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Nutrição, ansiedade e moral

3. Saúde e Risco

3.6 Risco

3.6.1 Nutrição, ansiedade e moral

Abordou-se brevemente, no segundo capítulo, como questões morais, de culpa e pecado, aparecem entrelaçadas quando se trata da ansiedade e do prazer de comer. Coveney (2006) explora as origens dessa relação, que atribui a raízes históricas profundas. O autor identifica duas vertentes interpretativas para a origem da nutrição: uma enfatiza a ciência, outra a ascese. A primeira descreve a história da nutrição focando as descobertas científicas, a partir do século XVIII, por

exemplo, pela pesquisa de Liebig em química orgânica e suas aplicações à fisiologia. Para a segunda perspectiva, influenciada por Foucault e Weber, a origem estaria nos regimes dietéticos ascéticos de Cheyne, um médico inglês do século XVIII, muito influente no desenvolvimento dos discursos sobre dieta, especialmente entre as elites. Cheyne também teria sido um estimulador dos regimes ascéticos de grupos religiosos interessados na sanidade da força de trabalho.

Para Coveney (2006, p. 14), a história da nutrição e da escolha dos alimentos está baseada em ambas as perspectivas. Devemos considerar a emergência da nutrição como resultante de preocupações morais tanto quanto de preocupações médicas sobre o corpo ou preocupações científicas sobre como alimentar as populações. Coveney (p. ix) considera a ciência da nutrição como um desenvolvimento moderno na história moral da alimentação, que se estende desde sistemas precursores da cultura ocidental. Na Grécia e em Roma, os códigos de conduta apropriados aos cidadãos eram dependentes de uma preocupação com a administração diária dos prazeres naturais. A moderação era um dos princípios. Dessa base, desenvolveu-se uma razão fundada em um entendimento das capacidades do indivíduo como uma pessoa moralmente responsável, ética.

A idéia do self apropriado, correto, foi transformada no período cristão, quando a moderação foi substituída por austeridade. O desejo por comida e também por sexo lembrava o apetite natural do corpo, que deveria ser dominado em favor dos bens espirituais. Mesmo que as práticas mais rígidas não fossem seguidas fora dos monastérios, o jejum era amplamente seguido. O período Protestante, com visões científicas do mundo, forneceu fundamentos para um racionamento da comida, em termos das quantidades corretas que o corpo precisava para um funcionamento saudável, e em termos do racionamento do prazer. Não é mera coincidência que alguns dos mais influentes pensadores da ciência do corpo e dos alimentos – que depois viria a se tornar em prática e ciência da nutrição – na época, sustentavam profundas crenças cristãs. Nos princípios do pensamento nutricional era evidente a importância da purificação do corpo, e também da alma, por meio da disciplina do apetite por prazeres da comida.

As más condições em prisões e asilos, no século XIX – onde muitas idéias sobre necessidades alimentares foram desenvolvidas e praticadas – eram muitas vezes justificadas como uma forma de correção moral. Providos da lógica e eficiência da nutrição, cientistas, economistas, filantropos e missionários procuravam ensinar modos corretos de comer aos necessitados. Na história da nutrição observa-se a

sucessão de prioridades, de acordo com o momento, que indicam o que é “bom”. Considerando apenas o século XX, a prioridade passou por gordura, vitaminas e proteína. Mas, para Coveney (2006, p. x)

“O interessante sobre o desenvolvimento da nutrição não é apenas a substituição de uma prioridade por outra, que diz tanto sobre preocupações sociais do momento quanto sobre imperativos médicos. A nutrição vai muito mais longe do que isso. Dadas suas raízes numa perseguição espiritual do bom e nos objetivos da boa saúde, a nutrição provê para indivíduos e populações um método de autojulgamento sobre o valor moral do comportamento pessoal e social.”

Sobre este aspecto, vimos no capítulo anterior como o vocabulário da culpa, do pecado, da vilania, do erro e da vergonha penetram profundamente a linguagem sobre a alimentação. Segundo a perspectiva de Coveney, a atenção atual sobre a saúde nutricional não é meramente um produto “das descobertas científicas do crescente tamanho das linhas da cintura” (2006, p. x), mas também é produto da ansiedade que nutrimos sobre nossa falha individual e coletiva de nos abster dos prazeres da comida.

Essa ansiedade surge de nossa incapacidade de resistir às opções fáceis de comida, que, diz-se, não são sempre as opções mais saudáveis; nossa relutância em evitar os prazeres da comida que nós sabemos e somos constantemente alertados de que não são boas para nós; e, por fim, nossa falha em proteger aqueles que acreditamos não poder proteger a si mesmos: as crianças. Poucas outras práticas humanas se comparam a comer, no que se refere à capacidade de pôr sobre nós uma grande carga moral.

O risco, como uma noção embutida no conceito de alimento funcional, diz-nos muito sobre uma nova forma de experimentar não apenas os alimentos, mas transforma também a auto-identidade, projetos e a experiência cotidiana de modo geral. Talvez, outros fenômenos como o crescimento dos alimentos funcionais, aparentemente convencionais e triviais, sejam tão emblemáticos para uma sociedade de risco – como descreveu Ulrich Beck (1998) – quanto as grandes catástrofes da modernização reflexiva. Por meio de fenômenos como esse, o risco torna-se parte do cotidiano, enraizado nos afazeres diários, presente, de alguma forma, na consciência prática. Significa que o risco não apenas torna-se fundamental para dirigir as grandes instituições contemporâneas, mas faz parte efetivamente das práticas individuais e coletivas; não apenas em situações-limite, ou na possibilidade de eventos extraordinários e de grande magnitude (geralmente nem imaginada pela maioria), mas como uma realidade vivida, diante da qual os indivíduos estão sempre a tomar uma decisão.

Uma das pontes entre ansiedade e risco, que passa por sobre todos estes aspectos cotidianos (e, por isso, procuramos enfatizar o aspecto moral dos alimentos e um enraizamento na consciência prática) foi sugerida por Luhmann (1996, p. 130). Segundo este autor, as civilizações do passado desenvolveram técnicas diferentes para problemas análogos ao do risco. Elas não necessitaram do termo risco, mas elaboraram mecanismos culturais que procuravam dotar de certeza a existência futura. Luhmann vê, em muitos aspectos, um equivalente funcional no complexo semântico do pecado (conduta que viola os ordenamentos religiosos), já que serve também para explicar o surgimento dos infortúnios.

Essa perspectiva do risco ajuda a esclarecer o papel representado pela nutrição contemporânea, no sentido desenvolvido por Coveney, em que se revela tanto o aspecto científico quanto o moral: trata-se, ao mesmo tempo, de fatos e normas de conduta. Do seguinte comentário de Luhmann, podemos captar outra conseqüência da convivência com o risco, carregada ainda de aspectos do complexo semântico do pecado:

“....Não se trata do problema dos custos calculados de antemão que se vêem compensados pelas vantagens obtidas. Pelo contrário, refere-se a uma decisão de que se arrepende, como se pode prever, quando acontece o dano que se esperava

evitar. Com a institucionalização da confissão, a religião tentou conduzir o arrependimento ao pecador. De um ponto de vista secular, o cálculo de risco trata de um programa de minimização do arrependimento.”

(Luhmann, 1996, p. 133)

O prazer de comer é frequentemente relacionado à culpa e ao arrependimento, não mais apenas pelo tradicional “pecado da gula”, mas porque, na civilização industrial, o sabor dos alimentos é relacionado a malefícios à saúde. Os alimentos funcionais representam uma virada, pois além de eliminar malefícios e procurar manter o sabor, ainda trazem benefícios. Para Grunert e Bech-Larsen (2003), nisto repousa a grande promessa de sucesso dos funcionais: os consumidores geralmente querem comprar alimentos mais saudáveis, mas ao mesmo tempo são relutantes em mudar seus hábitos alimentares, mesmo quando são reconhecidamente insalubres.