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“Nunca quis ser mãe”

No documento Onde está seu filho? (páginas 41-50)

A

credito que a primeira vez que conversei com a Tâma-ra foi na sala de aula da faculdade, somente ao final do curso. Como tranquei os estudos várias vezes, nessa última sala eu não conhecia muito bem as pessoas. No começo desse ano começamos a planejar nosso TCC e nós duas con-versamos na fila de atendimento da aula de planejamento, me identifiquei com ela na mesma hora que soube que era mãe e estava, assim como eu, finalizando uma faculdade.

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Tâmara não planejava engravidar, ao menos não nessa en-carnação como ela mesma diz. Tomava anticoncepcional des-de os 19 anos, mas começou a ter enjoo constante por conta do remédio. O médico então, sugeriu alguns exames de rotina e a troca do medicamento. Naquele mesmo dia ela parou de tomar o anticoncepcional e, mais tarde, teve relação sem proteção.

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Cerca de quatro semanas depois, durante um dos exa-mes pedidos pelo doutor, sua gravidez foi confirmada. O dia, que antes estava lindo e ensolarado, ficou cinza, quan-do saiu da clínica. No retorno da consulta médica, o quan-doutor compartilhou de seu espanto, dizendo ser impossível sua gravidez, a não ser que tivesse ocorrido no mesmo dia do atendimento anterior. Tâmara fez então um ultrassom e, embora ela pensasse durante o exame “não tem bebê, não tem bebê”, o pequeno coração que batia a 173 por minuto, tirou todas as dúvidas.

Acabou sendo uma experiência traumática para ela, que demorou algum tempo até de fato aceitar a gestação. Tinha uma casa, um relacionamento estável e estava prestes a fazer o vestibular para pedagogia, mesmo sem ter encontrado sua vocação até ali. A gravidez não era algo que a baiana, original de Laje, imaginava.

A gestação foi tranquila. Não teve grandes problemas e continuou vivendo ativamente. Porém, ela chorava e ficava triste em diversos momentos, muito disso por não aceitar a gestação, já que jamais quis ser mãe. Foi somente a partir dos sete meses que ela conseguiu passar a aproveitar toda a situa-ção, assim que descobriu que estava esperando um menino, como ela queria. A partir daí começou a se sentir melhor, conversando cada vez mais com o filho na barriga, mesmo não gostando da sensação de estar grávida em si.

Lucas nasceu de parto normal, como a mãe bem queria.

Tâmara teve seu direito garantido por lei e recebeu um parto humanizado. Sabendo que no Brasil a escolha da mu-lher antes e durante o parto, na maioria das vezes não é res-peitada, diz que teve sorte por ter acesso ao pré-natal em um convênio particular e um parto com apoio e acolhimento de

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uma equipe bem humorada do hospital público Leonor Men-des de Barros, referência em tratamentos para as mulheres.

O parto humanizado, infelizmente, é acessível para uma parte restrita da população. A assessora de imprensa acredita que no SUS não existe informação suficiente sobre todo pro-cesso de gestação, inclusive sobre o parto.

— Eu sinto que o hospital particular força a mulher a fazer um parto cesárea, enquanto o hospital público força a mulher a fazer um parto normal, em nenhum momento a mulher tem direito a escolher um parto que ela quer, a gente é sempre le-vada de um espaço para o outro.

Tal observação não é mera coincidência. A doula Cami-la, que já trabalhou no SUS como enfermeira, afirma que a política de parto humanizado existe, mas não é aplicada na prática e que até mesmo em hospitais particulares a mulher precisa exigir seus direitos.

As diretrizes das quais Camila se refere, estão previstas na Lei Nº 15.759, do Estado de São Paulo, que garante às mães, direitos que muitas vezes são desconhecidos do público em geral, como o direito a receber assistência humanizada em partos realizados no Estado e acesso ao Plano de Parto, que nada mais é do que a ferramenta para garantir uma assistên-cia de qualidade na hora do parto e uma experiênassistên-cia mais satisfatória do mesmo. Em outras palavras, a mulher precisa pagar para que seu direito de ser devidamente acolhida, de forma digna e confortável, seja atendido e reconhecido.

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Tâmara possui uma sólida rede de apoio e, embora tenha terminado seu relacionamento de mais de oito anos com o pai

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do Lucas, ela diz que ele se tornou melhor na paternidade após a separação. Além dele, ela ainda pode contar com o apoio e suporte da irmã, da ex-sogra e principalmente de sua mãe.

Filha de mãe solo, Tâmara relata que, embora soubesse da existência do preconceito contra mulheres mães, ela não havia experimentado na pele esse sentimento até ela própria termi-nar o relacionamento com o ex-parceiro. Desde pequena tenta se blindar desse tipo de situação, pela experiência que obteve com a mãe e também pela sua própria personalidade.

Sentiu que os homens com quem se relacionava a trata-vam diferente a partir do momento em que sabiam que tinha um filho. Mesmo que nunca descaradamente a diminuíssem, percebia o tom que a questionavam. Ela nunca se deixou ca-lar e respondia firmemente: sim, tenho um filho sim.

Engatou em uma nova relação, e mesmo sem ter passado por situações explícitas de exclusão social, sabe que ser mãe e solteira é uma dificuldade a mais para as mulheres, por conta do olhar que a sociedade coloca sobre nós.

Enquanto estudante de comunicação, Tâmara se esforça para obter informações dentro das redes sociais e também olha com muita atenção os conteúdos que são voltados para mulheres mães e a forma que as mulheres são representadas nas mídias. Por estar consciente quanto a sua inserção em uma bolha social, faz uma reflexão de que a partir do que ela consome, existe sim uma representação que a atende e con-templa, porém em uma escala geral, não sabe até onde isso se estende, uma vez que procurou estar cercada desse conteúdo e não o contrário.

Para aquelas que irão se tornar mães daqui a pouco tempo, ela recomenda algo simples, mas que pode fazer grande diferença.

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Tenham paciência. Eu diria que a maternidade torna qualquer mulher forte, a gente precisa ser forte porque o tempo inteiro vamos lidar com gente que tá de certa forma dizendo que não vamos conseguir pela quantidade de coisas que temos para fazer (...) sejam vocês a força que vocês precisam ter, por-que eu tenho certeza por-que quando os filhos crescerem, vocês vão ter alguém para olhar e se orgulhar — encerra.

Tâmara e Lucas no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza

Férias em Jericoacoara. Estavam tão felizes quanto a foto sugere

Tâmara e Lucas na formatura da escola

Tamires

No documento Onde está seu filho? (páginas 41-50)

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