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6.  PROBLEMAS CORRENTES NO PARQUE HABITACIONAL EDIFICADO 73 

6.5  I NSUFICIENTE Q UALIDADE DO A R 92 

Como se pôde constatar através do projecto “Habitar”, num universo de 600 alojamentos, a qualidade do ar em 60% dessas habitações não se encontrava regulamentar. A composição do ar desses alojamentos apresenta partículas que podem provocar mal-estar ou complicações mais graves na saúde dos ocupantes.

Tanto as habitações mais antigas como as mais recentes têm problemas de deficiente qualidade do ar, devido fundamentalmente a insuficiências nas condições de ventilação. No entanto, os edifícios antigos são os mais afectados, devido às seguintes características [61]:

 Compartimentos interiores com volumes reduzidos e que raramente possuem sistemas de ventilação;

 Janelas com dimensões inferiores às mínimas impostas pelo RGEU e/ou que abrem para espaços exíguos (saguões);

 Existência de apenas uma fachada com aberturas para o exterior, existindo compartimentos interiores sem qualquer tipo de abertura, impossibilitando a ventilação transversal;

 Cozinhas com renovação de ar apenas por pequenas frestas, não existindo sistemas de exaustão.

Nos edifícios antigos não era habitual a execução de aberturas dedicadas à admissão de ar, sendo este outro factor que tem reflexos negativos na eficácia da sua ventilação. Todavia, esta ausência era compensada pela elevada permeabilidade ao ar da envolvente do edifício (caixilharias e portas exteriores). Os problemas agravam-se quando os utilizadores, a fim de melhorarem as condições de conforto térmico dos seus espaços interiores, substituem as caixilharias existentes por outras com baixa permeabilidade, pois as áreas das aberturas mantém-se mas tornam-se mais estanques.

Esta situação é mais gravosa nos edifícios antigos pelos factores arquitectónicos que os caracterizam, porém esta situação é também corrente nos edifícios mais recentes. Para diminuir os gastos energéticos, aumentando o conforto térmico das habitações, foram alteradas as práticas construtivas. Na construção de edificações foram desenvolvidas acções no sentido de reduzir a permeabilidade ao ar da envolvente, contudo este aumento de estanquidade não foi compensado com novas admissões de ar, na maioria das habitações.

Além das alterações das práticas construtivas, as alterações comportamentais da sociedade também levaram a uma diminuição da qualidade do ar no interior das habitações. Em décadas anteriores, quando era frequente as mulheres permanecerem em casa, as

habitações eram arejadas durante a maioria do tempo, actualmente o mesmo já não acontece ficando estas fechadas durante várias horas.

A insuficiente ventilação provoca habitualmente condensações superficiais (devido ao excesso de vapor de água existente no interior dos espaços), conduzindo ao aparecimento de fungos e bolores. A não extracção de poluentes que são produzidos no interior das habitações, causados pela actividade humana, por aparelhos de aquecimento por combustão, fumo de tabaco, materiais de construção adoptados, entre outros, pode provocar danos graves sobre a saúde dos utilizadores.

O problema da insuficiente qualidade de ar resulta sobretudo da deficiente ou inexistente ventilação natural.

A maioria das habitações possui condutas para evacuação de ar, tanto nas instalações sanitárias como nas cozinhas (embora em alguns casos mal dimensionadas). Apesar disso, o problema consiste na ausência de admissão de ar suficiente para que sejam garantidas as renovações de ar impostas pela norma NP1037-1 (2002) - Ventilação e evacuação dos

produtos de combustão dos locais com aparelhos a gás (uma renovação de ar por hora nos

compartimentos principais e quatro nos compartimentos de serviços, estes últimos com caudais de ar mínimos), não existindo portanto uma ventilação geral e que funcione continuamente.

Na maioria do edifícios, a localização dos seus vãos permite o aproveitamento da diferença de pressões provocada pela acção do vento para o melhoramento da ventilação natural interior. Contudo, este factor não foi, em muitos casos, aproveitado correctamente, não existindo condições para uma ventilação natural adequada.

Os principais factores que inviabilizam uma ventilação natural conjunta são:

 Permeabilidade de caixilharias e caixas de estore insuficiente para garantir as renovações de ar necessárias nos compartimentos principais;

 Inexistência de aberturas directas para o exterior, para admissão de ar, nos compartimentos principais;

 Inexistência de aberturas adequadas para passagem de ar entre os compartimentos principais e de serviço;

 Inexistência de aberturas de ar directas, para admissão de ar, nas paredes das cozinhas, com o objectivo de evitar a ocorrência de grandes desequilíbrios entre os caudais de admissão e os de evacuação de ar;

Condutas de evacuação de ar mal dimensionadas;

 Inexistência de ventiladores estáticos nas extremidades das condutas de evacuação.

Para a realização de uma ventilação natural separada era necessária a existência de aberturas directas para o exterior, para admissão e evacuação de ar (duas aberturas separadas), por compartimento, o que também não é comum existir.

Outros problemas que afectam a qualidade do ar interior, e que são agravados pela falta de ventilação natural, são a escassez de manutenção e limpeza de sistemas de climatização, como o ar condicionado, e a utilização de materiais de construção que emitem partículas poluentes prejudiciais à saúde dos ocupantes.

A insuficiente qualidade do ar geral das habitações portuguesas resulta, principalmente, da falta de legislação que obrigue a realização e projecção de um sistema de ventilação natural eficaz.

Os donos de obra em conjunto com os projectistas deveriam dar maior importância aos aspectos da qualidade do ar, tanto na escolha dos materiais de construção como na adopção de um sistema de ventilação menos dispendioso (durante a sua vida útil), mais sustentável e mais eficaz.

Por fim, os utilizadores têm de ser sensibilizados em relação a este tema. Embora seja um problema que não se vê nem se sente diariamente, a falta de qualidade do ar interior pode efectivamente provocar mal-estar e conduzir a problemas sérios de saúde. Existem habitações que são construídas e concebidas de modo a oferecerem óptimas condições de conforto ambiental, necessitando apenas de algum controlo por parte dos utilizadores para se manter o seu nível de eficácia energética e conforto. Contudo esse controlo e o cumprimento de algumas regras, normalmente descritas num manual do utilizador, para o bom funcionamento de todas as soluções construtivas adoptadas nessa habitação, são esquecidos ou são praticados sem a seriedade devida pelos seus ocupantes.