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Novos quadros da pesquisa sobre Bloch e Febvre

10 KUHN, 2005; KOSELLECK, 2001; RÜSEN, 2001.

2.2 A HISTORIOGRAFIA SOBRE LUCIEN FEBVRE E MARC BLOCH

2.2.3 Novos quadros da pesquisa sobre Bloch e Febvre

Delimitamos aqui um último bloco, composto por trabalhos que nos últimos anos se dedicam mais diretamente ao estudo de Marc Bloch e Lucien Febvre. Este bloco pode ser compreendido como uma ramificação do anterior, na medida em que os trabalhos são marcados pelo mesmo desejo de historicização, contribuem para o revisionismo da historiografia sobre os Annales e, por vezes, são motivados pelo desejo de melhor compreender essa “escola francesa”. No entanto, as obras que discutiremos formam também um conjunto à parte, pois seus objetos de pesquisa são construídos em torno dos dois historiadores, e não da “Escola dos Annales” em si. Assim, interessam-se, por exemplo, por conhecer aspectos de suas trajetórias de vida, suas relações acadêmicas, seu posicionamento no meio historiográfico francês e suas relações com outros contextos historiográficos.

Nessa direção de reconhecer Marc Bloch e Lucien Febvre como objetos de pesquisa histórica, tem-se um trabalho que não é exatamente um estudo de história da historiografia. Em 1989 a historiadora norte-americana Carole Fink, que se dedica à história contemporânea, publicou Marc Bloch – uma vida na história. 48 Trata-se de um trabalho biográfico, em que se busca recuperar a história do historiador e do cidadão francês Marc Bloch. Essa é a primeira biografia sobre Marc Bloch, cuja relevância pode ser atribuída ao texto fruto de significativo trabalho arquivístico. 49 Carole Fink explorou vasta documentação até aquele momento não publicada e pouco trabalhada, oferecendo assim novos caminhos de pesquisa.

Interessa-nos apreender o retrato que essa obra elabora de Marc Bloch como historiador. Carole Fink compõe análises das principais obras de Bloch relacionando-as com seu contexto de vida pessoal. A narrativa ressalta a importância do relacionamento com Lucien Febvre tanto para a vida acadêmica quanto pessoal de Marc Bloch. Com esse procedimento, são oferecidas

48 FINK, 1997.

49 A biografia de Carole Fink, originalmente publicada em inglês, tem traduções para o francês, o

espanhol e o português. Para outro trabalho biográfico de Bloch, mais recente, Cf. DUMOULIN, 2000.

informações relevantes sobre o próprio Febvre, que persistem pouco exploradas. O mais interessante parece-nos ser a investigação dos estudos de formação, o resgate de algumas das leituras de Bloch, de suas relações acadêmicas e institucionais e seus diálogos com outros autores. Nesse aspecto, contudo, o texto deixa-nos à espera de maior profundidade. Carole Fink não realiza esse procedimento de recomposição de um contexto fundamental para a compreensão do Marc Bloch historiador.

Apesar de não ser seu objetivo central, Marc Bloch – uma vida na história

parece-nos trazer contribuições também para a história da historiografia dos

Annales. Ao analisar o papel da Annales d’histoire économique et sociale na vida

de Marc Bloch, a obra investiga o contexto de fundação da revista, o papel de seus diretores, suas dimensões, formatações e pretensões. E as conclusões que emergem dessa investigação são, em muitos aspectos, divergentes daquelas comumente apresentadas sobre os Annales. Fink apresenta uma posição distinta, por exemplo, quanto ao projeto e aos objetivos da revista.

A revista representava, em considerável medida, uma estratégia conjunta, dirigida não tanto para um objetivo de “hegemonia” ou de “preeminência”, mas para uma apresentação direta das credenciais profissionais de ambos [Febvre e Bloch], que preparava o regresso de dois historiadores de talento ao local a que aspiravam.50

Há, como se pode ver, a refutação da ideia de fundação de um novo paradigma historiográfico, defendida por exemplo por Jacques Le Goff,51 e também de um projeto de hegemonia por parte de Bloch e Febvre com a inauguração da revista, apresentada por André Burguière.52 Carole Fink argumenta que o projeto de fundação de uma nova revista de história estava mais associado aos projetos pessoais de seus diretores – de se tornarem docentes em

Paris – que a um desejo de revolucionar a escrita da história. A biógrafa de Bloch

afirma ainda que as reivindicações que colocam Bloch e Febvre como fundadores

50 FINK, 1997, p. 139.

51 LE GOFF, In: CHARTIER; LE GOFF; REVEL (Org.), 2005, p. 38-40. 52 BURGUIÈRE, 1999, p. 49.

de uma nova escola historiográfica conformam uma análise “mitológica” do empreendimento dos historiadores franceses em 1929.

Quando, no fim da década de 60 e nos anos 70, o sucessor dos

Annales atingiu projeção internacional, atribuiu-se um estatuto quase lendário aos primeiros dez anos da revista. As lutas e realizações dos fundadores e também a reação dos seus opositores foram geralmente exageradas pelos que apostavam em apor um carimbo de “longa duração” à sua própria forma bem sucedida de “nova história”. [...] Com recursos e ambições limitadas, não criou séquitos nem escolas, mas fez irradiar um espírito de abertura próprio. [...] Apesar dos mitos que posteriormente se criaram, só em certa medida obtiveram reconhecimento num mundo acadêmico competitivo, com tendência a contrair-se, numa época sombria e perturbada.53

Na mesma direção de Carole Fink, de exploração da pesquisa documental,54 mas com perspectivas distintas, estão os trabalhos de Bertrand Müller. O historiador suíco possui uma série de estudos sobre Lucien Febvre, tendo dentre suas publicações uma obra bibliográfica e edições críticas dos textos de Febvre. Entre essas publicações destaca-se Lucien Febvre: lecteur et critique, recente obra que analisa todas as resenhas publicadas por Febvre ao longo de sua carreira, interpretando a crítica e avaliando a importância desse tipo de texto no conjunto da produção do diretor da Annales.55

Bertrand Müller também se destaca por ser o editor, organizador e comentador da correspondência trocada entre Lucien Febvre e Marc Bloch entre 1928 e 1943.56 Intitulado Correspondance e publicado entre 1994 e 2003, esse trabalho é sem dúvida grandioso.57 Müller organizou um conjunto de 530 cartas que se encontravam dispersas, um material não integralmente datado e de difícil

53 FINK, 1997, p. 166-167.

54 Podem-se citar outros dois estudos que se dedicam à investigação sobre Marc Bloch nos termos

que designamos este grupo, Cf. FRIEDMAN, 1996; MASTROGREGORI, 1995.

55 MÜLLER, 2003. Esse texto é mais detalhadamente explorado nos próximos capítulos desta

Dissertação.

56 A organização e edição de correspondências de Marc Bloch e Lucien Febvre foi realizada

também em duas outras obras, apresentando cartas trocadas com Henri Berr e Henri Pirenne, Cf. PLUET-DESPATIN, 1992; LYON, Bryce; LYON, Mary, 1991.

compreensão. Além do trabalho filológico, o autor compôs uma série de anotações explicativas a todas as referências citadas nas cartas, sejam elas de obras, autores, ou instituições. A correspondência trocada entre Febvre e Bloch revela informações como redes intelectuais, relações institucionais e, sobretudo, oferece um vasto campo para a compreensão da gestação e do desenvolvimento dos primeiros anos da revista Annales, motivo central das trocas.58

Correspondance é um trabalho cuja relevância não se encerra no rigor e na correção do trato com a fonte, pois na medida em que disponibiliza documentação abre novas perspectivas para pesquisas sobre Febvre, Bloch, a historiografia dos

Annales e sobre o campo intelectual francês do começo do séc. XX de maneira geral.59

Como terceiro e último exemplo de investigações que têm os historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre como os próprios objetos de pesquisa, apresentamos os trabalhos de Peter Schöttler. Schöttler é um historiador alemão que trabalha em linhas de pesquisa como história social da Alemanha e transferências culturais franco-germânicas. É por essa última via, a partir da grande temática “relações franco-germânicas”, que Schöttler desenvolveu suas pesquisas sobre Bloch e Febvre. Esse autor publicou, a partir dos anos 1990, uma série de textos centrados na temática “Marc Bloch, Lucien Febvre e a Alemanha”. Trata-se de uma obra produzida a partir de pesquisas com fontes diversas, como textos teóricos dos autores, textos críticos e correspondências. Essa diversidade documental se conjuga a uma diversidade analítica. Schöttler utilizou recursos de análises múltiplos, e muitas vezes conectados, para construir sua argumentação, que transita de uma interpretação hermenêutica dos textos até a construção de redes interpessoais e métodos quantitativos.

Ao longo de seus textos, Schöttler explora essa temática a partir de vários contextos, envolvendo tanto política e cultura quanto a historiografia propriamente dita. No que se refere ao contexto historiográfico, sua principal

58 Para mais detalhes sobre as correspondências de Marc Bloch e Lucien Febvre, Cf. seção 2.1

desta Dissertação.

59 Fontes sobre Marc Bloch, seus próprios textos, como artigos, resenhas e notas, além de outros

documentos referentes à sua vida e obra são encontradas também nas obras organizadas por seu filho Étienne Bloch, Cf. BLOCH, 1998; BLOCH, 2006.

contribuição nos parece ser ultrapassar as explicações que se limitam em afirmar que os fundadores dos Annales recusam o historicismo alemão na medida em que estariam fundando um novo paradigma alinhado às ciências sociais. Esse historiador busca investigar a estrutura da revista Annales e as relações em torno de Bloch e Febvre, produzindo explicações mais complexas, reconhecendo a diversidade da historiografia alemã. As conclusões de Schöttler encaminham-se para a proposição de que a influência da Alemanha e da ciência histórica alemã sempre foi marcante em Bloch e em Febvre, mesmo nos momentos em que seus discursos reclamavam afastamento e desligamento.60 Há, portanto, uma

aproximação entre o trabalho que se espera desenvolver aqui e a obra de Peter Schöttler. Nesse sentido, ele será um de nossos interlocutores privilegiados.

60 SCHÖTTLER, 1999, p. 70.

3. VIVER E ESCREVER A ALEMANHA: A PRESENÇA GERMÂNICA