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2 REORDENAMENTO DE REDE ESCOLAR COMO RACIONALIZAÇÃO

2.2 PROCEDIMENTOS DE REORDENAMENTO DE REDE ESCOLAR

2.2.2 Nucleação e Agrupamento

A medida racionalizadora também ocorre mediante a nucleação; – no Brasil, um termo comumente empregado para a educação escolar no campo. Conforme Flores, a nucleação surgiu nos Estados Unidos, ainda no século XIX, e foi importada para o Brasil na década de 1970, tendo início no Paraná em 1976 (FLORES, 2002).

A nucleação é um procedimento administrativo tomado pelos órgãos gestores no sentido de reunir várias escolas isoladas ou multisseriadas sob a administração de uma delas, geralmente a maior ou a que apresenta melhores condições físicas e/ou de localização. Conforme a série/ano que a escola ofereça, os alunos são deslocados mediante transporte escolar custeado pelo pelos cofres públicos.

No ano de 2007, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – SECAD/MEC pediu ao Conselho Nacional de Educação orientações sobre o atendimento da Educação do Campo, o que resultou no Parecer nº 23/2007, redigido pelo conselheiro Murilo

de Avelar Hingel. Diz a petição que “as atuais políticas de nucleação e de transporte escolar têm contribuído para descaracterizar a educação que se oferece a essas populações” e que, diante da ausência de normas sobre os modelos de nucleação, solicita pronunciamento do CNE no sentido de orientar os estados e municípios. A solicitação faz referência à diminuição de alunos no ensino fundamental do campo, expondo números de 1999 a 2006, que atestam a redução do número de escolas pela nucleação e pelo transporte dos estudantes para escolas urbanas.

Em seu Parecer, o conselheiro reconhece que o processo de nucleação de escolas rurais foi aplicado em diversos países e que, no Brasil, as primeiras experiências se situam entre as décadas de 1970 e 1980. Por força da LDB nº 9.394/96 e da criação do FUNDEF, que acentuaram a municipalização do ensino fundamental, muitas escolas rurais unidocentes foram desativadas e seus alunos transferidos para “escolas maiores, melhor estruturadas e abrangendo ciclo ou ciclos completos”. Fazendo referência à Resolução CNE/CEB nº 01 de 3 de abril de 2002, que trata das Diretrizes Operacionais nas Escolas do Campo, o conselheiro evoca o principio da colaboração entre os entes federados na oferta educativa, apresentando um projeto de Resolução que expressou-se na Resolução CNE/CEB nº 02/2008.

Esta Resolução estabelece que a educação infantil seja oferecida nas próprias comunidades rurais, “evitando-se os processos de nucleação de escolas e deslocamentos das crianças” (artigo 3º) e que os cincos primeiros anos do ensino fundamental, excepcionalmente, poderão ser oferecidos em escolas nucleadas, admitindo-se deslocamentos intracampo (§ 1º). Nas hipóteses de nucleação, o documento prevê a participação das comunidades interessadas na definição dos locais e dos percursos a pé dos alunos (artigo 4º). O parágrafo único deste artigo determina que, quando for necessária a adoção de transporte escolar campo-campo, deve se considerar o menor tempo de percurso da residência do aluno à escola.

A Resolução admite, entretanto, que a nucleação pode se constituir numa melhor solução para os anos finais do ensino fundamental e para o ensino médio, desde que haja diálogo com as comunidades interessadas (artigo 5º). E, mesmo nesses casos, se recomenda evitar ao máximo o deslocamento campo-cidade (artigo 5º§ 1º).

Balizado nos princípios da economicidade e evocando a ampliação da oferta educativa e a melhoria da gestão e da qualidade do ensino, o Conselho Estadual do Ceará expediu a Resolução nº 396/20058, definindo a nucleação como “a reorganização do parque escolar

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Esta Resolução modifica a anterior – Resolução n. 387/2004 – que, dentre outros aspectos, admitia nucleação de até 15 (quinze) pequenas escolas.

público, concentrando várias escolas sob a coordenação unificada de uma que será denominada Escola-Polo, garantidas a qualidade e eficiência da gestão” (artigo 2º). Conforme este documento, em seu artigo 3º, a nucleação tem por objetivos:

1 – Aumentar a possibilidade de oferta progressiva e integrada da educação infantil (pré-escolar) e do ensino fundamental;

2 – facilitar a ação da coordenação pedagógica;

3 – racionalizar o uso de recursos didático-pedagógicos; 4 – promover maior eficiência à gestão escolar;

5 – racionalizar a oferta dos serviços educacionais; 6 – reduzir o número de escolas e salas de aula isoladas; 7 – melhorar a qualidade da aprendizagem;

8 – conferir legitimidade aos estudos realizados”. (CEE, 396, artigo3º)

O dispositivo legal cearense proíbe a nucleação de escolas exclusivas de educação infantil e determina que se leve em conta a “cooperação entre a rede estadual e a municipal, incluindo os estabelecimentos de ensino urbanos e rurais”. Assim, prevê a fusão ou desativação de escolas, principalmente nas zonas urbanas, mas com a garantia de “escolas mais próximas quanto possível das residências dos alunos, particularmente nas zonas rurais”(artigo 4º).

Estabelece o máximo de cinco escolas a serem nucleadas, admitindo exceções desde que devidamente justificadas ao Conselho (artigo 5º). As unidades nucleadas poderão adotar o nome da escola-polo ou continuar com suas próprias denominações, mas terão um mesmo Regimento Escolar, as mesmas propostas pedagógicas e o mesmo calendário letivo (artigo 6º). A escola-polo deverá reunir as melhores condições físicas e estratégicas para concentrar os serviços centrais das unidades nucleadas, compreendendo a administração, a escrituração escolar e a supervisão pedagógica (artigo7º). As iniciativas de nucleação deverão ser homologadas pelo próprio Conselho, mediante petição que atenda as exigências legais estabelecidas nesta Resolução (artigo 9º).

É interessante destacar que a referida Resolução não se aplica ao município de Fortaleza, onde a nucleação já vinha ocorrendo há mais tempo e, por conta da resistência do sindicato dos professores, de pais de alunos e organizações comunitárias, obteve orientações específicas do Conselho Estadual de Educação por meio do Parecer nº 46/2002. Tal documento teve como objetivo amainar as tensões provocadas pelas péssimas condições físicas de parte das escolas nucleadas, pactuando responsabilidades e ações do próprio Conselho e da Prefeitura Municipal de Fortaleza em torno da construção de uma “escola digna” (Parecer nº 46/CEC/2002. p.12-13).

Com uma ou outra alteração, o processo de nucleação da rede escolar cearense reflete o modelo realizado no país, tanto nas zonas rurais quanto nas zonas urbanas, sendo que, comumente, as nucleações urbanas não se utilizam do transporte escolar.

Munido de farta documentação e visitas in loco, Santos estudou a nucleação de escolas rurais no município de Patos de Minas – MG, ressaltando a importância dos antigos mestres- escolas para o desenvolvimento da educação no meio campesino. O autor argumenta que as nucleações do seu município foram motivadas pelas oscilações na permanência dos professores nas escolas rurais (desistências pelas condições precárias das escolas e pelas dificuldades de transporte e de moradia, dentre outros) e pelas inúmeras salas de aula com poucos alunos. Mesmo reconhecendo que as nucleações, especialmente as do tipo campo- cidade, afeta a cultura, os valores e o modo de vida das populações rurais, Santos (2013, p.16) avalia a nucleação de Patos de Minas como positiva, pois possibilitou que a população usufruísse de “meios de transporte adequados, em maior número e mais rápidos, de professores qualificados e de materiais compatíveis ao ensino fundamental”.

Assim como Fortaleza e outras cidades brasileiras, Aracaju também experimentou a nucleação de escolas, que teve início no final dos anos 1970, quando a rede era majoritariamente composta de pequenas unidades de uma ou duas salas de aula e instituições conveniadas. Essas últimas eram instituições religiosas ou comunitárias que cediam salas de aula para a Prefeitura de Aracaju, mediante convênios. Assim, o município ampliava a oferta de educação pré-escolar e dos primeiros anos do ensino fundamental (na época, ensino de 1º grau), lotando professores e funcionários e enviando merenda escolar e algum material didático. Em contrapartida, os proprietários ou dirigentes ganhavam reparos e reformas nos seus prédios, além de poderem indicar servidores e até professores da sua confiança, numa época em que não se realizavam concursos públicos9.

Essas escolas eram reunidas por grupos de quatro a cinco, geralmente situadas em bairros próximos; a Secretaria de Educação nomeava uma “Coordenadora de Área”, uma professora da rede ainda estudante universitária ou graduada em nível superior. Essas coordenadoras eram responsáveis pela gerência administrativa e pedagógica, providenciando requisições de materiais, registros de frequência dos funcionários e de movimentação de alunos, orientação no planejamento didático e acompanhamento do trabalho docente. Em média, elas visitavam cada escola uma vez por semana, indo à Secretaria de Educação nessa

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O primeiro concurso para professores da rede municipal de ensino foi realizado em 1986. Os funcionários administrativos e de serviços gerais sempre foram nomeados através de indicação política, mesmo com os contratos temporários iniciados em 1997 e, depois com a terceirização de 2012.

mesma frequência para prestar contas do trabalho nos diversos setores e participar de reuniões.

Com o estabelecimento das eleições diretas para diretores em 1986, as escolas nucleadas ficaram à margem do processo. Inconformados, alguns professores começaram a denunciar as precárias condições de trabalho e o autoritarismo dos dirigentes das instituições. No início da década de 1990, uma nova legislação municipal reestruturou a nucleação, de modo que a maior parte das pequenas unidades foi anexada a uma escola maior, com equipe dirigente eleita por professores e funcionários do conjunto de escolas nucleadas. Nesse modelo, quase todas as unidades próprias da rede, de médio ou grande porte, passaram a ter dois ou três “anexos”, aos quais cabia à equipe diretora prestar atendimento administrativo e pedagógico contínuos.

No início dos anos 2000, quase todos os convênios, que já haviam diminuído ao longo do tempo, foram definitivamente encerrados, de modo que todos os professores e funcionários retornaram às escolas próprias – somente algumas poucas instituições filantrópicas permaneceram, mediante repasse de merenda escolar e lotação de estagiários custeados pelo Município. As pequenas unidades foram extintas ou ampliadas e, a partir de 2003, todas as escolas da rede já estavam integradas no processo da gestão democrática com eleição para diretores, sem núcleos ou anexos, e presentes em quase todos os bairros da cidade.

O Agrupamento de Escolas (AE) é um termo utilizado em Portugal desde a década de 1980, quando a legislação o definiu como “uma unidade organizacional, dotada de órgãos próprios de administração e gestão, constituída por estabelecimentos de educação pré-escolar e de um ou mais níveis e ciclos de ensino, a partir de um projecto pedagógico comum”. Um Despacho do Ministério da Educação, de 1988, estabeleceu a organização das escolas em agrupamentos, prevendo que cada um deles constituísse um Conselho Escolar com presidente eleito entre os diretores ou encarregados de direção. Entretanto, a experiência de agrupamentos somente teve início em 1997, regulamentados pelo Decreto-Lei nº 115-A, de 1996, cujos obetivos foram:

Favorecer um percurso sequencial e articulado dos alunos abrangidos pela escolaridade obrigatória numa dada área geográfica;

Superar situações de isolamento de estabelecimentos e prevenir a exclusão social;

Reforçar a capacidade pedagógica dos estabelecimentos que o integram e o aproveitamento racional dos recursos;

Garantir a aplicação de um regime de autonomia, administração e gestão, nos termos determinados.

Para a constituição de agrupamentos de escolas alguns criterios são considerados, como a existência de projetos pedagógicos comuns, a construção de percursos escolares integrados, a articulação curricular entre níveis e ciclos educativos, a proximidade geográfica, a expansão da Educação Pré-Escolar e a reorganização da rede educativa. Os agrupamentos são organizados por escolas de um mesmo conselho (autarquias, municipalidades) e recebem uma denominação, embora os estabelecimentos que o compõem mantenham sua identidade e denominação original. Compete ao Diretor Regional de Educação propor os agrupamentos, desde que ouvidos o Ministério da Educação, os municipios e os órgãos gestores das escolas envolvidas.

A literatura informa que, no ano letivo 2004/2005, o processo de agrupamento de escolas previsto na Lei de 1996 estava praticamente concluído. Em abril de 2008, o Decreto- Lei nº 75 revogou os anteriores e definiu um novo regime de autonomia das escolas, com objetivos de reforçar a participação das famílias e comunidades na direção colegial, favorecer a constituição de lideranças fortes e reforçar a autonomia das escolas mediante um sistema de autoavaliação e avaliação externa (PORTUGAL, MEC, 2008, p.2341-a).

Esse Decreto manteve o conceito e as finalidades dos agrupamentos definidos na legislação anterior (artigo 6º), mas acenou para a possibilidade de agrupar escolas já agrupadas em agrupamentos maiores, desta vez, com justificativas organizacionais e pedagógicas.

Para fins específicos, designadamente para efeitos da organização da gestão do currículo e de programas, da avaliação da aprendizagem, da orientação e acompanhamento dos alunos, da avaliação, formação e desenvolvimento profissional do pessoal docente, pode a administração educativa, por sua iniciativa ou sob proposta dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, constituir unidades administrativas de maior dimensão por agregação de agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas (Artigo 7º).

Em 2012, o Ministério da Educação anunciou a constituição de 150 novos agrupamentos, que passaram a ser chamados de mega-agrupamentos porque agregam escolas desagrupadas a um ou mais agrupamentos. Sob o argumento de “reforçar o projeto educativo, facilitar o trabalho dos professores e racionalizar a gestão dos recursos humanos e materiais”, o MEC fez funcionar em todo o país esses mega-agrupamentos a partir do ano letivo 2012/2013, com uma média de 2.324 alunos (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 2013).

Na cidade do Porto, por exemplo, a Escola Secundária Alexandre Herculano foi agregada ao agrupamento Dr. Augusto César Pires de Lima e ao agrupamento Ramalho

Ortigão, com seis escolas de 1º ciclo com pré-escola e duas unidades de 2º e 3º ciclos, perfazendo um total de 3.140 alunos (artigo 2º do Regumento Interno do Agrupamento de Escolas Alexandre Herculano). Seguindo a legislação nacional, um único diretor administra essa mega-escola, submetido a um Conselho Geral, e contando com um Conselho Administrativo, um Conselho Pedagógico e um Coordenador em cada estabelecimento.

A enturmação e a nucleação brasileiras, assim como os agrupamentos portugueses,têm sido estratégias de reordenamento de rede escolar em vista da ampliação da escolarização, por um lado, e a redução de estudantes da educação básica por outro.