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2.3 Condições do terreno e instalações necessárias

2.3.2 Um galpão central e dois pavilhões: a parte edificada

A análise que Viñao Frago (2005) faz do posicionamento da sala da direção nos projetos arquitetônicos de prédios escolares joga luz aos significados que a distribuição e posicionamento dos ambientes podem adquirir nas propostas educativas. O diálogo com esse autor subsidiou a análise da planta do Parque Infantil Professor Carlos Zink.

(…) a localização e a disposição física dos espaços destinados a uma finalidade ou função determinada no seio de qualquer instituição refletem tanto sua importância como a concepção que se tem sobre a natureza, o papel e as tarefas destinadas a tal função (VIÑAO, 2005, p. 15).

Figura 6. Planta arquitetônica do Parque Infantil Professor Carlos Zink. 1957.

Fonte: Acervo da instituição.

Feita em 1957 pelo engenheiro do Departamento de Obras e Viação (D.O.V), setor responsável pelo desenho dos projetos de edifícios públicos na administração municipal, a planta do Parque Infantil Professor Carlos Zink revela que a edificação deveria contar com um salão grande (galpão com aproximadamente 48 m²), sala para dentista (8m², aproximadamente), biblioteca (12,6m²), secretaria (9,5m²), copa e cozinha (12m²)65, sanitários femininos e

masculinos com chuveiros em ambos. A edificação em torno de 164m²66 é pequena

em relação ao terreno de cerca de 10 mil m2 onde seria efetivada.

Esses espaços internos projetados para o parque infantil do São Bernardo mostraram-se mais modestos do que os indicados em 1952 pelo Dr Ruyrillo de 65 Na planta do Parque Infantil Professor Carlos Zink, não aparece referência à dependência da cozinha; porém, aparece a denominação “Desp” ao lado da copa. Fizemos a interpretação de que corresponderia ao estoque de alimentos e o lugar onde eram preparadas as ligeiras refeições por falta de outro espaço para tal.

66 O tamanho dos ambientes foi calculado pela pesquisadora a partir dos dados fornecidos pelo desenho do prédio. Foram mantidas as denominações dos ambientes presentes na planta.

Magalhães – Diretor do DEDC), no mesmo Protocolo (11510) em que se fez a solicitação de reserva de terreno para tais construções. Também, diferiam das indicações feitas no Plano Municipal de Ensino, Educação, Recreação e Cultura, produzido pelo Dr. Ruyrillo, em 1955, nas quais se previa a construção de três pavilhões ao redor do salão central. Um deles seria composto pela “sala de administração, vestiário e instalações sanitárias para o pessoal docente e administrativo, salão de reuniões, sala de assistência ao ensino, sala para biblioteca e museu, gabinete dentário e sala médica” (CAMPINAS, 1955, p. 22). Um segundo pavilhão teria cozinha, zeladoria e sanitários para o pessoal de apoio e um terceiro, com sanitários e chuveiros para meninos e meninas.

Em vez de três pavilhões, ladeando o galpão central em forma de um “L”, estão, de um lado, os banheiros e, na sua perpendicular, as cinco salas que aglutinam todos as outras dependências. Uma terceira lateral do galpão conta com uma parede que alcança o teto, fechando o acesso que daria para a área externa, onde se localizam todos os brinquedos e o campo gramado. Na quarta lateral, encontra-se a entrada do edifício. A extensão do telhado nessa parte do prédio produz um tipo de varanda entre o galpão e o jardim. Uma vez acessada a edificação, é possível entrar pelo salão central, de onde se pode acessar qualquer outra dependência.

O acesso é, segundo Viñao Frago (1998; 2005), um dos elementos a serem observados na organização do espaço. Sobre ele devemos perguntar quem o acessa, de que forma e o que isso pode significar. Observando a disposição dos espaços e o lugar da entrada, podemos perceber que essa organização permite rápido acesso a qualquer dependência desse prédio via galpão: pode-se chegar a qualquer espaço através dele. É justamente essa facilidade que permite um maior controle sobre a movimentação das pessoas, ou seja, qualquer pessoa que transite pelo galpão, ou qualquer porta que se abra ou feche pode ser facilmente identificada por qualquer um que esteja dentro do prédio. Nesse caso, a diretora, o médico, os serventes e zelador poderiam, todos eles, controlar a circulação das crianças nesse espaço, embora isso fosse uma atribuição mais específica da diretora e do zelador (CAMPINAS, DECRETO Nº 360, 1951).

Os espaços destinados ao uso das crianças eram o banheiro, a biblioteca e o próprio galpão (para receber a ligeira refeição), e elas poderiam utilizá-los desde

que supervisionados67. Os demais espaços (secretaria, dentista, copa e dispensa)

não eram destinados às crianças, mas ao fazer dos profissionais que atuariam com elas, ou seja, o dentista, a diretora, a auxiliar de escritório e cozinheira. A diretora ficaria instalada na sala denominada secretaria, e sua localização, bem no meio de uma das laterais do galpão, permitia-lhe visão privilegiada da circulação das pessoas no edifício. Por outro lado, não mantinha contato com o exterior e, desse modo, teria que sair da sala para controlar e participar das atividades que estavam acontecendo do lado externo.

Embora fosse uma premissa do parque infantil manter uma relação de proximidade com a comunidade, o parque infantil não contava com nenhum espaço específico para recebimento de familiares ou membros da comunidade. Desse modo, presume-se que o contato com a família poderia acontecer de modo improvisado em qualquer espaço do parque infantil. Dentro do quadro de profissionais previstos para os parques infantis, conforme o Decreto nº 360 de 1951, as professoras, diferentemente dos médicos, diretora, cozinheira, dentista e auxiliar de escritório, elas não tinham nenhum ambiente específico para atuar e, na parte edificada, frequentavam, assim como as crianças, o galpão, a biblioteca e o banheiro, localizado no interior da sala da secretaria. A falta de um lugar específico para as professoras trabalharem indica que era necessário que elas desenvolvessem suas atribuições, utilizando, principalmente, os espaços externos do parque infantil.

De modo geral, ao olhar para os primeiros parques infantis paulistas e campineiros, percebe-se que o projeto arquitetônico dessas novas unidades de parques infantis mostrou-se ainda fiel aos princípios que configuraram sua proposta inicial, desde as primeiras experiências paulistas e também campineiras. Vale dizer que o Parque Infantil Professor Carlos Zink parece ainda mais similar com a planta do primeiro parque infantil de São Paulo68 do que a idealização feita pelo DEDC,

uma vez que sua construção adotou um modelo mais econômico e não tão funcional quanto se esperava para acomodar e ofertar os diferentes serviços (NIEMEYER, 2002).

67 O Decreto nº 360 de 1951 definia que toda a circulação das crianças nas dependências do parque infantil deveria ser feita com acompanhamento da própria professora que coordenava a atividade ou com o auxílio do zelador.

68 Estamos nos referindo à figura 4 reproduzida nessa tese, referente ao Parque Infantil de Santo Amaro.

No entanto, adotando uma estética bem simplista e econômica, sem ornamentos e com uma construção em blocos de cimento, é possível afirmar que o Parque Infantil Prof. Carlos Zink abandonou o estilo neocolonial adotado na construção do primeiro parque infantil campineiro na década de 1940 e, em seu lugar, um edifício econômico, mais moderno e racional se ergueu; embora ainda avançasse pouco no sentido de agrupar, com maior qualidade, o conjunto de serviços que se idealizavam como essenciais para a infância. Nesse sentido, a sala médica é um bom exemplo disso: na planta de 1957, não foi prevista, o que faz supor que o médico tenha se instalado na sala do dentista, uma vez que frequentou o parque infantil quinzenalmente, por muitos anos69.

Sete anos depois da inauguração do Parque Infantil Professor Carlos Zink, em 1965, uma nova planta é desenhada para a realização de uma primeira reforma na parte edificada. Na nova planta, o salão central é mantido e ampliado, passando de 48 para 67m². Foram previstos também a sala médica e a sala dos professores, antes inexistentes. A cozinha e os banheiros mudaram de posicionamento, ocupando a mesma lateral e os banheiros foram construídos com a entrada voltada para o salão em vez de haver um corredor de acesso.

A partir dessa reforma, o edifício ampliado passava a ter as dependências mais funcionais, especialmente, a cozinha, que passou a ter acesso direto ao galpão refeitório, o que antes não acontecia, pois estava localizada no final de um dos pavilhões, havendo um pequeno corredor que a separava do galpão onde eram servidas as refeições. Além disso, o acréscimo da sala médica e a permanência da sala do dentista mostram que a atuação desses profissionais continuava prioritária no projeto educacional dessa instituição até o ano de 1965, quando a nova planta foi elaborada (VIÑAO FRAGO, 1998, 2005). Permanências de um lado, modificações de outro: a construção da sala de professores, juntamente a duas salas de aula que mediam 48m² (6x8) cada uma, é representativa dos novos rumos que estavam sendo anunciados para o projeto dos parques infantis e que começavam a introduzir práticas pré-escolares e preparatórias para o ensino de primeiro grau. Também, a sala de aula seria um espaço utilizado como laboratório para uma nova pedagogia, a piagetiana.

69 Essa informação consta do livro ponto do parque infantil bem como das orientações encaminhadas pelo DEDC solicitando que fosse aberta uma folha nesse livro para o registro de frequência do médico conforme agendamento prévio.

Em suma, a construção tanto da sala de professores como da sala de aula representa e impõe uma nova gestão do tempo e dos usos dos espaços institucionais. Entre todos os espaços do parque infantil, a sala de aula seria um dos lugares frequentados diariamente pela professora e pelas crianças. Ali eram guardados materiais e brinquedos específicos daquele grupo de crianças e de uma professora em específico. Como um espaço fechado em que o acesso só é possível pela porta de entrada, a sala de aula pressupõe e oferece uma certa autonomia ao trabalho educativo (VIÑAO FRAGO, 1998, 2005). Um lugar que, por excelência, foi criado para abrigar a instrução e a relação pedagógica entre professor e aluno. Ali, novas práticas educativas do universo da cultura escrita e dos processos de aquisição de conhecimento começam a transformar o parque infantil naquilo que mais tarde (em 1981) o denominou: Escola Municipal de Educação Infantil.