pré-escola é mais importante do que se pensa”.

Segundo o INEP-MEC, 74 [em 1974], dois milhões e meio de crianças brasileiras, cerca de 40 por cento dos alunos matriculados na primeira série do ensino fundamental, são reprovados anualmente na passagem para o segundo ano. Duas medidas impõem-se, como as mais produtivas e consistentes, a médio e longo prazo, para a funcionalidade do sistema educacional:

- adequação do ensino de 1º grau às características individuais dos educando e às peculiaridades e exigências da comunidade;

- oferecimento às crianças em idade pré-escolar de oportunidades de realização que possibilitem o pleno desenvolvimento de suas potencialidades e que lhes proporcionem condições adequadas para o ingresso no 1º grau.

(…) Você já ouviu falar em “educação compensatória”? Trata-se de um programa de prontidão para a escolaridade, atingindo crianças de menos de sete anos de idade “que poderão ser tidas como parte integrante do ensino de 1º grau, por expressarem um ensino primeiro no contexto de ensino de 1º grau”.

A matéria já foi regulamentada pelo Conselho Estadual de Educação e programas de educação compensatória já estão sendo oferecidos pelos poderes públicos estadual e municipal às crianças de 5 e 6 anos de idade, cultural e economicamente carentes (p.18).

Nos últimos dez anos de funcionamento, os parques infantis passam a conviver com as pressões da preparação para o ensino primário. No entanto, o trinômio “educar, assistir e recrear” continua expressando sua identidade, mas o termo “assistir” passa a ter uma conotação de compensação de carências, resumidas na oferta de alimentação, assistência dentária e acompanhamento médico. A recreação continuava a ter um lugar importante no projeto de educação da infância, assumindo uma posição de utilidade à aprendizagem das crianças, educar continuava significando uma formação moral e cívica, mas, a partir da década de 1960, dentro da perspectiva do governo militar e, mais fortemente, na década de

1970, também passou a significar uma ação mais específica voltada aos primeiros contatos com a alfabetização.

Essa reportagem do Correio Popular resume bem o sentido de uma educação integral assumida pelos parques infantis nos últimos anos de sua existência: “oferecimento às crianças em idade pré-escolar de oportunidades de realização que possibilitem o pleno desenvolvimento de suas potencialidades e que lhes proporcionem condições adequadas para o ingresso no 1º grau”. (1979, p. 18)

Assim, o estudo dos parques infantis em Campinas, como uma política de atendimento à infância integrada à política educacional do município e do governo federal evidencia que essas instituições foram planejadas e assumidas pelo poder público municipal como um modelo institucional capaz de atender aos interesses de diversos segmentos. Abrigou práticas médicas que visavam a educar o comportamento das crianças e das famílias. Respondeu ao interesse do poder público quanto ao planejamento urbano e à preocupação em garantir a continuidade do processo de crescimento e industrialização da cidade, tirando as crianças da rua e disciplinando seu lazer. Permitiu que os profissionais da educação física atuassem na educação do corpo e da moral das crianças com vistas à formação de um homem saudável e civilizado, útil à sociedade. Atendeu a um projeto educacional interessado em formar o espírito cívico e os princípios morais que disciplinavam as atitudes dos sujeitos, adequando-os ao regime político. Respondeu também à demanda da população trabalhadora que tinha o direito de contar com uma política pública destinada ao cuidado e educação dos seus filhos. E, ainda, respondeu aos interesses dos educadores que tinham espaço nos parques infantis para experimentar várias pedagogias.

Consideramos que um dos fatores que foram imprescindíveis para que o parque infantil pudesse responder a diferentes interesses foi seu espaço físico, capaz de proporcionar uma diversidade de práticas consideradas importantes na educação da infância.

Capítulo II

Um grande gramado, cercado por sebes vivas e com uma pequena

edificação: um projeto educativo expresso nos espaços do parque

UM PARQUE INFANTIL

Gostaríamos de ter visitado todos os parques Infantis da “Cidade Princesa” e assim, oferecer aos leitores de “o mais completo” um relato geral de tudo quanto pudéssemos observar. Entretanto, isto não nos foi possível e assim sendo passaremos a expor o que contém o Parque Infantil “Celisa Cardoso do Amaral”, o qual, segundo já mencionamos, foi por nós visitado.

Conta aquele recanto com gabinete dentário funcionando diariamente, sendo seu responsável o Dr. Brasil M. Campos; sala médica, na qual o Dr. Mario Pagano consulta as crianças duas vezes por semana, nos casos de necessidade. Ainda na parte interna, conta o Parque Infantil “Celisa Cardoso do Amaral” com uma biblioteca e sala de jogos.

Nas dependências exteriores, pudemos notar a existência de magnífica piscina, com as dimensões de 10 x 20 m, com 0.50m e 1.50m de profundidade. Está ali montado também um teatro ao ar livre para os dias de festas.

Além da piscina, contam as crianças para a sua parte recreativa, com quadras de voleibol e basquete, gangorras, balanças, escorregadores, etc. Anexo ao parque, existe uma chácara, com pomar e criação de abelhas, o qual também é frequentado pela garotada.

Em linhas gerais, ali está o que quase todos os Parques Infantis possuem. Uns contam com outros melhoramentos, outros não... Porém, a finalidade é uma só e a organização é algo de notável (GAZETA ESPORTIVA, 11/10/1956).

O trecho acima constitui a segunda parte da reportagem do jornal Gazeta Esportiva, de 1956, sob o título “Campinas prima pela organização de seus parques infantis”, encontrada no arquivo do antigo Parque Infantil Professor Carlos Zink. A primeira parte foi transcrita e discutida no capítulo anterior, que tratou da política de educação da infância de Campinas da qual os parques infantis faziam parte. O

objetivo deste capítulo é analisar o espaço físico dos parques infantis como um elemento constitutivo de sua proposta sócio educacional. O trecho da reportagem que ora destacamos nos remete à dimensão que o espaço físico tem na implementação do projeto educacional desta instituição. A forma como é feita a descrição dos ambientes do Parque Infantil Celisa Cardoso do Amaral, na reportagem de 1956, enfatiza e valoriza o que cada um dos espaços possibilita em termos de assistência, educação e recreio.

O gabinete dentário e a sala médica são apresentados, juntamente com os responsáveis pelo serviço e a periodicidade do seu funcionamento. Na “magnífica” piscina e outras instalações da área externa, era realizada a recreação. Também a biblioteca, sala de jogos e o pomar frequentado “pela garotada” não passaram despercebidos na hora de descrever as dependências dessa instituição, o que evidencia que todos esses espaços configuravam um lugar construído apropriadamente para educar, recrear e assistir as crianças. A reportagem não apenas descreveu a estrutura arquitetônica, mas destacou como, a partir dela, o projeto assistencial e educacional dessa instituição se concretizava. Ao enaltecer o trabalho desenvolvido no parque e em suas dependências, a reportagem funciona como uma propaganda dessa instituição, reforçando a premissa de que sua estrutura física é um de seus pontos “altos”, o que permite a oferta de vários serviços, afirmando o quão potente é um parque infantil para o atendimento à infância.

Essa estrutura arquitetônica valorizada na reportagem tem como característica predominante um amplo espaço ao ar livre com equipamentos de recreação para as crianças, tais como piscina, balanços, gangorras, tanque de areia. Dentro desse grande terreno, encontra-se uma edificação com as salas médicas, o gabinete dentário e a secretaria, (onde médico, dentista, diretora e escriturário deveriam desempenhar parte de suas atribuições50), além de sanitários, uma

cozinha pequena e um galpão central para servir as pequenas refeições. Basicamente, essas características estruturais acompanharam o projeto dos parques infantis durante todo o período de sua existência.

É necessário ter em vista que partimos do pressuposto de que a arquitetura do parque infantil foi planejada e projetada para atender aos preceitos médicos,

50 Estamos nos referindo aqui aos profissionais que deveriam atuar nos parques infantis conforme determinado pelo Decreto nº360 de 1951, já discutido no capítulo anterior.

urbanísticos e educativos de um determinado momento histórico e foi sofrendo adaptações para atender às exigências que foram se impondo em diferentes épocas durante sua atividade. Desse modo, a arquitetura dos parques infantis pode dizer muito sobre sua proposta educativa, sobre o que e como se esperava que o trabalho de assistência e educação fosse desenvolvido com as crianças (SOUZA, 2005). Na arquitetura, projetaram-se concepções de criança, educação e infância, que tinham como cenário a cidade que se industrializa.

Essa perspectiva vai ao encontro da linha de pensamento de Viñao Frago (1998). Para ele, nossa forma de pensar, ver o mundo e interpretá-lo é atravessada pelas experiências que temos nos espaços que habitamos. Esses locais, todos eles, educam-nos e nos ensinam a interpretar o mundo. Entretanto, diferentemente dos outros, o espaço educativo é propositalmente organizado e projetado para coordenar nossa interpretação sobre o mundo. Ou, nas suas próprias palavras: “com isso, quero dizer, num lugar especificamente pensado, desenhado, construído e utilizado única e exclusivamente para este fim” (VIÑAO FRAGO, 1998, p. 69). Logo, o espaço juntamente com o tempo são elementos básicos, constitutivos da atividade educativa.

Com base na perspectiva teórica desse autor, propomos pensar o parque infantil também como um lugar51 próprio para atender à infância de um modo

multifacetado, pois lhe são oferecidas, no mesmo local, práticas educativas, recreativas e de assistência médica, dentária e alimentar. Como espaço específico, essa instituição tinha uma arquitetura que a distinguia da escola primária, uma vez que, em suas dependências, não se encontrava o espaço da sala de aula típico e característico dos prédios escolares de educação primária. Vale ressaltar que uma das características marcantes da organização escolar no século XX, seja nos grupos escolares ou em escolas isoladas, foi a separação das crianças por idade, enquadrando-as em séries (VIÑAO FRAGO, 1998) e, nesse sentido, as salas de aulas passavam a abrigar os grupos de crianças organizados de acordo com sua idade e série. No parque infantil, além da ausência do espaço denominado de sala de aula, as crianças eram divididas em apenas dois grupos (de 03 a 07 anos e de 08 a 12 anos), os quais se revezavam na utilização dos espaços do parque infantil. 51 Para Viñao Frago (1998), é necessário fazer uma diferenciação entre as palavras espaço e lugar. O espaço, para o autor, é como uma materialidade imaginada, projetada, e sua ocupação, utilização, o constitui como lugar. Trata-se de um salto qualitativo, em que o espaço é como um suporte sempre disponível em converter-se em lugar a partir da atividade humana que abriga.

A ausência da sala de aula na arquitetura do parque infantil contribuiu para demarcar, desde a década de 1930, sua especificidade perante a instituição